A João Guimarães Rosa

Séries

24.09.13

Boiada em Curvelo, MG, no início da viagem aos gerais. Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles

Uma vol­ta ao pas­sa­do com a ener­gia do pre­sen­te. Convidada para a Festa de Manuelzão — XII Semana Cultural Andrequicé e Três Marias, MG, cele­bra­da na pri­mei­ra sema­na de julho des­te ano, pro­pus ao Fábio Knoll vir jun­to para fil­mar.

Este vídeo, gra­va­do no Museu do Manuelzão (a casa nos últi­mos anos de vida do vaquei­ro que foi per­so­na­gem de Guimarães Rosa), foca­li­za uma peque­na sele­ção de fotos de épo­ca fei­tas na minha pri­mei­ra via­gem a Andrequicé, em 1966, ofe­re­ci­das ao museu pelo Instituto Moreira Salles, guar­diões do meu acer­vo. A tri­lha sono­ra foi com­pos­ta em 1968 por Chico Moraes para o fil­me A João Guimarães Rosa (Escola de Comunicação da USP), diri­gi­do por Marcello G. Tassara.

Tudo come­çou em 1963, quan­do ganhei de um ami­go um exem­plar de Grande sertão:Veredas, de Guimarães Rosa — não sem a obser­va­ção de que tal­vez não con­se­guis­se com­pre­en­der a lin­gua­gem espe­ci­a­lís­si­ma do autor. Não só com­pre­en­di como mer­gu­lhei nas águas daque­le mar de pala­vras — o ser­tão não vira­ria mar? -, ins­pi­ra­da e ins­ti­ga­da a inves­ti­gar a rela­ção dire­ta de Rosa com os gerais de Minas Gerais. Assim, duran­te os anos 60 via­jei por essas ter­ras seguin­do um rotei­ro suge­ri­do pelo autor, ini­ci­an­do pelas raí­zes — Curvelo, Cordisburgo, Andrequicé -, subin­do pelo tron­co da árvo­re, expan­din­do pelos galhos, até che­gar em Januária, no nor­te de Minas. Desloquei-me para lá e, ao vol­tar de cada via­gem, ia visi­tar o escri­tor, então che­fe do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty. Levava, a cada encon­tro, um calha­ma­ço de foto­gra­fi­as cap­ta­das nas ter­ras do autor de Sagarana e, atrás de cada uma, ele ano­ta­va deta­lhes — nome, ida­de, sol­tei­ro, casa­do ou viú­vo, lugar de encon­tro, como e quan­do etc. -, rece­ben­do atra­vés das ima­gens men­sa­gens dos gerais. No final de nos­sas reu­niões, ele sem­pre me acom­pa­nha­va até o ele­va­dor e me dese­ja­va uma boa pró­xi­ma via­gem, dizen­do estar cer­to de que eu, como irlan­de­sa, iria com­pre­en­der os eflú­vi­os poé­ti­cos dos gerais, devi­do à seme­lhan­ça entre aque­la região e a Irlanda (“Irlandesa Cigana” foi, aliás, como ele me ape­li­dou, teria ele entre­vis­to algu­ma ances­tra­li­da­de ciga­na nos meus cabe­los lon­gos, rou­pas amplas, san­dá­li­as no pé?).

Anos depois des­ses nos­sos encon­tros, fui visi­tar sua viú­va, Dona Aracy, no pré­dio onde eles tinham mora­do em Copacabana, Posto 6. Lá, ela me levou até uma peque­na sala, entre os roche­dos e o mar, e con­tou que fora ali que Rosa escre­ve­ra seu Grande ser­tão. “Noite após noi­te”, con­fi­den­ci­ou-me, “eu leva­va para ele duas ou três tro­cas de pija­ma, pois enquan­to escre­via trans­pi­ra­va mui­to, banhan­do-se em suor. Ele me dizia que rece­bia a obra asso­pra­da, sen­do ele ape­nas recep­tor”.


Porta de entra­da para os gerais de Guimarães, com­pa­nhei­ro de via­gem de Manuelzão — Manuel Nardi, vaquei­ro-mor, per­so­na­gem cen­tral de uma das nove­las de Corpo de Baile: “Miguilim e Manuelzão”, do ali lem­bra­do escri­tor João Guimarães Rosa.

