Flor do Mal revisitada

Cultura

12.12.17

Entre 2015 e 2016, man­tive, em parce­ria com o Cesin­ha Oiti­ci­ca, um pequeno espaço cul­tur­al em Ipane­ma, a Índi­ca. Era uma sala no mes­mo sub­so­lo do pré­dio na Praça Gen­er­al Osório que nos anos 1970 abrigou a Livraria Muro, e onde começaram as míti­cas Arti­man­has da Nuvem Cigana. Mis­to de espaço expos­i­ti­vo, loja de arte indí­ge­na e pon­to de encon­tro, o nos­so espaço sediou alguns cic­los de con­ver­sas sobre cul­tura. O mais mar­cante deles, pos­sivel­mente, foi o de encon­tros sobre revis­tas de cul­tura. Con­vi­damos edi­tores e colab­o­radores de impor­tantes revis­tas dos últi­mos 60 anos para dar depoi­men­to sobre suas exper­iên­cias. Nomes como Sil­viano San­ti­a­go, falan­do sobre a mineira Revista de Cin­e­ma, Paulo Rober­to Pires, sobre a ser­rote, Paulin­ho Wer­neck, sobre a Ácaro, Luís Turi­ba, sobre a Bric-a-brac, e Clau­dio Loba­to, sobre o Almanaque Biotôni­co Vital­i­dade. Para abrir o ciclo, em fevereiro do ano pas­sa­do, con­videi o Luiz Car­los Maciel, que fez um depoi­men­to sobre a Flor do Mal, o tabloide con­tra­cul­tur­al que edi­tou nos anos 1970 em parce­ria com Rogério Duarte. Foi um suces­so: mais de 50 pes­soas abar­ro­taram a sala para ver Maciel con­tar as suas histórias de época. É esta con­ver­sa que repro­duz­i­mos em primeira mão aqui.

Naque­le momen­to, em 2016, eu esta­va con­viven­do inten­sa­mente com Maciel. Reuníamo-nos sem­anal­mente, para faz­er a lon­ga entre­vista que fechará o vol­ume em sua hom­e­nagem na coleção Encon­tros. Eu ia para o seu aparta­men­to, gravá­va­mos a entre­vista no seu pequeno escritório, com os seus gatos ouvin­do aten­ta­mente ou pas­san­do por entre nos­sas per­nas, e depois seguíamos ao Desaca­to para tomar cerve­ja e seguir a con­ver­sa. Algu­mas vezes, ia encon­trar Maciel ape­nas para uma cerve­ja. Ele me esper­a­va no saguão do pré­dio e andá­va­mos jun­tos os 50 met­ros até o bar. Com o enfise­ma pul­monar avança­do, essa cam­in­ha­da já era uma pere­gri­nação para ele: pre­cisa­va parar uma ou duas vezes no cam­in­ho, para tomar fôlego, e depois, sen­ta­do no bar, esper­a­va alguns min­u­tos para se recu­per­ar. Depois dis­so, a con­ver­sa cor­ria sol­ta. Con­ta­va história, dis­cu­tia políti­ca, fala­va dos ami­gos. O seu humor não per­doa­va ninguém. Quer diz­er, nen­hum ami­go. Porque, em todas as con­ver­sas, nun­ca soube se tin­ha algum inimi­go pes­soal. Não pare­cia, ao menos, perder tem­po com eles. Um dia, con­ver­samos sobre isso, e rimos solto lem­bran­do a máx­i­ma sem­pre repeti­da por Jorge Maut­ner: “Não falo sobre os meus inimi­gos para não eternizar os seus nomes”. Risa­da, aliás, nun­ca fal­ta­va. E esta não pare­cia tirar o seu fôlego.

Durante as nos­sas con­ver­sas, não par­avam de sur­gir pro­je­tos. Maciel sabia que esta­va cor­ren­do con­tra o tem­po, mas não iria nun­ca desi­s­tir da vida. Um dos que mais o empol­gou foi o de faz­er um livro chama­do Rosa dos Ven­tos, dis­cutin­do os seus qua­tro pon­tos cardeais, os autores que nortear­am a sua vida: Mar­tin Hei­deg­ger, Nor­man O. Brown, Car­los Cas­tañe­da e Philip K. Dick. Chegou a anun­ciar o pro­je­to pub­li­ca­mente. Seria um belís­si­mo livro. E, entre cerve­jas, havia tam­bém con­fis­sões. Como quan­do con­tou, rindo, que o decál­o­go políti­co que ele apre­sen­tou no pro­gra­ma Aber­tu­ra, do Glauber Rocha, era uma cópia deslava­da do man­i­festo de John Sin­clair para o White Pan­ther­Par­ty. Glauber havia pedi­do que ele fizesse o pro­gra­ma de um par­tido novo para o dia seguinte, e Maciel então, assober­ba­do, decid­iu traduzir o man­i­festo de Sin­clair. Fica­va um pouco enver­gonhado de ver o suces­so que o vídeo fazia no Youtube. Mas nada que atra­pal­has­se o seu humor. E a inteligên­cia de suas colo­cações. A sua fala final na con­ver­sa com Glauber é de um bril­han­tismo ímpar.

Foi um priv­ilé­gio poder brindar a vida com Maciel. Quan­do soube da sua morte, sába­do, 9 de dezem­bro, fiquei arrasa­do. Perce­bi que per­dia não ape­nas um autor de predileção, mas tam­bém um ami­go, uma pes­soa com quem com­par­til­hei ideias, ale­grias e medos. Estou final­izan­do o livro com suas entre­vis­tas, que sairá pela Azougue Edi­to­r­i­al no começo de 2018. Uma pena que ele não pos­sa ter vis­to o livro edi­ta­do, mas seguimos. A vida é assim, e seus pen­sa­men­tos e relatos seguem potentes e necessários. Maciel tin­ha um espíri­to definido, e soube como poucos, para citar seu ami­go Cae­tano, espal­har bene­fí­cios. Estes ficam.

