Flor do Mal revisitada

Cultura

12.12.17

Entre 2015 e 2016, man­ti­ve, em par­ce­ria com o Cesi­nha Oiti­ci­ca, um peque­no espa­ço cul­tu­ral em Ipa­ne­ma, a Índi­ca. Era uma sala no mes­mo sub­so­lo do pré­dio na Pra­ça Gene­ral Osó­rio que nos anos 1970 abri­gou a Livra­ria Muro, e onde come­ça­ram as míti­cas Arti­ma­nhas da Nuvem Ciga­na. Mis­to de espa­ço expo­si­ti­vo, loja de arte indí­ge­na e pon­to de encon­tro, o nos­so espa­ço sedi­ou alguns ciclos de con­ver­sas sobre cul­tu­ra. O mais mar­can­te deles, pos­si­vel­men­te, foi o de encon­tros sobre revis­tas de cul­tu­ra. Con­vi­da­mos edi­to­res e cola­bo­ra­do­res de impor­tan­tes revis­tas dos últi­mos 60 anos para dar depoi­men­to sobre suas expe­ri­ên­ci­as. Nomes como Sil­vi­a­no San­ti­a­go, falan­do sobre a minei­ra Revis­ta de Cine­ma, Pau­lo Rober­to Pires, sobre a ser­ro­te, Pau­li­nho Wer­neck, sobre a Áca­ro, Luís Turi­ba, sobre a Bric-a-brac, e Clau­dio Loba­to, sobre o Alma­na­que Biotô­ni­co Vita­li­da­de. Para abrir o ciclo, em feve­rei­ro do ano pas­sa­do, con­vi­dei o Luiz Car­los Maci­el, que fez um depoi­men­to sobre a Flor do Mal, o tabloi­de con­tra­cul­tu­ral que edi­tou nos anos 1970 em par­ce­ria com Rogé­rio Duar­te. Foi um suces­so: mais de 50 pes­so­as abar­ro­ta­ram a sala para ver Maci­el con­tar as suas his­tó­ri­as de épo­ca. É esta con­ver­sa que repro­du­zi­mos em pri­mei­ra mão aqui.

Naque­le momen­to, em 2016, eu esta­va con­vi­ven­do inten­sa­men­te com Maci­el. Reu­nía­mo-nos sema­nal­men­te, para fazer a lon­ga entre­vis­ta que fecha­rá o volu­me em sua home­na­gem na cole­ção Encon­tros. Eu ia para o seu apar­ta­men­to, gra­vá­va­mos a entre­vis­ta no seu peque­no escri­tó­rio, com os seus gatos ouvin­do aten­ta­men­te ou pas­san­do por entre nos­sas per­nas, e depois seguía­mos ao Desa­ca­to para tomar cer­ve­ja e seguir a con­ver­sa. Algu­mas vezes, ia encon­trar Maci­el ape­nas para uma cer­ve­ja. Ele me espe­ra­va no saguão do pré­dio e andá­va­mos jun­tos os 50 metros até o bar. Com o enfi­se­ma pul­mo­nar avan­ça­do, essa cami­nha­da já era uma pere­gri­na­ção para ele: pre­ci­sa­va parar uma ou duas vezes no cami­nho, para tomar fôle­go, e depois, sen­ta­do no bar, espe­ra­va alguns minu­tos para se recu­pe­rar. Depois dis­so, a con­ver­sa cor­ria sol­ta. Con­ta­va his­tó­ria, dis­cu­tia polí­ti­ca, fala­va dos ami­gos. O seu humor não per­do­a­va nin­guém. Quer dizer, nenhum ami­go. Por­que, em todas as con­ver­sas, nun­ca sou­be se tinha algum ini­mi­go pes­so­al. Não pare­cia, ao menos, per­der tem­po com eles. Um dia, con­ver­sa­mos sobre isso, e rimos sol­to lem­bran­do a máxi­ma sem­pre repe­ti­da por Jor­ge Maut­ner: “Não falo sobre os meus ini­mi­gos para não eter­ni­zar os seus nomes”. Risa­da, aliás, nun­ca fal­ta­va. E esta não pare­cia tirar o seu fôle­go.

Duran­te as nos­sas con­ver­sas, não para­vam de sur­gir pro­je­tos. Maci­el sabia que esta­va cor­ren­do con­tra o tem­po, mas não iria nun­ca desis­tir da vida. Um dos que mais o empol­gou foi o de fazer um livro cha­ma­do Rosa dos Ven­tos, dis­cu­tin­do os seus qua­tro pon­tos car­de­ais, os auto­res que nor­te­a­ram a sua vida: Mar­tin Hei­deg­ger, Nor­man O. Brown, Car­los Cas­tañe­da e Phi­lip K. Dick. Che­gou a anun­ci­ar o pro­je­to publi­ca­men­te. Seria um belís­si­mo livro. E, entre cer­ve­jas, havia tam­bém con­fis­sões. Como quan­do con­tou, rin­do, que o decá­lo­go polí­ti­co que ele apre­sen­tou no pro­gra­ma Aber­tu­ra, do Glau­ber Rocha, era uma cópia des­la­va­da do mani­fes­to de John Sin­clair para o Whi­te Panther­Party. Glau­ber havia pedi­do que ele fizes­se o pro­gra­ma de um par­ti­do novo para o dia seguin­te, e Maci­el então, asso­ber­ba­do, deci­diu tra­du­zir o mani­fes­to de Sin­clair. Fica­va um pou­co enver­go­nha­do de ver o suces­so que o vídeo fazia no You­tu­be. Mas nada que atra­pa­lhas­se o seu humor. E a inte­li­gên­cia de suas colo­ca­ções. A sua fala final na con­ver­sa com Glau­ber é de um bri­lhan­tis­mo ímpar.

Foi um pri­vi­lé­gio poder brin­dar a vida com Maci­el. Quan­do sou­be da sua mor­te, sába­do, 9 de dezem­bro, fiquei arra­sa­do. Per­ce­bi que per­dia não ape­nas um autor de pre­di­le­ção, mas tam­bém um ami­go, uma pes­soa com quem com­par­ti­lhei idei­as, ale­gri­as e medos. Estou fina­li­zan­do o livro com suas entre­vis­tas, que sai­rá pela Azou­gue Edi­to­ri­al no come­ço de 2018. Uma pena que ele não pos­sa ter vis­to o livro edi­ta­do, mas segui­mos. A vida é assim, e seus pen­sa­men­tos e rela­tos seguem poten­tes e neces­sá­ri­os. Maci­el tinha um espí­ri­to defi­ni­do, e sou­be como pou­cos, para citar seu ami­go Cae­ta­no, espa­lhar bene­fí­ci­os. Estes ficam.

