Isso é literatura”: a partir de “Mil rosas roubadas”

Literatura

26.06.14

Fui à cata, não me lem­bro bem quan­do, de uma edi­ção das obras de Manuel Botelho de Oliveira, pri­mei­ro escri­tor bra­si­lei­ro, digo, nas­ci­do por aqui. A edi­ção de 1953, do Instituto Nacional do Livro, che­gou pelo cor­reio, em capa dura azul-mari­nho impe­cá­vel, assi­na­da a lápis, na folha de guar­da: “Jacques do Prado Brandão / 6/4/54 / Belo Horizonte”. O dese­nho ágil da letra, como se assi­na­tu­ra fos­se, à mão leve, mera iden­ti­fi­ca­ção do pro­pri­e­tá­rio do livro, para que não se extra­vi­as­se em idas e vin­das pelas mãos e quar­tos dos ami­gos lei­to­res, minha fan­ta­sia logo se pôs a tra­ba­lhar. Livro iman­ta­do em memó­ria com­pra­da ao pre­ço da edi­ção dese­ja­da, a mer­ca­do­ria, nes­se caso – senão no de todos os livros –, na tran­sa­ção pre­ser­va, pro­ve­ni­en­te do des­mon­te da bibli­o­te­ca, um rou­bo: o volu­me que esca­pa à cole­ção de livros fei­ta ao lon­go de uma vida, des­man­te­la­da pela famí­lia, via­ja empa­co­ta­do, mor­to por ora, para, rou­ba­do à bibli­o­te­ca de par­ti­da, man­ter-se à espe­ra do lei­tor de olhos cúm­pli­ces na outra bibli­o­te­ca, a de che­ga­da. Uma tra­du­ção.

Talvez não haja lei­tu­ra sem rou­bo, uma poé­ti­ca do olhar tex­tu­al – aqui fal­ta a pala­vra que nomeie o olho-enquan­to-lê, o olho-para-o-tex­to. Para mau enten­de­dor, a arte con­tem­po­râ­nea é exem­plar, a não ser para quem se pre­o­cu­pa em saber do que se tra­ta arte. Pois lem­bro do tra­ba­lho que, em 2007 (foi o ano do fale­ci­men­to de Jacques do Prado Brandão, sou­be-o depois), publi­cou-se, em for­ma de livro que, inti­tu­la­do Sebo, fac­si­mi­lou res­tos encon­tra­dos sol­tos entre as pági­nas de livros com­pra­dos em sebos: notas fis­cais, foto­gra­fi­as, fichas cata­lo­grá­fi­cas, péta­las, papel de bala, bilhe­tes, com­pro­van­te de vota­ção, pan­fle­tos publi­ci­tá­ri­os, rótu­lo de cer­ve­ja, ras­cu­nho de sone­to, apos­ta em lote­ria. Livro com­pos­to por res­tos de livros ane­xa­dos por lei­to­res e rou­ba­dos às pági­nas fecha­das pelos futu­ros lei­to­res do livro com­pra­do no sebo – o futu­ro lei­tor faz o livro, é autor. Sebo, livro de res­tos, é, por isso, um livro de rou­bos do que foi esque­ci­do (acha­do não é rou­ba­do, diz-se), impres­so entre as pági­nas do livro impres­so; do que foi esque­ci­do como espe­lho do livro, impres­so sobre impres­so, ain­da que péta­la – que, nes­se caso, vira super­fí­cie impres­sa por preg­nân­cia de tin­ta, por mera pro­xi­mi­da­de. Pois é como se os livros se com­pu­ses­sem de memó­ria esque­ci­da, esque­ci­da, a prin­cí­pio, pelo autor nas pági­nas impres­sas – leio o que o autor esque­ceu nas letras – e, a rebo­que, pelo lei­tor das pági­nas impres­sas. Ao lei­tor mais des­cui­da­do de todos, a auto­ria. Ao lei­tor que esque­ce res­tos de pági­na entre as pági­nas do livro, a home­na­gem, por Marilá Dardot e Fabio Morais, nes­te Sebo. Ao melhor lei­tor de um livro, o brin­de epi­gra­fa­do em Sebo: “que tout, au mon­de, exis­te pour abour­tir à un livre” – e pre­ser­vo, com ale­gria, o r intro­me­ti­do ao ver­bo, fone­ma esque­ci­do em meio ao abou­tir e que aca­bou publi­ca­do.