 

Luiz Carlos Maciel

Luiz Car­los Maciel

 

A entre­vista sobre a Flor do Mal

Maciel, você teve uma par­tic­i­pação muito impor­tante na história das pub­li­cações inde­pen­dentes que sur­gi­ram do fim dos anos 1960 até mea­d­os dos anos 1970. E hoje gostaria de con­ver­sar sobre uma em espe­cial, a Flor do Mal. É claro que, para con­tar essa história, ter­e­mos que pas­sar pelas out­ras pub­li­cações que você par­ticipou, pelo Pasquim, pela Rolling Stone

Curioso que a Flor do Mal tem rea­pare­ci­do na min­ha vida nos últi­mos tem­pos. Atual­mente, depois de mui­ta resistên­cia, eu ten­ho fre­quen­ta­do as redes soci­ais. Antes, eu ado­ta­va duas fras­es sobre elas, espe­cial­mente as redes mais famosas atual­mente. O Twit­ter era definido pelo seguinte: a mel­hor maneira de não escr­ev­er nada para mil­hares de pes­soas. E o Face­book, a mel­hor maneira de arran­jar mais chatos na sua vida. Mas acabei entran­do, e ten­ho reen­con­tra­do e encon­tra­do ami­gos nelas. Um novo ami­go é o Ger­ald Thomas, o grande dire­tor de teatro, inter­na­cional­mente famoso, inteira­mente louco, feito eu, feito Glauber. Porque eu sou meio que um para-raios de malu­co. O Ger­ald me procurou com um amor, com uma admi­ração que me deixou espan­ta­do. E hoje eu comentei com ele que ia faz­er essa fala sobre a Flor do Mal, e ele disse, “A Flor do Mal, aque­la mar­avil­ha? Quan­do eu tin­ha 14 anos eu ado­ra­va a Flor do Mal” – ele é bem mais novo do que eu – “Você sabia que a primeira coisa que eu publiquei na impren­sa foi um desen­ho que eu fiz e man­dei para vocês, e vocês pub­licaram na Flor do Mal?”

Nun­ca me pas­sou pela cabeça que a Flor do Mal tivesse esse fã, uma ver­dadeira “maca­ca de auditório”, que é o Ger­ald Thomas. E con­ver­san­do com ele eu perce­bi essa coisa estran­ha, que eu tin­ha quase esque­ci­do da Flor do Mal durante uma época da min­ha vida, porque afi­nal de con­tas não deu cer­to, durou pouco tem­po. Como era fre­quente nes­sas pub­li­cações cul­tur­ais da época, de faz­er alguns números e então ter­mi­nar. A Pre­sença, aqui no Rio de Janeiro, teve ape­nas dois números… Era assim. A Rolling Stone brasileira que eu fiz, e não tem nada a ver com essa coisa da Rolling Stone de hoje em dia, durou um ano e aí tam­bém parou. A Flor do Mal foram cin­co números. E fiquei pen­san­do como algo que eu con­sid­er­a­va que tin­ha dado erra­do, que nem presta­va mui­ta atenção na min­ha tra­jetória, pode­ria ter influ­en­ci­a­do tão forte­mente pes­soas que admiro.

A par­tir dis­so, come­cei a me lem­brar da história da Flor do Mal. Como você disse, para falar dela, é pre­ciso antes falar d’O Pasquim. Porque a Flor do Mal nasceu d’O Pasquim. Ou, mais exata­mente, a Flor do Mal nasceu numa cela do quar­tel de manutenção de arma­men­to da Vila Mil­i­tar. Porque nasceu quan­do o exérci­to, basea­do na lei de segu­rança nacional da época, pegou a redação d’O Pasquim inteira, com uma ou duas exceções, e botou tudo em cana na Vila Mil­i­tar. Ini­cial­mente nós ficamos todos em duas celas da briga­da aeroter­restre, que era dos paraque­dis­tas. Depois que começaram os inter­ro­gatórios, fomos divi­di­dos. Quem começou os inter­ro­gatórios foi um capitão que era o chefe da comis­são do inquéri­to sobre O Pasquim. Ele nos inter­ro­ga­va indi­vid­ual­mente no pré­dio do quar­tel-gen­er­al da vila mil­i­tar. Havia uma sala lá onde eles nos rece­bi­am muito bem, e ficavam queren­do saber como é que chega­va o ouro de Moscou, ou seja, o din­heiro da União Soviéti­ca, que segun­do o respon­sáv­el pelo inquéri­to era o que sub­ven­ciona­va O Pasquim para preparar a rev­olução comu­nista no Brasil e der­rubar o gov­er­no mil­i­tar. Essas coisas de mil­i­co. Lem­bro até que eu virei pra um capitão e disse assim: “Se ess­es via­dos dess­es fil­hos da puta do Jaguar, Tar­so de Cas­tro, Ser­gio Cabral, que são os donos do jor­nal, se eles tão gan­han­do grana de Moscou, eu vou dar por­ra­da neles, porque não me der­am nem um tostão, por­ra!”