 

Luiz Carlos Maciel

Luiz Car­los Maci­el

 

A entre­vis­ta sobre a Flor do Mal

Maci­el, você teve uma par­ti­ci­pa­ção mui­to impor­tan­te na his­tó­ria das publi­ca­ções inde­pen­den­tes que sur­gi­ram do fim dos anos 1960 até mea­dos dos anos 1970. E hoje gos­ta­ria de con­ver­sar sobre uma em espe­ci­al, a Flor do Mal. É cla­ro que, para con­tar essa his­tó­ria, tere­mos que pas­sar pelas outras publi­ca­ções que você par­ti­ci­pou, pelo Pas­quim, pela Rol­ling Sto­ne

Curi­o­so que a Flor do Mal tem rea­pa­re­ci­do na minha vida nos últi­mos tem­pos. Atu­al­men­te, depois de mui­ta resis­tên­cia, eu tenho fre­quen­ta­do as redes soci­ais. Antes, eu ado­ta­va duas fra­ses sobre elas, espe­ci­al­men­te as redes mais famo­sas atu­al­men­te. O Twit­ter era defi­ni­do pelo seguin­te: a melhor manei­ra de não escre­ver nada para milha­res de pes­so­as. E o Face­bo­ok, a melhor manei­ra de arran­jar mais cha­tos na sua vida. Mas aca­bei entran­do, e tenho reen­con­tra­do e encon­tra­do ami­gos nelas. Um novo ami­go é o Gerald Tho­mas, o gran­de dire­tor de tea­tro, inter­na­ci­o­nal­men­te famo­so, intei­ra­men­te lou­co, fei­to eu, fei­to Glau­ber. Por­que eu sou meio que um para-rai­os de malu­co. O Gerald me pro­cu­rou com um amor, com uma admi­ra­ção que me dei­xou espan­ta­do. E hoje eu comen­tei com ele que ia fazer essa fala sobre a Flor do Mal, e ele dis­se, “A Flor do Mal, aque­la mara­vi­lha? Quan­do eu tinha 14 anos eu ado­ra­va a Flor do Mal” – ele é bem mais novo do que eu – “Você sabia que a pri­mei­ra coi­sa que eu publi­quei na impren­sa foi um dese­nho que eu fiz e man­dei para vocês, e vocês publi­ca­ram na Flor do Mal?”

Nun­ca me pas­sou pela cabe­ça que a Flor do Mal tives­se esse fã, uma ver­da­dei­ra “maca­ca de audi­tó­rio”, que é o Gerald Tho­mas. E con­ver­san­do com ele eu per­ce­bi essa coi­sa estra­nha, que eu tinha qua­se esque­ci­do da Flor do Mal duran­te uma épo­ca da minha vida, por­que afi­nal de con­tas não deu cer­to, durou pou­co tem­po. Como era fre­quen­te nes­sas publi­ca­ções cul­tu­rais da épo­ca, de fazer alguns núme­ros e então ter­mi­nar. A Pre­sen­ça, aqui no Rio de Janei­ro, teve ape­nas dois núme­ros… Era assim. A Rol­ling Sto­ne bra­si­lei­ra que eu fiz, e não tem nada a ver com essa coi­sa da Rol­ling Sto­ne de hoje em dia, durou um ano e aí tam­bém parou. A Flor do Mal foram cin­co núme­ros. E fiquei pen­san­do como algo que eu con­si­de­ra­va que tinha dado erra­do, que nem pres­ta­va mui­ta aten­ção na minha tra­je­tó­ria, pode­ria ter influ­en­ci­a­do tão for­te­men­te pes­so­as que admi­ro.

A par­tir dis­so, come­cei a me lem­brar da his­tó­ria da Flor do Mal. Como você dis­se, para falar dela, é pre­ci­so antes falar d’O Pas­quim. Por­que a Flor do Mal nas­ceu d’O Pas­quim. Ou, mais exa­ta­men­te, a Flor do Mal nas­ceu numa cela do quar­tel de manu­ten­ção de arma­men­to da Vila Mili­tar. Por­que nas­ceu quan­do o exér­ci­to, base­a­do na lei de segu­ran­ça naci­o­nal da épo­ca, pegou a reda­ção d’O Pas­quim intei­ra, com uma ou duas exce­ções, e botou tudo em cana na Vila Mili­tar. Ini­ci­al­men­te nós fica­mos todos em duas celas da bri­ga­da aero­ter­res­tre, que era dos para­que­dis­tas. Depois que come­ça­ram os inter­ro­ga­tó­ri­os, fomos divi­di­dos. Quem come­çou os inter­ro­ga­tó­ri­os foi um capi­tão que era o che­fe da comis­são do inqué­ri­to sobre O Pas­quim. Ele nos inter­ro­ga­va indi­vi­du­al­men­te no pré­dio do quar­tel-gene­ral da vila mili­tar. Havia uma sala lá onde eles nos rece­bi­am mui­to bem, e fica­vam que­ren­do saber como é que che­ga­va o ouro de Mos­cou, ou seja, o dinhei­ro da União Sovié­ti­ca, que segun­do o res­pon­sá­vel pelo inqué­ri­to era o que sub­ven­ci­o­na­va O Pas­quim para pre­pa­rar a revo­lu­ção comu­nis­ta no Bra­sil e der­ru­bar o gover­no mili­tar. Essas coi­sas de mili­co. Lem­bro até que eu virei pra um capi­tão e dis­se assim: “Se esses via­dos des­ses filhos da puta do Jaguar, Tar­so de Cas­tro, Ser­gio Cabral, que são os donos do jor­nal, se eles tão ganhan­do gra­na de Mos­cou, eu vou dar por­ra­da neles, por­que não me deram nem um tos­tão, por­ra!”

