Arte sem arte: a nova obra de Marina Abramovic

Artes

17.11.14

Segue até dezem­bro na gale­ria Sean Kelly, em Nova York, o mais recen­te tra­ba­lho da artis­ta sér­via Marina Abramovic, um dos nomes-cha­ve na arte con­tem­po­râ­nea. Generator cha­mou minha aten­ção por ser uma con­tra­di­ção em ter­mos: uma “arte sem arte”, uma ins­ta­la­ção sem obje­tos, um site spe­ci­fic que dei­xa intac­to o local de sua rea­li­za­ção. Queria enten­der como a per­for­mer apa­ren­te­men­te se ausen­ta de sua cri­a­ção e dei­xa tudo a car­go do públi­co, res­pon­sá­vel por incor­po­rar o con­cei­to pro­pos­to e fazer a mági­ca acon­te­cer.

Generator, de Marina Abramovic

Abramovic é conhe­ci­da por per­for­man­ces como A artis­ta está pre­sen­te, ence­na­da no Museu de Arte Moderna de Nova York em 2010 (um fil­me de mes­mo nome sobre os bas­ti­do­res da obra este­ve em car­taz no Brasil em 2013). Por três meses, todos os dias, a artis­ta e o públi­co fica­vam cara a cara, sen­ta­dos em cadei­ras, sepa­ra­dos ape­nas por uma peque­na mesa. Há um vídeo que cir­cu­lou pela inter­net no qual ela e seu ex-com­pa­nhei­ro (de vida e de obra) Ulay se emo­ci­o­nam até as lágri­mas depois de pou­cos minu­tos com os olha­res fixos um no outro.

Como pro­vam Generator e A artis­ta está pre­sen­te, nos últi­mos anos a arte da per­for­mer vem pres­cin­din­do de obje­tos: seus tra­ba­lhos se rea­li­zam de manei­ra ima­te­ri­al, na tro­ca impre­vi­sí­vel e momen­tâ­nea esta­be­le­ci­da entre o visi­tan­te e a artis­ta. Isso é bem dis­tan­te do radi­ca­lis­mo de Rhythm 0 (1974), em que Abramovic colo­cou na mesa de uma gale­ria obje­tos ale­a­to­ri­a­men­te esco­lhi­dos (batom, bis­tu­ri, sapa­tos, azei­te, revól­ver etc.) e dis­se aos espec­ta­do­res que ela era um obje­to e que eles pode­ri­am fazer o que qui­ses­sem com seu cor­po duran­te as seis horas seguin­tes, ten­do à dis­po­si­ção os arte­fa­tos da mesa.

Na entra­da de Generator, assi­nei um ter­mo per­mi­tin­do que fos­se foto­gra­fa­do e fil­ma­do. Em segui­da, dei­xei casa­co, mochi­la e celu­lar, além de “qual­quer obje­to de medi­ção de tem­po” — pala­vras da assis­ten­te da gale­ria — em um armá­rio. Meus olhos foram então ven­da­dos com­ple­ta­men­te por um pano pre­to e meus ouvi­dos tapa­dos por um fone de ouvi­do gigan­te, como aque­les que os pedrei­ros usam em cons­tru­ções e que iso­lam qua­se total­men­te o baru­lho exter­no.

Cego e sur­do, fui gui­a­do pela mão por uma das assis­ten­tes para um local des­co­nhe­ci­do. Ela me sol­tou e saiu. Perdido por lá, eu pode­ria fazer o que qui­ses­se, pelo tem­po que qui­ses­se, levan­do em con­ta uma úni­ca regra: me mover len­ta­men­te. Eram 15h.

Foi mui­to estra­nho ficar pri­va­do de dois sen­ti­dos. Além da óbvia per­da de refe­rên­cia, tive uma for­te sen­sa­ção da pre­sen­ça do outro, mes­mo que eu não sou­bes­se quem encon­tra­ria ali – e, se encon­tras­se, como seria o toque. Comecei a movi­men­tar meus bra­ços em bus­ca de uma pare­de, um ser huma­no ou algo que me des­se algu­ma noção de esta­bi­li­da­de. Sem enxer­gar e sem ouvir, esta­va lite­ral­men­te tate­an­do no vazio.

O autor, de calça bege e blusa cinza.

Tendo che­ga­do do exces­so de efi­ci­ên­cia de Manhattan, onde, ape­sar do volu­me mons­tru­o­so de pes­so­as e do caos apa­ren­te, nin­guém encos­ta no cor­po do nin­guém por mais lota­do que o vagão do metrô este­ja e por mais estrei­ta que seja a pla­ta­for­ma de espe­ra do trem, meu cére­bro teve difi­cul­da­de em pro­ces­sar a pro­pos­ta da artis­ta. Naquele espa­ço eu pode­ria me loco­mo­ver cal­ma­men­te, não teria que dizer “sor­ry” por esbar­rar em alguém na hora de seguir meu cami­nho, teria a noção de uma pes­soa como um ente deli­ca­do e não como uma eta­pa a ser ven­ci­da até meu pon­to de che­ga­da. Para mim, Generator foi uma reno­va­do­ra expe­ri­ên­cia de alte­ri­da­de, e não de intros­pec­ção for­ça­da, como havia lido no mate­ri­al para a impren­sa.

