Wang Bing: a história pequena

Cinema

15.05.14

He Fengming, pro­ta­go­nis­ta do segun­do fil­me do dire­tor chi­nês Wang Bing

Mostra dedi­ca­da ao cine­as­ta chi­nês Wang Bing no IMS-RJ exi­bi­rá os fil­mes A oes­te dos trilhos,Memórias de uma chinesa,Três irmãs, Até que a lou­cu­ra nos sepa­re, entre outros. A mos­tra come­ça em 16 de maio.

Desde as pri­mei­ras pro­je­ções, em janei­ro de 2003, no Festival de Rotterdam, A oes­te dos tri­lhos des­per­tou uma sur­pre­sa dupla­men­te agra­dá­vel. Essa exten­sa aná­li­se das trans­for­ma­ções soci­ais e econô­mi­cas da China con­tem­po­râ­nea é fei­ta a par­tir do regis­tro da deca­dên­cia da gran­de indús­tria de metais pesa­dos de Tie Xi Qu, dis­tri­to vizi­nho à cida­de de Shenyang, no nor­des­te da China. Através da peque­na his­tó­ria dos tra­ba­lha­do­res gra­da­ti­va­men­te mar­gi­na­li­za­dos com o desa­pa­re­ci­men­to ou a trans­fe­rên­cia das fábri­cas, o fil­me nos leva a refle­tir sobre a gran­de his­tó­ria que se desen­ro­la por trás des­sas tra­je­tó­ria indi­vi­du­ais.

São nove horas divi­di­das em três par­tes: Ferrugem, Vestígios e Trilhos. O fil­me per­cor­re os espa­ços vazi­os das fábri­cas, acom­pa­nha o tem­po de espe­ra dos mais jovens e dos mais ido­sos em tor­no da fábri­ca e, ao fim, a demo­li­ção, quan­do os ope­rá­ri­os se aglu­ti­nam entre os escom­bros em bus­ca de peças para ven­der como fer­ro-velho para fábri­cas ain­da em fun­ci­o­na­men­to. E bem aí, den­tro des­sa sur­pre­sa ini­ci­al pela exten­são do docu­men­to, uma outra, e inse­pa­rá­vel da pri­mei­ra, a des­co­ber­ta de um modo de fil­mar que pro­põe um outro rea­lis­mo cine­ma­to­grá­fi­co. Um modo de fil­mar que, ao mes­mo tem­po, se ser­ve dos novos mei­os téc­ni­cos, a exem­plo da câme­ra digi­tal, mas que não repe­te os habi­tu­ais efei­tos de satu­ra­ção de luz e cor, a agi­li­da­de e o hiper-rea­lis­mo da ima­gem em alta defi­ni­ção. A oes­te dos tri­lhos olha sem pres­sa.

Nenhuma nar­ra­ção, nenhum comen­tá­rio musi­cal, nenhu­ma fon­te de luz além da exis­ten­te no inte­ri­or das fábri­cas. Imensos gal­pões qua­se vazi­os fun­ci­o­nam ain­da que pre­ca­ri­a­men­te. Quartos e cozi­nhas das casas sem aque­ci­men­to onde tra­ba­lha­do­res, em meio a um inver­no rigo­ro­so, espe­ram o gover­no deci­dir seus des­ti­nos. As con­ver­sas são fil­ma­das com a câme­ra em ângu­lo bai­xo. Muitas vezes, a câme­ra peque­na é colo­ca­da sobre a mesa, ao lado de uma gar­ra­fa tér­mi­ca, entre alguns tra­pos, como um obje­to qual­quer da casa. Esses ges­tos sim­ples da ima­gem rea­fir­mam a von­ta­de que impul­si­o­na o fil­me: colo­car-se entre os tra­ba­lha­do­res do outro­ra gran­de cen­tro de indús­tri­as de metais pesa­dos de Tie Xi Qu, acom­pa­nhar suas falas e seus silên­ci­os, suas idas e vin­das em bus­ca de tra­ba­lho; ser­vir-se da câme­ra como uma fer­ra­men­ta idên­ti­ca a qual­quer outra usa­da pelos ope­rá­ri­os antes de serem empur­ra­dos para a mar­gem com o fecha­men­to das fábri­cas.