Então está­va­mos pre­sos. Depois que a gen­te pres­ta­va esse depoi­men­to, não vol­ta­va mais para aque­la cela da bri­ga­da aero­ter­res­tre, por­que lá a gen­te iria encon­trar todos os com­pa­nhei­ros. Senão eles iam per­gun­tar como foram os inqué­ri­tos, saber as ques­tões colo­ca­das, nós íamos dizer, e eles pode­ri­am pre­pa­rar res­pos­tas men­ti­ro­sas para quan­do fos­se a vez deles. Então nos man­da­vam para outro lugar. Aí, eu fui parar no bata­lhão de manu­ten­ção de arma­men­tos. Quan­do eu che­guei lá tinham duas filei­ras de sol­da­dos. Eu fui, pas­sei no cor­re­dor polo­nês para entrar numa cela onde eu fui tran­ca­fi­a­do logo, e quem esta­va lá eram aque­les que já havi­am sido inter­ro­ga­dos. Era o fale­ci­do For­tu­na, o José Gros­sy, que era dire­tor do Jor­nal, e o Ser­gio Cabral, que era o edi­tor-che­fe. O Ser­gio Cabral era pra­ti­ca­men­te quem man­da­va n’O Pas­quim naque­le momen­to. Então eu fiquei lá na cela com eles, e depois rece­bi uma visi­ta do coman­dan­te do quar­tel, que era o coro­nel Cha­cri­nha. Esse era o ape­li­do do coro­nel, os sol­da­dos o cha­ma­vam assim por­que ele era pare­ci­do com o apre­sen­ta­dor de tele­vi­são. Era um vovô. Ele invo­cou logo com o meu cabe­lo, por­que eu era da con­tra­cul­tu­ra e tinha um cabe­lo até as cos­tas. E ele dis­se assim: “Ih, por­que é que você usa esse cabe­lo”? Ai eu dis­se: “Coro­nel, uso por­que acho boni­to”. E ele: “Boni­to? Uma coi­sa feia des­sas”? Para você ver a dife­ren­ça de gos­to esté­ti­co entre o pre­so e o seu car­ce­rei­ro…

Nós fica­mos vári­os dias, sema­nas, naque­le quar­tel. Esta­va o Ziral­do tam­bém, na mes­ma cela. Ziral­do, Ser­gio Cabral, Gros­sy e eu. Os outros, Pau­lo Fran­cis, Jaguar, Fla­vio Ran­gel, Tar­so de Cas­tro, tinham ido para outros para­dei­ros. Então, num momen­to… Eu acho que isso acon­te­ceu depois que cor­ta­ram meus cabe­los, por­que teve um momen­to em que a gen­te esta­va na cela e che­gou um cabo com dois sol­da­dos arma­dos de fuzil, apon­ta­ram pra mim e me fize­ram sair da cela. E eu fui sen­do escol­ta­do pelo pátio do quar­tel, sen­do con­du­zi­do não sabia para onde. Pro­va­vel­men­te para ser fuzi­la­do, era o que me pas­sa­va pela cabe­ça. Mas logo esse medo saiu da minha cabe­ça quan­do, atra­ves­san­do o pátio, eu vi que nós está­va­mos indo na dire­ção da bar­be­a­ria do quar­tel. Para o salão de bar­bei­ros, onde já me espe­ra­va o bar­bei­ro, civil. E aí, ele me sen­tou na cadei­ra de bar­bei­ro, che­gou assim no meu ouvi­do: “Como é que o senhor quer que eu faça o seu cabe­lo?” E eu: “Pode cor­tar de qual­quer jei­to, já que está sen­do cor­ta­do à for­ça mes­mo. Eu não que­ro cor­tar o cabe­lo, pas­sa uma máqui­na zero”. Aí ele che­gou e dis­se assim: “Olha, então vou fazer para o senhor o cor­te soci­al para ofi­ci­ais”, que não era o cor­te dos recru­tas, com a cabe­ça ras­pa­da. Aliás, a cer­ta dis­tân­cia, fica­va tran­si­tan­do um tenen­te, que eu fui saber depois que era o ofi­ci­al do dia, e que tinha fica­do toman­do con­ta do quar­tel duran­te o fim de sema­na. Ele que tinha dado a ordem para me cor­ta­rem o cabe­lo. E aí foi engra­ça­do, por­que o bar­bei­ro ter­mi­nou, trou­xe um espe­lho pra me mos­trar como ficou o cor­te atrás, se eu apro­va­va, e eu fiz um cho­ro, não quis olhar. De repen­te, olhei para o espe­lho, olhei para o cabe­lo do tenen­te, e esta­va igual! Era o mes­mo sujei­to, evi­den­te­men­te, que tinha cor­ta­do o cabe­lo do tenen­te.

