Ana Sette

Susana Moraes e o pai, Vinicius

Ana Sette

Susana Moraes e o pai, Vinicius

Vinicius sem filtro

Cinema

17.10.16

Durante boa par­te do ano de 1979 o poe­ta, jor­na­lis­ta, diplo­ma­ta e com­po­si­tor Vinicius de Moraes foi fil­ma­do pela filha Susana, qua­se sem­pre em casa, em momen­tos de con­ver­sa sol­ta e tri­vi­al com ami­gos e filhos, can­tan­do, beben­do, dor­min­do. Aos pou­cos ela foi mon­tan­do um retra­to ter­no e sem arti­fí­ci­os do pai, trans­for­ma­do em Vinicius de Moraes, um rapaz de famí­lia, docu­men­tá­rio de 30 minu­tos que só seria fina­li­za­do pela dire­to­ra em 1983, três anos depois da mor­te do músi­co.

O Instituto Moreira Salles lan­çou o DVD res­tau­ra­do e mas­te­ri­za­do digi­tal­men­te do docu­men­tá­rio, um anti­go sonho de Susana Moraes, que ini­ci­ou todo o pro­ces­so em 2014 e mor­reu em janei­ro de 2015, antes de vê-lo pron­to. O DVD já está à ven­da  nos cen­tros cul­tu­rais do IMS e na loja onli­ne.

Esta nova edi­ção traz tam­bém uma fai­xa comen­ta­da por Adriana Calcanhotto, Eucanaã Ferraz, Julia Moraes e Tuca Moraes, além de um livre­to com depoi­men­to do pro­du­tor do fil­me, Robert Feinberg, e tex­tos do crí­ti­co Pedro Butcher e do cine­as­ta Walter Salles, publi­ca­do a seguir.

Oscar Niemeyer, Vinicius e Susana Moraes durante as filmagensAna Sette

Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes e Susana Moraes duran­te as fil­ma­gens

Incomum, intenso, complexo

Walter Salles

 

Em “Poema enjo­a­di­nho”, Vinicius de Moraes escre­veu:

Filhos…filhos?
Melhor não tê-los,
Mas se não os temos,
Como sabê-los?

Ao rea­li­zar Um rapaz de famí­lia, a cine­as­ta e rotei­ris­ta Susana Moraes nos ofe­re­ce um con­tra­cam­po des­ses ver­sos — um retra­to de uma rara hones­ti­da­de sobre o seu pai. As pri­mei­ras ima­gens em pre­to e bran­co reve­lam que esta­mos dian­te de uma vida inco­mum, inten­sa e com­ple­xa. Vemos Vinicius ain­da meni­no, depois o ado­les­cen­te em for­ma­ção, o rapaz pró­xi­mo de Bandeira, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, o jovem diplo­ma­ta que viveu em Los Angeles, foi crí­ti­co de cine­ma e ami­go de Orson Welles, o poe­ta e com­po­si­tor que cola­bo­ra­va com Tom Jobim, Chico, Baden Powell e Toquinho, entre tan­tos outros. Se, como dizia Jorge Luis Borges, somos em cada momen­to de nos­sas vidas tudo aqui­lo que já fomos e tudo aqui­lo que ain­da sere­mos, então o fil­me de Susana Moraes nos reve­la o quão sin­gu­lar, e múl­ti­plo, era o seu pai.

É a memó­ria afe­ti­va de Vinicius, mas tam­bém a memó­ria das trans­for­ma­ções urba­nas do Rio, o refle­xo do país antes e duran­te a dita­du­ra mili­tar, que emer­gem, sem fil­tros. “Fui diplo­ma­ta por­que não sabia fazer nada”, con­fia o pai para Susana no iní­cio de Um rapaz de famí­lia. Essa trans­pa­rên­cia, o dese­jo de não fil­trar o que pode­ria soar des­con­for­tá­vel fora da casa são raros nos fil­mes que cine­as­tas rea­li­zam sobre suas famí­li­as. Aqui, esse dese­jo de cap­tu­rar Vinicius como ele era, naque­le momen­to espe­cí­fi­co, mar­ca o fil­me: “Hoje estou bem à beça, hoje desa­fio até Muhammad Ali numa luta de capo­ei­ra × boxe”, diz. Em outros dias, o álco­ol muda a tem­pe­ra­tu­ra da fil­ma­gem. “Não tô legal de saú­de”, con­fia. Dorme na sala, e é aca­ri­ci­a­do deli­ca­da­men­te pela mão de Susana. A câme­ra espe­ra, aten­ta ao tem­po do homem que dor­me. A pre­sen­ça do filho Pedro de Moraes na foto­gra­fia, a pro­xi­mi­da­de das filhas em casa aju­dam a cons­truir esse docu­men­tá­rio fei­to de frag­men­tos amo­ro­sos, que vão pou­co a pou­co se soman­do e ofe­re­cen­do uma das expe­ri­ên­ci­as mais ori­gi­nais do docu­men­tá­rio bra­si­lei­ro das últi­mas déca­das.

