Ele voltou; mas como?

Literatura

09.01.13

A publi­ca­ção em capa dura de Contos reu­ni­dos de João Antônio pela CosacNaify, em edi­ção cui­da­do­sa com apre­sen­ta­ção de Rodrigo Lacerda, acres­cen­ta­da de bre­ve for­tu­na crí­ti­ca e alguns tex­tos dis­per­sos, é home­na­gem e reco­nhe­ci­men­to há mui­to devi­dos a esse escri­tor deci­si­vo na lite­ra­tu­ra urba­na bra­si­lei­ra. Ao volu­me jun­ta-se a edi­ção fac-sími­le de cader­ne­ta de ende­re­ços onde João Antônio ano­ta­va gíri­as e expres­sões popu­la­res que ia ouvin­do. Algumas já incor­po­ra­das ao voca­bu­lá­rio cor­ri­quei­ro, outras ain­da res­tri­tas aos diver­sos espa­ços em que cos­tu­mam cir­cu­lar como o salão de sinu­ca, os bote­quins ou as pri­sões, outras pou­cas já fora de moda. Na ver­da­de, for­mam mais que um voca­bu­lá­rio das ruas, como é inti­tu­la­do, mas regis­tro de múl­ti­plas sub­cul­tu­ras que cir­cu­lam pelo Rio de Janeiro e São Paulo. E não há como a edi­ção fac-sími­le para dar pra­zer aos que con­ti­nu­am cul­tu­an­do o livro em papel.

Duas con­di­ções espe­ci­ais con­tri­bu­em para a seri­e­da­de do tra­ba­lho: a pri­mei­ra é o res­pon­sá­vel pela apre­sen­ta­ção. Até onde minha vis­ta alcan­ça, Rodrigo Lacerda é o mais cons­tan­te e minu­ci­o­so pes­qui­sa­dor da obra do nos­so con­tis­ta sem sobre­no­me. Há anos se ocu­pa da obra que vem sen­do ree­di­ta­da em volu­mes sepa­ra­dos pela edi­to­ra des­de 2001. A outra con­di­ção favo­rá­vel foi a reu­nião de todo o mate­ri­al dei­xa­do por João Antônio e doa­do pela famí­lia no Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa da UNESP-Assis(SP). O CEDAP/UNESP vem cum­prin­do da melhor for­ma pos­sí­vel o que deve ser o obje­ti­vo de um cen­tro como este: não se limi­tar a ser um museu ( às vezes são ape­nas depó­si­tos), bibli­o­te­ca seto­ri­al ou algo assim, mas um polo difu­sor de pes­qui­sas aca­dê­mi­cas que vão de mono­gra­fi­as de final de cur­so a teses de dou­to­ra­do. Além de con­tri­buir e incen­ti­var tais estu­dos, encar­re­ga-se de divul­gá-los em seu site, dis­po­ni­bi­li­zan­do, inclu­si­ve, as teses e dis­ser­ta­ções liga­das ao “Acervo João Antônio” em PDF. Exemplo raro que mere­ce ser copi­a­do em outras uni­ver­si­da­des, mui­tas delas deten­to­ras de arqui­vos inve­já­veis que se trans­for­mam, de fato, em “arqui­vos-mor­tos”.

É, assim, pro­vo­ca­da pela qua­li­da­de do tra­ba­lho rea­li­za­do e pela impor­tân­cia da publi­ca­ção que me vejo ins­ti­ga­da ao deba­te.