Nis­so acon­te­ceu que os sub­ver­si­vos seques­tram o embai­xa­dor nor­te-ame­ri­ca­no. Antes, já tinham seques­tra­do o embai­xa­dor ale­mão. Aí, à noi­te, esta­mos todos na cela, e entra um tenen­te para­que­dis­ta – for­ti­nho, boni­ti­nho, bem jovem – dizen­do assim: “Ah, eu sou admi­ra­dor de vocês, estou sem­pre em Ipa­ne­ma, fre­quen­to os bares de Ipa­ne­ma, tomo cho­pe nos bares de Ipa­ne­ma igual a vocês”, dan­do uma de avan­ça­di­nho, na con­cep­ção dele. E ele nos pas­sou uma por­ção de folhas de papel alma­ço e cane­ti­nhas BIC e dis­se: “É o seguin­te: vocês têm que escre­ver de pró­prio punho que vocês rejei­tam a ação des­ses ter­ro­ris­tas que estão fazen­do essas guer­ri­lhas e que­rem der­ru­bar o gover­no, e que vocês são con­tra isso, por­que isso pode aju­dar a liber­ta­ção de vocês”. Aí, cada um pegou o seu papel e foi escre­ver sua decla­ra­ção. O For­tu­na escre­veu a dele e mor­reu de rir, por­que a decla­ra­ção dele era uma fra­se só. O Ziral­do tal­vez não gos­te que eu con­te isso, mas ele foi escre­ver a dele no banhei­ro, por­que esta­va se bor­ran­do. Eu sen­tei lá e escre­vi a minha. E dis­se assim: “Eu repu­dio a ação dos ter­ro­ris­tas, con­fio na jus­ti­ça do Bra­sil, e sou ino­cen­te e isso será reco­nhe­ci­do na jus­ti­ça” e tal, essa con­ver­sa fia­da, mas no final botei assim: “Ago­ra, eu tive meus cabe­los cor­ta­dos à for­ça den­tro do quar­tel. Não sei de lei nenhu­ma que auto­ri­ze a que cor­tem o cabe­lo de um pre­so que não foi sequer jul­ga­do, mui­to menos con­de­na­do. Então, eu que­ro dei­xar cla­ro meu pro­tes­to con­tra essa deci­são arbi­trá­ria de terem cor­ta­do meu cabe­lo”. Che­ga no outro dia e vem lá um sar­gen­to e diz: “Pre­so Luiz Car­los Maci­el, venha comi­go, o senhor foi cha­ma­do”. Aí foi e me levou lá no QG da Vila Mili­tar, na sala onde tinha o capi­tão que era o encar­re­ga­do do nos­so inqué­ri­to. Toda vez que eu ia lá depor, ele levan­ta­va sor­ri­den­te, esten­dia a mão, aper­ta­va, man­da­va eu sen­tar, tudo assim super­ci­vi­li­za­do, sabe? Mas nes­se dia ele esta­va uma fera: não sor­riu pra mim, não me aper­tou a mão, e dis­se assim: “Man­da­ram mexer nos seus cabe­los?” Eu dis­se: “Pois é, capi­tão”… E ele: “Você fez uma denún­cia na sua decla­ra­ção por cau­sa dos seus cabe­los”. E eu: “Pois é, capi­tão, são os meus direi­tos, não dei per­mis­são para nin­guém cor­tar meus cabe­los, cor­ta­ram”. E con­tei a his­tó­ria. Aí entrou uma aju­dan­te dele e dis­se qual­quer coi­sa bai­xi­nho no ouvi­do dele, e ele dis­se: “Man­da ele entrar”, e me dis­se: “Você vai pra outra sala”. Eu fui pra outra sala e quem entrou foi o tenen­te que tinha man­da­do me cor­ta­rem os cabe­los. Aí, eu não vi a cena, mas eu ouvi, por­que o capi­tão esta­va puto, e dizia assim: “Quem o senhor pen­sa que é pra ficar cor­tan­do cabe­lo de pre­so sem auto­ri­za­ção? O senhor não tem auto­no­mia pra isso, pra tomar uma deci­são des­sas… Vai ficar deti­do den­tro do quar­tel duran­te o fim de sema­na”!

Mas foi antes dis­so que acon­te­ceu o que é impor­tan­te con­tar aqui: quan­do eu vol­tei para a cela tosa­do das minhas madei­xas, todo mun­do ficou cho­ca­do. Ser­gio Cabral ficou cho­ca­do. O Ser­gio Cabral que era, lem­brem, o edi­tor-che­fe, man­da­va n’O Pas­quim. E essa coi­sa de você ficar pre­so den­tro de uma cela com outros caras, você cria um vín­cu­lo estra­nho com as pes­so­as que par­ti­ci­pam da mes­ma des­gra­ça que você, se for­ta­le­ce uma ami­za­de. Mes­mo que depois quan­do é sol­to se sepa­rem, e aca­bou aqui­lo, no momen­to em que você está lá den­tro da cela há uma iden­ti­fi­ca­ção mis­te­ri­o­sa entre os cole­gas de cana. Já era algo sabi­do que quem fica na mes­ma cela cria um laço. Por­que nós éra­mos pre­sos polí­ti­cos, né? Numa épo­ca em que a gen­te ficou inco­mu­ni­cá­vel, sem rece­ber visi­tas, sem rece­ber jor­nal. Fica­mos só nós. Aí, o Ser­gio Cabral dis­se: “Maci­el, eu que­ro assu­mir com você um com­pro­mis­so, uma pro­mes­sa, um acor­do: quan­do a gen­te sair daqui, você me pede o que você qui­ser lá n’O Pas­quim, que eu dou”. Fiquei pen­san­do: “Vou pedir o que? Ser sub-dire­tor? Que­ro man­dar e des­man­dar n’O Pas­quim?” Eu não pen­sei nada dis­so. A pri­mei­ra coi­sa que me veio na cabe­ça, foi a que eu falei ime­di­a­ta­men­te: “Eu que­ro que O Pas­quim pro­du­za um jor­nal pra mim. Um sema­ná­rio, em que eu pos­sa expan­dir as pági­nas do Under­ground. Um sema­ná­rio dedi­ca­do à con­tra­cul­tu­ra. Você topa que O Pas­quim faça isso?” E ele: “Cla­ro, cla­ro, vamos fazer, nós vamos fazer isso, você vai ter seu sema­ná­rio de con­tra­cul­tu­ra”. E eu: “Então tá fecha­do”. Foi assim que nas­ceu a Flor do Mal.

Quan­do eu saí, falei com um cara que não era d’O Pas­quim, mas que era meu ami­go pes­so­al – nós ten­ta­mos fazer revis­ta e jor­nal a vida intei­ra e nun­ca con­se­gui­mos. Um des­ses jor­nais, que pen­sa­mos alguns anos depois, se cha­ma­ria Kaos, com ‘K’, por­que tinha o Jor­ge Maut­ner no meio. Mas não era o Maut­ner esse cara, era o Rogé­rio Duar­te, que eu que­ria como dire­tor de arte, um cara que con­ce­bes­se esse jor­nal con­tra­cul­tu­ral. E real­men­te a Flor do Mal é, e eu digo assim aber­ta­men­te, defi­ni­ti­va­men­te, uma obra de Rogé­rio Duar­te. O artis­ta que assi­na é o Rogé­rio Duar­te. Por­que tudo foi bola­do por ele, tudo foi pen­sa­do por ele, a come­çar pelo títu­lo, pelo nome do jor­nal. Foi ele que bolou, reti­ra­do de Bau­de­lai­re. O pri­mei­ro núme­ro tem uma epí­gra­fe que foi escri­ta com um jei­to que ele inven­tou: quan­do você vai ler o pri­mei­ro núme­ro da Flor do Mal, você tem que ficar giran­do o jor­nal – ou então você fica giran­do em vol­ta do jor­nal (risos). Mas é mais prá­ti­co girar o jor­nal do que ficar giran­do em vol­ta dele. Rogé­rio mor­ria de rir: “Sim, mas eles vão que­rer saber o que está escri­to e vão ter que ficar viran­do o jor­nal!” E ele que dese­nhou para mim as linhas em que eu deve­ria escre­ver a epí­gra­fe do jor­nal, que era uma cita­ção de Bau­de­lai­re sobre a impren­sa, sobre o sig­ni­fi­ca­do da impren­sa. Tá lá. O hor­ror que é a cha­ma­da impren­sa. E foi assim que nas­ceu a Flor do Mal: numa con­ver­sa den­tro de um quar­tel. E depois foi total­men­te cri­a­da pelo Rogé­rio. Sepa­ra­da­men­te de qual­quer esque­ma d’O Pas­quim.

