Valium 10, o futebol

Correspondência

27.10.11

Clique aqui para ver a car­ta ante­ri­or                  Clique aqui para ver a car­ta seguin­te

 

Meu que­ri­do Dapieve:

Aproveitando sua dei­xa, vou man­so, cau­sos e fute­bol. Estou eno­ja­do com a “moral” do Ocidente, e sua repre­sen­tan­te, aque­la mocreia sinis­tra, Hillary Clinton, que pediu “que­ro Kadhafi mor­to” 24 horas antes da óbvia exe­cu­ção do dita­dor. Também sen­ti vio­len­ta repul­sa ao ver a foto de um dos filhos dele, recos­ta­do numa pare­de, fuman­do e beben­do água, intei­ri­nho, e pou­co depois esta­va mor­to.

Você encer­rou sua car­ta com uma engra­ça­da his­tó­ria meio gay. Eu tenho um reper­tó­rio óti­mo, nada pre­con­cei­tu­o­so, sobre o tema. O pro­ta­go­nis­ta do lan­ce mais lou­co é (pre­fi­ro o tem­po pre­sen­te) meu sau­do­so ami­go Fausto Wolff, um sujei­to feroz se acon­te­ces­se explo­ra­ção do seu nome etc. Ele esta­va em casa, uis­qui­nho ao lado, escre­ven­do, quan­do tocou o tele­fo­ne:

- Fausto?

- Ele.

- Oi. Aqui é a sena­do­ra Tal. Me dis­se­ram que você é um cama­ra­da pro­gres­sis­ta, boa-pra­ça, e que pode­ria me aju­dar em uma nobre e ale­gre mani­fes­ta­ção.

- Diga.

- Vai haver uma pas­se­a­ta gay e eu sou meio madri­nha do even­to.

Fausto detes­ta­va a pala­vra even­to

- Sim?

- Então, eu pen­sei: vou soli­ci­tar ao Fausto que cite meu nome de for­ma sutil, e escre­va uma fra­se assi­na­da por ele para a aber­tu­ra da pas­se­a­ta. Vai pin­tar em uma fai­xa enor­me!

Fausto deu um goli­nho na biri­ta e pediu que a par­la­men­tar ligas­se de novo em 5 minu­tos.

Tirrim!

- Alô?

- Fausto? Tá pron­ta a fra­se?

- Claro! Anota aí.

- Manda!

- De leve, como você pediu.

- Ótimo! Lá vai: DEIXEM DE SER VIADOS E VOTEM NA SENADORA TAL!

Fausto Wolff
 

Segundo cau­so:

Um gran­de ami­go meu, gay con­vic­to e goza­dor, suge­riu que fôs­se­mos os dois a São Paulo para entre­vis­tar uma gran­de figu­ra, meio mal­di­ta. Ele tinha cer­te­za de que seria uma bom­ba. Convidamos o Mello Menezes — que tam­bém é garan­tia de con­fu­são — para foto­gra­far, já que íamos no escu­ro, sem paga­men­to. Mello topou, e par­ti­mos os três, de ôni­bus, beben­do vod­ca. Antes da entre­vis­ta, mar­ca­da para 22 horas, Mello suge­riu mais drin­ques num bar­zi­nho “mui­to bom de mulhe­res”. De fato. Lá pelas tan­tas (e meu ami­go gay era, de lon­ge, o mais boni­to dos três), umas moças um tan­to ati­ra­das man­da­ram um tor­pe­do. Mello, sem­pre cava­lhei­res­co, con­vi­dou-as para nos­sa mesa. A dis­tri­bui­ção dos casais se fez natu­ral­men­te pela sim­pa­tia mútua. Eu, conhe­cen­do os dois, era o mais inqui­e­to, espe­ran­do encren­ca. Foi quan­do a part­ner do ami­go gay miou:

- Você tem uns olhos de bara­ti­nar, mas ain­da não me dis­se seu nome.

E meu ami­go, com um sor­ri­so devas­ta­dor:

- Valéria!

Mello e eu caí­mos na gar­ga­lha­da, e as jovens foram embo­ra, res­mun­gan­do:

- Que fria! Três boi­o­las. Não davam a menor pin­ta…

Bom, vamos ao meu valium 10 (menos quan­do joga o Vasco), o fute­bol. Sou um tor­ce­dor hete­ro­do­xo, super­crí­ti­co. Meu pai me levou des­de peque­no ao Maracanã. Comprou uma ban­dei­ri­nha do Vasco pra mim. Era minús­cu­la, em for­ma­to de flâ­mu­la. Embora as arqui­ban­ca­das fos­sem em degraus, toda vez que eu ame­a­ça­va levan­tar a ban­dei­ra, ele cor­ta­va:

- Abaixa isso pra não atra­pa­lhar a visão de quem está atrás.

Pra que dar uma ban­dei­ra a um garo­to se ele não pode balan­çá-la? O melhor está por vir: bola pra Sabará na direi­ta, dri­bla seu mar­ca­dor, cru­za pra Vavá na entra­da da área, Vavá domi­na o balão de cou­ro, chu­ta com vio­lên­cia e GOOOLLL! Quando eu ia levan­tan­do pra come­mo­rar o ten­to, olhei pro meu pai, sen­ta­do, fuman­do furi­o­sa­men­te, mui­to irri­ta­do, de per­nas cru­za­das. Tive von­ta­de de bater com a ban­dei­ra na cabe­ça dele:

- Foi gol!

Meu pai:

- Besteira! O Pinga esta­va sol­to na esquer­da. Vavá foi fomi­nha.

Quanto ao momen­to atu­al, não me impres­si­o­na o Vasco ser líder (quan­do escre­vo). Trata-se de fute­bol de cam­po, e não de salão. O Vasco tem 5 joga­do­res: o golei­ro, o zaguei­ro da sele­ção, e três óti­mos meio-cam­pis­tas. Alguém pode lem­brar o deno­do de Éder Luís, que sua a cami­sa, mas, se fazer for­ça ganhas­se jogo, minha len­dá­ria pri­são de ven­tre me alça­ria a titu­lar dos Canarinhos.

Conforme você já per­ce­beu, a heran­ça pater­na calou fun­do.

Abraço fra­ter­no,

 

Aldir

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: o joga­dor Pinga, que defen­deu o Vasco entre 1953 e 1961

 

, , , , ,