Então está­va­mos pre­sos. Depois que a gente presta­va esse depoi­men­to, não volta­va mais para aque­la cela da briga­da aeroter­restre, porque lá a gente iria encon­trar todos os com­pan­heiros. Senão eles iam per­gun­tar como foram os inquéri­tos, saber as questões colo­cadas, nós íamos diz­er, e eles pode­ri­am preparar respostas men­tirosas para quan­do fos­se a vez deles. Então nos man­davam para out­ro lugar. Aí, eu fui parar no batal­hão de manutenção de arma­men­tos. Quan­do eu cheguei lá tin­ham duas fileiras de sol­da­dos. Eu fui, pas­sei no corre­dor polonês para entrar numa cela onde eu fui tran­cafi­a­do logo, e quem esta­va lá eram aque­les que já havi­am sido inter­ro­ga­dos. Era o fale­ci­do For­tu­na, o José Grossy, que era dire­tor do Jor­nal, e o Ser­gio Cabral, que era o edi­tor-chefe. O Ser­gio Cabral era prati­ca­mente quem man­da­va n’O Pasquim naque­le momen­to. Então eu fiquei lá na cela com eles, e depois rece­bi uma visi­ta do coman­dante do quar­tel, que era o coro­nel Chacrin­ha. Esse era o apeli­do do coro­nel, os sol­da­dos o chamavam assim porque ele era pare­ci­do com o apre­sen­ta­dor de tele­visão. Era um vovô. Ele invo­cou logo com o meu cabe­lo, porque eu era da con­tra­cul­tura e tin­ha um cabe­lo até as costas. E ele disse assim: “Ih, porque é que você usa esse cabe­lo”? Ai eu disse: “Coro­nel, uso porque acho boni­to”. E ele: “Boni­to? Uma coisa feia dessas”? Para você ver a difer­ença de gos­to estéti­co entre o pre­so e o seu carcereiro…

Nós ficamos vários dias, sem­anas, naque­le quar­tel. Esta­va o Ziral­do tam­bém, na mes­ma cela. Ziral­do, Ser­gio Cabral, Grossy e eu. Os out­ros, Paulo Fran­cis, Jaguar, Flavio Rangel, Tar­so de Cas­tro, tin­ham ido para out­ros paradeiros. Então, num momen­to… Eu acho que isso acon­te­ceu depois que cor­taram meus cabe­los, porque teve um momen­to em que a gente esta­va na cela e chegou um cabo com dois sol­da­dos arma­dos de fuzil, apon­taram pra mim e me fiz­er­am sair da cela. E eu fui sendo escolta­do pelo pátio do quar­tel, sendo con­duzi­do não sabia para onde. Provavel­mente para ser fuzi­la­do, era o que me pas­sa­va pela cabeça. Mas logo esse medo saiu da min­ha cabeça quan­do, atrav­es­san­do o pátio, eu vi que nós está­va­mos indo na direção da bar­bearia do quar­tel. Para o salão de bar­beiros, onde já me esper­a­va o bar­beiro, civ­il. E aí, ele me sen­tou na cadeira de bar­beiro, chegou assim no meu ouvi­do: “Como é que o sen­hor quer que eu faça o seu cabe­lo?” E eu: “Pode cor­tar de qual­quer jeito, já que está sendo cor­ta­do à força mes­mo. Eu não quero cor­tar o cabe­lo, pas­sa uma máquina zero”. Aí ele chegou e disse assim: “Olha, então vou faz­er para o sen­hor o corte social para ofi­ci­ais”, que não era o corte dos recru­tas, com a cabeça ras­pa­da. Aliás, a cer­ta dis­tân­cia, fica­va tran­si­tan­do um tenente, que eu fui saber depois que era o ofi­cial do dia, e que tin­ha fica­do toman­do con­ta do quar­tel durante o fim de sem­ana. Ele que tin­ha dado a ordem para me cortarem o cabe­lo. E aí foi engraça­do, porque o bar­beiro ter­mi­nou, trouxe um espel­ho pra me mostrar como ficou o corte atrás, se eu aprova­va, e eu fiz um choro, não quis olhar. De repente, olhei para o espel­ho, olhei para o cabe­lo do tenente, e esta­va igual! Era o mes­mo sujeito, evi­den­te­mente, que tin­ha cor­ta­do o cabe­lo do tenente.

Nis­so acon­te­ceu que os sub­ver­sivos seques­tram o embaix­ador norte-amer­i­cano. Antes, já tin­ham sequestra­do o embaix­ador alemão. Aí, à noite, esta­mos todos na cela, e entra um tenente paraque­dista – fort­in­ho, bonit­in­ho, bem jovem – dizen­do assim: “Ah, eu sou admi­rador de vocês, estou sem­pre em Ipane­ma, fre­quen­to os bares de Ipane­ma, tomo chope nos bares de Ipane­ma igual a vocês”, dan­do uma de avançad­in­ho, na con­cepção dele. E ele nos pas­sou uma porção de fol­has de papel almaço e canet­inhas BIC e disse: “É o seguinte: vocês têm que escr­ev­er de próprio pun­ho que vocês rejeitam a ação dess­es ter­ror­is­tas que estão fazen­do essas guer­ril­has e querem der­rubar o gov­er­no, e que vocês são con­tra isso, porque isso pode aju­dar a lib­er­tação de vocês”. Aí, cada um pegou o seu papel e foi escr­ev­er sua declar­ação. O For­tu­na escreveu a dele e mor­reu de rir, porque a declar­ação dele era uma frase só. O Ziral­do talvez não goste que eu con­te isso, mas ele foi escr­ev­er a dele no ban­heiro, porque esta­va se bor­ran­do. Eu sen­tei lá e escrevi a min­ha. E disse assim: “Eu repu­dio a ação dos ter­ror­is­tas, con­fio na justiça do Brasil, e sou inocente e isso será recon­heci­do na justiça” e tal, essa con­ver­sa fia­da, mas no final botei assim: “Ago­ra, eu tive meus cabe­los cor­ta­dos à força den­tro do quar­tel. Não sei de lei nen­hu­ma que autor­ize a que cortem o cabe­lo de um pre­so que não foi sequer jul­ga­do, muito menos con­de­na­do. Então, eu quero deixar claro meu protesto con­tra essa decisão arbi­trária de terem cor­ta­do meu cabe­lo”. Chega no out­ro dia e vem lá um sar­gen­to e diz: “Pre­so Luiz Car­los Maciel, ven­ha comi­go, o sen­hor foi chama­do”. Aí foi e me lev­ou lá no QG da Vila Mil­i­tar, na sala onde tin­ha o capitão que era o encar­rega­do do nos­so inquéri­to. Toda vez que eu ia lá depor, ele lev­an­ta­va sor­ri­dente, esten­dia a mão, aper­ta­va, man­da­va eu sen­tar, tudo assim super­civ­i­liza­do, sabe? Mas nesse dia ele esta­va uma fera: não sor­riu pra mim, não me aper­tou a mão, e disse assim: “Man­daram mex­er nos seus cabe­los?” Eu disse: “Pois é, capitão”… E ele: “Você fez uma denún­cia na sua declar­ação por causa dos seus cabe­los”. E eu: “Pois é, capitão, são os meus dire­itos, não dei per­mis­são para ninguém cor­tar meus cabe­los, cor­taram”. E con­tei a história. Aí entrou uma aju­dante dele e disse qual­quer coisa baix­in­ho no ouvi­do dele, e ele disse: “Man­da ele entrar”, e me disse: “Você vai pra out­ra sala”. Eu fui pra out­ra sala e quem entrou foi o tenente que tin­ha man­da­do me cortarem os cabe­los. Aí, eu não vi a cena, mas eu ouvi, porque o capitão esta­va puto, e dizia assim: “Quem o sen­hor pen­sa que é pra ficar cor­tan­do cabe­lo de pre­so sem autor­iza­ção? O sen­hor não tem autono­mia pra isso, pra tomar uma decisão dessas… Vai ficar deti­do den­tro do quar­tel durante o fim de sem­ana”!

