O escritor inglês Kazuo Ishiguro

O escritor inglês Kazuo Ishiguro

Aos literatos, a literatura

Literatura

05.10.17

Kazuo Ishi­gu­ro traz ao arrai­al mun­di­al das letras um perío­do de bonan­ça. Depois de ter emen­da­do Sve­tla­na Ale­xié­vit­ch (jor­na­lis­ta!) com, here­sia máxi­ma, Bob Dylan (com­po­si­tor!), a Aca­de­mia Sue­ca res­ti­tui o Nobel de Lite­ra­tu­ra a quem de direi­to, um escri­tor “de ver­da­de”. Ufa. Um escri­tor sim­pá­ti­co, hábil, con­ven­ci­o­nal e de bons modos. Está sela­da a Pax Lite­rá­ria. Pelo menos até outu­bro de 2018, quan­do vol­tam os lamen­tos pelo esque­ci­men­to de Phi­lip Roth, a espe­ran­ça moder­no­sa de Haru­ki Mura­ka­mi e, de vez em quan­do, a recla­ma­ção de que um bra­si­lei­ri­nho, unzi­nho só, pudes­se hon­rar, ao lado de José Sara­ma­go, a últi­ma flor do Lácio.

O autor do recen­te O gigan­te enter­ra­do é o pri­mei­ro Nobel a sair das sele­ções que, des­de 1983, a Gran­ta publi­ca ele­gen­do a cada déca­da os vin­te melho­res escri­to­res com menos de 40 anos da lite­ra­tu­ra ingle­sa – brin­ca­dei­ra leva­da depois aos ame­ri­ca­nos, his­pâ­ni­cos, japo­ne­ses e tra­zi­da a nós em 2012. Impos­sí­vel não vol­tar hoje à foto da pri­mei­rís­si­ma tur­ma. Não há dúvi­das sobre quem é o japo­nês de bigo­de e cole­te, sen­ta­do no chão. Bem no meio do gru­po, de gra­va­ta ver­me­lha, não é Juli­an Bar­nes? E os dois magre­los sen­ta­dos à direi­ta? Pera, é o Ian McEwan. E o Mar­tin Amis. Cadê Sal­man Rush­die? Está na lis­ta, mas não na foto em que o júri deve­ria ter dado uma olha­da antes de se deci­dir.

Snowdon/Camera Press

A tur­ma de 1983 da Gran­ta

Mês que vem Ishi­gu­ro faz 63 anos. Em 35 anos de car­rei­ra, pon­to para ele, publi­cou rela­ti­va­men­te pou­co: uma cole­tâ­nea de con­tos (Notur­nos, de 2009) e sete roman­ces. Nos dois pri­mei­ros, Uma páli­da visão dos mon­tes (1982) e Um artis­ta no mun­do flu­tu­an­te (1986), fez o que se espe­ra­va na tra­di­ção dos expa­tri­a­dos da lite­ra­tu­ra ingle­sa: vol­tou às raí­zes, ao Japão onde nas­ceu e de onde emi­grou com cin­co anos. Trei­na­do na uni­ver­si­da­de em escri­ta cri­a­ti­va, não o fez na for­ma con­ven­ci­o­nal do regis­tro auto­bi­o­grá­fi­co, pre­fe­rin­do valer-se de um per­fei­to domí­nio téc­ni­co para cri­ar his­tó­ri­as que rumi­na­vam o pós-guer­ra. Des­de sem­pre foi publi­ca­do pela exclu­si­vís­si­ma Faber & Faber, trun­fo que o fez andar mui­tas casas no tabu­lei­ro da vida lite­rá­ria, aque­le que tem, no fim, o lugar a que che­ga hoje.

Anthony Hop­kins e Emma Thomp­son na adap­ta­ção de Ves­tí­gi­os do dia

Ves­tí­gi­os do dia, de 1989, ren­deu-lhe o Man Boo­ker Pri­ze e popu­la­ri­da­de inter­na­ci­o­nal. Nada menos japo­nês do que um mor­do­mo, nada mais mor­do­mo do que um mor­do­mo inglês. E nada mais inglês do que o amor, não rea­li­za­do, é cla­ro, entre um mor­do­mo e uma gover­nan­ta ingle­ses ten­do como pano de fun­do a vida de aris­to­cra­tas ingle­ses nas águas tur­vas da Segun­da Guer­ra Mun­di­al. Em 1993, o livro encon­trou seu des­ti­no: virou fil­me de James Ivory, com direi­to a Anthony Hop­kins e Emma Thomp­son. E tome “suti­le­za”, esta moe­da sem­pre em alta, num cli­ma kits­ch que tan­gen­cia a escri­ta de Ishi­gu­ro mas que, é pre­ci­so dizer, a ela não faz jus­ti­ça.

Deve ser por isso que Sara Danius, a aus­te­ra secre­tá­ria da Aca­de­mia, aque­la que apa­re­ce num salão de Esto­col­mo quan­do se abrem as por­tas da espe­ran­ça da vida lite­rá­ria, des­cre­veu o autor de O des­con­so­la­do como uma mis­tu­ra de Jane Aus­ten com Franz Kaf­ka. Coque­tel ao qual ela acres­cen­ta uma gota de Mar­cel Proust, e que deve ter bebi­do antes de dar a entre­vis­ta hoje de manhã. Com­pre­en­de-se a lógi­ca da recei­ta: toma-se Aus­ten por “deli­ca­de­za”, Kaf­ka por “absur­do” e Proust por “memó­ria”. Não faz sen­ti­do, mas é tudo mui­to “lite­rá­rio”.  Como o pes­so­al gos­ta.

, , , , , , , , , , , ,