Comecemos pelo títu­lo: Contos reu­ni­dos. Ninguém está dizen­do que se tra­ta de obra com­ple­ta ou de todos os con­tos do autor, embo­ra o lei­tor desa­vi­sa­do ten­da, à pri­mei­ra vis­ta, a acre­di­tar que assim seja. Junto com o títu­lo da obra (já dis­se o pró­prio João Antônio: “Um título…como é difí­cil e como é fácil. Ou impos­sí­vel”) há uma deci­são auto­ral do orga­ni­za­dor, um cri­té­rio a deter­mi­nar a sele­ção. Não sei se a pro­pos­ta não está cla­ra ou se sim­ples­men­te não con­cor­do os cri­té­ri­os de exclu­são que dei­xam de fora Malhação de Judas Carioca e o que me pare­ce ser o mais ori­gi­nal dos livros da fase final de sua obra: Ô Copacabana. Os iné­di­tos ou dis­per­sos pou­co acres­cen­tam e pare­cem ser mais um tri­bu­to ao mate­ri­al doa­do ao cen­tro. Talvez fos­se melhor incluir o pou­co conhe­ci­do Dama do Encantado, obra de for­ma­to pecu­li­ar.

João Antônio, à direi­ta, duran­te as fil­ma­gens de O jogo da vida,
base­a­do no livro Malagueta, Perus e Bacanaço

Volto ao cri­té­rio de inclusão/seleção. O apre­sen­ta­dor do volu­me afir­ma, enfá­ti­co, que “foi con­ce­bi­do este volu­me, no qual, sem medo de errar, pode-se dizer que a pro­du­ção essen­ci­al do escri­tor ganha um tra­ta­men­to ain­da mais con­di­zen­te com sua impor­tân­cia”. Caímos então na velha ques­tão do câno­ne e da con­sa­gra­ção da obra lite­rá­ria por ins­tân­ci­as legi­ti­ma­do­ras, geral­men­te aca­dê­mi­cas. Preferiria que o autor tives­se, sim, medo de errar e deter­mi­nas­se quais as obras a serem incluí­das, arbi­tra­ri­a­men­te, a par­tir de pró­prio cri­té­rio de gos­to ou outra qual­quer razão que apre­sen­tas­se cla­ra­men­te ao lei­tor. O que me inco­mo­da nes­sa cer­te­za da impor­tân­cia dos tex­tos esco­lhi­dos é que, cote­jan­do com a for­tu­na crí­ti­ca apre­sen­ta­da, pare­ce ser a ava­li­a­ção dos (quer se quei­ram ou não) for­ma­do­res do câno­ne sobre a obra que influiu. Assim, Antonio Candido legi­ti­ma Contos gerais, de Malagueta, Perus e Bacanaço. Tania Macedo ates­ta a impor­tân­cia de Leão de Chácara. À apre­sen­ta­ção de Paulo Rónai publi­ca­da na 1ª edi­ção de Dedo duro jun­ta-se o des­per­dí­cio de talen­to que pra­ti­ca Jorge Amado falan­do do mes­mo livro, que não pare­ce ter lido. O tex­to de Alfredo Bosi, “Um boê­mio entre duas cida­des”, publi­ca­do na 1a edi­ção de Abraçado ao meu ran­cor, jus­ti­fi­ca, jun­to com os prê­mi­os rece­bi­dos pela obra, a inclu­são des­te úni­co livro da fase final de João Antônio nos Contos reu­ni­dos. Reconhecendo que o ter­mo “mar­gi­nal” é fon­te de equí­vo­cos, Bosi apon­ta para o que tal­vez seja uma mudan­ça em tor­no da figu­ra do escri­tor que tan­to suces­so de ven­das e de crí­ti­ca alcan­ça­ra. Afirma Bosi:

Abeirar-se do tex­to ora lan­ci­nan­te ora tris­te­men­te pro­sai­co de João Antônio requer (a quem não o faz por natu­ral empa­tia) todo um empe­nho de ler nas entre­li­nhas um cam­po de exis­tên­cia sin­gu­lar, pró­prio de um escri­tor que atin­giu o cer­ne das con­tra­di­ções soci­ais pelas vias tor­tas e notur­nas da con­di­ção mar­gi­nal.

