Variações para piano despreparado

Música

26.10.12

Com 15 minu­tos de atra­so, um Keith Jarrett que pare­ce minús­cu­lo entra no pal­co do Teatro Municipal. Reluzente, o Steinway está no pros­cê­nio. A cor­ti­na ver­me­lha per­ma­ne­ce­rá fecha­da. Depois de agra­de­cer aos aplau­sos, ajei­ta o ban­co em fren­te ao tecla­do, como se bus­cas­se um cen­tro ide­al. O sur­fis­ta velho ao meu lado cochi­cha com a mulher: “Cara mar­ren­to”. Tenho von­ta­de de me meter: “Isso é pra quem pode, mer­mão” — mas quan­to menos ruí­do melhor.

A ten­são está no ar. E é mui­to bem vin­da, é peda­gó­gi­ca para a fal­ta de edu­ca­ção geral das pla­tei­as. Lembra, por exem­plo, que assis­tir a um con­cer­to pode e deve ser uma oca­sião espe­ci­al, que requer con­cen­tra­ção, celu­lar des­li­ga­do e con­tro­le do pigar­ro. Assim como João Gilberto, Jarrett está sozi­nho no pal­co e quer que só pres­tem aten­ção nele. Ou melhor, que sim­ples­men­te ouçam o que ele tam­bém ouvi­rá pela pri­mei­ra vez.Exigência recom­pen­sa­da pelo que se segui­rá.

O iní­cio é explo­ra­tó­rio. Acordes sol­tos, dis­so­nan­tes. Gemidos, mui­tos. A incô­mo­da posi­ção, meio sen­ta­do, meio em pé que sus­ten­ta como um impro­vá­vel iogue suin­guei­ro enquan­to mar­ca o rit­mo com o pé. A um dado momen­to, mer­gu­lha no pia­no e batu­ca na madei­ra, batu­ca entre as cor­das. John Cage tam­bém toca­va dire­to no cora­ção de seus “pia­nos pre­pa­ra­dos”, nos quais inse­ria para­fu­sos, peda­ços de madei­ra ou bor­ra­cha.

O pia­no de Jarrett é como qual­quer outro. Acaso e dis­so­nân­cia virão mes­mo do espor­te radi­cal a que se sub­me­te há qua­se qua­ren­ta anos, des­de o “Köln Concert”: enca­rar pla­tei­as sem rotei­ro ou bús­so­la.

Foi assim que come­çou na últi­ma quar­ta-fei­ra. De iní­cio, alter­na­va impro­vi­sos mais rít­mi­cos e per­cus­si­vos com aven­tu­ras líri­cas, qua­se român­ti­cas. Logo não have­ria pre­vi­são pos­sí­vel para o tema seguin­te. Não adi­an­ta bus­car padrões e regu­la­ri­da­de nos con­cer­tos de pia­no solo e, na medi­da em que “esquen­ta­va”, Jarrett tor­na­va-se mais impre­vi­sí­vel e sur­pre­en­den­te, encer­ran­do abrup­ta­men­te e, em duas vezes, inter­rom­pi­do invo­lun­ta­ri­a­men­te pelos aplau­sos — não sem res­mun­gar, é cla­ro, com a rea­ção “fora de hora”. Mas  foi ele mes­mo quem propôs o jogo: ali não há tem­po e hora cer­tos.

O “toque de Jarrett”, sua assi­na­tu­ra, faz com que diver­sos frag­men­tos pare­çam fami­li­a­res. Não é déjà vu, não é cita­ção: no pal­co, ele fala a sua lín­gua, irre­du­tí­vel a qual­quer outra, reco­nhe­cí­vel para quem já a ouviu antes. Repete e rei­te­ra, saben­do ou não, tan­to faz, a ideia de Rilke: a músi­ca come­ça “em algum lugar no ina­ca­ba­do”.

E é de lá, des­se lugar, que sai o pri­mei­ro tema que reco­nhe­ci, “La val­se des lilas”. O clás­si­co de Michel Legrand entrou para o song­bo­ok ame­ri­ca­no como “Once upon a Summertime” com letra de Johnny Mercer e che­gou ao Brasil pela ver­são de outro cra­que, Ronaldo Bastos, que a recri­ou como “A minha val­sa” para a voz de Nana Caymmi. Primeira de uma sequên­cia de stan­dards, a val­sa lem­brou que tão bom quan­to Jarrett impro­vi­san­do livre­men­te é Jarrett impro­vi­san­do livre­men­te e, tam­bém, a par­tir de “Samba de uma nota só”, “Summertime” e “Over the Rainbow” — as duas últi­mas no bis.

Os jaz­zis­tas radi­cais pre­fe­rem o Jarrett dos con­cer­tos livres ao dos stan­dards. Acho impos­sí­vel deci­dir se o mais difí­cil é inven­tar a par­tir do nada ou do já conhe­ci­do. E a dúvi­da, no que depen­der dele, con­ti­nu­a­rá irre­sol­vi­da.

Ao aten­der pedi­dos da pla­teia e, no segun­do bis, man­dar “Over the Rainbow” depois de uma lin­dís­si­ma intro­du­ção, Jarrett con­se­guiu uma como­ção ini­ma­gi­ná­vel para can­ção tão sur­ra­da.  E, tam­bém, o silên­cio mais radi­cal de todo o con­cer­to. A pla­teia, edu­ca­da pela ten­são, desar­ma­da por seus voos, pres­ta­va um tri­bu­to que não cabe em aplau­sos entu­si­as­ma­dos ou gri­tos. Finalmente, a músi­ca.

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