A fração de segundo e a história

Fotografia

28.06.13

O tex­to abai­xo foi escri­to por Marcos Sá Corrêa para o livro Haruo Ohara — Fotografias, publi­ca­do pelo IMS em 2008 e que atu­al­men­te se encon­tra fora de catá­lo­go.

Haruo Ohara

Haruo Ohara foi um fotó­gra­fo das horas vagas. Só isso. Mas só isso duran­te mais de meio sécu­lo, com habi­li­da­de, téc­ni­ca e obs­ti­na­ção. Tinha a curi­o­si­da­de do imi­gran­te que saiu aos 17 anos da pro­vín­cia de Kochi, no sul do Japão, e pela vida afo­ra ano­ta­va em ide­o­gra­mas as pala­vras que apren­dia em por­tu­guês. Conhecia cada pal­mo de seu ter­ri­tó­rio como lavra­dor em Londrina, no nor­te do Paraná. Sabia inven­tar horas vagas, como tira­va fru­tas do chão. 

Às vezes, Haruo Ohara apon­ta­va para cima sua máqui­na foto­grá­fi­ca e dei­xa­va o céu inva­dir a cena, de alto a bai­xo, como um pano de fun­do tea­tral. Compunha pai­sa­gens ima­gi­ná­ri­as com nuvens enfá­ti­cas, que o entar­de­cer enchia em con­tra­luz de volu­mes qua­se tri­di­men­si­o­nais. Reduzia a uma nes­ga de som­bra em pri­mei­ro pla­no a ter­ra roxa que, na prá­ti­ca, deli­mi­ta­va sua exis­tên­cia. E espre­mia na imen­si­dão do hori­zon­te as pes­so­as mais pró­xi­mas de seu coti­di­a­no, usan­do os filhos, a mulher e a si mes­mo como silhu­e­tas anô­ni­mas, ou sim­ples mar­cos da pre­sen­ça huma­na entre o céu e a ter­ra.

Essas foto­gra­fi­as de Haruo Ohara, olha­das pela pri­mei­ra vez, dão a impres­são de que foram vis­tas antes, tal­vez no cine­ma, pro­va­vel­men­te com Vivien Leigh no papel de Scarlett O’Hara. Foi assim que ele foto­gra­fou suas bodas de pra­ta, em 1959. Ele e Kô, de bra­ços dados e de cos­tas para a câme­ra, olhan­do o pla­nal­to para­na­en­se como se enca­ras­sem o des­ti­no, num cená­rio que pode­ria ser qual­quer lugar, a come­çar pelos esta­dos suli­nos dos Estados Unidos. Só fal­ta, no poen­te, a músi­ca do maes­tro Max Steiner para o fil­me …E o ven­to levou.

E é um Haruo Ohara legí­ti­mo. Um lavra­dor como ele devia se sen­tir assim mes­mo no Paraná daque­la épo­ca, pre­so ao solo pela roti­na da lavou­ra, mas sol­to no tem­po pela espan­to­sa ace­le­ra­ção da his­tó­ria que resul­tou da colo­ni­za­ção de Londrina, uma cida­de que, por mui­tas déca­das, era mais nova que a mai­o­ria de seus mora­do­res. Naquela roça em que o dia a dia era len­to e os anos pas­sa­vam ver­ti­gi­no­sa­men­te, ele uma tar­de posou para o dis­pa­ra­dor auto­má­ti­co de sua Rolleiflex, equi­li­bran­do uma enxa­da na pon­ta dos dedos, como um mági­co de cir­co capi­nan­do cúmu­los-nim­bos.

Pudera. Aquele céu escan­ca­ra­do, cuja auto­ria ele assi­nou com a enxa­da, não dei­xa­va de ser tam­bém obra sua. Não esta­va lá quan­do ele che­gou, em 1933, com as pri­mei­ras levas que abri­ram a flo­res­ta para fun­dar, sem saber, uma Londrina de 500 mil habi­tan­tes e três mil indús­tri­as, cer­ca­da por todos os lados por cam­pos aber­tos, num mar de pros­pe­ri­da­de agrí­co­la. Os pio­nei­ros da região, via­jan­do em estra­das que as copas entre­la­ça­das cobri­am, não viam o céu, tapa­do pela flo­res­ta opa­ca e con­tí­nua que cobriu a região até mea­dos do sécu­lo pas­sa­do. O céu de Haruo Ohara foi con­quis­ta­do a macha­do e cor­ta­dei­ra.

