Velhos poetas latinos

Correspondência

24.09.12

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Querida Angélica, blo­guei­ra des­bo­ca­da, poe­ta des­pu­do­ra­da, tudo bem por aí?

Seu livro já está nas livra­ri­as? Hoje vou atrás dele, sem fal­ta.

Vamos à res­pos­ta que não quer calar: sim, fode-se pou­co na poe­sia bra­si­lei­ra con­tem­po­râ­nea. Por que será? Não acho que os poe­tas este­jam tre­pan­do menos. Nesse pon­to, eles são como toda gen­te, e cada um se vira como pode. Trepa-se com pes­so­as, com arti­gos de sex shop, com fru­tas e legu­mes, com fíga­do de boi (cru). No Pornopopeia, do Reinaldo Moraes, o nar­ra­dor se mas­tur­ba usan­do uma lula fres­ca. Eu nun­ca tre­pei com ani­mais, mas não jul­go quem o faça ? des­de que seja de comum acor­do.

Uma vez, lá em Santo Anastácio, um pri­mo me cha­mou pra mos­trar o bura­co que ele tinha fei­to entre as per­nas de uma bone­ca gigan­te da Xuxa que a irmã dele tinha ganha­do de ani­ver­sá­rio. A bone­ca usa­va cal­ci­nha e por isso a Marina, dona da Xuxona, não tinha se dado con­ta do furi­nho, pelo menos até aque­le momen­to. Tá cer­to que esse pri­mo esta­va lon­ge de ser um poe­ta ou mes­mo um homem sen­sí­vel, mas ima­gi­no que a vida sexu­al dos nos­sos pares seja bem pare­ci­da com a da média da popu­la­ção.

Então por que a poe­sia con­tem­po­râ­nea anda tão pudi­ca?

Vou lan­çar uma hipó­te­se: é difí­cil escre­ver sobre sexo. E estou falan­do de sexo-sexo: pau na buce­ta, lín­gua no cu, dedo na boca e olho no olho. É difí­cil escre­ver sobre sexo sem ficar cafo­na, ingê­nuo ou banal. Porque sexo é a coi­sa mais dire­ta que exis­te. E a lin­gua­gem é uma más­ca­ra, uma medi­a­ção. Fazer essa lin­gua­gem che­gar no obje­to não é mole (ops). Qualquer meta­fo­ra­zi­nha e já esta­mos no ter­re­no da LITERATURA. Veja, por exem­plo, O amor natu­ral, do Drummond. Tem poe­mas ali que fun­ci­o­nam; outros, os mais rebus­ca­dos, pare­cem coi­sa de velho lite­ra­to safa­do. Nada con­tra, as mulhe­res dele devi­am ficar feli­zes. Mas não acho que seja boa poe­sia. Desse livro, o melhor é aque­le que come­ça com “No már­mo­re de tua bun­da gra­vei o meu epi­tá­fio”. É um ver­so sole­ne e ver­da­dei­ro, ao mes­mo tem­po. Me con­ven­ce. Eu vejo essa bun­da. É uma bun­da gos­to­sa.

Dos puta­nhei­ros famo­sos das letras uni­ver­sais, do que li, gos­to do Bocage, do Aretino ? Gregório de Mattos eu li mal. Mas meus poe­mas pre­fe­ri­dos na cate­go­ria “sexo em pri­mei­ro pla­no” são o poe­ma 5 (“Fazia calor e o dia tinha cum­pri­do a meta­de de suas horas”, na tra­du­ção de Lucy Ana de Bem) do Primeiro livro dos amo­res, do Ovídio,  e o poe­ma 32 do Catulo, aque­le que, na tra­du­ção do José Paulo Paes, come­ça com “Eu te peço, minha doce Ipsitila,/ Delícia e gra­ça des­te meu viver/ Convida-me a pas­sar con­ti­go a ses­ta”. Curioso: são dois poe­mas lati­nos. E mais curi­o­so ain­da: as duas tre­pa­das ocor­rem de dia, na hora do almo­ço. Não man­jo nada do coti­di­a­no da épo­ca (com­prei alguns livros sobre o tema, que pre­ten­do ler em bre­ve), mas essa natu­ra­li­da­de é rara e inve­já­vel.

Na pro­sa acho que é mais ou menos a mes­ma coi­sa. O escri­tor tem duas opções: ser abso­lu­ta­men­te dire­to (Philip Roth) ou des­cre­ver tudo com humor (Reinaldo Moraes). O pro­sa­dor que ten­tar ser “poé­ti­co” (“pene­trou-lhe a rubra rosa com a espa­da arden­te”) está con­de­na­do ao ridí­cu­lo.

Mas tal­vez eu este­ja sim­pli­fi­can­do demais. Se não me enga­no o Faulkner tem uma des­cri­ção bem doi­da, obs­cu­ra e alta­men­te poé­ti­ca de uma tre­pa­da. Acho que no Luz em agos­to.

Em todo caso, é como diz o Antonio Cisneros: “Es difi­cil hacer el amor pero se apren­de”.

Te man­do um poe­ma que fiz depois de assis­tir a alguns fil­mes da Nina Hartley, porns­tar que ficou conhe­ci­da por gozar duran­te as fil­ma­gens. (Te envi­ei uma vez um link com um vídeo dela dan­do aulas de mas­tur­ba­ção pra mulhe­res, lem­bra?) Não sei se pres­ta. Te mos­tro por­que você pediu e seu pedi­do é uma ordem.

Aproveito pra te envi­ar mais dois poe­mas: um que fiz pro meu aper­ta­do banhei­ro (caga-se pou­co na poe­sia bra­si­lei­ra, você não acha?) e outro, sem títu­lo, da série “Mais um poe­ma para Angélica Freitas” ? becau­se I love you, you know.

Um bei­jo,

Fabrício

P.O.V.

engo­lia minha por­ra
sem fazer cara feia
depois não me abra­ça­va
pro­cu­ran­do cari­nho

não dizia que me ama­va
acho que nun­ca me amou

engo­lia minha por­ra
com os olhos aber­tos ?
a mão direi­ta aper­ta­va a base
a esquer­da ampa­ra­va as bolas

enquan­to eu goza­va
ela estu­da­va a expres­são do meu ros­to
com curi­o­si­da­de cien­tí­fi­ca

faz anos que não a vejo
nin­guém tem notí­ci­as dela

onde anda­rá N. H.?

VIVENDO EM APARTAMENTOS APERTADOS

o que eu dese­jo mes­mo
é o banhei­ro ide­al
cla­ro
amplo
are­ja­do
com uma gran­de jane­la debru­ça­da
sobre o vale ver­de­jan­te

para poder cagar sos­se­ga­do
relen­do os velhos poe­tas lati­nos

Marc Chagall com sua vaca rus­sa
Marc Chagall com sua aldeia roxa
Marc Chagall com sua noi­va cata­pul­ta­da

eles dis­se­ram “repe­ti­ti­vo”
eles tacha­ram de pito­res­co

?

eu só que­ria
ser o vizi­nho
da minha irmã­zi­nha
Angélica Freitas

o che­fe da guar­da
e o com­pa­nhei­ro de via­gem
da minha irmã­zi­nha
Angélica Freitas

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