Retrato de Manuel Nardi, inspirador do conto "Manuelzão e Miguilim", de Guimarães Rosa, Andrequicé, MG. 1966

Retrato de Manuel Nardi, inspirador do conto “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, Andrequicé, MG. 1966

 

Gente de Andrequicé, MG. 1966

Gente de Andrequicé, MG. 1966

Comecei a conhe­cer os ser­tões por suas vere­das. Iniciei minha bus­ca seguin­do de ôni­bus para Minas, paran­do pri­mei­ro em Cordisburgo, lugar de nas­ci­men­to do autor, pros­se­guin­do rumo ao nor­te e che­gan­do em Andrequicé, povo­a­do peque­no, pou­so na rota das boi­a­das pelos ser­tões. Ao che­gar, o sol se escon­den­do no hori­zon­te, acer­quei-me de um peque­no bote­co e, após me apre­sen­tar como alguém em bus­ca dos ras­tros de Guimarães, fui aco­lhi­da com uma boa notí­cia: “A moça está com sor­te, pois não é que che­gou ago­ri­nha mes­mo o Manuelzão do Rosa, vin­do dire­to da fazen­da para uma cele­bra­ção de cris­ma em Andrequicé!” Sim, o pró­prio Manuel Nardi, ins­pi­ra­dor do con­to “Manuelzão e Miguilim”, publi­ca­do em 1956, como par­te do livro Corpo de bai­le: um bom augú­rio para a bus­ca pla­ne­ja­da!

Indaguei acer­ca de um lugar para per­noi­tar e o moço do bote­co me levou à casa de uma velha senho­ra que me rece­beu com a aco­lhi­da espon­tâ­nea e ampla dos que pou­co têm, mas mui­to ofe­re­cem: ovo fri­to, sabo­ro­sa faro­fa e um café minei­ro, doce, per­fu­ma­do e ralo, daque­les que des­cem como água ben­ta apa­zi­guan­do a sede!

Dormi com a can­deia ace­sa, a estei­ra no chão. Acordei cedo, o sol des­pon­tan­do no hori­zon­te, no fri­o­zi­nho da madru­ga­da. E lá esta­va ele, Manuelzão, som­bra esguia na pare­de cai­a­da, cha­péu de abas fir­mes, capa de fel­tro azul, ros­to de cou­ro cur­ti­do, olhar de águia me aguar­dan­do sem pro­sa, pron­to para o retra­to que viria a ser — para mim e para mui­tos — emble­má­ti­co da estir­pe rija dos gerais de Guimarães. De repen­te, me olhan­do a esmo, depa­rei com a figu­ra de um homem — um vaquei­ro, tal­vez? Pedi licen­ça para tirar o seu retra­to. Sisudo e cis­ma­do, ele não quis me aten­der. Satisfeita com a sor­te, feliz da vida, com Manuelzão na máqui­na, pas­sei o dia foto­gra­fan­do boi­a­das na poei­ra do cam­po. No fim do dia, de vol­ta para Andrequicé, avis­tei a figu­ra do homem, lá me espe­ran­do, cal­mo e qui­e­to, no aguar­do de seu retra­to: era isso que ele que­ria ter. Acontece que de manhã, quan­do me viu pela pri­mei­ra vez, ficou com medo. Por ser ciga­no achou que eu era da polí­cia e esta­va lá para pren­dê-lo. Era isso, então. Como os romas da França de Sarkozy, os ciga­nos dos gerais tam­bém são mal­vis­tos, estig­ma­ti­za­dos como gatu­nos e ladrões de cava­los, víti­mas de velhos pre­con­cei­tos encra­va­dos na con­tra­mão da his­tó­ria, levan­do a guer­ras e desen­ten­di­men­tos entre nações!

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Aos orga­ni­za­do­res da Festa, a Barbara Johnsen, Junia e Pedro Fonseca, à famí­lia da Dona Lilae, aos ami­gos de Andrequicé e Três Marias, men­to­res de minha memó­ria: abra­ços e agra­de­ci­men­tos.

Nas maté­ri­as des­ta série estou acom­pa­nha­da por Felipe Lafé e Maria Luiza X. Souto; Felipe — edi­tor de vídeo — com quem tra­ba­lho há dois anos na bus­ca sele­ti­va e na decu­pa­gem de memó­ria, maté­ria-pri­ma para Equivalências, um docu­men­tá­rio lon­ga-metra­gem em via de pre­pa­ra­ção, e Maria Luíza X. Souto — poe­ta e pre­pa­ra­do­ra de tex­to -, que­ri­da ami­ga com quem varo a noi­te no buri­la­men­to da pala­vra, suas ento­na­ções e ima­gi­na­ções.

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