Ou seja, João Antônio vai pas­san­do de intér­pre­te (pri­vi­le­gi­a­do, é ver­da­de, por­que pró­xi­mo ao seu obje­to pela sua ori­gem na clas­se ope­rá­ria de São Paulo) da mar­gi­na­li­da­de a um mar­gi­na­li­za­do ele pró­prio. Em minha lei­tu­ra, isso se dá a par­tir do momen­to em que publi­ca Ô Copacabana. Apesar de dedi­car-se a “retra­tos” em Dama do Encantado, seu últi­mo livro, o mais expres­si­vo nas últi­mas obras, em Abraçado ao meu ran­cor dei­xa de lado os per­so­na­gens huma­nos, espe­ci­al­men­te os que o cele­bri­za­ram, como o malan­dro, o joga­dor de sinu­ca, os mole­ques pobres, para se focar no espa­ço. É o nar­ra­dor que está na cida­de que “redói”, que “deu em outra”, e são os espa­ços da cida­de que deter­mi­nam a sor­te dos per­so­na­gens. Em con­tos como “Guardador”, de Abraçado ao meu ran­cor, onde ao “velho cacha­ça” da Praça Serzedelo Correia, res­tou ape­nas o oco de uma árvo­re como mora­dia, as falas min­guam, fica o cená­rio. Não impor­ta que seja Rio de Janeiro ou São Paulo: “essa bri­gui­nha ranhe­ta nos apor­ri­nha por repe­ti­ção mono­cór­dia”, como diz em no mes­mo livro: “para o cari­o­ca, pau­lis­ta é um cha­to enga­lo­cha­do. Grave, afo­ba­di­nho, de gin­ga pou­ca e duro nas jun­tas. E, para pau­lis­ta, cari­o­ca des­can­sa­do é mar­rom de sol, pare­ce viver em féri­as”.

Rodrigo Lacerda nos dá uma expli­ca­ção bas­tan­te lógi­ca e raci­o­nal para o que con­si­de­ra a dimi­nui­ção do fôle­go cri­a­ti­vo do escri­tor:

Recusando-se a sacri­fi­car seu esti­lo de vida, boê­mio e inde­pen­den­te de vín­cu­los pro­fis­si­o­nais, João Antônio aca­bou sacri­fi­can­do pro­je­tos lite­rá­ri­os que exi­gis­sem um tem­po de matu­ra­ção mais lon­go.

Essa degra­da­ção do autor irá, para o pes­qui­sa­dor, levar tam­bém aos tex­tos pro­du­zi­dos con­sequên­ci­as enfra­que­ce­do­ras, espe­ci­al­men­te um acor­ren­tar-se de vez ao real extraí­do do coti­di­a­no da cida­de e os exces­sos esti­lís­ti­cos, numa “ver­bor­ra­gia pre­ci­o­sa, uma espé­cie de par­na­si­a­nis­mo ao aves­so”, o mes­mo que o crí­ti­co Léo Gilson Ribeiro viu com “defei­to gra­ve”: pren­der-se num “cipo­al de pala­vras que qua­se sufo­ca o rela­to” num des­lum­bra­men­to pelos vocá­bu­los e expres­sões por ele cri­a­dos ou for­ja­dos pelo povo.

Como diria Guimarães Rosa, pão ou pães é ques­tão de opi­niães. São jus­ta­men­te esses dois fato­res, um mer­gu­lho mais pes­so­al, mais inclu­si­vo, na lama das cida­des e o cipo­al de pala­vras que me encan­tam, sobre­tu­do em Ô Copacabana. O for­ta­le­ci­men­to de tais recur­sos que, de algu­ma for­ma já exis­ti­am, é que me pare­ce dar um novo rumo à sua lite­ra­tu­ra que, pelo meio do cami­nho da tra­je­tó­ria cri­a­do­ra, caí­ra em quei­xas ide­o­ló­gi­cas um tan­to lamu­ri­en­tas e na defe­sa de um pro­le­ta­ri­a­do utó­pi­co. Foram esses qua­se caco­e­tes que, se o tor­na­ram um autor com gran­de recep­ti­vi­da­de sobre­tu­do entre os lei­to­res de esquer­da duran­te os anos do regi­me, tam­bém o incluí­ram no deba­te que sur­giu no final dos anos 70 sobre um “neo­po­pu­lis­mo emer­gen­te”.

