Woody Allen e o amor como síntese

No cinema

29.08.14

Dizer que Magia ao luar é entre­te­ni­men­to inte­li­gen­te é dizer pou­co. Trata-se do fil­me mais enge­nho­so e “redon­do” de Woody Allen em mui­tos anos. Mais que isso: sin­te­ti­za à per­fei­ção suas refle­xões de matu­ri­da­de a res­pei­to da vida e seus mis­té­ri­os inso­lú­veis. Tudo isso com a leve­za e o savoir-fai­re dos melho­res momen­tos do dire­tor.

Trailer de Magia ao luar

Numa nar­ra­ti­va em que tudo gira em tor­no do enga­no e do auto­en­ga­no, a tra­ma é, ela pró­pria, enga­no­sa­men­te sim­ples: Stanley (Colin Firth), um céle­bre mági­co inglês que atua sob o nome artís­ti­co de Wei Ling Soo, é inci­ta­do por um velho cole­ga de pro­fis­são (Simon McBurney) a des­mas­ca­rar uma jovem médium nor­te-ame­ri­ca­na, Sophie (Emma Stone), que está cau­san­do furor na Europa. A ação se pas­sa em 1928 no sul da França, onde Sophie está pres­tes a ficar noi­va de um rapaz mili­o­ná­rio (Hamish Linklater).

Crer ou não crer

Não cabe aqui entrar em deta­lhes sobre o desen­vol­vi­men­to e as revi­ra­vol­tas da his­tó­ria, mas ape­nas aten­tar para a ideia bási­ca que con­duz a nar­ra­ti­va: a ten­são entre a cre­du­li­da­de e o ceti­cis­mo. O inte­res­san­te, na evo­lu­ção dra­má­ti­ca do fil­me, é fazer com que essa opo­si­ção se ins­ta­le no ínti­mo do pro­ta­go­nis­ta Stanley, aba­lan­do sua fir­me posi­ção ini­ci­al de misan­tro­po arro­gan­te e sar­cás­ti­co. A fra­se que resu­me sua filo­so­fia de vida, antes da cri­se, pare­ce ter saí­do dire­ta­men­te da boca do dire­tor: “Nascemos e, ape­sar de não ter­mos come­ti­do nenhum cri­me, somos con­de­na­dos à mor­te”.

Crer ou não crer, eis a ques­tão. Na dia­lé­ti­ca pro­pos­ta por Woody Allen, se a fé é a tese e a des­cren­ça é a antí­te­se, uma sín­te­se pos­sí­vel seria o amor, capaz de evi­den­ci­ar, sem expli­car, a subs­tân­cia mági­ca de todas as coi­sas do uni­ver­so, ina­pre­en­sí­vel tan­to pela ciên­cia como pela reli­gião.

O méto­do de cons­tru­ção aqui é o que, com algu­ma liber­da­de, pode­ría­mos cha­mar de socrá­ti­co: o diá­lo­go que sola­pa cer­te­zas e intro­duz a dúvi­da. O dis­cur­so do pro­ta­go­nis­ta se enche pro­gres­si­va­men­te de expres­sões adver­sa­ti­vas, do tipo “ape­sar de”, “se bem que”, “não obs­tan­te” (“in spi­te of”, “though”, “notwiths­tan­ding that”).

Essa argú­cia dis­cur­si­va atin­ge o ápi­ce no diá­lo­go entre Stanley e sua tia Vanessa (Eileen Atkins) a res­pei­to da médium Sophie, no qual tudo o que se fala quer dizer exa­ta­men­te o seu con­trá­rio. O efei­to é refor­ça­do pelo fato de se tra­tar de dois estu­pen­dos ato­res ingle­ses tarim­ba­dos na arte do unders­ta­te­ment e do sub­tex­to.

Cena de Magia ao luar mostra Stanley (Colin Firth) e Sophie (Emma Stone)

Epifania e saca­na­gem

Já se dis­se com razão que Woody Allen é mui­to mais um escri­tor, um dra­ma­tur­go, do que pro­pri­a­men­te um gran­de cine­as­ta. Ao con­trá­rio de um Welles ou de um Kubrick, não é na expres­são visu­al que resi­de a sua for­ça. Mesmo ten­do como loca­ções a pai­sa­gem des­lum­bran­te da Riviera fran­ce­sa, bos­ques e palá­ci­os majes­to­sos, o fil­me pode­ria ser uma peça de tea­tro sem gran­de per­da de subs­tân­cia.

Ainda assim, há momen­tos visu­al­men­te ins­pi­ra­dos. Um deles é anto­ló­gi­co. O mági­co e a médium refu­gi­am-se da chu­va num velho obser­va­tó­rio à bei­ra-mar. Quando a chu­va pas­sa – e a inti­mi­da­de entre os dois aumen­ta –, Stanley aci­o­na o meca­nis­mo que abre par­ci­al­men­te a cúpu­la do obser­va­tó­rio, dei­xan­do ver as estre­las e uma lua min­guan­te. É um momen­to de epi­fa­nia e, ao mes­mo tem­po, uma ima­gem qua­se por­no­grá­fi­ca, em que o fáli­co teles­có­pio está pres­tes a pene­trar a fres­ta em for­ma apro­xi­ma­da de vagi­na. Poesia e safa­de­za jun­tos, mos­tran­do que o velho Woody Allen, quan­do quer, tam­bém sabe ser um tre­men­do cine­as­ta.

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