A performance em xeque

Literatura

15.09.11

Acon­te­ceu assim: terça de tarde, dia seis de setem­bro, meu ami­go Bruno abriu uma janela de chat e me infor­mou que Gar­ry Kas­parov, o lendário enx­adrista rus­so, jog­a­ria ao vivo com 20 pes­soas ao mes­mo tem­po no cen­tro de Por­to Ale­gre den­tro de uma hora. Primeiro, achei que fos­se pia­da. Então, em segui­da, ele me envi­ou o link para uma matéria de jor­nal con­fir­man­do a história. Que dia­bos. É o tipo de coisa tão absur­da que não se pode perder. Cal­cei os tênis e peguei o primeiro ônibus que me lev­a­va até o cen­tro da cidade.

No Chalé da Praça XV, uma mas­sa se reu­nia do lado de fora de um salão de vidro onde se realizaria a par­ti­da. Jun­tei-me à mul­ti­dão e, através do vidro, enx­er­guei vinte tab­uleiros espal­ha­dos em uma mesa em for­ma de U. Enquan­to isso, várias “cele­bri­dades por­to-ale­grens­es” (usan­do um ter­mo ouvi­do entre a plateia) começaram a se sen­tar. Eles eram os cora­josos que se dis­puser­am a enfrentar o enx­adrista rus­so. Entre reitores e locu­tores, se encon­travam duas cri­anças que, provavel­mente, sabi­am jog­ar xadrez mel­hor que todos os out­ros desafi­antes. A expec­ta­ti­va pela chega­da de Kas­parov era alta.

***

A relação entre lit­er­atu­ra e xadrez é tão con­stante que sus­peito que todos os país­es oci­den­tais já tiver­am algum grande nar­rador inter­es­sa­do pelo jogo. O argenti­no Jorge Luis Borges com­pôs o poe­ma “Aje­drez” sobre o assun­to. No romance A torre atingi­da por um raio, do dra­matur­go espan­hol Fer­nan­do Arra­bal, a prosa é inter­cal­a­da com movi­men­to de peças. Em A defe­sa Lujin, Vladimir Nabokov usa o xadrez como metá­fo­ra para a vida — e vice-ver­sa. De acor­do com Enrique Vila-Matas, no romance Bartle­by & Com­pan­hia, o artista plás­ti­co Mar­cel Duchamp foi, por um breve perío­do, um escritor, e aban­do­nou as letras para se dedicar ao jogo de xadrez. Na bus­ca de algum exem­p­lo brasileiro con­tem­porâ­neo, tudo que con­segui lem­brar é que Ricar­do Lísias é enx­adrista e men­ciona o jogo em um con­to pub­li­ca­do na Gran­ta.

A fasci­nação dos escritores pelo anti­go jogo de tab­uleiro pode ter muitas expli­cações. Tra­ta-se de um exer­cí­cio rad­i­cal de raciocínio e lóg­i­ca, de um con­fron­to entre dois int­elec­tos para provar qual mente é mais capaz de realizar cál­cu­los de pos­si­bil­i­dades de movi­men­tos e pre­v­er estraté­gias do opo­nente. Joga­do profis­sion­al­mente, ain­da há a questão do tem­po: não bas­ta pen­sar, é pre­ciso pen­sar com a veloci­dade de um cien­tista malu­co resol­ven­do uma gigan­tesca equação.

Mas, à parte de todos estes motivos óbvios para jus­ti­ficar o fascínio pelo xadrez, gostaria de lev­an­tar uma out­ra hipótese. Escritores são fasci­na­dos pelo jogo graças à per­for­mance do enx­adrista. E não me refiro às estraté­gias de jogo, mas sim às caras e bocas que os jogadores fazem quan­do estão ter­riv­el­mente con­cen­tra­dos nas peças. Há um vídeo clás­si­co (clás­si­co, no mun­do internéti­co, sig­nifi­ca: com mais de dois anos e de quin­hen­tas mil visu­al­iza­ções) no Youtube que mostra Gar­ry Kas­parov real­izan­do um movi­men­to equiv­o­ca­do (clique aqui). Ele se dá con­ta em questões de segun­dos do erro e esbugal­ha os olhos, colo­ca as mãos na cabeça e exala um sus­piro capaz de der­rubar um caste­lo. Foi ape­nas um movi­men­to de peça, mas o enx­adrista o inter­pre­ta como uma sen­tença de morte.