Haruo Ohara

A mata ain­da esta­va lá, 25 anos antes, quan­do Haruo Ohara se casou com Kô Sanada, no inver­no de 1934. Faltavam a essa altu­ra seis meses para a fun­da­ção de Londrina. Os Ohara tinham 20 alquei­res num lote conhe­ci­do como colô­nia Ikku – ou seja, a “pri­mei­ra”. Ficava exa­ta­men­te onde ago­ra está o aero­por­to de Londrina. Sua casa, fei­ta com tron­cos de pal­mi­to e cober­ta com telhas de madei­ra, ani­nha­va-se numa cla­rei­ra. E o ter­rei­ro era coa­lha­do pelos tron­cos da der­ru­ba­da recen­te.

Os Sanada eram vizi­nhos dos Ohara. Mas só as pica­das labi­rín­ti­cas na mata fecha­da liga­vam os núcle­os agrí­co­las. Não admi­ra que o namo­ro fos­se bre­ve. No dia em que as duas famí­li­as ves­ti­ram suas rou­pas de fes­ta e posa­ram com os noi­vos para José Juliani, o retra­tis­ta iti­ne­ran­te da Companhia de Terras Norte do Paraná, a mata abra­ça­va o ran­cho. O ins­tan­tâ­neo do casa­men­to mar­ca outras vira­das radi­cais na vida daque­les colo­nos. A des­pe­di­da da flo­res­ta nati­va, que rapi­da­men­te os cafe­zais suce­de­ri­am. E a união defi­ni­ti­va de Haruo Ohara com a foto­gra­fia.

Foi Juliani quem lhe ven­deu a pri­mei­ra máqui­na e gui­ou seus pri­mei­ros pas­sos como fotó­gra­fo. Aos pou­cos, ele apren­de­ria a docu­men­tar os pró­xi­mos 50 anos de sua vida. E não foi um meio sécu­lo qual­quer aque­le em que Haruo Ohara foto­gra­fou Londrina. Foi um perío­do em que o inte­ri­or do Paraná mudou dras­ti­ca­men­te, da noi­te para o dia, um país habi­tu­a­do por qua­tro sécu­los a demar­car o mun­do rural pelas cer­cas da casa-gran­de e da sen­za­la. E, de repen­te, sur­gia no ser­tão bra­vio uma gera­ção de peque­nos agri­cul­to­res dis­pos­tos a tirar da ter­ra, com as pró­pri­as mãos, o sufi­ci­en­te para botar os nove filhos no colé­gio, ouvir dis­cos de ópe­ra em casa, assi­nar revis­tas téc­ni­cas de foto­gra­fia e man­ter um hobby caro como o de Haruo Ohara. 

E foi por essas e outras que, mes­mo enqua­dran­do o céu, ele man­te­ve os pés no chão. Sobravam-lhe moti­vos para achar sua vida inte­res­san­te, a pon­to de foto­gra­fá-la por déca­das a fio. Seus 20 alquei­res em Londrina eram o cen­tro de uma saga que, a seu redor, quei­ma­va sécu­los como se fos­sem déca­das. A ter­ra, no Paraná, esta­va em movi­men­to cons­tan­te. E a lavou­ra per­mi­tia a Haruo Ohara viver no rit­mo está­vel das esta­ções, dos plan­ti­os, das colhei­tas e dos filhos cres­cen­do de pés des­cal­ços no ter­rei­ro. Sem sair de sua chá­ca­ra, ele docu­men­tou pro­fu­sa­men­te uma era de incan­sá­veis trans­for­ma­ções cole­ti­vas. Guardou as fra­ções de segun­do dos anos que a his­tó­ria, na afo­ba­ção do pro­gres­so, lar­ga­va para trás. 

