Notas sobre Emygdio e Raphael

Artes

26.05.13
Emygdio de Barros, <em>Sem título</em> (1967) [Museu de Imagens do Inconsciente]
Emygdio de Barros, Sem títu­lo (1967) [Museu de Imagens do Inconsciente]

Já tinha vis­to tra­ba­lhos de Raphael Domingues e Emygdio de Barros em outras opor­tu­ni­da­des, mas foi com a abran­gen­te expo­si­ção Raphael e Emygdio: Dois moder­nos no Engenho de Dentro, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, que conhe­ci de fato a dimen­são da obra des­ses dois artis­tas. Sabia da inven­ti­vi­da­de do tra­ço de Raphael, de sua capa­ci­da­de em des­do­brar uma silhu­e­ta sim­ples em sig­ni­fi­ca­dos figu­ra­ti­vos aber­tos e livres. Tal como sabia o colo­ris­ta sofis­ti­ca­do que Emygdio foi.

Ambos se tor­na­ram conhe­ci­dos como paci­en­tes do Setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação do Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, coor­de­na­do pela dou­to­ra Nise da Silveira. Por isso, no mais das vezes eram apre­sen­ta­dos em expo­si­ções que rela­ci­o­na­vam a arte ao sofri­men­to men­tal.

Não sou capaz de dizer o que os tra­ba­lhos expos­tos no Instituto Moreira Salles podem nos ensi­nar sobre os sin­to­mas da lou­cu­ra e suas tera­pi­as. Acredito que mui­ta coi­sa. No entan­to, na mos­tra a obra deles é apre­sen­ta­da inde­pen­den­te do diag­nós­ti­co médi­co, o que é mui­to bom. Conseguimos enten­der que o tra­ba­lho não é um sin­to­ma nem uma excen­tri­ci­da­de da doen­ça; é o esfor­ço para cri­ar uma for­ma de comu­ni­ca­ção com o mun­do. Esses artis­tas desen­vol­ve­ram um voca­bu­lá­rio visu­al, cer­tos inte­res­ses esté­ti­cos e uma lin­gua­gem pecu­li­ar. Linguagem, aliás, que nos per­mi­te colo­cá-los entre os gran­des cri­a­do­res bra­si­lei­ros.

Olhando os peque­nos tra­ba­lhos de Emygdio, acre­di­to que pou­cos pin­to­res bra­si­lei­ros con­se­gui­ri­am usar bem a vari­e­da­de cro­má­ti­ca do artis­ta nos seus tra­ba­lhos dos anos 1970 num espa­ço tão exí­guo. As ima­gens se esta­be­le­cem por con­tras­tes níti­dos, por rela­ções entre mati­zes dis­per­sos que se apro­xi­mam e cri­am uma região de cor e pelo mode­la­do da tin­ta que nos faz ver algo em meio ao colo­ri­do sol­to. A vari­e­da­de de sen­ti­dos que o artis­ta con­se­gue na rela­ção entre áre­as de con­cen­tra­ção e dis­per­são das pin­ce­la­das é enor­me, como lem­bra Rodrigo Naves no catá­lo­go da expo­si­ção.

No entan­to, em vári­as pin­tu­ras, per­so­na­gens mais bem con­tor­na­dos se põem a con­tem­plar a natu­re­za. Ela apa­re­ce como água, mata, vege­ta­ção na pra­ça e flor no jar­dim. Em cada momen­to pro­va­vel­men­te guar­da um sen­ti­do espe­cí­fi­co, por isso, cada pin­tu­ra deve­ria ser ana­li­sa­da com mais vagar. São sem­pre os momen­tos em que esses per­so­na­gens pare­cem con­se­guir aqui­e­tar o mun­do e enxer­gar algu­ma bele­za.

Olhamos para algo que se for­ma com mais aten­ção do que para as outras par­tes da pin­tu­ra. Assim como aque­les per­so­na­gens miram o mar e dão as cos­tas para a praia; olham para a flor e dão as cos­tas para a vege­ta­ção desor­de­na­da da pra­ça.

