Xingu, utopia e tragédia

No cinema

13.04.12

Tem algu­ma coi­sa neles que mor­re para sem­pre assim que a gen­te encos­ta”, diz Cláudio Villas Bôas (João Miguel) a cer­ta altu­ra de Xingu, refe­rin­do-se aos índi­os de um modo geral. Essa cons­ta­ta­ção está no cen­tro do belo fil­me de Cao Hamburger. É o que lhe dá sen­ti­do, con­ver­ten­do em tra­gé­dia o que pode­ria, nas mãos de um cine­as­ta menos ínte­gro, ser fil­ma­do como um épi­co.

Não é um fil­me do qual os espec­ta­do­res sai­am dizen­do que “a foto­gra­fia é lin­da” ou que “os ato­res estão for­mi­dá­veis”, embo­ra as duas coi­sas sejam ver­da­dei­ras. É que em Xingu nenhum valor de pro­du­ção se des­ta­ca “em si”. Tudo está a ser­vi­ço da con­sis­tên­cia e da lim­pi­dez da nar­ra­ti­va.

Do tama­nho da vida

Como num fil­me de John Ford ou de Howard Hawks, o que vale é o que se mos­tra: o homem em inte­ra­ção com o meio físi­co e com os outros homens, reve­lan­do nes­te emba­te seus impul­sos mais pro­fun­dos — cora­gem, ambi­ção, vai­da­de, medo.

Talvez o retra­to dos irmãos Orlando (Felipe Camargo), Claudio e Leonardo (Caio Blat) Villas Bôas não seja exa­to, tal­vez haja nele uma ine­vi­tá­vel dose de hagi­o­gra­fia, mas, que dia­bo, os sujei­tos foram mes­mo extra­or­di­ná­ri­os. E o fil­me não os isen­ta de fra­que­zas e con­tra­di­ções. Eles não são “mai­o­res que a vida”, como tan­tos heróis hollywo­o­di­a­nos, mas do tama­nho dela. Engravidam índi­as, fazem con­ces­sões aos pode­ro­sos, impõem migra­ções for­ça­das a tri­bos intei­ras, bri­gam entre si.

Aqui, o dire­tor Cao Hamburger e o pro­du­tor Fernando Meirelles falam sobre Xingu:

A refe­rên­cia a Ford e Hawks, fei­ta aci­ma, não foi casu­al. Os dois foram não ape­nas expo­en­tes do cine­ma nar­ra­ti­vo clás­si­co — do qual Xingu é tri­bu­tá­rio -, mas tam­bém do wes­tern, o gêne­ro ame­ri­ca­no por exce­lên­cia, que trans­fi­gu­rou a san­gren­ta e pre­da­tó­ria con­quis­ta do oes­te numa epo­peia triun­fan­te. Neste aspec­to, o fil­me de Cao Hamburger é o seu opos­to simé­tri­co.

Há, na pri­mei­ra expe­di­ção dos irmãos, um momen­to como­ven­te: o pri­mei­ro con­ta­to, se não me enga­no com os Kalapalo, numa praia de rio. A cena, fil­ma­da de modo sin­ge­lo, trans­mi­te a genuí­na emo­ção e ale­gria da des­co­ber­ta recí­pro­ca, e os momen­tos seguin­tes são de uma har­mo­nia utó­pi­ca que ecoa as lin­das ima­gens do encon­tro entre bran­cos e nati­vos no clás­si­co O des­co­bri­men­to do Brasil (1937), de Humberto Mauro. Mas a eufo­ria logo se des­faz, com o pri­mei­ro sur­to de gri­pe na tri­bo.

Em Xingu, assim como em outros fil­mes bra­si­lei­ros recen­tes — eu cita­ria o geni­al Serras da desor­dem (Andrea Tonacci, 2006) e o óti­mo Terra Vermelha (Marco Bechis, 2008) -, o con­ta­to entre bran­cos e índi­os é um even­to desas­tro­so, uma feri­da que não cica­tri­za. Nessa visão auto­crí­ti­ca, o homem dito civi­li­za­do con­ta­mi­na e des­trói tudo aqui­lo em que toca — povos, cul­tu­ras, rios, matas.

Potencial de des­trui­ção

Apesar de ter­mi­nar exal­tan­do a gran­de obra dos Villas Bôas, o Parque Nacional do Xingu, o fil­me con­tém em seu cer­ne — o olhar per­ple­xo de Cláudio — a dolo­ro­sa cons­ci­ên­cia do poten­ci­al de dor e des­trui­ção con­ti­do em sua uto­pia, que era tam­bém a de Darcy Ribeiro, Noel Nutels e tan­tos outros: a uto­pia da con­vi­vên­cia pací­fi­ca entre povos e cul­tu­ras dife­ren­tes, em har­mo­nia com a natu­re­za.

Para quem se inte­res­sa pela saga dos irmãos, a Companhia das Letras aca­bou de relan­çar o volu­mo­so A mar­cha para o oes­te, de Orlando e Cláudio, que nar­ra em deta­lhes a Expedição Roncador-Xingu, nos anos 40.

Para encer­rar, um bre­ve e deli­ci­o­so depoi­men­to do ver­da­dei­ro Orlando Villas Bôas.

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