Seu sítio era uma encru­zi­lha­da do lazer com o tra­ba­lho, da roti­na com a mudan­ça, da far­tu­ra com o des­per­dí­cio. E nele quem man­da­va era o fotó­gra­fo ama­dor Haruo Ohara. Era senhor do tem­po. Fotografava o que ele mes­mo fazia acon­te­cer. Assestava as len­tes sobre o que esta­va em suas mãos. Fotografava com conhe­ci­men­to de cau­sa e domí­nio da téc­ni­ca. Sabia o lugar de um imi­gran­te japo­nês num Brasil que ain­da pare­cia por fazer. 

E esse era o melhor Haruo Ohara. Usava com total con­tro­le dos nega­ti­vos e dos papéis foto­grá­fi­cos a luz impla­cá­vel do tró­pi­co de Capricórnio, que tor­na­va mais sóli­dos os obje­tos, des­do­bran­do em super­fí­ci­es pla­nas os ângu­los e as cur­vas da rea­li­da­de con­cre­ta. Dirigia o sol como uma luz de pal­co, para que ele sem­pre bates­se de viés nas for­mas que, como arte­são capri­cho­so, gos­ta­va de esti­car ao máxi­mo em todas as gra­da­ções de cin­za que gera­va em seu labo­ra­tó­rio, do pre­to sóli­do ao bran­co esfu­zi­an­te. Derrubada a flo­res­ta, o sol ganha­ra no pla­nal­to vári­as horas de fôle­go. Sem seu biom­bo natu­ral, ele apro­vei­ta­va os pri­mei­ros rai­os da manhã e os últi­mos da tar­de para foto­gra­far com a melhor ilu­mi­na­ção pos­sí­vel, cum­prin­do ao pé da letra as clás­si­cas reco­men­da­ções dos manu­ais de foto­gra­fia. E, com essa luz, arran­ca­va toda a niti­dez de suas Rolleiflex, Voigtländer e Asahi Pentax, por­que fazia ques­tão dos melho­res equi­pa­men­tos dis­po­ní­veis naque­la épo­ca para tra­ba­lhar seu tem­po livre. 

Era tama­nho seu rigor que o sol pare­cia estar sem­pre na linha do hori­zon­te sobre o sítio de Haruo Ohara, como um eter­no verão polar a ser­vi­ço de sua foto­gra­fia. Contam-se nos dedos, em sua cole­ção, os dias chu­vo­sos ou nubla­dos. Não por­que ele habi­ta­va um cená­rio arti­fi­ci­al, com o cli­ma do Show de Truman. Mas por­que, como fotó­gra­fo ama­dor, era dono das horas vagas e fiel dis­cí­pu­lo dos foto­clu­bes, cujas car­ti­lhas man­da­vam esco­lher a luz antes mes­mo de esco­lher o assun­to.

Ele even­tu­al­men­te pro­gra­ma­va no cader­no de ano­ta­ções as cenas que foto­gra­fa­ria depois. E nem assim con­se­guia des­co­lá-las da vida real. Dá pra­ti­ca­men­te para pres­sen­ti-lo, por trás da câme­ra, diri­gin­do os pas­sos das filhas, que atra­ves­sam uma de suas foto­gra­fi­as, mar­chan­do com sin­cro­nis­mo mar­ci­al entre pai­nas de capim. Elas foram pos­tas onde estão, sem som­bra de dúvi­da, como coad­ju­van­tes, para com­por o qua­dro de uma nuvem em for­ma de cogu­me­lo, que sobe ao fun­do, anun­ci­an­do tem­pes­ta­de – ela, sim, a ver­da­dei­ra pro­ta­go­nis­ta da cena. À pri­mei­ra vis­ta, tudo aqui­lo pare­ce arti­fi­ci­al, lem­bran­do os pan­fle­tos de pro­pa­gan­da do cole­ti­vis­mo maoís­ta. Mas as duas meni­nas mal con­se­guem pren­der o riso. E suas gar­ga­lha­das con­ti­das devol­vem ence­na­ção à inti­mi­da­de domés­ti­ca. Elas, visi­vel­men­te, esta­vam naque­le ins­tan­te achan­do o pai mui­to engra­ça­do.