Cenas hila­ri­an­tes de Vinicius com Tom (tam­bém mar­ca­das por um cer­to teor etí­li­co) reve­lam o quan­to essa rela­ção que rede­fi­niu a musi­ca popu­lar bra­si­lei­ra era sim­bió­ti­ca. Com Tom, é o pró­prio con­cei­to de famí­lia que se expan­de. Para Um rapaz de famí­lia, Vinicius fez ques­tão de con­ver­sar com Jobim e com Niemeyer. “São ami­gos que são qua­se o meu san­gue”, expli­ca. “Não é a famí­lia do san­gue, é uma outra.” Isso leva o poe­ta a reve­lar para Susana que os laços fami­li­a­res sig­ni­fi­ca­ri­am pou­co para ele, não fos­sem os filhos “pes­so­as legais”. E com­ple­ta: “Eu nun­ca ama­ria meus filhos como eu amo, se vocês não fos­sem legais”.

Vinicius e Tom Jobim durante as filmagensAna Sette

Vinicius e Tom Jobim duran­te as fil­ma­gens

Cenas fil­ma­das em Buenos Aires com o poe­ta Ferreira Gullar em 1978, em meio à dita­du­ra mili­tar, lem­bram o quan­to aque­la épo­ca da his­tó­ria sul-ame­ri­ca­na foi tene­bro­sa. Fala-se, aqui, de exí­lio e de poe­sia. E mes­mo na soli­dão do país estran­gei­ro, Vinicius é capaz de extrair um humor ines­pe­ra­do do encon­tro, dizen­do que era neces­sá­rio inver­ter a ordem dos gran­des poe­tas bra­si­lei­ros: Ferreira Gullar e depois Gonçalves Dias. Ferreira Gullar ri, como Vinicius. Em outro momen­to, Vinicius con­ver­sa com Susana sobre o quan­to essas com­pa­ra­ções são peri­go­sas: “Dizer que T.S. Eliot é mai­or do que Pixinguinha, ou Pixinguinha mai­or que T.S. Eliot, que bes­tei­ra”.

Não se sen­te o peso, o esfor­ço de um fil­me em cons­tru­ção. Vida e fil­me pare­cem fazer par­te da mes­ma maté­ria, como se um fos­se o pro­lon­ga­men­to do outro. No cine­ma, são raras as opor­tu­ni­da­des de se conhe­cer uma pes­soa de for­ma tão ínti­ma. É como se a equi­pe de fil­ma­gem e a câme­ra não exis­tis­sem.

Boa par­te de Um rapaz de famí­lia foi fil­ma­do em 1979, pou­co antes da mor­te de Vinicius. A fini­tu­de tam­bém é uma das ques­tões cen­trais do fil­me de Susana Moraes, e apa­re­ce de for­ma deli­ca­da em “Lindo amor”, que Vinicius sus­sur­ra: “Se tu que­res que eu não cho­re mais/ Diz ao tem­po que não pas­se mais”. E com­ple­ta: “Canto para que me lembres/ quan­do eu me for”.

Não há espa­ço para nos­tal­gia ou sen­ti­men­ta­lis­mos em Um rapaz de famí­lia. Seria, para Susana, não fazer jus­ti­ça ao pai que teve. Assim era Susana, de uma inte­li­gên­cia agu­da e trans­gres­so­ra, uma artis­ta de uma rara sen­si­bi­li­da­de. O docu­men­tá­rio que rea­li­zou sobre o pai trans­pi­ra a pai­xão que a moveu duran­te a roda­gem. O resul­ta­do é um fil­me essen­ci­al­men­te livre e arte­sa­nal. Um rapaz de famí­lia só foi lan­ça­do em 1983. Feito com pon­tas de nega­ti­vo e câme­ras empres­ta­das, uma par­te sig­ni­fi­ca­ti­va do mate­ri­al fil­ma­do foi vela­do no labo­ra­tó­rio. Se não sou­bés­se­mos des­se fato, seria difí­cil ante­ci­pá-lo. A mon­ta­gem rea­li­za­da por Robert Feinberg, então casa­do com Susana, encon­tra for­ça e coe­rên­cia jus­ta­men­te na diver­si­da­de de suas cenas, que ampli­am as pos­si­bi­li­da­des de lei­tu­ra do fil­me.

A cópia ago­ra res­tau­ra­da pre­ser­va as carac­te­rís­ti­cas do fil­me ori­gi­nal rea­li­za­do por Susana Moraes. Ao espec­ta­dor, cabe usu­fruir de momen­tos ines­pe­ra­dos de Vinicius, e ouvi-lo can­tar des­de “Pela luz dos olhos teus” até “Singin’ in the rain” e “All I dre­am is dre­am of you”. Momentos pre­ci­o­sos que, gra­ças a Susana, ago­ra tam­bém fazem par­te da nos­sa memó­ria.

Assim ter­mi­na “Poema enjo­a­di­nho”:

Filhos, melhor não tê-los,
Mas se não os temos,
Como saber
Que maci­e­za
Nos seus cabe­los,
Que chei­ro mor­no
Na sua car­ne,
Que gos­to doce
Na sua boca.

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