A per­for­mance do gênio con­cen­tra­do e transtor­na­do é análo­ga à imagem fetichiza­da que foi cri­a­da em cima da figu­ra do escritor. Em quase qual­quer filme de Hol­ly­wood que apre­sen­ta um escritor como per­son­agem, vemos o sujeito con­cen­tradís­si­mo frente à máquina de escr­ev­er, dig­i­tan­do empol­ga­do, ou no silên­cio vio­len­to dos que sofrem com a pági­na em bran­co. Tal rep­re­sen­tação não está ape­nas nos filmes. Muitos autores, em entre­vis­tas e palestras, pare­cem con­fir­mar esta imagem. A solidão do escritor obceca­do pelo faz­er literário; o escritor deses­per­a­do pelo mot juste; o escritor que encara o infer­no e o abis­mo na hora em que toca no tecla­do.

***

Kas­parov apare­ceu e foi rece­bido com uma sal­va de pal­mas. Não pude escu­tar o que ele disse no micro­fone, mas coisa boa não deve ter sido, pois logo em segui­da Kas­parov per­cor­reu a mesa em for­ma­to de U, mexeu o peão de cada tab­uleiro e… pôs out­ra pes­soa para jog­ar no lugar dele. A plateia do lado de fora, sem aces­so às con­ver­sas que ocor­ri­am den­tro do salão de vidro, não enten­deu nada e ficou esperan­do até o fim pelo retorno de Kas­parov. Alguém comen­tou: “Quem está jogan­do é o maior enx­adrista brasileiro”. Pouco impor­ta­va. A mas­sa esta­va reuni­da para ver Kas­parov, para ver a per­for­mance, para ver as caras e bocas, para ver a con­cen­tração e o dra­ma. Não me informei dos motivos pelos quais o rus­so deixou um sub­sti­tu­to jog­ar em seu lugar. A úni­ca coisa que Kas­parov fez para com­pen­sar a inutil­i­dade de min­ha ida até o cen­tro foi passear pela mesa, olhan­do os tab­uleiros e esboçan­do uma expressão que inter­pretei como “despre­zo sim­páti­co”.

***

 

A não par­tic­i­pação de Kas­parov foi muito frus­trante para os por­to-ale­grens­es ali reunidos, o que incluía meia dúzia de vel­hin­hos que sem­pre jogavam xadrez nas praças da cap­i­tal. Ouvi alguém comen­tar que Kas­parov só exibe sua genial­i­dade medi­ante um vul­toso paga­men­to.

De cer­ta for­ma, con­hecer ao vivo escritores que admi­ramos tam­bém tem um quê de decepção. Imag­i­namos que escritores habitam a mes­ma posição do enx­adrista profis­sion­al diante da máquina de escr­ev­er: obceca­dos, deses­per­a­dos, transtor­na­dos. Muitos, de fato, devem viv­er essa papel. Não muda o fato de que não pas­sa dis­so, uma per­for­mance, e que as caras e bocas provavel­mente não alter­arão o que será impres­so na pági­na de um romance ou o resul­ta­do de um jogo de xadrez.

Por fim, cabe encer­rar este tex­to com uma curiosi­dade. Logo que Kas­parov aban­do­nou os vinte desafi­antes, sen­tou-se para auto­gra­far seu livro. Sim, Kas­parov, além de enx­adrista, é escritor. Mais tarde, escutei o seguinte diál­o­go entre pes­soas da plateia: “E o livro dele, é sobre téc­ni­cas de xadrez?”. “Não”, respon­deu uma mul­her, “é autoa­ju­da”.

* Na imagem da home que ilus­tra este post: o enx­adrista rus­so Gar­ry Kas­parov expres­sa seu transtorno ao errar uma joga­da em par­ti­da con­tra o indi­ano Vishy Anand

 

 

 

 

, , , , ,