“A fábri­ca é a pro­ta­go­nis­ta de meu fil­me”, diz o dire­tor. Mais pre­ci­sa­men­te, a fábri­ca trans­for­ma­da em uma imen­sa ruí­na em con­sequên­cia das trans­for­ma­ções econô­mi­cas da China, o desa­pa­re­ci­men­to da fábri­ca como fer­ru­gem, ves­tí­gio, tri­lho para o estu­do do pas­sa­do recen­te. “Pertenço a uma gera­ção mais jovem, não conhe­ço as razões e os sen­ti­men­tos das pes­so­as mais velhas. Com A oes­te dos tri­lhos que­ria, ao mes­mo tem­po, dis­cu­tir algu­mas ques­tões de nos­sa his­tó­ria e outras de meu pro­ces­so cri­a­ti­vo. Basicamente, segui meus ins­tin­tos, não esta­be­le­ci pre­vi­a­men­te uma linha de abor­da­gem, não orga­ni­zei raci­o­nal­men­te uma estra­té­gia cine­ma­to­grá­fi­ca. Quando ter­mi­nei o fil­me, sen­ti que um perío­do da minha vida tinha aca­ba­do. Um novo perío­do se inau­gu­ra­va. Comecei a pen­sar como pode­ria desen­vol­ver uma abor­da­gem mais estru­tu­ra­da para o que eu que­ria fazer no cine­ma: dis­cu­tir a expe­ri­ên­cia da gera­ção ante­ri­or. De repen­te, nos des­co­bri­mos com 30 anos de vida — entre os 30 e os 40 — e come­ça­mos a per­ce­ber a dis­cre­pân­cia entre o que nos foi ensi­na­do e a rea­li­da­de. Nos ensi­na­ram a viver uma irre­a­li­da­de. Essa foi uma moti­va­ção. Uma outra: hoje, na China, as pes­so­as não que­rem olhar para o pas­sa­do. Só pen­sam no futu­ro. Só pen­sam no que que­rem ser ama­nhã. O ontem é irre­le­van­te. O hoje, daqui a pou­co, tam­bém vai-se tor­nar irre­le­van­te. Se esse pen­sa­men­to per­sis­tir, será mui­to pro­ble­má­ti­co. Esse tipo de vida no vazio, uma ilu­são sus­pen­sa no espa­ço, sem qual­quer liga­ção com a ter­ra, cria em mim uma sen­sa­ção desa­gra­dá­vel, um des­con­for­to psi­co­ló­gi­co difí­cil de des­cre­ver”, expli­ca o dire­tor.

Um fil­me é um pro­ces­so difí­cil e dolo­ro­so, mui­to can­sa­ti­vo e difí­cil — pros­se­gue Bing. “Quando A oes­te dos tri­lhos ter­mi­nou, não sen­ti algo como: ‘Ótimo, estou feliz e satis­fei­to’. Fiz o fil­me para con­tar uma his­tó­ria. E ao con­tar essa his­tó­ria, eu me tor­no par­te dela. Contadores de his­tó­ri­as, os artis­tas habi­tu­al­men­te ima­gi­nam ter uma cer­ta influên­cia sobre o públi­co. Pessoalmente, não que­ro exer­cer essa influên­cia — isso impli­ca­ria em ado­tar uma deter­mi­na­da noção de impar­ci­a­li­da­de e de ver­da­de. Eu tenho difi­cul­da­de de situ­ar o meu tra­ba­lho. Não impor­ta como um fil­me con­ta uma his­tó­ria, é mui­to difí­cil dizer que num fil­me apre­sen­ta­mos a ver­da­de. Na vida, há momen­tos em que as coi­sas são difí­ceis de enten­der. Não sabe­mos lidar com elas. Todo cine­as­ta enfren­ta a difi­cul­da­de de ser impar­ci­al duran­te o pro­ces­so cri­a­ti­vo — enfren­ta até mes­mo a difi­cul­da­de de ser fiel a si mes­mo. O que é mui­to difí­cil. É algo difí­cil de alcan­çar em sua vida. Eu tam­bém enfren­to essa difi­cul­da­de. Afinal, qual o meu papel quan­do fil­mo um docu­men­tá­rio? Às vezes você pode con­fi­ar em sua capa­ci­da­de de com­pre­en­der a ver­da­de, mas às vezes você se sen­te per­di­do e acha que jamais vai alcan­çá-la. Com rela­ção a isso, estou ple­na­men­te cons­ci­en­te de que o meu fil­me é um inter­me­diá­rio entre a minha vida e a vida do meu inter­lo­cu­tor. O resul­ta­do des­sa inte­ra­ção é que pode ser con­si­de­ra­da a ver­da­de de um docu­men­tá­rio”.