Mas foi antes dis­so que acon­te­ceu o que é impor­tante con­tar aqui: quan­do eu voltei para a cela tosa­do das min­has madeixas, todo mun­do ficou choca­do. Ser­gio Cabral ficou choca­do. O Ser­gio Cabral que era, lem­brem, o edi­tor-chefe, man­da­va n’O Pasquim. E essa coisa de você ficar pre­so den­tro de uma cela com out­ros caras, você cria um vín­cu­lo estran­ho com as pes­soas que par­tic­i­pam da mes­ma des­graça que você, se for­t­alece uma amizade. Mes­mo que depois quan­do é solto se sep­a­rem, e acabou aqui­lo, no momen­to em que você está lá den­tro da cela há uma iden­ti­fi­cação mis­te­riosa entre os cole­gas de cana. Já era algo sabido que quem fica na mes­ma cela cria um laço. Porque nós éramos pre­sos políti­cos, né? Numa época em que a gente ficou inco­mu­nicáv­el, sem rece­ber vis­i­tas, sem rece­ber jor­nal. Ficamos só nós. Aí, o Ser­gio Cabral disse: “Maciel, eu quero assumir com você um com­pro­mis­so, uma promes­sa, um acor­do: quan­do a gente sair daqui, você me pede o que você quis­er lá n’O Pasquim, que eu dou”. Fiquei pen­san­do: “Vou pedir o que? Ser sub-dire­tor? Quero man­dar e des­man­dar n’O Pasquim?” Eu não pen­sei nada dis­so. A primeira coisa que me veio na cabeça, foi a que eu falei ime­di­ata­mente: “Eu quero que O Pasquim pro­duza um jor­nal pra mim. Um semanário, em que eu pos­sa expandir as pági­nas do Under­ground. Um semanário ded­i­ca­do à con­tra­cul­tura. Você topa que O Pasquim faça isso?” E ele: “Claro, claro, vamos faz­er, nós vamos faz­er isso, você vai ter seu semanário de con­tra­cul­tura”. E eu: “Então tá fecha­do”. Foi assim que nasceu a Flor do Mal.

Quan­do eu saí, falei com um cara que não era d’O Pasquim, mas que era meu ami­go pes­soal – nós ten­ta­mos faz­er revista e jor­nal a vida inteira e nun­ca con­seguimos. Um dess­es jor­nais, que pen­samos alguns anos depois, se chamaria Kaos, com ‘K’, porque tin­ha o Jorge Maut­ner no meio. Mas não era o Maut­ner esse cara, era o Rogério Duarte, que eu que­ria como dire­tor de arte, um cara que con­cebesse esse jor­nal con­tra­cul­tur­al. E real­mente a Flor do Mal é, e eu digo assim aber­ta­mente, defin­i­ti­va­mente, uma obra de Rogério Duarte. O artista que assi­na é o Rogério Duarte. Porque tudo foi bola­do por ele, tudo foi pen­sa­do por ele, a começar pelo títu­lo, pelo nome do jor­nal. Foi ele que bolou, reti­ra­do de Baude­laire. O primeiro número tem uma epí­grafe que foi escri­ta com um jeito que ele inven­tou: quan­do você vai ler o primeiro número da Flor do Mal, você tem que ficar giran­do o jor­nal – ou então você fica giran­do em vol­ta do jor­nal (risos). Mas é mais práti­co girar o jor­nal do que ficar giran­do em vol­ta dele. Rogério mor­ria de rir: “Sim, mas eles vão quer­er saber o que está escrito e vão ter que ficar viran­do o jor­nal!” E ele que desen­hou para mim as lin­has em que eu dev­e­ria escr­ev­er a epí­grafe do jor­nal, que era uma citação de Baude­laire sobre a impren­sa, sobre o sig­nifi­ca­do da impren­sa. Tá lá. O hor­ror que é a chama­da impren­sa. E foi assim que nasceu a Flor do Mal: numa con­ver­sa den­tro de um quar­tel. E depois foi total­mente cri­a­da pelo Rogério. Sep­a­rada­mente de qual­quer esque­ma d’O Pasquim.