No estu­do “A fic­ção da rea­li­da­de bra­si­lei­ra”, de Heloisa Buarque de Hollanda e Marcos Augusto Gonçalves, par­te da cole­ção de cin­co livri­nhos orga­ni­za­dos por Adauto Novaes na cole­ção Anos 70, os auto­res, após reco­nhe­ce­rem a impor­tân­cia da fic­ção de um “arte­são apri­mo­ra­do na cons­tru­ção de tipos”, ques­ti­o­nam a manei­ra como João Antônio tira de sua gale­ria de per­so­na­gens um sabor reno­va­do e pito­res­co, sem “nada que pro­ble­ma­ti­ze sua prá­ti­ca, que mar­gi­na­li­ze sua fic­ção reple­ta de mar­gi­nais”. Simplificando, che­gou um momen­to em que fal­ta­va mar­gi­na­li­da­de ao intér­pre­te dos mar­gi­nais.

Quanto ao cipo­al de pala­vras que sufo­ca o rela­to, encon­tro em Vilma Arêas uma par­cei­ra no gos­to pelo efei­to pala­vra-puxa-pala­vra como recur­so poé­ti­co. Falando de A dama do Encantado, de 1996, em “Chorinho de um retra­tis­ta (impro­vi­so)”, ensaio publi­ca­do em núme­ro da revis­ta Remate de Males dedi­ca­do ao autor, Vilma apon­ta como vir­tu­de das nar­ra­ti­vas do livro “rit­mo, metro e rima esco­ran­do uma pro­sa vigo­ro­sa e rede­fi­nin­do ou situ­an­do na moder­ni­da­de a anti­qua­da pro­sa poé­ti­ca”.

Rodrigo Lacerda, na con­clu­são de sua tese de dou­to­ra­do, João Antônio, uma bio­gra­fia lite­rá­ria, dis­po­ní­vel no seu site pes­so­al, nos con­ta:

Em outu­bro de 1996, como todos os que acom­pa­nha­ram o noti­ciá­rio, fiquei cho­ca­do com as cir­cuns­tân­ci­as da mor­te do escri­tor: aban­do­na­do em sua cober­tu­ra deca­den­te no mais deca­den­te dos bair­ros da Zona Sul cari­o­ca (sen­do o Rio tal­vez a capi­tal mais deca­den­te do país), apo­dre­cen­do duran­te sema­nas até que as mos­cas denun­ci­as­sem a “pre­sen­ça do cadá­ver”.

Este espa­ço de deca­dên­cia é a Copacabana do final do sécu­lo XX, o mes­mo sécu­lo que vira sur­gir o Hotel Copacabana Palace na Avenida Atlântica e que a can­ta­ra como “Princesinha do mar”. Qualquer deca­dên­cia, porém, só é cons­ta­ta­da a par­tir de um pon­to de vis­ta com­pa­ra­ti­vo. Copacabana per­de­ra o bri­lho dos anos dou­ra­dos, das boa­tes ele­gan­tes, dos salões de bele­za de grã-finas, dos apar­ta­men­tos amplos com dois quar­tos de empre­ga­da. Mas como cida­des são seres vivos em muta­ção per­ma­nen­te, des­sa mes­ma deca­dên­cia foi sur­gin­do uma Copacabana que vol­ta­va a moti­var a lite­ra­tu­ra, jus­ta­men­te por seu espa­ço de mis­tu­ra, do nin­guém tem nada a ver com a vida do outro que traz soli­dão, mas tam­bém tole­rân­cia. E é jus­ta­men­te o livro de João Antônio que, a meu ver, apa­re­ce como um impor­tan­te tur­ning point na cons­ti­tui­ção de um ima­gi­ná­rio artís­ti­co que fecha o foco, seja como for, no bair­ro de Copacabana. A este livro irão se suce­der vári­os outros, de Sônia Coutinho a João Paulo Cuenca, a se ocu­pa­rem do bair­ro que jun­ta cul­tu­ras e com­por­ta­men­tos diver­sos lado a lado, numa pro­xi­mi­da­de tão exces­si­va que é neces­sá­rio igno­rar o vizi­nho para sobre­vi­ver. É da dure­za das cida­des moder­nas, da mixór­dia e da sedu­ção que tem saí­do o melhor das lite­ra­tu­ras dos gran­des cen­tros e de suas peri­fe­ri­as.