Foi igual­men­te difí­cil não car­re­gar nada nos bol­sos. Instintivamente que­ria alcan­çar o iPho­ne para che­car uma nova men­sa­gem ou pos­tar uma foto no Instagram. Ninguém teria rou­ba­do a minha car­tei­ra, teria? O dinhei­ro e os car­tões do ban­co e do metrô esta­vam lá, como eu vol­ta­ria para casa?

Na ins­ta­la­ção, Abramovic leva ao limi­te a ideia de que o visi­tan­te não é um mero espec­ta­dor, mas um ele­men­to cru­ci­al da obra, que só será “de arte” uma vez que o públi­co tope par­ti­ci­par da via­gem. Este de cal­ça bege e blu­sa cin­za nas fotos sou eu, depois de meia hora, mais à von­ta­de com a len­ti­dão, sen­tin­do-se inde­fe­so, depen­den­te da aju­da alheia. No espa­ço da gale­ria são per­mi­ti­das até 68 pes­so­as ao mes­mo tem­po, a mes­ma ida­de de Marina.

Generator é uma espé­cie de con­ti­nu­a­ção do tra­ba­lho apre­sen­ta­do na Serpentine Gallery, em Londres, entre junho e agos­to des­te ano. Intitulado 512 Hours, duran­te dez sema­nas ela e seus assis­ten­tes inte­ra­gi­am com os visi­tan­tes rea­li­zan­do atos sim­ples como olhar para a pare­de e dar as mãos. “Em 1989, eu dei uma entre­vis­ta na qual dis­se que a arte do sécu­lo XXI seria uma arte onde não há nada entre o artis­ta e o visi­tan­te, seria uma tro­ca de ener­gia, e foi isso o que acon­te­ceu aqui. Olhar para algo não é expe­ri­men­tá-lo; isto é. A nos­sa cul­tu­ra é base­a­da na cul­pa, em ter que entre­gar; mas aqui damos às pes­so­as a per­mis­são de fazer nada — de fecha­rem os olhos e esta­rem con­si­go mes­mas. O que damos às pes­so­as são elas mes­mas”, dis­se a artis­ta ao jor­nal The Guardian à épo­ca da aber­tu­ra da ins­ta­la­ção.

Estampada na pare­de da gale­ria Sean Kelly, a fra­se do pro­fes­sor de arte e pen­sa­dor de van­guar­da ale­mão Alexander Dorner (1893–1957) dá o tom da obra em Manhattan: “O novo tipo de arte será mais como uma esta­ção de for­ça, um pro­du­tor de novas ener­gi­as”. A artis­ta diz que pre­ten­deu exe­cu­tar o con­cei­to de “vazio cheio”, deri­va­do de ensi­na­men­tos tibe­ta­nos sobre a uni­ci­da­de: o públi­co supos­ta­men­te é colo­ca­do em con­ta­to con­si­go mes­mo e com a ener­gia pal­pá­vel do ambi­en­te.

Independentemente do papo paz-e-amor, segui vagan­do sem rumo pela hora seguin­te. Girei meu cor­po vári­as vezes na ten­ta­ti­va de olhar para todos os lados; parei e virei a cabe­ça em dire­ção ao teto ima­gi­ná­rio, aten­to ao som dis­tan­te dos pas­sos dos outros visi­tan­tes; sen­ti viva­men­te a fric­ção das rou­pas com o meu cor­po. Em deter­mi­na­do momen­to encon­trei uma pare­de, meu supor­te pelos pró­xi­mos 20 pas­sos. Tive medo de sujar a pare­de com minhas mãos, por­que esta­va no cubo bran­co da gale­ria. No meio da sala tate­ei colu­nas retan­gu­la­res e esto­fa­das: me esco­rei e sus­pi­rei ali­vi­a­do.

Às 16h, levan­tei a mão e fui bus­ca­do por uma assis­ten­te, que com pas­sos de bebê me levou de vol­ta à entra­da, remo­veu a ven­da e os fones, per­gun­tou se eu esta­va bem – por­que pare­cia zon­zo – e me ofe­re­ceu uma cane­ta e um papel para escre­ver sobre a expe­ri­ên­cia. Não vi em momen­to algum o inte­ri­or da sala de onde aca­ba­ra de sair. Só fui enten­der o espa­ço e des­co­brir meus com­pa­nhei­ros de via­gem quan­do aces­sei o Tumblr no qual são pos­ta­das as fotos do pro­ces­so.

Esperando na área dos armá­ri­os por uma ami­ga que tinha ido comi­go (“João, cer­te­za de que peguei na teta de alguém lá”), notei que vári­as pes­so­as saíam deso­ri­en­ta­das e incré­du­las. A mai­o­ria fica­va cer­ca de 20 minu­tos e alguns divi­di­am suas impres­sões com as assis­ten­tes.

Na entra­da, uma ado­les­cen­te de uns 12 anos acom­pa­nha­da do pai insis­ten­te desis­tiu de par­ti­ci­par ao saber que pre­ci­sa­ria ser ven­da­da. Ela dis­se que detes­ta­va não enxer­gar, mes­mo que a sua famí­lia esti­ves­se jun­to. Nem todo mun­do está dis­pos­to a per­der o con­tro­le de seu mun­do.

, , , , ,