José Geraldo Couto
O diretor Pablo Giorgelli

A política do corpo

José Geraldo Couto

17.11.17

No momento em que o Congresso brasileiro ameaça criminalizar todas as formas de aborto, inclusive em casos de estupro ou de ameaça à vida da gestante, poucos filmes serão tão atuais e pertinentes quanto Invisível, do argentino Pablo Giorgelli. Mas não é só por isso que ele merece ser visto.

O inferno é aqui

José Geraldo Couto

10.11.17

Passemos ao largo do fogo cerrado a que Vazante, de Daniela Thomas, foi submetido no último Festival de Brasília. Algumas acusações lançadas ali são tão descabidas que não mereceriam comentário. O problema é que as chagas da nossa formação como país são tão profundas que qualquer filme será insuficiente para aplacar as dores acumuladas ao longo dos séculos. Talvez algumas cobranças, por mais legítimas que sejam, só pudessem ser satisfeitas por uma obra programática, que mostrasse negros heroicos e virtuosos batendo-se contra o dragão da maldade do poder branco. Mas uma tal obra teria escassa eficácia política, esgotando-se na catarse, e valor estético nulo.

Imagem do filme "A moça do calendário"

O futuro é mulher

José Geraldo Couto

30.10.17

A moça do calendário, de Helena Ignez, é um dos filmes mais vigorosos da Mostra de Cinema de SP. O protagonista é o “mecânico e dublê de dançarino” Inácio. Tudo acontece em torno de suas relações com a mulher, com os colegas de trabalho, com o dono da oficina, com seus “bicos” como ator, com o sonho de encontrar a tentadora “moça do calendário.

Cena do filme "As boas maneiras"

O horror do Brasil

José Geraldo Couto

27.10.17

As boas maneiras, ganhador do prêmio especial do júri no festival de Locarno, surge como um dos longas mais aguardados da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Dirigido pelos jovens brasileiros Marco Dutra e Juliana Rojas, o filme atualiza o mito do lobisomem e consegue o prodígio de enfrentar o terror sem perder de vista o amor e o humor. Como dizia Hitchcock, o problema não é o clichê, mas sim partir de uma ideia original e desembocar num clichê. As boas maneiras, assim como os filmes do mestre do suspense, faz justo o contrário: parte do clichê para algo original. José Geraldo Couto comenta esta e outras boas atrações da Mostra.

Cena do filme "Zama", de Lucrécia Martel

Kafka no chaco

José Geraldo Couto

23.10.17

Um dos filmes mais originais e intrigantes da 41ª Mostra de Cinema de São Paulo é certamente Zama, coprodução multinacional dirigida pela argentina Lucrecia Martel. O filme é ambientado na região pantanosa onde hoje é o Paraguai pouco antes das guerras de independência contra a Espanha. Mais que um “romance histórico”, trata-se de um antiépico, em que toda a agitação, todo o movimento, parece não levar a parte alguma, numa atmosfera estagnada e angustiante.

Cena do documentário Human Flow, de Ai Weiwei

Se oriente, rapaz

José Geraldo Couto

20.10.17

Vem da Ásia uma das ondas mais fortes e interessantes do oceano de filmes que compõem a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No rastro do artista multimídia chinês Ai Weiwei, que está na cidade para apresentar seu documentário sobre refugiados nos quatro cantos do globo, tem filmes da Coreia, de Taiwan, do Japão... Confira as apostas de José Geraldo Couto na maratona cinéfila iniciada no dia 19.

Cena do filme Gabriel e a Montanha

O ouro do tempo

José Geraldo Couto

11.10.17

Segundo longa-metragem do diretor Fellipe Barbosa, Gabriel e a montanha, não apenas confirma seu talento como atesta um notável amadurecimento artístico e humano, no enfrentamento, desta vez, de um desafio mais complexo: reconstituir dramaticamente os últimos dias de vida de Gabriel Buchmann, jovem economista brasileiro morto ao escalar o monte Mulanje, no Malawi, no sudeste da África.

Futuro do pretérito

José Geraldo Couto

06.10.17

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve. Digo logo que gostei. Não se trata de saber se o filme é “bom” ou “ruim”, avaliações tão instáveis e subjetivas, mas de reconhecer o que ele oferece em termos de entretenimento, espanto e reflexão. E há muito dessas três coisas nele.

Além da globochanchada

José Geraldo Couto

29.09.17

De quando em quando surge no cinema brasileiro uma comédia que escapa da vala comum das franquias mais previsíveis e vulgares da Globo Filmes (as chamadas “globochanchadas”) e esboça uma revitalização ou ao menos um arejamento do gênero. A aposta do momento é Divórcio.

Brasília e o cinema proletário

José Geraldo Couto

25.09.17

No ambiente inflamável e polarizado do 50º Festival de Brasília, acabaram ofuscados os filmes que não atendiam às exigências militantes. Cabe esperar que sejam as dores do parto de uma conquista de visibilidade e não o surgimento de uma patrulha duradoura. Por acerto do júri, os prêmios principais foram para obras que superam a falsa dicotomia entre contundência sócio-política e empenho estético.