Intercâmbio cultural

Colunistas

06.01.12

Depois de nove meses gozan­do do sen­ti­do de ordem dos ale­mães, fui pas­sar o Natal no Rio. E o que é que nove meses, a levar pito de velhi­nhas toda vez que atra­ves­sa­va a rua com o sinal de pedes­tres fecha­do (e sem nenhum car­ro vin­do de lugar nenhum) ou pega­va a ciclo­via na con­tra­mão ou atra­ves­sa­va na fai­xa de pedes­tres sem des­mon­tar da bici­cle­ta, fize­ram comi­go? Já não sou capaz de ver nada além de sexo nas ruas (e ciclo­vi­as) do Rio.

Fiquei na mai­or exci­ta­ção quan­do sou­be que, assim como em Paris, Bruxelas e Berlim, ago­ra tam­bém há bici­cle­tas públi­cas no Rio de Janeiro. Baixei o apli­ca­ti­vo no meu tele­fo­ne antes mes­mo de pegar o avião e cor­ri para a esta­ção mais pró­xi­ma de casa assim que che­guei à cida­de, no final da tar­de, quan­do todo mun­do esta­va sain­do da praia, de bici­cle­ta. Só res­ta­va uma na esta­ção da Aníbal de Mendonça. Tive sor­te de che­gar segun­dos antes de um casal de banhis­tas. Estavam deter­mi­na­dos a pegar aque­la bici­cle­ta. E resol­ve­ram espe­rar ao meu lado, no caso de algu­ma coi­sa não fun­ci­o­nar, enquan­to eu dis­ca­va o núme­ro indi­ca­do para libe­rá-la. Ao meu lado é brin­ca­dei­ra. Resolveram espe­rar a dez cen­tí­me­tros de mim, para não dei­xar dúvi­da quan­to à sua pre­ce­dên­cia no caso de eu dar com os bur­ros na água. E como não tinham nada a fazer além de me secar, e para não per­der tem­po enquan­to espe­ra­vam, de biquí­ni e sun­ga, resol­ve­ram dar um chu­pão.

Não será por estar na Alemanha há nove meses, levan­do pito de velhi­nhas, que eu ago­ra vou lide­rar a cru­za­da das senho­ras cató­li­cas con­tra o chu­pão. Mas havia ali um negó­cio cons­pí­cuo: o casal tinha se pos­ta­do lite­ral­men­te a dez cen­tí­me­tros de mim, o que tor­na­va mui­to mais com­pli­ca­dos — extre­ma­men­te com­pli­ca­dos — o pro­ces­so de libe­ra­ção da bici­cle­ta e a minha con­cen­tra­ção dian­te dos mala­ba­ris­mos de lín­guas e bocas. Eu esta­va fas­ci­na­do. Já não ouvia qual núme­ro devia aper­tar no tele­fo­ne. Talvez fos­se uma táti­ca de guer­ra do casal. De qual­quer jei­to, gra­ças a um esfor­ço redo­bra­do para pen­sar em outras coi­sas, saí ven­ce­dor. Era um casal sim­pá­ti­co. E tinha espí­ri­to espor­ti­vo. Assim que libe­rei a bici­cle­ta, para­ram de se bei­jar, sor­ri­ram e foram embo­ra resig­na­dos.

Se é que ain­da havia algu­ma dúvi­da, os pri­mei­ros metros na ciclo­via dei­xa­ram bem cla­ro que eu já não esta­va em Berlim, per­se­gui­do por velhi­nhas a zelar pela obe­di­ên­cia à lei. Mas isso não se tra­du­zia neces­sa­ri­a­men­te em liber­da­de. Logo enten­di que, como na vida, tudo é pos­sí­vel numa ciclo­via cari­o­ca. “É o mai­or estres­se”, con­fir­mou depois o filho de ami­gos, que no mes­mo dia pre­fe­riu cor­rer o ris­co de ser atro­pe­la­do por um car­ro na rua a con­ti­nu­ar com a bici­cle­ta des­vi­an­do do ines­pe­ra­do na ciclo­via da praia. É cla­ro que tudo tem um lado posi­ti­vo — e, nes­se caso, o exer­cí­cio pelo menos é com­ple­to, físi­co e men­tal. A ciclo­via cari­o­ca exi­ge do ciclis­ta uma aten­ção per­ma­nen­te, cobrin­do 180 graus, para não se esbor­ra­char com ska­tes, bici­cle­tas, car­ro­ci­nha de pico­lé ou o que quer que venha na con­tra­mão. Sem falar nos cachor­ros e pedes­tres que sur­gem do nada, quan­do menos se espe­ra, para pas­se­ar e cor­rer na ciclo­via. Só os ciclis­tas não estão ali a pas­seio.