Pois o meu rou­bo, assi­na­do “Jacques do Prado Brandão / 6/4/54 / Belo Horizonte”, vol­ta e meia apa­re­ce, como que auten­ti­ca­do pelo tes­te­mu­nho, nas pala­vras do escri­tor Silviano Santiago, ain­da mais quan­do é o nome, Jacques, que ser­ve de isca à memó­ria para recom­por o amor à pri­mei­ra vis­ta, exces­so do olhar tex­tu­al, quan­do o per­so­na­gem Zeca, na pri­mei­ra vez em que diri­ge, em Mil rosas rou­ba­das, a pala­vra ao nar­ra­dor, lem­bra-lhe: “– Bela coin­ci­dên­cia! A gen­te se viu lá no Clube de Cinema no sába­do à noi­te. Está lem­bra­do, não? Você esta­va tão entre­ti­do depois do fil­me, de papo com o Jacques, que nem quis atra­pa­lhar a con­ver­sa.” Como lei­tor, estou à cata de coin­ci­dên­ci­as, não exa­ta­men­te de ver­da­des, pois é tam­bém o nome Jacques que apa­re­ce no depoi­men­to que o escri­tor, em 16 de novem­bro de 2010, con­ce­de ao públi­co de Curitiba, publi­ca­do na edi­ção 128 do Jornal Rascunho:

Eu não era um homem da escri­ta. A escri­ta não teve impor­tân­cia para mim. Eu fui pro­cu­rar a escri­ta com esse men­tor, o Jacques, no momen­to em que só a ima­gem já não me era sufi­ci­en­te. Eu que­ria pen­sar de uma manei­ra que não fos­se atra­vés do cine­ma e das ima­gens. O Jacques me empres­tou três livros que foram impor­tan­tís­si­mos para mim. O “The ABC of rea­ding”, de Ezra Pound; “Páginas de dou­tri­na esté­ti­ca”, de Fernando Pessoa, e “Os moe­dei­ros fal­sos”, de André Gide. Confesso que não enten­di estes três livros. Mas acho que foram mui­to impor­tan­tes por­que o Jacques esta­be­le­ceu para mim o pata­mar do que era lite­ra­tu­ra: “Isso é lite­ra­tu­ra. Se você não com­pre­en­de o que é isso, você não com­pre­en­de o que é lite­ra­tu­ra. Você terá que subir até esse pata­mar para enten­der o que é lite­ra­tu­ra”. A par­tir daí, não parei de ler.