Haruo Ohara

Haruo Ohara fez inu­me­rá­veis foto­gra­fi­as da famí­lia, das fru­tas que cul­ti­va­va, dos ins­tru­men­tos agrí­co­las que manu­se­a­va e das flo­res que plan­ta­va em seus can­tei­ros. E, lidan­do com temas tão fami­li­a­res, esta­va livre das ale­go­ri­as que o ten­ta­vam, de vez em quan­do, a fla­grar o des­ti­no estam­pa­do nas nuvens. Destino mes­mo é o que aguar­da a por­ca obe­sa, aplas­tra­da sobre tábu­as pela pró­pria gor­du­ra, aca­ban­do de pas­sar pelo ritu­al cari­nho­so de uma lim­pe­za em regra. Um meio arco de pes­so­as aga­cha­das envol­ve o ani­mal, como um bicho domés­ti­co. E ela pare­ce tran­qui­la e rela­xa­da dian­te da peque­na pla­teia que sor­ri. Só o facão no can­to esquer­do avi­sa que o idí­lio pas­to­ral pode­ria virar, de uma hora para outra, uma ouver­tu­re de char­cu­ta­ria.

Essas oca­siões dei­xa­vam cla­ro que ele esta­va em seu ambi­en­te. Um ambi­en­te que aju­da­va a defi­ni-lo como aten­to e pro­lí­fi­co fotó­gra­fo ama­dor, no esplen­dor de suas horas vagas. O pro­ble­ma é a defi­ni­ção de ama­dor, que se per­deu numa épo­ca em que há tan­ta gen­te sol­ta por aí, cli­can­do qual­quer coi­sa com um dedi­lhar dis­pli­cen­te em seus tele­fo­nes celu­la­res, e a foto­gra­fia virou um ofí­cio regu­la­do por guil­das e esta­tu­tos sin­di­cais. Amador, nos dici­o­ná­ri­os, ago­ra é sinô­ni­mo de incom­pe­ten­te. Aplica-se libe­ral­men­te, segun­do o Houaiss, a quem “ain­da não domi­na ou não con­se­gue domi­nar a ati­vi­da­de a que se dedi­cou” – o que não é o caso de Haruo Ohara. 

Nem sem­pre foi assim. A foto­gra­fia, no Brasil, deve mui­to de sua pre­co­ci­da­de a um ama­dor ilus­tre, o impe­ra­dor d. Pedro II, que se inte­res­sou pelo daguer­reó­ti­po assim que a enge­nho­ca, recém-inven­ta­da na Europa, desem­bar­cou no Rio de Janeiro, com o aba­de Louis Compte. E eram expli­ci­ta­men­te ama­do­res os ingle­ses que se jun­ta­ram em 1887 para lan­çar uma revis­ta inti­tu­la­da Amateur Photography. Ela ain­da cir­cu­la. E o “ama­dor” em seu logo­ti­po que­ria dizer “artís­ti­co”, prer­ro­ga­ti­va do fotó­gra­fo que atua sem “outros com­pro­mis­sos, além do pra­zer esté­ti­co”.

E ain­da bem que Haruo Ohara era ama­dor. Como pro­fis­si­o­nal, difi­cil­men­te teria fei­to o que fez. Os pro­fis­si­o­nais geral­men­te têm pres­sa. Cobrem guer­ras, fes­tas, pos­ses, revo­lu­ções e toda a infi­ni­da­de de com­pro­mis­sos regi­dos pelas agen­das alhei­as. Seu tem­po não lhes per­ten­ce. Eles cos­tu­mam ir mui­to lon­ge atrás dos mes­mos assun­tos. E, em casa, des­can­sam a máqui­na. Haruo Ohara cobria sua pró­pria vida, à medi­da que ia viven­do.

Ele come­çou tar­de. Beirava os 30 anos de ida­de quan­do com­prou de José Juliani a pri­mei­ra máqui­na foto­grá­fi­ca. Era um mode­lo qua­se “de brin­que­do”, ele diria mais tar­de. Mas foi a sua esco­la tar­dia. Já era qua­ren­tão quan­do os jor­nais de Londrina des­co­bri­ram suas foto­gra­fi­as. Às vezes, elas eram publi­ca­das sem os devi­dos cré­di­tos de auto­ria, como se em pou­cos anos esti­ves­sem à dis­po­si­ção do públi­co como papéis his­tó­ri­cos. E ele era qua­se nona­ge­ná­rio quan­do suas foto­gra­fi­as estre­a­ram naci­o­nal­men­te em mos­tra indi­vi­du­al. A essa altu­ra, ele esta­va des­li­ga­do dos êxi­tos mun­da­nos, do coti­di­a­no fami­li­ar e da eter­na foto­gra­fia pelos sin­to­mas do mal de Alzheimer. 