Na con­tra­mão das lás­ti­mas e sau­da­des pela ele­gan­te Copacabana que se fora, a que inte­res­sa ao con­tis­ta não são as sau­da­des. “Os anti­gos são uns cha­tos. Ficam falan­do uma por­ção de bagu­lhos que não tem nada a ver”. E logo adi­an­te: “Nosso bair­ro man­tém cer­tas mani­as ridí­cu­las, como con­ser­var a Confeitaria Colombo, da rua Barão de Ipanema ou A Marisqueira, da Barata Ribeiro (…) Nenhum des­ses luga­res tem a vida, a con­fu­são e a bada­la­ção de uma Adega Pérola”.

Em cer­to momen­to, falan­do da Praça dos Paraíbas, João Antônio nos exi­be os dois pro­ble­mas apon­ta­dos pelo orga­ni­za­dor: olhan­do a pra­ça do alto de sua cober­tu­ra deca­den­te dian­te dela ou andan­do pelas ruas de sua vizi­nhan­ça, reve­la sua pró­pria deca­dên­cia, incluin­do-se na mes­ma con­di­ção do espa­ço do “nos­so” bair­ro. Nessa mis­tu­ra, mis­tu­ram-se tam­bém as pala­vras que se acu­mu­lam como a popu­la­ção do bair­ro. O cipo­al.

Não um chão só de pobres aman­tes, a Serzedelo Correia abri­ga, ani­nha, supor­ta, aga­sa­lha, moti­va, ani­ma, con­so­la, acoi­ta, remen­de, incre­men­ta, fer­vi­lham tran­sa­ci­o­na, com­pre­en­de, exal­ta, des­mi­ti­fi­ca ter­nu­ras e sonhos das gen­tes do bair­ro. Do amo­la­dor de facas e tesou­ras à babá, do ven­de­dor de pro­du­tos far­ma­cêu­ti­cos aos labo­ra­to­ris­tas, e até escre­ve­do­res de jogo do bicho.
Que ela tam­bém é Rio de Janeiro, além de nor­te, sul, nor­des­te do país e estran­jas. E é Copacabana.
Rio puro? Isso ain­da tem? Tem mis­tu­ra­do. Mas Rio.

Se a deca­dên­cia da vida pes­so­al de João Antônio nos últi­mos anos, con­vi­ven­do com os mer­dun­chos do bair­ro, não lhe sal­vou a vida, ao con­trá­rio, abre­vi­ou-a, ins­cre­veu-o, no entan­to, dolo­ro­sa­men­te, de uma for­ma dife­ren­te, na gale­ria de “mar­gi­nais” da lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra. Quando o orga­ni­za­dor men­ci­o­na os “por­res e vexa­mes homé­ri­cos” além do calo­te fre­quen­te nos ami­gos que ain­da lhe empres­ta­vam algum dinhei­ro, pare­ce que nos trans­por­ta­mos para o uni­ver­so tão bem des­cri­to pelo pró­prio João Antônio em seu Calvário e por­res do pin­gen­te Afonso Henriques de Lima Barreto. O livro, vale lem­brar, é a reu­nião extre­ma­men­te bem sele­ci­o­na­da de tex­tos da fic­ção e dos diá­ri­os de Lima, acres­ci­dos de bre­ves depoi­men­tos ou cor­res­pon­dên­cia, reve­lan­do cui­da­do­so tra­ba­lho de pes­qui­sa.

Diversos de seus livros são dedi­ca­dos ao roman­cis­ta cari­o­ca a que cha­ma mes­tre e pio­nei­ro:

Tudo de Lima é atu­al, de uma atu­a­li­da­de alar­man­te. (…) sua obra até hoje é uma por­ra­da, seca e ren­te, na nos­sa apa­tia, male­mo­lên­cia, calhor­di­ce, omis­são, indi­fe­ren­ça, fari­saís­mo, relap­sia e maca­que­a­ção dos mode­los estran­gei­ros. Qualidades igual­men­te pun­gen­tes.