Ao me ver vin­do em velo­ci­da­de ace­le­ra­da (e esta­be­le­cer o que se cha­ma “con­ta­to ocu­lar”), uma banhis­ta, que arras­ta­va pela cal­ça­da uma cri­an­ça aos ber­ros, apro­vei­tou para pular na minha fren­te, como se qui­ses­se tes­tar os frei­os da bici­cle­ta e os meus refle­xos, e bem son­sa, dan­do pin­ta de cachor­ra, arre­ma­tou, sor­rin­do: “Ai, des-cul-pa…”, antes de sair rebo­lan­do, puxan­do a cri­an­ça aos gri­tos. Não havia uma úni­ca velhi­nha ale­mã a quem eu pudes­se recor­rer para expres­sar a minha exas­pe­ra­ção.

Tampouco adi­an­ta­va tocar a sine­ta aca­nha­da da bici­cle­ta para aler­tar velhos ami­gos que se reen­con­tra­vam e con­ver­sa­vam ani­ma­da­men­te, na ciclo­via, sobre os anos que pas­sa­ram sem se ver; ou o ine­vi­tá­vel casal (mais um) se bei­jan­do num amas­so indi­fe­ren­te a ska­tes, bici­cle­tas e car­ro­ci­nhas de pico­lé. A sine­ta só ser­ve para ati­çar o espí­ri­to de ska­tis­tas a mil pela con­tra­mão, com o nariz empi­na­do, pron­tos a desa­fi­ar o seu san­gue frio e ver até onde você aguen­ta antes de des­vi­ar. Também na ciclo­via, pai bom­ba­do, de sun­ga e tatu­a­gem, e mãe gos­to­sa, de fio den­tal, garan­ti­am ao filho e à filha, peque­nos e boqui­a­ber­tos, que Papai Noel exis­te (e tinham a pro­va: se a fula­ni­nha ganha­ra pas­sa­gem pra Disney bem antes do Natal, e já esta­va lá, era por­que o Papai Noel é um só e os pre­sen­tes são tan­tos que ele tem de ir adi­an­tan­do o ser­vi­ço pra poder dar con­ta do reca­do).

Olha só: fiquei pre­o­cu­pa­do. Só me fal­ta­va vol­tar pro Brasil pos­suí­do pelo espí­ri­to de velhi­nhas prus­si­a­nas, acos­tu­ma­das a con­vi­ver em paz com gen­te que tira a rou­pa em públi­co ao pri­mei­ro raio de sol, expon­do cor­pos asse­xu­a­dos em locais reser­va­dos pra isso, em par­ques, prai­as e lagos, mas que pas­sam a bran­dir a ben­ga­la assim que detec­tam o menor sinal de trans­gres­são. Berlim é sem a menor som­bra de dúvi­da uma das cida­des mais libe­rais do pla­ne­ta, pro­va­vel­men­te mui­to mais libe­ral que o Rio em um mon­te de coi­sas. Em Berlim, há lugar pra tudo e pra todo mun­do, para os nus e para os ves­ti­dos, mas com fron­tei­ras mui­to bem demar­ca­das entre o públi­co e o pri­va­do, cada coi­sa no seu lugar, sem ris­cos nem aven­tu­ras. No Rio, todo mun­do está mais ou menos nu em toda par­te (e não é à toa que é proi­bi­do tirar a rou­pa na praia, uma vez que não exis­te cor­po asse­xu­a­do) e até andar de bici­cle­ta em ciclo­via é uma aven­tu­ra de alto ris­co. Foi pre­ci­so um ami­go, que de ale­mão e de cató­li­co não tem nada, me dizer, baban­do de feli­ci­da­de, que nes­te final de ano o Rio esta­va espe­ci­al­men­te “feroz”, para eu enten­der que não tinha sido o úni­co a notar. E, de vol­ta ao mun­do pre­vi­sí­vel das velhi­nhas prus­si­a­nas, pas­sar a defen­der urgen­te­men­te o inter­câm­bio cul­tu­ral. Pelo bem dos dois mun­dos. 

* Na ima­gem que ilus­tra este post: Everything you own, inclu­ding the shirt off my back (2009), ins­ta­la­ção da artis­ta ame­ri­ca­na Mary Mattingly

, , , , , , , , ,