Um pro­fis­si­o­nal difi­cil­men­te espe­ra­ria tan­to pelos resul­ta­dos de seu tra­ba­lho. Mas Haruo Ohara pro­du­ziu cer­ca de dez mil nega­ti­vos em pre­to e bran­co e outros 12 mil em cor, sem que uma só des­sas foto­gra­fi­as lhe fos­se enco­men­da­da. Vendeu rarís­si­mas ima­gens, e mes­mo assim à reve­lia. Suas câme­ras eram máqui­nas de con­cre­ti­zar o que lhe dava na cabe­ça. Não impor­ta que fos­sem retra­tos de famí­lia ou com­po­si­ções abs­tra­tas de minho­cas enros­ca­das como ide­o­gra­mas numa folha de papel, o ren­di­lha­do da água escor­ren­do numa pare­de de bar­ra­gem, o bor­rão de tin­ta bran­ca no chão escu­ro, a geo­me­tria invo­lun­tá­ria de baci­as empi­lha­das em cír­cu­los con­cên­tri­cos numa por­ta de loja ou o tron­co racha­do onde ele enxer­gou, nos vei­os da madei­ra mor­ta, o dese­nho ale­a­tó­rio de uma árvo­re nas­cen­do.

Tinha uma que­da notó­ria por retra­tos for­mais e pai­sa­gens orde­na­das, fei­tas de pre­fe­rên­cia com vagar, fun­do neu­tro, tri­pé e outros recur­sos veda­dos aos ins­tan­tâ­ne­os. Mas pegou no ar mais de uma vez o que viu de relan­ce, como o gato de olho no pra­to do filho que se dis­traí­ra com um avião­zi­nho de brin­que­do no can­to opos­to da mesa. Pegou, no úni­co ins­tan­te pos­sí­vel, a dúvi­da no ros­to da filha que saía de casa de guar­da-chu­va em punho e parou na por­ta, para son­dar o tem­po. E, num saque rápi­do, como os de Henri Cartier-Bresson, fla­grou o equi­lí­brio pre­cá­rio de um homem que, de pas­ta na mão, atra­ves­sa­va a cor­da bam­ba do lama­çal em Londrina, na cida­de em cons­tru­ção.

Era um ama­dor legí­ti­mo. E, como tal, cheio de tru­ques, como se esti­ves­se ape­nas se diver­tin­do. O que isso quer dizer trans­pa­re­ce da com­pa­ra­ção com seu con­tem­po­râ­neo Yutaka Yasunaka, um pro­fis­si­o­nal de Londrina, dono da Foto Estrela. Yasunaka foto­gra­fa­va o que o mer­ca­do que­ria. Fez edi­fí­ci­os subin­do cada vez mais alto em velhas ruas de vas­tos jar­dins e ínfi­mas casas de tábu­as, colu­nas moder­nis­tas de con­cre­to arma­do sain­do da for­ma para anun­ci­ar as últi­mas ambi­ções arqui­tetô­ni­cas, ave­ni­das se enchen­do de auto­mó­veis e cru­za­men­tos movi­men­ta­dos. Em suma, todas as mani­fes­ta­ções ven­dá­veis do cres­ci­men­to urba­no. E mui­tas foto­gra­fi­as aére­as, que foram ganhan­do impor­tân­cia ines­ti­má­vel, por­que mos­tram os jovens cafe­zais ser­pen­te­an­do em cur­vas de nível sobre os des­po­jos da flo­res­ta, um cemi­té­rio de tron­cos caí­dos e esque­ci­dos ao relen­to, na urgên­cia da febre agrí­co­la.