O engraça­do é que o títu­lo foi tira­do do livro de poe­mas do Baude­laire, o Rogério achou que essa era uma das flo­res do mal men­cionadas pelo Baude­laire, mas cer­tos cic­los esotéri­cos não aceitaram o nome, porque tin­ha a palavra “Mal”. Eu lem­bro que chegou a notí­cia lá pro Rogério, que o Wal­ter Smetak, na Bahia, dizia que tin­ha fica­do con­tra, que ele acha­va o Rogério enlouque­ci­do, pois como “Flor do Mal”? Que o nome tin­ha que ser Flor Azul…

A Flor Azul do Novalis, sím­bo­lo dos son­hos inal­cançáveis dos home­ns…

Mas o Rogério escol­heu Flor do Mal mes­mo. Torqua­to Men­donça, que era bem pirad­in­ho, adorou logo, deu toda a força, e eu claro que con­cordei.

O Torqua­to Men­donça fazia o que no jor­nal?

Ah, era dono, como nós. O Torqua­to era um hip­pie, um poeta, que o Rogério lev­ou tam­bém para o jor­nal. Porque eu e o Rogério nos per­miti­mos cada um traz­er out­ro ami­go para for­mar um quar­te­to. Então o Rogério lev­ou o Torqua­to Men­donça e eu lev­ei o Tite de Lemos. Então éramos nós qua­tro que decidíamos tudo. Na ver­dade, tudo que o Rogério achas­se que devia ser, porque ele era muito per­sua­si­vo (risos). O Tite eu con­heci no teatro, no grupo do Repertório, que era o grupo do Paulo Grisol­li, onde a gente tra­bal­hou.

O Tite de Lemos era poeta tam­bém, aliás um exce­lente poeta…

Sim. E tem uma coisa que a Flor do Mal her­dou d’O Pasquim, que é uma coisa pos­i­ti­va, talvez a coisa mais pos­i­ti­va que acon­te­ceu lá n’O Pasquim para o jor­nal­is­mo, e que foi o moti­vo pelo qual O Pasquim teve a reper­cussão que ele teve, que foi o seguinte: de vez em quan­do, ao lon­go dos anos, eu rece­bo vis­i­tas de estu­dantes de comu­ni­cação, prin­ci­pal­mente as moças, chegam pra mim e dizem: “Ah, meu deus do céu, como eu que­ria ter vis­to uma reunião de pau­ta de vocês d’O Pasquim”. Aí eu respon­do assim: “Nun­ca hou­ve isso. Nun­ca hou­ve uma reunião de pau­ta n’O Pasquim”. O Pasquim era um semanário feito para e por estre­las do jor­nal­is­mo que estavam insat­is­feitos, porque não tin­ham liber­dade nos órgãos da grande impren­sa. Então, essa foi a ideia fun­da­men­tal do Tar­so. O Tar­so bolou isso. Ele perce­beu naque­le momen­to, no fim dos anos 1960, que havia uma insat­is­fação total entre os jor­nal­is­tas mais inter­es­santes em atu­ação no Rio de Janeiro. O Paulo Fran­cis esta­va insat­is­feito porque não escrevia o que que­ria, o Mil­lôr esta­va insat­is­feito tam­bém, o Jaguar não podia faz­er o car­tum que ele que­ria… O Tar­so perce­beu que daria para jun­tar esse pes­soal todo num mes­mo jor­nal. “Vamos faz­er um jor­nal, e cada um faz o que quer”. Então, se a ideia era essa, para quê reunião de pau­ta? Não tin­ha reunião de pau­ta. Cada um fazia o que bem que­ria, no dia mar­ca­do para o fechamen­to entre­ga­va o que tin­ha feito para o Tar­so. O Tar­so nem dis­cu­tia, pega­va e ia edi­tar. Todos fazi­am isso. E o Tar­so não ia dis­cu­tir com o Jô Soares, com o Paulo Fran­cis, nem com ninguém sobre o que ele devia faz­er ou não devia faz­er. Eu con­sidero o Tar­so um gênio do jor­nal­is­mo e o ver­dadeiro respon­sáv­el pelo suces­so d’O Pasquim. Porque ele pega­va o que viesse, olha­va e matu­ta­va, e arma­va a edição do jor­nal. “Esse negó­cio que o Fran­cis escreveu vai na pági­na três, o quadrin­ho do Ziral­do na cin­co…” E depois prepar­a­va as chamadas, as capas, resolvia o resto para for­mar o con­jun­to do jor­nal.

A iden­ti­dade visu­al era o Tar­so que fazia tam­bém?

Sim, tam­bém. A edição, o resul­ta­do final era o Tar­so que fazia, era o Tar­so quem dizia como tin­ha que ser feito. O que cada um fazia sua con­tribuição em casa, fazia como bem enten­dia e entre­ga­va pro Tar­so. Aqui­lo era tex­to pro Tar­so se diver­tir. Aí era a hora do Tar­so mostrar o seu tal­en­to de edi­tor. E tudo n’O Pasquim foi ele que fez. Under­ground, quem fez foi o Tar­so. O Under­ground, o Tar­so sabia que eu era lig­a­do nes­sas maluquices que estavam acon­te­cen­do nos Esta­dos Unidos, con­tra­cul­tura, tex­tos. O Tar­so sabia que eu cur­tia essa coisas. Então, um dia chegou pra mim assim: “Maciel, quero que você edite duas pági­nas deste assun­to, que não tem na impren­sa brasileira. As notí­cias chegam e são jogadas nos ces­tos de lixo. Então você vai faz­er, tem autono­mia com­ple­ta pra faz­er o que você quis­er nes­sas duas pági­nas”. E ain­da bati­zou: “Vai se chamar Under­ground”. Então ele fazia o jor­nal, resolvia todo mate­r­i­al que chega­va. Ago­ra, antes cada um tin­ha total liber­dade. A gente não fazia reunião de pau­ta pra decidir o que ia ser impor­tante ou não.