O engra­ça­do é que o títu­lo foi tira­do do livro de poe­mas do Bau­de­lai­re, o Rogé­rio achou que essa era uma das flo­res do mal men­ci­o­na­das pelo Bau­de­lai­re, mas cer­tos ciclos eso­té­ri­cos não acei­ta­ram o nome, por­que tinha a pala­vra “Mal”. Eu lem­bro que che­gou a notí­cia lá pro Rogé­rio, que o Wal­ter Sme­tak, na Bahia, dizia que tinha fica­do con­tra, que ele acha­va o Rogé­rio enlou­que­ci­do, pois como “Flor do Mal”? Que o nome tinha que ser Flor Azul…

A Flor Azul do Nova­lis, sím­bo­lo dos sonhos inal­can­çá­veis dos homens…

Mas o Rogé­rio esco­lheu Flor do Mal mes­mo. Tor­qua­to Men­don­ça, que era bem pira­di­nho, ado­rou logo, deu toda a for­ça, e eu cla­ro que con­cor­dei.

O Tor­qua­to Men­don­ça fazia o que no jor­nal?

Ah, era dono, como nós. O Tor­qua­to era um hip­pie, um poe­ta, que o Rogé­rio levou tam­bém para o jor­nal. Por­que eu e o Rogé­rio nos per­mi­ti­mos cada um tra­zer outro ami­go para for­mar um quar­te­to. Então o Rogé­rio levou o Tor­qua­to Men­don­ça e eu levei o Tite de Lemos. Então éra­mos nós qua­tro que deci­día­mos tudo. Na ver­da­de, tudo que o Rogé­rio achas­se que devia ser, por­que ele era mui­to per­su­a­si­vo (risos). O Tite eu conhe­ci no tea­tro, no gru­po do Reper­tó­rio, que era o gru­po do Pau­lo Gri­sol­li, onde a gen­te tra­ba­lhou.

O Tite de Lemos era poe­ta tam­bém, aliás um exce­len­te poe­ta…

Sim. E tem uma coi­sa que a Flor do Mal her­dou d’O Pas­quim, que é uma coi­sa posi­ti­va, tal­vez a coi­sa mais posi­ti­va que acon­te­ceu lá n’O Pas­quim para o jor­na­lis­mo, e que foi o moti­vo pelo qual O Pas­quim teve a reper­cus­são que ele teve, que foi o seguin­te: de vez em quan­do, ao lon­go dos anos, eu rece­bo visi­tas de estu­dan­tes de comu­ni­ca­ção, prin­ci­pal­men­te as moças, che­gam pra mim e dizem: “Ah, meu deus do céu, como eu que­ria ter vis­to uma reu­nião de pau­ta de vocês d’O Pas­quim”. Aí eu res­pon­do assim: “Nun­ca hou­ve isso. Nun­ca hou­ve uma reu­nião de pau­ta n’O Pas­quim”. O Pas­quim era um sema­ná­rio fei­to para e por estre­las do jor­na­lis­mo que esta­vam insa­tis­fei­tos, por­que não tinham liber­da­de nos órgãos da gran­de impren­sa. Então, essa foi a ideia fun­da­men­tal do Tar­so. O Tar­so bolou isso. Ele per­ce­beu naque­le momen­to, no fim dos anos 1960, que havia uma insa­tis­fa­ção total entre os jor­na­lis­tas mais inte­res­san­tes em atu­a­ção no Rio de Janei­ro. O Pau­lo Fran­cis esta­va insa­tis­fei­to por­que não escre­via o que que­ria, o Millôr esta­va insa­tis­fei­to tam­bém, o Jaguar não podia fazer o car­tum que ele que­ria… O Tar­so per­ce­beu que daria para jun­tar esse pes­so­al todo num mes­mo jor­nal. “Vamos fazer um jor­nal, e cada um faz o que quer”. Então, se a ideia era essa, para quê reu­nião de pau­ta? Não tinha reu­nião de pau­ta. Cada um fazia o que bem que­ria, no dia mar­ca­do para o fecha­men­to entre­ga­va o que tinha fei­to para o Tar­so. O Tar­so nem dis­cu­tia, pega­va e ia edi­tar. Todos fazi­am isso. E o Tar­so não ia dis­cu­tir com o Jô Soa­res, com o Pau­lo Fran­cis, nem com nin­guém sobre o que ele devia fazer ou não devia fazer. Eu con­si­de­ro o Tar­so um gênio do jor­na­lis­mo e o ver­da­dei­ro res­pon­sá­vel pelo suces­so d’O Pas­quim. Por­que ele pega­va o que vies­se, olha­va e matu­ta­va, e arma­va a edi­ção do jor­nal. “Esse negó­cio que o Fran­cis escre­veu vai na pági­na três, o qua­dri­nho do Ziral­do na cin­co…” E depois pre­pa­ra­va as cha­ma­das, as capas, resol­via o res­to para for­mar o con­jun­to do jor­nal.

A iden­ti­da­de visu­al era o Tar­so que fazia tam­bém?

Sim, tam­bém. A edi­ção, o resul­ta­do final era o Tar­so que fazia, era o Tar­so quem dizia como tinha que ser fei­to. O que cada um fazia sua con­tri­bui­ção em casa, fazia como bem enten­dia e entre­ga­va pro Tar­so. Aqui­lo era tex­to pro Tar­so se diver­tir. Aí era a hora do Tar­so mos­trar o seu talen­to de edi­tor. E tudo n’O Pas­quim foi ele que fez. Under­ground, quem fez foi o Tar­so. O Under­ground, o Tar­so sabia que eu era liga­do nes­sas malu­qui­ces que esta­vam acon­te­cen­do nos Esta­dos Uni­dos, con­tra­cul­tu­ra, tex­tos. O Tar­so sabia que eu cur­tia essa coi­sas. Então, um dia che­gou pra mim assim: “Maci­el, que­ro que você edi­te duas pági­nas des­te assun­to, que não tem na impren­sa bra­si­lei­ra. As notí­ci­as che­gam e são joga­das nos ces­tos de lixo. Então você vai fazer, tem auto­no­mia com­ple­ta pra fazer o que você qui­ser nes­sas duas pági­nas”. E ain­da bati­zou: “Vai se cha­mar Under­ground”. Então ele fazia o jor­nal, resol­via todo mate­ri­al que che­ga­va. Ago­ra, antes cada um tinha total liber­da­de. A gen­te não fazia reu­nião de pau­ta pra deci­dir o que ia ser impor­tan­te ou não.