Yasunaka, como pro­fis­si­o­nal, via o con­jun­to, demar­ca­do por impri­o­ri­da­des soci­ais. Haruo Ohara, como ama­dor, fixa­va os deta­lhes, sem lhe ocor­rer se inte­res­sa­ri­am aos jor­nais, às fren­tes colo­ni­za­do­ras ou aos cole­ci­o­na­do­res de car­tões-pos­tais. Sua memó­ria do des­ma­ta­men­to está mag­ni­fi­ca­men­te gra­va­da numa úni­ca foto­gra­fia. E ela bas­ta. É um toco gigan­tes­co, aban­do­na­do no char­ras­cal de arbus­tos des­fo­lha­dos que res­tou a seus pés. Sobre o tron­co ser­ra­do, dois homens se empo­lei­ra­ram. Parecem minús­cu­los, pisan­do nas ruí­nas de um pas­sa­do mui­to mai­or que seu pre­sen­te. A mata, depois de per­di­da, tor­na­va-se legen­dá­ria antes mes­mo que a madei­ra aca­bas­se de apo­dre­cer.

Em outras pala­vras, as do his­to­ri­a­dor fran­cês Fernand Braudel falan­do das civi­li­za­ções do Mediterrâneo, Haruo Ohara foi em Londrina o fotó­gra­fo da “his­tó­ria imó­vel”, que é o lei­to fir­me de repe­ti­ções ime­mo­ri­ais por onde cor­re a espu­ma super­fi­ci­al dos acon­te­ci­men­tos his­tó­ri­cos. É um espe­tá­cu­lo para se acom­pa­nhar em pas­so len­to e sole­ne, como num fune­ral que as tra­di­ções da vida diá­ria vão adi­an­do enquan­to podem. Pedem um tipo de fotó­gra­fo que, segun­do o crí­ti­co inglês John Berger, sai­ba ope­rar “um tem­po de expo­si­ção que dura para sem­pre”.

Ou a cal­ma que não fal­ta­va a Haruo Ohara, acos­tu­ma­do a espe­rar que as peras ama­du­re­ces­sem para foto­gra­fá-las na hora cer­ta ou que o aero­por­to de Londrina esti­ves­se pron­to para regis­trar a inau­gu­ra­ção da pis­ta de asfal­to onde, até 1949, ele plan­ta­ra seis mil pés de café, rosei­rais, orquí­de­as, par­rei­ras e aba­ca­tei­ros. “Ele não foi cor­rom­pi­do pela pro­fis­si­o­na­li­za­ção”, diria em 1970 o ame­ri­ca­no Richard Avedon, do alto de sua repu­ta­ção de fotó­gra­fo pro­fis­si­o­nal, ao apre­sen­tar o pri­mei­ro livro do fotó­gra­fo ama­dor Jacques Henri Lartigue. Para Avedon, Lartigue tinha de sin­gu­lar o fato de que nun­ca foto­gra­fou por ofí­cio. Fotografar era “só uma coi­sa que ele fez todo dia, duran­te 70 anos”. E, como quem não quer nada, cole­ci­o­nou com isso os melho­res momen­tos de um sécu­lo XX que a mai­or par­te da huma­ni­da­de mal viu pas­sar, ocu­pa­da como esta­va pelas man­che­tes sobre assun­tos mais rele­van­tes do que a pró­pria vida. 

Haruo Ohara

Jacques Henri Lartigue e Haruo Ohara tinham tudo a sepa­rá-los, além do oce­a­no Atlântico. Lartigue nas­ceu com a vida ganha, em ber­ço de mili­o­ná­rio. Ganhou a pri­mei­ra máqui­na foto­grá­fi­ca aos seis anos, “de madei­ra enver­ni­za­da, com fole de pano ver­de”. Com ela, veio uma ban­que­ta, para que pudes­se alcan­çar a câme­ra em cima do tri­pé. Estreou na foto­gra­fia fazen­do seus brin­que­dos, espa­lha­dos no chão do quar­to. E não parou mais. Fotografou a babá jogan­do bola no jar­dim. As tias sal­tan­do de esca­das. Os pri­mos pulan­do na água. Enfim, todo o exte­nu­an­te lazer da eli­te euro­peia na bel­le épo­que, que se esfal­fa­va em cor­ri­das de auto­mó­veis, voos expe­ri­men­tais de aviões de bam­bu fei­tos em fun­do de quin­tal, tes­tes de tre­nós movi­dos a héli­ce e com­pe­ti­ções para tirar do chão, a pedal, a Aviette, uma bici­cle­ta com asas que jamais deco­lou.