O Tar­so era meio autoritário: é claro que ele não ia diz­er pra nen­hum dess­es colab­o­radores o que devi­am faz­er, mas no ger­al a con­cepção do jor­nal fica­va inteira­mente com ele. Ago­ra, o Tar­so teve des­de o começo um antag­o­nista poderoso, e que acabou der­ruban­do ele, que foi o Mil­lôr. Porque o Mil­lôr tin­ha uma ascendên­cia int­elec­tu­al muito grande sobre os out­ros, prin­ci­pal­mente os car­tunistas. Os car­tunistas, Jaguar, Ziral­do, For­tu­na, Hen­fil, todos eles, achavam o Mil­lôr um gênio. E eles eram só car­tunistas, eles não eram int­elec­tu­ais. O Mil­lôr era car­tunista respeita­do pela sua arte, e ao mes­mo tem­po era um int­elec­tu­al, um escritor, um dra­matur­go. Escrevia peças, escrevia a coisa que quisesse. E o Mil­lôr tin­ha uma per­son­al­i­dade forte, ele era prati­ca­mente intim­i­dador na relação com os out­ros. Paulo Fran­cis não se meteu com ele. Mes­mo o Fran­cis que é todo meti­do a valen­tão… Paulo Fran­cis bom­ba­va com todo mun­do, mas não bom­ba­va com o Mil­lôr não. Prefe­ria apoiar o Mil­lôr, ou seja, ser ali­a­do do Mil­lôr. Aí uma frente de Mil­lôr e Paulo Fran­cis, quem é que vai encar­ar? O Tar­so e o Maciel? E eu ain­da esta­va ali porque fui lev­a­do pelo Tar­so, porque na real­i­dade quan­do O Pasquim começou ninguém sabia quem eu era. Eu era um ilus­tre descon­heci­do. Eu era um ami­go do Tar­so lá de Por­to Ale­gre. E ele me botou lá den­tro jun­to com os “estre­los” todos. E numa cir­cun­stân­cia em que a con­cepção do jor­nal e a vida do jor­nal depen­dia do Tar­so, eles não iam faz­er nada pra me expul­sar, me engoli­ram.

 

Flor do Mal

Capas da revista Flor do Mal

 

Existe um vel­ho mito de uma luta, n’O Pasquim, entre a ger­ação uísque e a ger­ação macon­ha. Rolou mes­mo isso?

Havia um cer­to con­fron­to, porque os mais vel­hos todos achavam que era maluquice, que eu tin­ha aber­to as por­tas d’O Pasquim para os malu­cos. Que era tudo malu­co, devia estar tudo no hos­pí­cio, segun­do a opinião deles. O Mil­lôr, prin­ci­pal­mente. Quan­to mais forte era o ego do jor­nal­ista ou int­elec­tu­al que esta­va ali, mais indig­na­do fica­va com a maluquice que a gente quis insta­lar den­tro d’O Pasquim. O Mil­lôr que era um ego do taman­ho de um bonde, Paulo Fran­cis, que era out­ro… Eram egos imen­sos. E o Tar­so mor­ria de rir com isso. O Tar­so se diver­tia. O Tar­so não pas­sou para a con­tra­cul­tura, emb­o­ra ten­ha deix­a­do crescer bar­bi­cha, ten­ha fica­do com o cabe­lo mais com­pri­do e tudo. Mas ficou a mes­ma coisa, a vida inteira, do mes­mo jeito. Não mudou nada. E ele acha­va graça dos “estre­los” ficarem invo­ca­dos com os jovens malu­cos… Eu acho que ele insu­fla­va isso, gosta­va dessa con­tradição lá den­tro.

Quem eram os jovens malu­cos além de você?

Ah, ia mui­ta gente lá n’O Pasquim. Torqua­to Neto, Rogério Duarte… Gente que eu nem me lem­bro mais o nome. Veio o Paulo Lemins­ki e a mul­her dele, a Alice Ruiz. E pin­tavam lá por causa da Under­ground.

Na época da prisão, o Mil­lôr foi o úni­co que não foi pre­so, né?

O Hen­fil tam­bém não… O Tar­so des­cul­pa­va o Hen­fil, porque ele era hemo­fíli­co e tal… Mas ele não des­cul­pa­va o Mil­lôr. Ele dizia: “Isso aí é malan­dragem do Mil­lôr, daque­le irmão dele, que tran­si­ta pelo poder, pela Tri­buna da Impren­sa, que é do Car­los Lac­er­da”. Engraça­do que depois o Tar­so tra­bal­hou na Tri­buna da Impren­sa e me lev­ou, porque o Tar­so ficou ami­go do Helin­ho…

Como foi a sua saí­da d’O Pasquim, o que acon­te­ceu?