O Tar­so era meio auto­ri­tá­rio: é cla­ro que ele não ia dizer pra nenhum des­ses cola­bo­ra­do­res o que devi­am fazer, mas no geral a con­cep­ção do jor­nal fica­va intei­ra­men­te com ele. Ago­ra, o Tar­so teve des­de o come­ço um anta­go­nis­ta pode­ro­so, e que aca­bou der­ru­ban­do ele, que foi o Millôr. Por­que o Millôr tinha uma ascen­dên­cia inte­lec­tu­al mui­to gran­de sobre os outros, prin­ci­pal­men­te os car­tu­nis­tas. Os car­tu­nis­tas, Jaguar, Ziral­do, For­tu­na, Hen­fil, todos eles, acha­vam o Millôr um gênio. E eles eram só car­tu­nis­tas, eles não eram inte­lec­tu­ais. O Millôr era car­tu­nis­ta res­pei­ta­do pela sua arte, e ao mes­mo tem­po era um inte­lec­tu­al, um escri­tor, um dra­ma­tur­go. Escre­via peças, escre­via a coi­sa que qui­ses­se. E o Millôr tinha uma per­so­na­li­da­de for­te, ele era pra­ti­ca­men­te inti­mi­da­dor na rela­ção com os outros. Pau­lo Fran­cis não se meteu com ele. Mes­mo o Fran­cis que é todo meti­do a valen­tão… Pau­lo Fran­cis bom­ba­va com todo mun­do, mas não bom­ba­va com o Millôr não. Pre­fe­ria apoi­ar o Millôr, ou seja, ser ali­a­do do Millôr. Aí uma fren­te de Millôr e Pau­lo Fran­cis, quem é que vai enca­rar? O Tar­so e o Maci­el? E eu ain­da esta­va ali por­que fui leva­do pelo Tar­so, por­que na rea­li­da­de quan­do O Pas­quim come­çou nin­guém sabia quem eu era. Eu era um ilus­tre des­co­nhe­ci­do. Eu era um ami­go do Tar­so lá de Por­to Ale­gre. E ele me botou lá den­tro jun­to com os “estre­los” todos. E numa cir­cuns­tân­cia em que a con­cep­ção do jor­nal e a vida do jor­nal depen­dia do Tar­so, eles não iam fazer nada pra me expul­sar, me engo­li­ram.

 

Flor do Mal

Capas da revis­ta Flor do Mal

 

Exis­te um velho mito de uma luta, n’O Pas­quim, entre a gera­ção uís­que e a gera­ção maco­nha. Rolou mes­mo isso?

Havia um cer­to con­fron­to, por­que os mais velhos todos acha­vam que era malu­qui­ce, que eu tinha aber­to as por­tas d’O Pas­quim para os malu­cos. Que era tudo malu­co, devia estar tudo no hos­pí­cio, segun­do a opi­nião deles. O Millôr, prin­ci­pal­men­te. Quan­to mais for­te era o ego do jor­na­lis­ta ou inte­lec­tu­al que esta­va ali, mais indig­na­do fica­va com a malu­qui­ce que a gen­te quis ins­ta­lar den­tro d’O Pas­quim. O Millôr que era um ego do tama­nho de um bon­de, Pau­lo Fran­cis, que era outro… Eram egos imen­sos. E o Tar­so mor­ria de rir com isso. O Tar­so se diver­tia. O Tar­so não pas­sou para a con­tra­cul­tu­ra, embo­ra tenha dei­xa­do cres­cer bar­bi­cha, tenha fica­do com o cabe­lo mais com­pri­do e tudo. Mas ficou a mes­ma coi­sa, a vida intei­ra, do mes­mo jei­to. Não mudou nada. E ele acha­va gra­ça dos “estre­los” fica­rem invo­ca­dos com os jovens malu­cos… Eu acho que ele insu­fla­va isso, gos­ta­va des­sa con­tra­di­ção lá den­tro.

Quem eram os jovens malu­cos além de você?

Ah, ia mui­ta gen­te lá n’O Pas­quim. Tor­qua­to Neto, Rogé­rio Duar­te… Gen­te que eu nem me lem­bro mais o nome. Veio o Pau­lo Lemins­ki e a mulher dele, a Ali­ce Ruiz. E pin­ta­vam lá por cau­sa da Under­ground.

Na épo­ca da pri­são, o Millôr foi o úni­co que não foi pre­so, né?

O Hen­fil tam­bém não… O Tar­so des­cul­pa­va o Hen­fil, por­que ele era hemo­fí­li­co e tal… Mas ele não des­cul­pa­va o Millôr. Ele dizia: “Isso aí é malan­dra­gem do Millôr, daque­le irmão dele, que tran­si­ta pelo poder, pela Tri­bu­na da Impren­sa, que é do Car­los Lacer­da”. Engra­ça­do que depois o Tar­so tra­ba­lhou na Tri­bu­na da Impren­sa e me levou, por­que o Tar­so ficou ami­go do Heli­nho…

Como foi a sua saí­da d’O Pas­quim, o que acon­te­ceu?