Jacques, a sua pre­sen­ça, os emprés­ti­mos, os papos, a ami­za­de, ins­ti­tuiu o valor de uma pala­vra no voca­bu­lá­rio do escri­tor: “Isso é lite­ra­tu­ra”. Em abril de 1954, quan­do Jacques assi­na, a lápis, o volu­me de capa dura azul Música do Parnaso, de Manuel Botelho, que tenho comi­go, o escri­tor esta­va com 17 anos. Não sei se o leu de emprés­ti­mo à épo­ca: não há res­tos, ano­ta­ções, péta­las, nada, que pos­sa indi­car a lei­tu­ra, mas o livro per­ten­cia à cole­ção, à mes­ma cole­ção da qual saí­ram outros três livros que esta­be­le­ce­ram, num ato de fala, a semân­ti­ca de uma vida: “Isso é lite­ra­tu­ra”. O que “Isso” nomeia são, nova­men­te, res­tos de uma tra­je­tó­ria, ras­tros – os tais livros do tal escri­tor, como este Mil rosas rou­ba­das. O que “Isso” nomeia é uma secre­ção, depo­si­ta­da com os anos em algum can­to do cora­ção, o órgão que man­ti­nha vivo o ami­go Zeca no quar­to de hos­pi­tal, o cor­po sus­pen­so pela maqui­na­ria de fios e tubos da medi­ci­na, incu­rá­vel. A hipó­te­se se ela­bo­ra, como quem esca­ra­fun­cha manei­ra de não per­der o tex­to do ami­go, ain­da que este esti­ves­se depo­si­ta­do no mais secre­to do seu cor­po, secre­ção per­di­da no cora­ção e sobre a qual, ao micros­có­pio supos­to, o nar­ra­dor con­fa­bu­la: “teria divi­sa­do na super­fí­cie a célu­la mais resi­li­en­te da vida, aque­la que ele quis neu­tra­li­zar ou negar tan­tas e suces­si­vas vezes no pas­sa­do”. Há – isso é lite­ra­tu­ra – uma per­da insu­tu­rá­vel, mas há – isso é lite­ra­tu­ra – um dese­jo de “neu­tra­li­zar ou negar” aque­la célu­la, uma que seja entre tan­tas incon­tá­veis. O que “Isso” nomeia é, antes, a pro­cu­ra pela secre­ção, pela célu­la que res­ta em sua plas­ti­ci­da­de, por reco­nec­tá-la a outra célu­la que res­te, ain­da que inven­ta­da por quem a pro­cu­ra, e a outra e a outra, num teci­do, tex­to que, com sor­te, com­po­nha um orga­nis­mo e, nele, a memó­ria insu­tu­rá­vel, a bio­gra­fia teci­da sobre a hipó­te­se da secre­ção, que só cos­tu­ro, ago­ra, com minhas secre­ções, teci­do lique­fei­to, já que sobre­vi­vi ao ami­go, como o lei­tor sobre­vi­ve ao escri­tor.

Quando leio no dese­nho do lápis “Jacques do Prado Brandão / 6/4/54 / Belo Horizonte” na folha de guar­da das obras do pri­mei­ro escri­tor bra­si­lei­ro, sei que me aguar­da na bibli­o­te­ca um olhar para o tex­to exi­gen­te da nome­a­ção: “Isso é…”. Pelo dese­nho das letras de Jacques, rou­bo um frag­men­to de memó­ria do escri­tor, que conhe­ceu a assi­na­tu­ra, e pro­cu­ro, nele, apren­der que o olhar para o tex­to abis­ma-se sobre “duplo vazio”, o da memó­ria, o do esque­ci­men­to; que as letras são impos­sí­veis ao olhar, mas ao mes­mo tem­po tão indi­fe­ren­tes à lei­tu­ra. Pois é pre­ci­so que haja memó­ria para haver esque­ci­men­to, e é pre­ci­so que haja a lín­gua para não haver, por ora, duran­te a lei­tu­ra, nem memó­ria nem esque­ci­men­to. E, duran­te a lei­tu­ra, sobre duplo vazio, cos­tu­ra-se uma aven­tu­ra, opor­tu­na dian­te da secre­ção de memó­ria do ami­go, a aven­tu­ra do livro que sobre­vi­va à ins­cri­ção “Isso é lite­ra­tu­ra” – a sua cha­ve de igni­ção, os fios e os tubos que man­têm pul­san­do o mús­cu­lo, o seu com­bus­tí­vel, isso não há que nome­ar, pois não há. Quando leio no dese­nho do lápis “Jacques do Prado Brandão / 6/4/54 / Belo Horizonte” na folha de guar­da das obras de Manuel Botelho de Oliveira, poe­ta bar­ro­co, lem­bro do rou­bo que come­to a cada vez que come­ço um livro, e lem­bro, sobre­tu­do, da lição de rou­bo que a lite­ra­tu­ra de Silviano Santiago ino­cu­lou nes­te olhar para o tex­to. Mil rosas rou­ba­das nas­ceu, em algu­ma medi­da, com a assi­na­tu­ra de Jacques do Prado Brandão, que tenho comi­go.

 

Luiz Guilherme Barbosa é crí­ti­co lite­rá­rio. Doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, é pro­fes­sor do Colégio Pedro II e cola­bo­ra­dor do Jornal Rascunho.

, , , , , , ,