Lima Barreto mor­reu mais cedo, ven­ci­do pro­va­vel­men­te pela bebi­da, mas a des­cri­ção que faz de si mes­mo não dife­re mui­to das últi­mas ima­gens de João Antônio. Lima regis­tra em cer­to momen­to de seu diá­rio: “Tinha leva­do todo o mês a beber, sobre­tu­do para­ti. Bebedeira sobre bebe­dei­ra, decla­ra­da ou não. Comendo pou­co e dor­min­do sabe Deus como. Andei por­co, imun­do”. Assim ia o geni­al cro­nis­ta do Rio, andan­do pelas ruas em seu ?esbo­de­ga­do ves­tuá­rio”, sem pou­par, pelo cami­nho, os ami­gos de suas even­tu­ais faca­das.

Chego assim ao últi­mo pon­to da orga­ni­za­ção dos Contos reu­ni­dos que gos­ta­ria de colo­car em dis­cus­são. Por pau­tar-se pela recep­ção canô­ni­ca das obras de João Antônio, por limi­tar a for­tu­na crí­ti­ca aos escri­tos con­sa­gra­dos da aca­de­mia, o orga­ni­za­dor pare­ce olhar para a lite­ra­tu­ra de João Antônio com admi­ra­ção, mas pelo retro­vi­sor. Desse modo, quan­do diz que “ele está de vol­ta” pare­ce se refe­rir à impor­tân­cia (enor­me, cer­ta­men­te) da ree­di­ção, da gene­ro­sa entre­ga que faz aos lei­to­res de hoje de uma edi­ção final­men­te cui­da­do­sa, boni­ta, escla­re­ce­do­ra por suas notas e indi­ca­ções. Nem por isso, porém, reco­lo­ca João Antônio na cena da cri­a­ção lite­rá­ria con­tem­po­râ­nea ou de uma crí­ti­ca reno­va­da que bus­que outros pon­tos de vis­ta, ace­ne com outras lei­tu­ras. As mudan­ças apon­ta­das por Rodrigo na recep­ção da obra do escri­tor são impor­tan­tís­si­mas: a ces­são dos arqui­vos para o Departamento de Literatura da UNESP e a repu­bli­ca­ção pela CosacNaify de suas obras.

Se olhar­mos, porém, para fren­te, pode­re­mos vis­lum­brar o apa­re­ci­men­to de outro aspec­to deci­si­vo que tem tra­zi­do o nome do con­tis­ta à bai­la: a recon­fi­gu­ra­ção do ter­mo lite­ra­tu­ra mar­gi­nal e a ins­ti­tui­ção de uma espé­cie de linha­gem que vem de Lima Barreto, pas­sa por João Antônio e Plínio Marcos e che­ga a Ferréz com seus com­pa­nhei­ros.

Quando Ferréz (Reginaldo Ferreira da Silva), já reco­nhe­ci­do como escri­tor e lide­ran­ça cul­tu­ral, orga­ni­za em 2001 o pri­mei­ro da série de três núme­ros da revis­ta Caros Amigos dedi­ca­dos à cul­tu­ra da peri­fe­ria, intro­duz a edi­ção com o “Manifesto e aber­tu­ra: lite­ra­tu­ra mar­gi­nal” e home­na­geia João Antônio afir­man­do que têm “a hon­ra de citá-lo como a mídia o eter­ni­zou, um autor da lite­ra­tu­ra mar­gi­nal”. Deste volu­me cha­ma­do Ato I, fazem par­te tex­tos apre­sen­ta­dos como ?faces da cane­ta que se mani­fes­ta na fave­la”, den­tre esses Paulo Lins, Sérgio Vaz e outros. No Ato II, é incluí­do um tex­to des­co­nhe­ci­do de João Antônio, “Convite à vida’, car­ta do escri­tor ao ami­go Miltainho, de 1994. Os três núme­ros foram reu­ni­dos pos­te­ri­or­men­te no volu­me Literatura mar­gi­nal, talen­tos da escri­ta peri­fé­ri­ca e ante­ce­di­dos pelo pre­fá­cio, assi­na­do por Ferréz, “Terrorismo lite­rá­rio”. O tex­to pro­cu­ra defi­nir o sen­ti­do que o gru­po de auto­res da peri­fe­ria de São Paulo, espe­ci­al­men­te da comu­ni­da­de do Capão Redondo, enten­de por cul­tu­ra e lite­ra­tu­ra peri­fé­ri­ca, afir­man­do a inten­ção dos auto­res de falar por suas pró­pri­as vozes:

Quem inven­tou o bara­to não sepa­rou entre lite­ra­tu­ra boa/feita com cane­ta de ouro e lite­ra­tu­ra ruim/escrita com car­vão, a regra é uma só, mos­trar as caras. Não somos o retra­to, pelo con­trá­rio, muda­mos o foco e tira­mos nós mes­mos a nos­sa foto.

O mani­fes­to ter­mi­na com lon­ga cita­ção de João Antônio em Abraçado ao meu ran­cor:

Evitem cer­tos tipos, cer­tos ambi­en­tes. Evitem a fala do povo, que vocês nem sabem onde mora e como. Não repor­tem o povo, que ele fede. Não con­tem ruas, vidas, pai­xões vio­len­tas. Não se metam com o res­to­lho que vocês não vêem huma­ni­da­de ali. Que vocês não per­ce­bem vida ali. E vocês não sabem escre­ver essas coi­sas. Não podem sen­tir cer­tas emo­ções, como o ouvi­do huma­no não per­ce­be ultra-sons.

Segundo Paulo Roberto Tonani do Patrocínio, em tra­ba­lho bas­tan­te ori­gi­nal apre­sen­ta­do como tese de dou­to­ra­do: Escritos à mar­gem: a pre­sen­ça de escri­to­res de peri­fe­ria na cena lite­rá­ria con­tem­po­râ­nea, a argu­men­ta­ção de João Antônio se apro­xi­ma à dos auto­res da Literatura mar­gi­nal quan­do con­si­de­ram que melhor repre­sen­tam os per­so­na­gens da peri­fe­ria aque­les que não ape­nas per­cor­rem tais ter­ri­tó­ri­os, mas que pos­su­em uma rela­ção embri­o­ná­ria com estes. Mais adi­an­te, falan­do no que con­si­de­ra um “câno­ne ima­gi­ná­rio e pró­prio da Literatura Marginal”, Tonani do Patrocínio afir­ma que

Ao res­ga­ta­rem tais escri­to­res, a Literatura Marginal enu­me­ra na série lite­rá­ria hegemô­ni­ca uma fili­a­ção pró­pria, sele­ci­o­nan­do seus pares a par­tir de cri­té­ri­os não ape­nas lite­rá­ri­os.

No livro Vozes mar­gi­nais na lite­ra­tu­ra, de 2009, pre­fa­ci­a­do por Ferréz, Érika Peçanha do Nascimento, pau­lis­ta do Bairro do Jaraguá, estu­da minu­ci­o­sa­men­te a apro­pri­a­ção recen­te da expres­são “lite­ra­tu­ra mar­gi­nal” por escri­to­res da peri­fe­ria, apre­sen­ta os auto­res e as suas ações cole­ti­vas e inves­ti­ga o sen­ti­do cul­tu­ral e polí­ti­co que estes movi­men­tos vêm adqui­rin­do. Como par­te da pes­qui­sa, Érika pro­cu­ra inves­ti­gar que auto­res esta nova gera­ção apre­sen­ta como influên­cia em sua for­ma­ção. Ferréz é enfá­ti­co em sua admi­ra­ção por João Antônio. O con­tis­ta Sacolinha apon­ta como deci­si­vo ter sido apre­sen­ta­do às obras de Carolina Maria de Jesus e de João Antônio.