A saí­da d’O Pasquim foi por isso, porque depois da vol­ta da prisão, a briga entre o Tar­so e o Mil­lôr se acir­rou. Porque o Tar­so pas­sou a aber­ta­mente a lev­an­tar sus­peitas sobre o Mil­lôr, porque ele não tin­ha sido pre­so. Nem ele nem o Hen­fil. Ele não des­cul­pa­va o Mil­lôr. E o Mil­lôr tin­ha mui­ta influên­cia, mui­ta ascendên­cia sobre os car­tunistas todos. Porque todos eram admi­radores do Mil­lôr, como eu disse. Então o Mil­lôr tin­ha mui­ta autori­dade. Então o Mil­lôr disse que o Tar­so esta­va rouban­do O Pasquim. A vel­ha acusação da cor­rupção quan­to ao poder, porque o Tar­so era o dire­tor-ger­al, então ele disse que o Tar­so era um cor­rup­to que esta­va maman­do, e que devia ser despacha­do. E aí os dois out­ros, o Jaguar e o Ziral­do, con­cor­daram e despacharam o Tar­so. Eu ain­da fiquei colab­o­ran­do, mas me chama­ram na dire­to­ria e dis­ser­am assim: “Olha, Maciel, você pode parar de escr­ev­er porque o Mil­lôr já deu ordem de que a você ele não paga, O Pasquim não paga nem um tostão”. E eu disse: “Não faz mal, eu vou escr­ev­er de graça pr’O Pasquim”. Aí eu ain­da escrevi de graça por algu­mas sem­anas, depois enchi o saco e parei.

O Tar­so então começou faz­er por sua con­ta o JA – Jor­nal de Amenidades. E você começou o Flor do Mal, cer­to? Ele foi edi­ta­do pela Code­cri, a edi­to­ra do Pasquim?

Sim, o Ser­gio Cabral hon­rou o que havíamos con­ver­sa­do na prisão. O Pasquim esta­va em boa situ­ação finan­ceira. Não por con­ta do ouro de Moscou, e tam­bém não por pub­li­ci­dade, porque tin­ha pou­ca, mas porque ven­dia muito bem em ban­ca. Então eles pud­er­am finan­ciar a Flor do Mal. Mas é impor­tante lem­brar que a Flor do Mal não surgiu depois de sair d’O Pasquim, foi antes. Eu ain­da esta­va escreven­do a col­u­na Under­ground quan­do cri­amos ela. Fazia os dois tra­bal­hos em para­le­lo.

E a Flor do Mal repetia isso de cabeças livres que fazi­am o que que­ri­am, sem reunião de pau­ta? 

Pior. Era pior ain­da. Porque éramos todos ilus­tres descon­heci­dos, e todos tin­ham, den­tro da Flor do Mal, o poder, a autori­dade pra faz­er o que a gente que­ria faz­er n’O Pasquim. Trazi­am umas matérias e a gente pub­li­ca­va. Trazi­am os desen­hos e a gente pub­li­ca­va. Olha, tem dois pare­ceres que eu vou citar sobre a Flor do Mal, que eu acho defin­i­ti­vo. Um é do Helio Oiti­ci­ca. O Helio Oiti­ci­ca disse que “é a úni­ca pub­li­cação não-machista do Brasil. Todos os jor­nais e revis­tas, a impren­sa é toda machista, e a Flor do Mal não é”. Por­ra, achei lin­do isso.

Se você tirar d’O Pasquim a homo­fo­bia e o machis­mo, não sobra quase nada. Sobra só a sua col­u­na Under­ground e uma ou out­ra frase…

O Pasquim era muito machista. O Pasquim, eu esta­va pre­sente na entre­vista que eles fiz­er­am com a Bet­ty Friedan, eles foram pra entre­vista queren­do matar a Bet­ty Friedan, esmi­gal­har a Bet­ty Friedan, pelo topete de ser fem­i­nista. Na Flor do Mal, o espíri­to que não era machista. Não havia a imposição machista. Havia uma liber­dade… Anos depois, surgem jor­nais como o Lampião da Esquina, que era uma pub­li­cação dirigi­da, tin­ha um obje­ti­vo: dar voz aos homos­sex­u­ais. Porque não exis­tia espaço para os gays na impren­sa. Já a Flor do Mal era dar voz a todos, quem quer que você fos­se. Você tin­ha o dire­ito de ser louco na Flor do Mal. Ou mel­hor, para sair na Flor do Mal, você tin­ha o dev­er de ser louco (risos). Nen­hum care­ta jamais se atreveu a pub­licar na Flor do Mal.

A primeira tiragem foi de quan­tos mil exem­plares?

Pre­firo esque­cer (risos). Foram de cin­co mil exem­plares. Que não se esgo­taram nas ban­cas. Era um jor­nal muito rad­i­cal para a época. E foram cin­co edições. O out­ro pare­cer sobre a Flor do Mal foi o seguinte: min­ha ami­ga Rose Marie Muraro me con­vi­da uma noite pra ir jan­tar na casa dela, porque ela esta­va receben­do um antip­siquia­tra que tin­ha vin­do do Recife. Eu achei aqui­lo meio estran­ho: um antip­siquia­tra no Recife? Se fos­se o Don­ald Lang, o David Coop­er, mas do Recife… Aí, eu cheguei lá no jan­tar e tin­ha um homem de uns 40, 50 anos, sim­páti­co, con­tem­porâ­neo, eru­di­to. Mas, de antip­siquia­tra eu não esta­va ven­do nada. Só fui ver que ele era anti-psiquia­tra quan­do ele fez a seguinte declar­ação: “Você sabe esse jor­nal, Flor do Mal, que você edi­ta lá com seus ami­gos? O jor­nalz­in­ho dos loucos da min­ha clíni­ca lá do Recife é igualz­in­ho” (risos). Aí que eu vi que nós tín­hamos atingi­do nos­so obje­ti­vo (risos). Ele não esta­va, obvi­a­mente, elo­gian­do não, esta­va fazen­do de inteligente, de gos­toso e tal. Mas essas reações do estab­lish­ment nun­ca intim­i­daram a con­tra­cul­tura, pelo con­trário.

