Divulgação

Curumim quando criança

Divulgação

Curumim quando criança

Vida louca, morte besta

No cinema

04.11.16

Três docu­men­tá­ri­os bra­si­lei­ros estão entran­do em car­taz: Cinema novo, de Eryk Rocha, Cícero Dias, o com­pa­dre de Picasso, de Vladimir Carvalho, e Curumim, de Marcos Prado. Por moti­vos diver­sos, todos mere­cem – e devem – ser vis­tos. Sobre Cinema novo, o melhor dos três, já escre­vi quan­do foi exi­bi­do no fes­ti­val de Brasília. De Cícero Dias bas­ta dizer que retra­ta a vida e a obra do gran­de pin­tor moder­nis­ta per­nam­bu­ca­no com a tarim­ba e a vita­li­da­de do vete­ra­no Vladimir Carvalho. Falemos então de Curumim.

O fil­me de Marcos Prado é um regis­tro impres­si­o­nan­te da auto­des­trui­ção de um homem, Marco Archer Cardoso Moreira, vul­go Curumim, fuzi­la­do em 2015 por trá­fi­co de dro­gas na Indonésia depois de onze anos no “cor­re­dor da mor­te”. Em 2012, quan­do ain­da fazia seus últi­mos ape­los na espe­ran­ça de anu­lar ou comu­tar sua sen­ten­ça, Curumim resol­veu docu­men­tar seu coti­di­a­no numa pri­são de segu­ran­ça máxi­ma indo­né­sia em que divi­dia a cela com ter­ro­ris­tas da Al Qaeda e outros tra­fi­can­tes. Mandava os víde­os pela inter­net ao dire­tor Marcos Prado, que teve tam­bém aces­so a um vas­to mate­ri­al de arqui­vo da famí­lia e de ami­gos do per­so­na­gem.

A esse acer­vo rico e hete­ro­gê­neo o cine­as­ta acres­cen­tou depoi­men­tos de uma por­ção de gen­te, incluin­do a mãe de Curumim, o padre cató­li­co que o visi­ta­va na pri­são, ami­gos de juven­tu­de, com­pa­nhei­ros de cela etc.

Trajetória ver­ti­gi­no­sa

Costuma-se dizer que, na hora mor­te, “a vida toda pas­sa dian­te dos nos­sos olhos”. Com sua cons­tru­ção argu­ta, des­con­tí­nua, o fil­me é mais ou menos isso: uma vida que se desen­ro­la ver­ti­gi­no­sa­men­te dian­te dos olhos do espec­ta­dor, iden­ti­fi­ca­do por um par de horas com o des­di­ta­do Curumim.

Que vida é essa? A “vida lou­ca” de um garo­to da juven­tu­de dou­ra­da de Ipanema dos anos 1970 e 1980, fei­ta de sur­fe, dro­gas e rock’n roll. No caso espe­cí­fi­co de Marco Archer, mais asa-del­ta do que pro­pri­a­men­te sur­fe. Chegou a ser um astro da moda­li­da­de, recor­dis­ta bra­si­lei­ro de per­ma­nên­cia do ar. Entre outras coi­sas, vemos uma repor­ta­gem tele­vi­si­va sobre o aci­den­te que o fez ficar pen­du­ra­do duran­te horas na pedra da Gávea.

Curumim lite­ral­men­te voou pelo pla­ne­ta. Nos Estados Unidos, ligou-se a tra­fi­can­tes colom­bi­a­nos e pas­sou a comer­ci­a­li­zar cocaí­na mun­do afo­ra. Sua vida foi um car­ros­sel con­tí­nuo de prai­as para­di­sía­cas, fes­tas, mulhe­res, dro­gas, sal­tos de asa-del­ta e para­pen­te. Num des­ses sal­tos arre­ben­tou-se todo num país da Ásia, ficou entre a vida e a mor­te e con­traiu uma dívi­da de US$ 350 mil. Para sal­dá-la, esco­lheu o cami­nho mais cur­to – e peri­go­so. Foi ao Peru, com­prou cocaí­na e ten­tou entrar na Indonésia com quin­ze qui­los da dro­ga nos canos de sua asa-del­ta. Detido no aero­por­to de Jacarta, empre­en­deu uma fuga espe­ta­cu­lar, esca­pou para uma ilha, virou man­che­te de jor­nais e tema de tele­no­ti­ciá­ri­os, mas aca­bou pre­so dezes­se­te dias depois e con­de­na­do à mor­te.

Se não tives­se vira­do notí­cia, tal­vez esca­pas­se. Outro bra­si­lei­ro, tam­bém ex-pre­so na Indonésia, diz a cer­ta altu­ra que é pos­sí­vel cor­rom­per qual­quer um no país, do poli­ci­al que faz a deten­ção ao juiz que deci­de a sen­ten­ça, mas para Marco Archer isso se tor­nou impos­sí­vel dada a publi­ci­da­de do caso.

Sem juí­zo

Se no cen­tro do des­ti­no de Curumim está a ideia de juí­zo – cri­mi­nal, mas tam­bém moral, filo­só­fi­co, reli­gi­o­so –, o gran­de méri­to do fil­me é jus­ta­men­te o de des­pir-se de todo jul­ga­men­to, de toda sen­ten­ça, dan­do espa­ço para que o pró­prio per­so­na­gem se cons­trua – e se des­trua – na tela. Um méri­to secun­dá­rio é des­ta­car a dimen­são huma­na, e por­tan­to con­tra­di­tó­ria, de outras figu­ras, em espe­ci­al do ita­li­a­no Juri Angioni, ex-com­pa­nhei­ro de cela de Marco Archer, tam­bém con­de­na­do por trá­fi­co de dro­gas, mas liber­ta­do depois de dez anos.

Vejo que falei mais do “con­teú­do” do fil­me do que de sua cons­tru­ção, mas tal­vez isso seja fru­to de sua pró­pria con­sis­tên­cia, de sua robus­tez infor­ma­ti­va, de sua opção pela trans­pa­rên­cia e pela cla­re­za. O con­trá­rio, por exem­plo, do docu­men­tá­rio mais conhe­ci­do do dire­tor, o acla­ma­do Estamira (2004), que com sua este­ti­za­ção da misé­ria dava ares de pro­fe­ta a uma cata­do­ra de lixo com evi­den­tes trans­tor­nos men­tais. Aqui, Marcos Prado pare­ce falar de um tema que lhe é mais pró­xi­mo, em ter­mos de gera­ção, cul­tu­ra e gru­po soci­al, e tal­vez isso lhe tenha impos­to uma sobri­e­da­de de esti­lo mai­or. Seu tema é “a vida ape­nas, sem mis­ti­fi­ca­ção”.

, , , , , , , , , , , ,