Qual seria a par­te de ver­da­de na fei­tu­ra de um fil­me? Para Wang Bing, “o empre­en­di­men­to é por vezes duvi­do­so, nou­tras ele faz sen­ti­do. Um fil­me traz mes­mo uma cer­ta por­ção de ver­da­de. Se pode­mos dizer que exis­te um sig­ni­fi­ca­do num docu­men­tá­rio, acho que ele não está na his­tó­ria con­ta­da, mas num cer­to momen­to do docu­men­tá­rio, num ins­tan­te pre­ci­so em que se trans­mi­te algo. Um lugar, um ins­tan­te na vida de alguém. São, diga­mos, dez, cin­co minu­tos, não impor­ta. Esse momen­to, quan­do ele se apre­sen­ta e toma­mos cons­ci­ên­cia dele, é deter­mi­nan­te. Esse momen­to não é a his­tó­ria, mas a his­tó­ria peque­na. A his­tó­ria peque­na é o que exis­te de mais boni­to em um docu­men­tá­rio.”

Seu segun­do fil­me tam­bém pros­se­gue dis­cu­tin­do ques­tões mais gerais da China e outras do pro­ces­so cri­a­ti­vo do dire­tor. Fengming: memó­ri­as de uma chi­ne­sa é uma lon­ga con­ver­sa fil­ma­da tam­bém por uma câme­ra que olha de bai­xo para cima e não recor­re a qual­quer fon­te de luz além da exis­ten­te no local. Daí em dian­te, Bing pro­du­ziu uma obra de fic­ção e dez docu­men­tá­ri­os de cur­ta e de lon­ga-metra­gem empe­nha­dos em dis­cu­tir a expe­ri­ên­cia da gera­ção ante­ri­or e em per­gun­tar por que pes­so­as de hoje não que­rem olhar para o pas­sa­do. São fil­mes empe­nha­dos em bus­car na his­tó­ria peque­na o momen­to deter­mi­nan­te em que um docu­men­tá­rio trans­mi­te algo.

Wang Bing per­ten­ce à cha­ma­da Sexta Geração de dire­to­res chi­ne­ses (a sex­ta gera­ção de dire­to­res for­ma­dos pela Academia de Cinema de Pequim). A oes­te dos tri­lhos (Tie Xi Qu, 2003, 551′), fil­ma­do entre 1991 e 2001, foi seu pri­mei­ro fil­me. Em segui­da vie­ram Fengming: memó­ri­as de uma chi­ne­sa (He Fengming, 2007, 186′); Fábrica de bru­ta­li­da­de, um dos seis epi­só­di­os de O esta­do do mun­do (2007, 105′. Os outros cin­co epi­só­di­os foram diri­gi­dos por Aiysha Abraham, Chantal Akerman, Pedro Costa, Vicente Ferraz e Apichatpong Weerasethakul); Petróleo (Caiyou Riji, 2008, 840′); Xi Yanh Tang (2009, 18′); Dinheiro de car­vão (Tong Dao, 2009, 53′); O homem sem nome (Wu ming zhe, 2010, 92′); A vala (Jiabiangou, 2010, 112′); Três irmãs (San Zimei, 2012, 153′); Sozinho (Gudu, 2013, 89′); Venice 70: Future Reloaded (fil­me em 70 epi­só­di­os com a par­ti­ci­pa­ção, entre outros, de Júlio Bressane, Karim Ainouz, Isabel Coixet, Jean-Marie Straub, Walter Salles, Jia Zhangke e Edgar Reitz; 2013, 120′). Seu mais recen­te docu­men­tá­rio é Até que a lou­cu­ra nos sepa­re (Feng ai, 2013. 227′).

José Carlos Avellar é coor­de­na­dor de cine­ma do IMS.

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