Desde meni­no, Lartigue man­te­ve um diá­rio, em que os dias dig­nos de nota esta­vam inva­ri­a­vel­men­te assi­na­la­dos com as letras “t.b.” ou “t.t.b.” – “très bon” ou “très, très bon”. Ou seja, o sol tam­bém era um direi­to adqui­ri­do em sua roti­na. Moveu-se a vida intei­ra nas órbi­tas qua­se side­rais da soci­e­da­de fran­ce­sa, onde esbar­ra­va com o pin­tor Pablo Picasso ador­me­ci­do num sofá ou com o jovem sena­dor John Kennedy, em Cape d’Antibes, de cal­ção, entre bel­da­des. Desfilaram para suas len­tes soci­a­li­tes inter­na­ci­o­nais e estre­las do cine­ma. Assunto nun­ca fal­tou a seu ape­ti­te ama­do­rís­ti­co.

Haruo Ohara teve que se virar com bem menos. Seus pais vie­ram para o Brasil em 1927, tra­zen­do enxa­das e semen­tes na baga­gem. Ele esta­va então para fazer 18 anos. Crescera num Japão arrui­na­do por aven­tu­ras impe­ri­a­lis­tas na Coreia e na Manchúria, levan­do 100 mil japo­ne­ses a emi­grar. Estudara para ser pro­fes­sor. Aqui, seria lavra­dor. No navio, fez o pos­sí­vel para apren­der a nova lín­gua, escre­ven­do em inglês. 

No Brasil, os Ohara foram pos­tos antes de mais nada para capi­nar plan­ta­ções de bata­ta em Cotia, logo depois da che­ga­da a São Paulo. Mudaram-se no ano seguin­te para Presidente Prudente, onde as con­di­ções de tra­ba­lho eram mais ou menos as mes­mas, mas se sen­ti­am mais per­to dos cafe­zais que pro­je­ta­vam, para o mun­do, a mira­gem da rique­za fácil no Brasil. E, em menos de seis anos, esta­vam ins­ta­la­dos num lote do Patrimônio Três Bocas, no ser­tão do rio Tibagi. A futu­ra Londrina. 

Haruo Ohara teve mui­tos reco­me­ços. Quando a Brasil Paraná Loteamento e Colonização desa­pro­pri­ou suas ter­ras para fazer o aero­por­to, por exem­plo, ele com­prou outra gle­ba na mata nati­va do ribei­rão Palmital, entre­gou-a aos cui­da­dos de meei­ros, e foi morar na cida­de, pela pri­mei­ra vez em casa de alve­na­ria. Prosperou. Em cer­ca de uma déca­da, tinha qua­tro escri­tó­ri­os comer­ci­ais em Londrina e lotes rurais até em Mato Grosso. Perdeu tudo quan­do vie­ram bater em sua por­ta os cre­do­res das dívi­das fei­tas em seu nome, sem con­sul­ta pré­via, por um dos gen­ros. Ele pagou a con­ta cala­do. E dali para fren­te, veio apa­gan­do len­ta­men­te, até mor­rer em 1999. 

Enterrou Kô, depois de lon­ga doen­ça. Haruo Ohara foto­gra­fou-a, per­to do fim, na sala de casa. No últi­mo retra­to, imo­bi­li­za­da pela mias­te­nia, ela sor­ri. Depois, per­deu uma filha em desas­tre de auto­mó­vel. Sua foto­gra­fia nun­ca mais foi a mes­ma. Em par­te, por­que pas­sa­ra a foto­gra­far em cores, dei­xan­do para trás sua mes­tria em pre­to e bran­co, ale­gam seus bió­gra­fos Marcos Losnak e Rogério Ivano, no livro Lavrador de ima­gens, publi­ca­do em 2003. Mas, sobre­tu­do, por­que seus dias não devi­am mais ser colo­ri­dos, como nos anos per­du­lá­ri­os de vita­li­da­de pio­nei­ra que ele foto­gra­fou em pre­to e bran­co.

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