Prestamos aten­ção em figu­ras e for­mas que sur­gem entre as bor­das da super­fí­cie menos pin­ta­da, atra­vés da jane­la, atrás das árvo­res. Em algu­mas pin­tu­ras, a osci­la­ção do azul pare­ce se vol­tar para as memó­ri­as da vida de con­vés de Emygdio; em um peque­no óleo sobre papel, nos faz olhar para uma tela vazia no can­to esquer­do. De qual­quer for­ma, sem­pre cria áre­as de con­cen­tra­ção, em uma expe­ri­ên­cia que suge­re a dis­per­são.

Rodrigo Naves, ao com­pa­rar o colo­ri­do de Emygdio com o dos expres­si­o­nis­tas ale­mães, diz que o bra­si­lei­ro “pre­ci­sou pagar o pre­ço de satis­fa­zer-se ape­nas com o encan­ta­men­to de regiões limi­ta­das da rea­li­da­de”. Se não me enga­no, embo­ra a fra­se seja mui­to mais abran­gen­te, pode falar de uma pro­cu­ra por defi­ni­ção onde tudo pare­ce dis­per­so.

Raphael Domingues, <em>Sem título</em> (1949) [Museu de Imagens do Inconsciente]
Raphael Domingues, Sem títu­lo (1949) [Museu de Imagens do Inconsciente]

O tra­ba­lho de Raphael pare­ce um des­do­brar infin­dá­vel de sig­nos do tra­ço. No tex­to do catá­lo­go, Heloisa Espada con­ta que, ao ingres­sar na tera­pia, Raphael só dese­nha­va tra­ci­nhos a se cru­za­rem, for­man­do sig­nos geo­mé­tri­cos. O artis­ta só come­çou a dese­nhar figu­ras a pedi­do de um fun­ci­o­ná­rio da casa. É inte­res­san­te como Raphael se vale de um voca­bu­lá­rio de sig­nos mais ou menos abs­tra­tos para cri­ar retra­tos, natu­re­zas-mor­tas e ima­gens com gêne­ro menos iden­ti­fi­cá­vel.

Sua linha con­tí­nua tra­ça­va for­mas sim­ples que suge­ri­am ros­tos, flo­res e vasos. A prin­cí­pio são suges­tões vagas. Tornam-se mais pre­ci­sas quan­do o artis­ta pen­du­ra a essas silhu­e­tas ele­men­tos deco­ra­ti­vos, igual­men­te lím­pi­dos, que nos fazem lem­brar olhos, pál­pe­bras e lábi­os. Mas são ele­men­tos sol­tos na com­po­si­ção. Parecem brin­cos. Não estão vin­cu­la­dos ao cor­po por uma pele, são linhas pró­xi­mas umas das outras.

Assim como o tra­ça­do é cla­ro, lim­po, cer­tei­ro e sin­té­ti­co, ele tam­bém pare­ce ins­tá­vel. Notamos isso ao per­ce­ber a quan­ti­da­de de sig­ni­fi­ca­dos que os sím­bo­los dis­pos­tos em um retra­to de Almir Mavignier e Abraham Palatnik podem ter. Em outro retra­to, de sua mãe, um dos tra­ba­lhos mais boni­tos da expo­si­ção, a ima­gem pare­ce ain­da mais frá­gil, dan­do a impres­são de ser uma cola­gem arbi­trá­ria daque­les sig­nos. Mas temos uma ima­gem deli­ca­da e bem humo­ra­da.

É como se, arran­jan­do as coi­sas sobre um lugar, Raphael encon­tras­se cer­ta ordem. Ela não dura mui­to tem­po, mas é suge­ri­da. O tra­ço depois foge pela mar­gem direi­ta do papel, como foge num belo retra­to de Abraham Palatnik. Talvez por isso seus melho­res tra­ba­lhos sejam natu­re­zas-mor­tas, o gêne­ro que dis­põe obje­tos ina­ni­ma­dos com cer­ta ordem sobre uma super­fí­cie qual­quer.

Curioso como em uma expo­si­ção con­se­gui­mos encon­trar afi­ni­da­des entre artis­tas tão des­se­me­lhan­te quan­to Emygdio e Raphael. Acredito que as ima­gens de um pou­co tenham a ver com as do outro, mas a repre­sen­ta­ção não apa­re­ce como algo está­vel em nenhum dos dois artis­tas. Ambos, no entan­to, pro­cu­ram uma ima­gem regu­lar, con­cen­tra­da e com cer­to lam­pe­jo de encan­ta­men­to.

* Tiago Mesquita é crí­ti­co e pro­fes­sor de his­tó­ria da arte.

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