A saí­da d’O Pas­quim foi por isso, por­que depois da vol­ta da pri­são, a bri­ga entre o Tar­so e o Millôr se acir­rou. Por­que o Tar­so pas­sou a aber­ta­men­te a levan­tar sus­pei­tas sobre o Millôr, por­que ele não tinha sido pre­so. Nem ele nem o Hen­fil. Ele não des­cul­pa­va o Millôr. E o Millôr tinha mui­ta influên­cia, mui­ta ascen­dên­cia sobre os car­tu­nis­tas todos. Por­que todos eram admi­ra­do­res do Millôr, como eu dis­se. Então o Millôr tinha mui­ta auto­ri­da­de. Então o Millôr dis­se que o Tar­so esta­va rou­ban­do O Pas­quim. A velha acu­sa­ção da cor­rup­ção quan­to ao poder, por­que o Tar­so era o dire­tor-geral, então ele dis­se que o Tar­so era um cor­rup­to que esta­va maman­do, e que devia ser des­pa­cha­do. E aí os dois outros, o Jaguar e o Ziral­do, con­cor­da­ram e des­pa­cha­ram o Tar­so. Eu ain­da fiquei cola­bo­ran­do, mas me cha­ma­ram na dire­to­ria e dis­se­ram assim: “Olha, Maci­el, você pode parar de escre­ver por­que o Millôr já deu ordem de que a você ele não paga, O Pas­quim não paga nem um tos­tão”. E eu dis­se: “Não faz mal, eu vou escre­ver de gra­ça pr’O Pas­quim”. Aí eu ain­da escre­vi de gra­ça por algu­mas sema­nas, depois enchi o saco e parei.

O Tar­so então come­çou fazer por sua con­ta o JA – Jor­nal de Ame­ni­da­des. E você come­çou o Flor do Mal, cer­to? Ele foi edi­ta­do pela Code­cri, a edi­to­ra do Pas­quim?

Sim, o Ser­gio Cabral hon­rou o que havía­mos con­ver­sa­do na pri­são. O Pas­quim esta­va em boa situ­a­ção finan­cei­ra. Não por con­ta do ouro de Mos­cou, e tam­bém não por publi­ci­da­de, por­que tinha pou­ca, mas por­que ven­dia mui­to bem em ban­ca. Então eles pude­ram finan­ci­ar a Flor do Mal. Mas é impor­tan­te lem­brar que a Flor do Mal não sur­giu depois de sair d’O Pas­quim, foi antes. Eu ain­da esta­va escre­ven­do a colu­na Under­ground quan­do cri­a­mos ela. Fazia os dois tra­ba­lhos em para­le­lo.

E a Flor do Mal repe­tia isso de cabe­ças livres que fazi­am o que que­ri­am, sem reu­nião de pau­ta? 

Pior. Era pior ain­da. Por­que éra­mos todos ilus­tres des­co­nhe­ci­dos, e todos tinham, den­tro da Flor do Mal, o poder, a auto­ri­da­de pra fazer o que a gen­te que­ria fazer n’O Pas­quim. Tra­zi­am umas maté­ri­as e a gen­te publi­ca­va. Tra­zi­am os dese­nhos e a gen­te publi­ca­va. Olha, tem dois pare­ce­res que eu vou citar sobre a Flor do Mal, que eu acho defi­ni­ti­vo. Um é do Helio Oiti­ci­ca. O Helio Oiti­ci­ca dis­se que “é a úni­ca publi­ca­ção não-machis­ta do Bra­sil. Todos os jor­nais e revis­tas, a impren­sa é toda machis­ta, e a Flor do Mal não é”. Por­ra, achei lin­do isso.

Se você tirar d’O Pas­quim a homo­fo­bia e o machis­mo, não sobra qua­se nada. Sobra só a sua colu­na Under­ground e uma ou outra fra­se…

O Pas­quim era mui­to machis­ta. O Pas­quim, eu esta­va pre­sen­te na entre­vis­ta que eles fize­ram com a Betty Fri­e­dan, eles foram pra entre­vis­ta que­ren­do matar a Betty Fri­e­dan, esmi­ga­lhar a Betty Fri­e­dan, pelo tope­te de ser femi­nis­ta. Na Flor do Mal, o espí­ri­to que não era machis­ta. Não havia a impo­si­ção machis­ta. Havia uma liber­da­de… Anos depois, sur­gem jor­nais como o Lam­pião da Esqui­na, que era uma publi­ca­ção diri­gi­da, tinha um obje­ti­vo: dar voz aos homos­se­xu­ais. Por­que não exis­tia espa­ço para os gays na impren­sa. Já a Flor do Mal era dar voz a todos, quem quer que você fos­se. Você tinha o direi­to de ser lou­co na Flor do Mal. Ou melhor, para sair na Flor do Mal, você tinha o dever de ser lou­co (risos). Nenhum care­ta jamais se atre­veu a publi­car na Flor do Mal.

A pri­mei­ra tira­gem foi de quan­tos mil exem­pla­res?

Pre­fi­ro esque­cer (risos). Foram de cin­co mil exem­pla­res. Que não se esgo­ta­ram nas ban­cas. Era um jor­nal mui­to radi­cal para a épo­ca. E foram cin­co edi­ções. O outro pare­cer sobre a Flor do Mal foi o seguin­te: minha ami­ga Rose Marie Mura­ro me con­vi­da uma noi­te pra ir jan­tar na casa dela, por­que ela esta­va rece­ben­do um antip­si­qui­a­tra que tinha vin­do do Reci­fe. Eu achei aqui­lo meio estra­nho: um antip­si­qui­a­tra no Reci­fe? Se fos­se o Donald Lang, o David Coo­per, mas do Reci­fe… Aí, eu che­guei lá no jan­tar e tinha um homem de uns 40, 50 anos, sim­pá­ti­co, con­tem­po­râ­neo, eru­di­to. Mas, de antip­si­qui­a­tra eu não esta­va ven­do nada. Só fui ver que ele era anti-psi­qui­a­tra quan­do ele fez a seguin­te decla­ra­ção: “Você sabe esse jor­nal, Flor do Mal, que você edi­ta lá com seus ami­gos? O jor­nal­zi­nho dos lou­cos da minha clí­ni­ca lá do Reci­fe é igual­zi­nho” (risos). Aí que eu vi que nós tínha­mos atin­gi­do nos­so obje­ti­vo (risos). Ele não esta­va, obvi­a­men­te, elo­gi­an­do não, esta­va fazen­do de inte­li­gen­te, de gos­to­so e tal. Mas essas rea­ções do esta­blish­ment nun­ca inti­mi­da­ram a con­tra­cul­tu­ra, pelo con­trá­rio.

