O cineasta Jorge Furtado

O cineasta Jorge Furtado

Teatro dilacerado

No cinema

07.12.18

Quis o acaso que entrassem em cartaz ao mesmo tempo dois filmes inspirados em peças que marcaram época no teatro brasileiro: O beijo no asfalto (1960), de Nelson Rodrigues, e Rasga coração (1974), de Oduvaldo Vianna Filho. O primeiro chega às telas pelas mãos do ator Murilo Benício, em sua estreia na direção. O segundo, por obra do tarimbado Jorge Furtado.

Cada um optou por um modo diferente de dialogar com o texto de origem, de mantê-lo vivo, de aproximá-lo do público de hoje. Jorge Furtado decidiu trazer a ação para os dias atuais, mantendo entretanto a estrutura da peça e seu conflito geracional central.

No texto de Vianinha, o protagonista, Manguary Pistolão, é um funcionário público de meia-idade, militante comunista de velha estirpe, e seu filho Luca, para seu desgosto, não quer saber de política e adere ao desbunde do movimento hippie. No filme de Furtado, Manguary (Marco Ricca) é um pouco mais flexível e Luca (Chay Suede) é um ativista, mas à sua maneira: seu conflito é com o colégio, que não lhe permite entrar de saia na sala de aula.

 

 

Desse modo, graças a um roteiro bem urdido e a uma consistente direção de atores, mantém-se o dilaceramento dramático central da peça de Vianinha, atualizado para a fissura entre uma esquerda marxista mais convencional, sindical e partidária, e a emergência de demandas identitárias, ou das chamadas minorias, nem sempre contempladas pelos velhos partidos e organizações.

O ponto fraco do filme talvez sejam os flashbacks (também existentes na peça) um tanto esquemáticos, raiando ao caricatural no retrato dos agentes repressivos e na caracterização do amigo de juventude Lorde Bundinha (George Sauma), personificação do desbunde “alienado”, ainda que o olhar lançado a este seja agora mais compassivo, menos implacável que o do próprio Vianinha.

 

O beijo no asfalto

Nelson Rodrigues (que aliás não gostava do teatro de Vianinha, mas admirava Rasga coração) é outro departamento. Um dos méritos do filme de Murilo Benício é o de mostrar a perenidade do Beijo como um dos mergulhos mais profundos no magma cultural e moral brasileiro, no que este tem de pior: machismo, traição, repressão, egoísmo, covardia.

 

 

Diferentemente de Jorge Furtado, que fez uma transposição “direta” da peça de Vianinha, a nova versão cinematográfica do Beijo no asfalto (a terceira) é o que poderíamos chamar de meta-adaptação, pois é centrada no próprio processo de passagem do texto para o palco e para o cinema. A ação narrada na peça, encenada ora em locações, ora em cenários expostos ostensivamente como tal, alterna-se com as reuniões de leitura e discussão entre um veterano diretor (Amir Haddad) e os atores da montagem (e/ou filme) que ele está preparando.

Assim como acontece em filmes híbridos como Tio Vânia em Nova York, de Louis Malle, Ricardo 3º, de Al Pacino, e Moscou, de Eduardo Coutinho, ao mesmo tempo em que se mostra a peça original (o enredo, os personagens), discute-se seu sentido na época em que foi feita e nos dias de hoje.

O beijo no asfalto, como se sabe, conta uma história poderosa. Atropelado por um lotação no centro do Rio, um homem agoniza no meio-fio. Num último suspiro, pede um beijo a um transeunte que se debruça sobre ele. Esse transeunte, Arandir, rapaz casado e trabalhador, morador do subúrbio, atende o pedido, beija o sujeito na boca, e por conta disso sua vida se torna um inferno.

No filme, como na peça, o beijo de Arandir traz à tona o mais feroz e tacanho moralismo repressivo, arraigado numa polícia truculenta, atiçado por uma imprensa venal, espalhado por uma opinião pública frívola e manipulável. O que mudou desde que o texto foi escrito? O que permanece? É isso o que se discute nas conversas com o elenco, sobretudo por Fernanda Montenegro, que atuou na primeira montagem, em 1961. É ela, por exemplo, que mostra a dolorosa atualidade do texto, ao comentar sobre um garoto que, em pelo século 21, foi espancado e morto por ser filho de um casal de homossexuais.

 

Questão racial

Entre as ousadias da abordagem de Murilo Benício, talvez a mais desconcertante seja a escalação de um ator negro, Lázaro Ramos, para o papel de Arandir. Certamente essa ideia nunca passou pela cabeça de Nelson Rodrigues. A peça seria inteiramente diferente, podemos supor, se seu protagonista fosse negro, pois isso introduziria outra ordem de atritos, de reverberações, de preconceitos.

O fato de a questão racial não ser sequer mencionada, nem na ação encenada nem nas conversas do diretor com o elenco, chama a atenção para o tema de forma reversa, pelo negativo, pela ausência. Porque, vivendo no Brasil, é impossível deixar de pensar nessa outra fratura histórica. Só para constar: nas versões cinematográficas anteriores Arandir foi vivido por Reginaldo Faria (O beijo, de Flavio Tambellini, 1965) e por Ney Latorraca (Beijo no asfalto, Bruno Barreto, 1981). Note-se também que Lázaro Ramos não é um ator negro qualquer, mas alguém que tem se pautado pela reflexão crítica em torno da condição do negro em nossa sociedade.

Cabe destacar, além do elenco afiadíssimo (Stenio Garcia, Otavio Müller, Augusto Madeira, Débora Falabella), a esplêndida fotografia em preto e branco que, mais do que atestar o virtuosismo de Walter Carvalho no domínio da luz, serve para “essencializar” a tragédia, depurá-la do que é acessório, evidenciar o que nela ainda pulsa, grita, incomoda, rasga coração.

 

Tinta bruta

Outra estreia importante é o longa gaúcho Tinta bruta, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, premiado com o Teddy (de temática LGBT) no Festival de Berlim e como melhor filme no Festival do Rio.

 

 

É, resumidamente, a história de Pedro (Shico Menegat, também premiado no Rio), um rapaz que deixou a faculdade e vive recluso em seu apartamento em Porto Alegre depois que a irmã jornalista se muda para Salvador. Diante de sua webcam, Pedro realiza performances eróticas (dança, strip-tease, masturbação) com o corpo pintado com tintas fosforescentes e o codinome Garoto Néon. Vende esses shows íntimos a usuários de internet e vive disso.

Ao mesmo tempo em que lida com a solidão e se esquiva de encontros eróticos reais, ele enfrenta um processo que pode levá-lo à cadeia. É só aos poucos que ficamos sabendo qual é a encrenca em que se meteu.

É um filme admirável por sua economia narrativa e pela composição do personagem, que, na excelente atuação de Menegat, mantém sempre uma certa opacidade, uma indefinição entre a melancolia, a revolta surda e a fragilidade extrema. Parece alguém indecifrável, sempre prestes a beijar ou a esfaquear quem está por perto.

O achado visual das tintas de cores vivas realçadas pelo néon ilumina, de certo modo, a relação do personagem com o mundo, contrastando um universo interior pleno de fantasia, cor e liberdade com a cinzenta realidade circundante. O Garoto Néon brilha, Pedro se apaga.

O tom geral é pessimista. As tentativas de ponte afetiva (com a irmã, com um namorado e parceiro de performances, com a avó) acabam por se frustrar de uma maneira ou de outra. Não por acaso, todas as festas são de despedida. À alegria dos outros, o Garoto Néon opõe sua solidão irredutível. É, em suma, um belo filme.

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