Voltemos, ain­da, ao mis­tu­ra­do de que fala João Antônio no tex­to que já foi cita­do. Em recen­te ensaio, ain­da não publi­ca­do, sobre lite­ra­tu­ra e cul­tu­ra da peri­fe­ria, Heloisa Buarque de Hollanda comen­ta o livro de Ferréz, Manual prá­ti­co do ódio, e obser­va:

O tex­to cor­re embo­la­do, níti­do, cheio de pers­pec­ti­vas pris­má­ti­cas, ten­tan­do regis­trar ora o sen­ti­men­to, ora a agres­si­vi­da­de, ora a nos­tal­gia, ora a gra­tui­da­de explo­si­va, enfim as vári­as faces e dimen­sões des­sas vidas vis­ce­ral­men­te liga­das entre si.

Lembra, então, o cum­pri­men­to fra­ter­no que tro­cam os manos da peri­fe­ria: “Tamo jun­to e mis­tu­ra­do”, ven­do nes­sas falas “O eu e o nós emba­ra­lha­dos, iden­ti­fi­ca­dos, numa refe­rên­cia bem mais for­te do que a ação que se segue”.

O mani­fes­to de Ferréz, ao falar que não são mais o retra­to, tiram eles mes­mos suas fotos, pare­ce, à pri­mei­ra lei­tu­ra, entrar em con­tra­di­ção com o ensaio de Antonio Candido incluí­do no volu­me, A noi­te enxo­va­lha­da. Candido, refe­re-se, com a acui­da­de de sem­pre, a João Antonio como “um nar­ra­dor cul­to que usa sua cul­tu­ra para dimi­nuir dis­tân­ci­as” e segue:

Uma das coi­sas mais impor­tan­tes da fic­ção lite­rá­ria é a pos­si­bi­li­da­de de ?dar voz’. De mos­trar em pé de igual­da­de os indi­ví­du­os de todas as clas­ses e gru­pos, per­mi­tin­do aos excluí­dos expri­mi­rem o teor de da sua huma­ni­da­de, que de outro modo não pode­ria ser veri­fi­ca­da.

Tal fun­ção da arte de ?dar voz’ pare­ce opor-se à afir­ma­ção que Sartre fize­ra em 1961, e se tor­nou mar­co de novos tem­pos na afir­ma­ção das sub­je­ti­vi­da­des ao apre­sen­tar o livro de Franz Fanon Os con­de­na­dos da ter­ra. No pre­fá­cio o filó­so­fo apon­ta para o final da era em que os inte­lec­tu­ais ou os artis­tas fala­ri­am pelos subal­ter­nos, pois che­ga­ra o momen­to em que as “vozes negras e ama­re­las” pas­sa­vam a falar por elas mes­mas.

Mas Antonio Candido já resol­ve­ra o impas­se um pou­co, antes, no mes­mo tex­to, quan­do diz que João Antônio irma­na a sua voz “à dos mar­gi­nais que povo­am a noi­te cheia de angús­ti­as e trans­gres­são, numa cida­de docu­men­ta­ri­a­men­te real, e que, no entan­to, ganha uma segun­da natu­re­za no rei­no da trans­fi­gu­ra­ção cri­a­do­ra”.

O gri­fo é meu e a expres­são trans­fi­gu­ra­ção cri­a­do­ra fica como o desa­fio que João Antônio ten­tou, como indi­ca o apre­sen­ta­dor do volu­me com “pon­tos altos e bai­xos, for­ças e fra­que­zas”, enfren­tar. Continua sen­do o desa­fio que vozes con­tem­po­râ­ne­as, como as da nova lite­ra­tu­ra mar­gi­nal e outras, enfren­tam.

Buscar novas pers­pec­ti­vas crí­ti­cas, novas for­mas de recep­ção, de lei­tu­ra, de con­ta­mi­na­ção e mis­tu­rá-las às ante­ri­o­res me pare­ce ser a melhor manei­ra de asse­gu­rar a impor­tân­cia da vol­ta de João Antônio.

* Beatriz Resende é crí­ti­ca lite­rá­ria e pro­fes­so­ra da UFRJ.

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