E o nos­so padrão era mui­to malu­co mes­mo. O Rogé­rio tra­ba­lhou duran­te três meses na con­cep­ção da Flor do Mal. Não des­can­sou enquan­to não encon­trou um dese­nhis­ta total­men­te malu­co que era calí­gra­fo. O Rogé­rio tinha pai­xão pelo tra­ço, pela cali­gra­fia. E esse foi o pri­mei­ro calí­gra­fo medi­e­val que o Rogé­rio encon­trou. E era um sonho do Rogé­rio for­mar uma equi­pe de calí­gra­fos medi­e­vais. Ele que­ria que o jor­nal intei­ro fos­se escri­to à mão. E ele tinha uma assis­ten­te que era Ana Maria Duar­te, mulher do Tor­qua­to Neto. Tor­qua­to, aliás, fazia a colu­na Geleia Geral, no jor­nal Últi­ma Hora, mas que vivia lá na sede d’O Pas­quim, que era onde a Flor do Mal era fei­ta. Ia ver a mulher, tam­bém, que tra­ba­lha­va lá. Ele acom­pa­nha­va tudo que a gen­te fazia. E a Ana Maria segu­ra­va todas, por­que para você fazer o pre­en­chi­men­to em si, como o Tar­so fez n’O Pas­quim, como o Rogé­rio fez na Flor do Mal, tem que ter uma mulher. Uma mulher de res­pon­sa. Se não tiver você não faz. Por­que tem coi­sas prá­ti­cas que per­ten­cem à intui­ção femi­ni­na. Não sei o que seria d’O Pas­quim se não fos­se a Mar­ta Alen­car, que era mulher do Hugo Car­va­na na épo­ca e esta­va sem­pre jun­to do Tar­so. Não sei o que seria da Flor do Mal se não fos­se Ana Maria, jun­to do Rogé­rio. E o Rogé­rio tinha con­fi­an­ça total nela. Tan­ta con­fi­an­ça que quan­do ficou pron­to o pri­mei­ro núme­ro da Flor do Mal, e vie­ram os pri­mei­ros exem­pla­res da ofi­ci­na, e todos nós fes­te­ja­mos, o Rogé­rio não esta­va lá, tinha se eva­po­ra­do, desa­pa­re­ci­do sim­ples­men­te. Quer dizer, num momen­to em que sua obra vai apa­re­cer e vai ser comen­ta­da, o Rogé­rio some. Vê como é malu­co isso? Aí, quem é que esta­va segu­ran­do a bar­ra? A Ana Maria. Aí vira­mos pra Maria: “Olha, Maria, onde é que tá o Rogé­rio”? E ela: “Ele não quer que vocês sai­bam”. Eu: “Mas então você sabe, e vai nos levar lá”. E fomos, Tor­qua­to Men­don­ça, Tite, eu e a Maria, na toca do Rogé­rio, que era sim­ples­men­te o cen­tro de medi­ta­ção de San­ta Tere­sa, de um mon­ge que tinha vin­do do Cei­lão, um mon­ge budis­ta, e tinha aber­to esse cen­tro de medi­ta­ção budis­ta. E o cen­tro tinha sido cons­truí­do pelas pes­so­as que par­ti­ci­pa­vam das medi­ta­ções. Então a pri­mei­ra medi­ta­ção que ele deu era tra­ba­lhar de pedrei­ro. Todos tinham que car­re­gar tijo­lo, fazer cimen­to, para cons­truir o tal cen­tro de medi­ta­ção. Ele era um mon­ge do Cei­lão, então era um mon­ge de uma tra­di­ção mais dis­ci­pli­na­da, mais monás­ti­ca. E o Rogé­rio esta­va no nir­va­na com isso, por­que ele tra­ba­lha­va como pedrei­ro o dia intei­ro e acha­va isso o máxi­mo de medi­ta­ção que se pode inven­tar. Com as mãos cale­ja­das… Aí nos rece­beu mui­to bem, fin­giu que esta­va meio bra­vo com a Ana Maria, mas gos­tou. E dis­se para ela o que deve­ria ser fei­to nos pró­xi­mos núme­ros da Flor do Mal, e duran­te todos os núme­ros seguin­tes ele ficou lá em San­ta Tere­sa, nes­se cen­tro budis­ta. Depois ele teve desa­ven­ças com o tal mon­ge (risos). Dizem que ele man­dou a seguin­te fra­se: “você tá pen­san­do que é meu guru, mas eu é que sou seu guru; vamos resol­ver isso na por­ra­da, ver quem é o guru de quem”. Depois, no outro dia, o Rogé­rio esta­va mais cal­mo e fize­ram as pazes, levou até um pre­sen­te, que eu não me lem­bro o que era. Viu que o guru era o mon­ge mes­mo.

A Flor do Mal teve gran­des cola­bo­ra­ções. Por exem­plo, o Hélio Oiti­ci­ca envi­ou a trans­cri­ção do Heli­o­ta­pe, da con­ver­sa que ele fez em Nova York com o Harol­do de Cam­pos, um tex­to gigan­te que saiu divi­di­do em alguns núme­ros. Como era isso? Vocês pedi­am cola­bo­ra­ções tam­bém?

Ah, isso é mui­to sim­ples, por­que alguém dizia assim: “O Hélio tem que fazer algu­ma coi­sa aqui. Tele­fo­na pra ele e diz pra ele man­dar algu­ma coi­sa”. E o Hélio man­da­va o que que­ria. Man­dou aque­las tapes todas pra publi­car tudo. Era assim. Tudo cor­ria mui­to frou­xo. Era como o Rogé­rio gos­ta­va, era como eu gos­ta­va, como o Tor­qua­to Men­don­ça gos­ta­va. Não sei se era como o Tite gos­ta­va tam­bém, mas… A gen­te ia na onda. E aí, pron­to. Era um Pas­quim ao qua­dra­do, na ver­da­de, pelo grau de liber­da­de… Mui­tas vezes eu não sabia nem como seria o pro­je­to grá­fi­co, com o Rogé­rio coman­dan­do lá a Ana Maria. Mui­tas vezes só via depois de impres­so. Eu, que era um dos edi­to­res do jor­nal. E tudo bem, eles fazi­am com toda a auto­no­mia, o depar­ta­men­to de arte tinha uma auto­no­mia abso­lu­ta.

A Flor do Mal ter­mi­nou por quê?

Por­que não ven­dia. Sim­ples. Con­se­gui­mos fazer só cin­co edi­ções sema­nais. A revis­ta durou cin­co sema­nas. Mas, pelo que vemos na con­ver­sa aqui, de algu­ma for­ma ela con­ti­nua viva. O que é sem­pre uma ale­gria.

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