Ver o horror

Colunistas

03.10.11

Hesitei mui­to antes de dizer que ia a Cracóvia por­que que­ria visi­tar Auschwitz. Não só para isso, é cla­ro, mas tam­bém. O papel de turis­ta não me con­vém, ain­da mais num cam­po de exter­mí­nio. E a ideia de um escri­tor rela­tan­do na inter­net sua visi­ta a Auschwitz, como se nar­ras­se uma expe­ri­ên­cia ori­gi­nal, me pare­ce, no melhor dos casos, um opor­tu­nis­mo de mau gos­to.

Eu tinha escrú­pu­los de dizer que ia visi­tar Auschwitz, mas não sabia ao cer­to a razão. Tinha uma ideia difu­sa de um negó­cio que eu cha­ma­va, com des­pre­zo, de “turis­mo da mor­te”, ten­tan­do tomar minhas dis­tân­ci­as, sem saber exa­ta­men­te o que que­ria dizer com aqui­lo e sobre­tu­do sem ter cer­te­za de que essa era uma boa razão para não ir a Auschwitz. Eu não con­se­guia saber se era melhor ir ou não ir. E tinha ver­go­nha de con­fes­sar que a pers­pec­ti­va de visi­tar o cam­po me atraía mais do que a de visi­tar uma cida­de em tudo mais des­lum­bran­te, como Cracóvia.

Tentei dar uma jus­ti­fi­ca­ti­va edu­ca­ti­va para a minha visi­ta, repe­tin­do o que todo mun­do repe­te: que é pre­ci­so ver o hor­ror para que ele não se repi­ta. Também acre­di­to nis­so. Mas, estra­nha­men­te, o hor­ror não se dei­xa reco­nhe­cer, e nun­ca pare­ce se repe­tir. Está sem­pre se reno­van­do e sur­pre­en­den­do. O hor­ror se repe­te com outros per­so­na­gens, em outros luga­res, dife­ren­te. Por mais que ten­te­mos repre­sen­tá-lo, o hor­ror não se dá a ver. E foi isso o que eu sen­ti, entre depri­mi­do e trans­tor­na­do, ao entrar em Auschwitz com um gru­po de turis­tas. A repre­sen­ta­ção, ao mes­mo tem­po que edu­ca, bana­li­za. É cla­ro que você tem a cons­ci­ên­cia da dor dos outros. Mas não há ima­gi­na­ção capaz de repro­du­zir a dor, nem mes­mo pra quem a sen­tiu na pró­pria car­ne.

A visi­ta se divi­de em duas par­tes: Auschwitz pro­pri­a­men­te dito e Birkenau. Antes de ser trans­for­ma­do em cam­po de exter­mí­nio, Auschwitz ser­via de caser­na para o exér­ci­to polo­nês. Os pavi­lhões de tijo­los foram adap­ta­dos ao hor­ror e hoje per­ma­ne­cem lim­pos e impe­cá­veis, numa estra­nha paz, entre árvo­res e gra­ma­dos bem-cui­da­dos. Birkenau é mui­to mais impres­si­o­nan­te. Já nas­ceu como cam­po de exter­mí­nio. E não dei­xa dúvi­das quan­to a sua fun­ção ori­gi­nal. Não é pre­ci­so nenhu­ma expo­si­ção, nenhu­ma ima­gem. A vas­ti­dão do cam­po e a arqui­te­tu­ra falam por si. A mor­te e o hor­ror trans­pa­re­cem no silên­cio dos pavi­lhões de madei­ra e nas ruí­nas das câma­ras de gás.

Antes de entrar­mos em Birkenau, minha guia me diz que é dali mes­mo, de Oswiecim (que os ale­mães reba­ti­za­ram Auschwitz). “É uma cida­de mui­to anti­ga”, ela ten­ta se jus­ti­fi­car. O mais estra­nho é que os avós, polo­ne­ses não-judeus, sobre­vi­ven­tes de Auschwitz, tenham vol­ta­do para viver ao lado dos cam­pos onde pas­sa­ram anos pre­sos duran­te a guer­ra. Ela tam­pou­co sabe expli­car. “Há gen­te que depois de horas comi­go, ouvin­do as minhas expli­ca­ções, me diz que não acre­di­ta. Vêm aqui só pra che­car, pra con­fir­mar o que já pen­sa­vam. Pra dizer que não acre­di­tam”, ela diz. A repre­sen­ta­ção do hor­ror, por estar sem­pre aquém do que pro­cu­ra ao mes­mo tem­po repre­sen­tar e evi­tar, tam­bém ser­ve, para­do­xal­men­te, à má fé e ao revi­si­o­nis­mo. “Que é que eu vou dizer?”, a guia me per­gun­ta. “Peço para guar­da­rem suas idei­as para si mes­mos.”

Ao sair de Auschwitz e Birkenau, resol­vo pas­sar pelo recém-inau­gu­ra­do Museu de Arte Contemporânea de Cracóvia, para ten­tar levan­tar o espí­ri­to no final do dia. E, no meio de uma expo­si­ção cole­ti­va sobre arte e his­tó­ria, depa­ro com uma ima­gem que me pare­ce fami­li­ar. Um vídeo do polo­nês Miroslaw Balka mos­tra a supos­ta visi­ta do então car­de­al Joseph Ratzinger, o atu­al papa ale­mão, a Auschwitz, avan­çan­do pelas ala­me­das entre os pavi­lhões num Audi blin­da­do, com os vidros escu­ros fecha­dos, cer­ca­do de guar­da-cos­tas. São, apa­ren­te­men­te, ima­gens de câme­ras de segu­ran­ça. O papa ale­mão, que na ado­les­cên­cia par­ti­ci­pou da Juventude Hitlerista, não se mos­tra duran­te sua visi­ta a Auschwitz, com medo de um aten­ta­do. Ostensivamente pro­te­gi­do, ele per­ma­ne­ce fecha­do den­tro de um car­ro blin­da­do, cer­ca­do de guar­da-cos­tas, atra­ves­san­do o cam­po de exter­mí­nio trans­for­ma­do em museu num dos paí­ses mais cató­li­cos do mun­do. E é essa repre­sen­ta­ção indi­re­ta e deli­be­ra­da­men­te incrí­vel que me faz des­per­tar da letar­gia de uma manhã enso­la­ra­da em Auschwitz e, sur­pre­en­di­do pela opa­ci­da­de daque­la situ­a­ção em que nada se vê, afi­nal ver o hor­ror.

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