O cineasta e escritor Alejandro Jodorowsky

O cineasta e escritor Alejandro Jodorowsky

Desmesurada poesia

No cinema

07.07.17

Desde o títu­lo, Poesia sem fim, o novo fil­me de Alejandro Jodorowsky sus­ci­ta no espec­ta­dor a per­gun­ta: o que é, afi­nal, a poe­sia? E outra: como ela se tra­duz ou se expres­sa em cine­ma?

O cine­as­ta chi­le­no tem uma tra­je­tó­ria ímpar. Depois de rea­li­zar, no México e na Europa, uma obra pou­co nume­ro­sa mas com momen­tos cin­ti­lan­tes como El topo (1970), A mon­ta­nha sagra­da (1973) e Santa san­gre (1989), que lhe vale­ram um sta­tus qua­se míti­co, ficou vin­te e três anos sem fil­mar. Em 2013, aos 84 anos, retor­nou ao seu país e ao cine­ma para pas­sar em revis­ta sua vida e obra numa pla­ne­ja­da série de cin­co lon­gas-metra­gens, dos quais A dan­ça da rea­li­da­de (2013) foi o pri­mei­ro. Poesia sem fim é o segun­do.

Surrealismo bar­ro­co

Desta vez, o perío­do abor­da­do é o da pas­sa­gem de Alejandro da ado­les­cên­cia à ida­de adul­ta. Começa com a mudan­ça de sua famí­lia de um vila­re­jo lito­râ­neo para Santiago e ter­mi­na com a par­ti­da do jovem Alejandro (Adan Jodorowsky, filho do dire­tor) para Paris.

A abor­da­gem esté­ti­ca, como no lon­ga ante­ri­or, é o que se pode­ria cha­mar de sur­re­a­lis­mo bar­ro­co, em que memó­ria e fan­ta­sia são sinô­ni­mos. Visual extra­va­gan­te, sobre­tu­do na ceno­gra­fia e nos figu­ri­nos, con­tras­tes vio­len­tos de cores, pro­fu­são de metá­fo­ras e hipér­bo­les, atu­a­ções antir­re­a­lis­tas. Para o bem ou para o mal, é uma esté­ti­ca da exu­be­rân­cia, do exces­so, da des­me­su­ra.

A sequên­cia da che­ga­da da famí­lia a um bair­ro de Santiago, logo no iní­cio, é um pro­dí­gio de inven­ção visu­al, com o cená­rio sen­do cons­truí­do ver­ti­gi­no­sa­men­te dian­te dos nos­sos olhos, com pai­néis móveis e trem de pape­lão, como num infi­ni­to pal­co de tea­tro ao ar livre. Não por aca­so, o tea­tro é um dos mei­os de expres­são a que Jodorowsky se dedi­cou apai­xo­na­da­men­te, ao lado da lite­ra­tu­ra e do cine­ma. Em seus melho­res momen­tos, os fil­mes do dire­tor fun­dem e poten­ci­a­li­zam esses três mei­os de expres­são.

Em Poesia sem fim há vári­as outras pas­sa­gens em que essa alqui­mia acon­te­ce: a apre­sen­ta­ção do palha­ço-poe­ta Alejandro num cir­co, o encon­tro na rua entre dois blo­cos car­na­va­les­cos (o dos dia­bos e o das cavei­ras), o retor­no ao Chile do líder de direi­ta Ibánez del Campo, caval­gan­do à fren­te de segui­do­res que usam más­ca­ras inex­pres­si­vas.

Ambiente artís­ti­co-lite­rá­rio

Como o entre­cho diz res­pei­to à saí­da de Alejandro da casa dos pais e seu mer­gu­lho no ambi­en­te artís­ti­co-lite­rá­rio do Chile do iní­cio dos anos 1950, entram em cena vári­os per­so­na­gens reais, como os poe­tas Enrique Lihn (Leandro Taub), Stella Díaz Varín (Pamela Flores) e Nicanor Parra (Felipe Ríos). Todos eles trans­fi­gu­ra­dos pela fan­ta­sia e pelo humor do cine­as­ta, cla­ro. Stella, por exem­plo, é uma musa esqui­va e inti­mi­da­do­ra, ao mes­mo tem­po vir­gem e agres­si­va­men­te sexu­a­li­za­da.

O outro polo da nar­ra­ti­va diz res­pei­to à rela­ção do jovem poe­ta com a famí­lia, isto é, com a mãe extre­mo­sa e sub­mis­sa, que can­ta suas falas como ári­as de ópe­ra, e com o pai cari­ca­tu­ral­men­te homo­fó­bi­co e repres­sor. Significativamente, o ator que encar­na o pai, Brontis Jodorowsky, tam­bém é filho do cine­as­ta, de modo que pai e filho, ape­sar da dife­ren­ça de ida­de, são repre­sen­ta­dos por dois irmãos na vida real, ambos filhos de Alejandro Jodorowsky. É bom ter isso em men­te na lin­da cena final, em que aos dois se jun­ta o pró­prio dire­tor octo­ge­ná­rio, for­jan­do na tela um acer­to de con­tas que não che­gou a acon­te­cer em sua bio­gra­fia real.

A rela­ção com a mãe é ain­da mais com­ple­xa e sutil. Basta dizer que a mes­ma atriz que a repre­sen­ta encar­na tam­bém a vamp Stella, pri­mei­ra pai­xão do jovem Alejandro. Mais que isso: de uma cena em que Alejandro sodo­mi­za Stella sal­ta­mos dire­ta­men­te para outra em que Sara, a mãe, é pene­tra­da por trás pelo mari­do. Os psi­ca­na­lis­tas vão se esbal­dar.

Discurso dilui­dor

Se há algo que de algum modo enfra­que­ce o efei­to esté­ti­co-polí­ti­co de Poesia sem fim, é jus­ta­men­te… a poe­sia, ou melhor, seu dis­cur­so sobre a poe­sia. No fil­me, os poe­tas apa­re­cem como seres ilu­mi­na­dos, ungi­dos com um dom espe­ci­al, apar­ta­dos dos mor­tais comuns. Essa velha visão român­ti­ca e ide­a­li­za­da da poe­sia e da ati­vi­da­de poé­ti­ca é repi­sa­da a todo momen­to e aca­ba por diluir oca­si­o­nal­men­te o que o fil­me tem de mais for­te e ori­gi­nal.

Até mes­mo cenas que pode­ri­am ser visu­al e dra­ma­ti­ca­men­te inte­res­san­tes, como a tra­ves­sia da cida­de “em linha reta” por Alejandro e seu ami­go Enrique Lihn, são tor­na­das pue­ris pelo insis­ten­te dis­cur­so explí­ci­to dos per­so­na­gens na linha do “somos poe­tas, pode­mos tudo”. Há um ran­ço de sur­re­a­lis­mo data­do no humor des­sas ati­tu­des pour épa­ter le bour­ge­ois.

Curioso é que os per­so­na­gens vitu­pe­rem o “poe­ta ofi­ci­al” Pablo Neruda mas com­par­ti­lhem com ele a mes­ma ver­bor­ra­gia ple­na de “ima­gens poé­ti­cas” e a mes­ma con­cep­ção român­ti­ca do poe­ta como ser espe­ci­al.

Em suma, o fil­me ganha­ria ain­da mais vigor se falas­se menos de poe­sia e se limi­tas­se a pra­ti­cá-la com seus mei­os expres­si­vos espe­cí­fi­cos. Quando faz isso, cres­ce como cine­ma, como magia e, cla­ro, como poe­sia.