E o nos­so padrão era muito malu­co mes­mo. O Rogério tra­bal­hou durante três meses na con­cepção da Flor do Mal. Não des­can­sou enquan­to não encon­trou um desen­hista total­mente malu­co que era calí­grafo. O Rogério tin­ha paixão pelo traço, pela caligrafia. E esse foi o primeiro calí­grafo medieval que o Rogério encon­trou. E era um son­ho do Rogério for­mar uma equipe de calí­grafos medievais. Ele que­ria que o jor­nal inteiro fos­se escrito à mão. E ele tin­ha uma assis­tente que era Ana Maria Duarte, mul­her do Torqua­to Neto. Torqua­to, aliás, fazia a col­u­na Geleia Ger­al, no jor­nal Últi­ma Hora, mas que vivia lá na sede d’O Pasquim, que era onde a Flor do Mal era fei­ta. Ia ver a mul­her, tam­bém, que tra­bal­ha­va lá. Ele acom­pan­ha­va tudo que a gente fazia. E a Ana Maria segu­ra­va todas, porque para você faz­er o preenchi­men­to em si, como o Tar­so fez n’O Pasquim, como o Rogério fez na Flor do Mal, tem que ter uma mul­her. Uma mul­her de respon­sa. Se não tiv­er você não faz. Porque tem coisas práti­cas que per­tencem à intu­ição fem­i­ni­na. Não sei o que seria d’O Pasquim se não fos­se a Mar­ta Alen­car, que era mul­her do Hugo Car­vana na época e esta­va sem­pre jun­to do Tar­so. Não sei o que seria da Flor do Mal se não fos­se Ana Maria, jun­to do Rogério. E o Rogério tin­ha con­fi­ança total nela. Tan­ta con­fi­ança que quan­do ficou pron­to o primeiro número da Flor do Mal, e vier­am os primeiros exem­plares da ofic­i­na, e todos nós fes­te­jamos, o Rogério não esta­va lá, tin­ha se evap­o­ra­do, desa­pare­ci­do sim­ples­mente. Quer diz­er, num momen­to em que sua obra vai apare­cer e vai ser comen­ta­da, o Rogério some. Vê como é malu­co isso? Aí, quem é que esta­va segu­ran­do a bar­ra? A Ana Maria. Aí viramos pra Maria: “Olha, Maria, onde é que tá o Rogério”? E ela: “Ele não quer que vocês saibam”. Eu: “Mas então você sabe, e vai nos levar lá”. E fomos, Torqua­to Men­donça, Tite, eu e a Maria, na toca do Rogério, que era sim­ples­mente o cen­tro de med­i­tação de San­ta Tere­sa, de um mon­ge que tin­ha vin­do do Ceilão, um mon­ge bud­ista, e tin­ha aber­to esse cen­tro de med­i­tação bud­ista. E o cen­tro tin­ha sido con­struí­do pelas pes­soas que par­tic­i­pavam das med­i­tações. Então a primeira med­i­tação que ele deu era tra­bal­har de pedreiro. Todos tin­ham que car­regar tijo­lo, faz­er cimen­to, para con­stru­ir o tal cen­tro de med­i­tação. Ele era um mon­ge do Ceilão, então era um mon­ge de uma tradição mais dis­ci­plina­da, mais monás­ti­ca. E o Rogério esta­va no nir­vana com isso, porque ele tra­bal­ha­va como pedreiro o dia inteiro e acha­va isso o máx­i­mo de med­i­tação que se pode inven­tar. Com as mãos cale­jadas… Aí nos rece­beu muito bem, fin­giu que esta­va meio bra­vo com a Ana Maria, mas gos­tou. E disse para ela o que dev­e­ria ser feito nos próx­i­mos números da Flor do Mal, e durante todos os números seguintes ele ficou lá em San­ta Tere­sa, nesse cen­tro bud­ista. Depois ele teve desavenças com o tal mon­ge (risos). Dizem que ele man­dou a seguinte frase: “você tá pen­san­do que é meu guru, mas eu é que sou seu guru; vamos resolver isso na por­ra­da, ver quem é o guru de quem”. Depois, no out­ro dia, o Rogério esta­va mais cal­mo e fiz­er­am as pazes, lev­ou até um pre­sente, que eu não me lem­bro o que era. Viu que o guru era o mon­ge mes­mo.

A Flor do Mal teve grandes colab­o­rações. Por exem­p­lo, o Hélio Oiti­ci­ca envi­ou a tran­scrição do Helio­tape, da con­ver­sa que ele fez em Nova York com o Harol­do de Cam­pos, um tex­to gigante que saiu divi­di­do em alguns números. Como era isso? Vocês pedi­am colab­o­rações tam­bém?

Ah, isso é muito sim­ples, porque alguém dizia assim: “O Hélio tem que faz­er algu­ma coisa aqui. Tele­fona pra ele e diz pra ele man­dar algu­ma coisa”. E o Hélio man­da­va o que que­ria. Man­dou aque­las tapes todas pra pub­licar tudo. Era assim. Tudo cor­ria muito frouxo. Era como o Rogério gosta­va, era como eu gosta­va, como o Torqua­to Men­donça gosta­va. Não sei se era como o Tite gosta­va tam­bém, mas… A gente ia na onda. E aí, pron­to. Era um Pasquim ao quadra­do, na ver­dade, pelo grau de liber­dade… Muitas vezes eu não sabia nem como seria o pro­je­to grá­fi­co, com o Rogério coman­dan­do lá a Ana Maria. Muitas vezes só via depois de impres­so. Eu, que era um dos edi­tores do jor­nal. E tudo bem, eles fazi­am com toda a autono­mia, o depar­ta­men­to de arte tin­ha uma autono­mia abso­lu­ta.

A Flor do Mal ter­mi­nou por quê?

Porque não ven­dia. Sim­ples. Con­seguimos faz­er só cin­co edições sem­anais. A revista durou cin­co sem­anas. Mas, pelo que vemos na con­ver­sa aqui, de algu­ma for­ma ela con­tin­ua viva. O que é sem­pre uma ale­gria.

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