A escritora canadense Margaret Atwood

A escritora canadense Margaret Atwood

Distopias duradouras

Televisão

04.10.17

Não tinha certeza sobre como começar a escrever esse texto até ver a propaganda da extrema-direita alemã para as eleições do último mês de setembro.

“’Novos alemães’? A gente mesmo faz”, pregou durante a campanha a Alternativa para a Alemanha, grupo com discurso islamofóbico e contra imigrantes que é o primeiro partido de extrema-direita desde Hitler a ocupar o Parlamento no país – receberam quase 13% dos votos.

A propaganda remete a um elemento básico de O conto da aia, romance distópico de Margaret Atwood que inspira The Handmaid’s Tale, série da plataforma Hulu que ganhou os principais prêmios do Emmy este ano. Ambas as obras e a direita alemã remetem à mesma ideia: a importância suprema para alguns grupos de garantir que certos escolhidos se reproduzam.

Toda distopia, como lembrou certa vez o escritor inglês Martin Amis, diz mais respeito ao momento em que é escrita do que ao futuro indefinido que pretende retratar. Em 1985, ano em que lançou O conto da aia, Margaret Atwood certamente não estava pensando em Donald Trump, na época nada mais que um espalhafatoso ricaço sobre quem ninguém imaginaria a sério que viria a ser presidente dos Estados Unidos – tudo tem limite, ou pelo menos tinha, até agora.

Mas a década não deixou de oferecer inspiração para um pesadelo proporcionado pelo machismo e pelo fanatismo religioso. Se é nos anos 1980 que as mulheres americanas ocupam com força o mercado de trabalho, também é quando Ronald Reagan é eleito presidente, abrindo as portas da Casa Branca à Maioria Moral, grupo ligado ao pastor batista Jerry Falwell, já falecido, e ao Partido Republicano, que mobilizaram os cristãos conservadores e ajudaram a garantir vitórias de Reagan em 1980 e 1984 e a eleger seu sucessor, George Bush, em 1988.

O objetivo da Maioria Moral era garantir os “valores da família”, entre eles a luta contra os direitos das mulheres americanas ao divórcio, trabalho e propriedade, a defesa das orações nas escolas (tal qual o STF acaba de aprovar no Brasil) e de todos possuírem armas, além da perseguição aos gays.

Não bastasse, Reagan chegou ao poder dois anos após o serial killer e supremacista branco Joseph Paul Franklin, depois de matar 22 pessoas, quase todas mulheres, judeus, negros e casais interraciais, atirar em Larry Flint, editor da revista erótica Hustler, colocando-o numa cadeira de rodas. Razão: Flint juntou uma mulher branca e um homem negro na capa da publicação.

A Maioria Moral e outros grupos conservadores não viam com bons olhos a emancipação feminina. O discurso comum a todos era o do retorno da mulher ao lar. Podia ser na condição de senhora da casa, como Serena Joy, a esposa do Comandante, as Martas, domésticas que cuidam da limpeza ou e da cozinha, ou meras máquinas de se reproduzir, como Offred (na série, Elizabeth Moss, foto abaixo), todos personagens da obra de Atwood.

Como se a Maioria Moral tivesse conseguido tudo o que queria e os anos 1960 pudessem ser apagados, o mundo de O Conto da aia é construído com pedaços da história americana ou do Velho Testamento. Offred, mulher fértil mantida em cativeiro, é encarregada de ter os filhos do Comandante numa época em que, devido ao envenenamento do meio ambiente, homens e mulheres estão se tornando estéreis. O precedente bíblico é a história de Jacó e uma de suas esposas, Raquel, que não pode procriar e entrega ao marido a serva Bila para ter filhos no seu lugar. Algo que simbolicamente  se repete com as aias como Offred.

A história se passa em Cambridge, Massachusetts, onde fica a Universidade de Harvard, agora desativada, cujos muros são usados para exibir os corpos de dissidentes mortos. Após uma guerra civil, a democracia foi substituída por uma república puritana governada por um pequeno grupo de homens brancos e heterossexuais. Negros foram realocados para campos de prisioneiros ou deportados, gays foram executados, ateus são obrigados à conversão ou mortos.

Em Gilead, o novo nome dos Estados Unidos, não é permitido às mulheres ter propriedades, trabalhar fora de casa (como em algumas partes da Bíblia), ler (hábito vetado aos escravos americanos) ou mesmo escolher as próprias roupas (pense nos territórios dominados pelo Exército Islâmico). Os bebês nascidos das aias são tomados delas e entregues a outras famílias, como fez a ditadura argentina com os filhos de opositores.

O controle das mulheres e de sua reprodução está no DNA de cada regime autoritário do planeta e mesmo de algumas leis das democracias, como a proibição do aborto. Na Arábia Saudita, país mais repressivo do mundo para as mulheres, só agora, em 2017, elas serão autorizadas a dirigir. Dois anos e meio atrás, no Irã, uma república islâmica, tive minha própria dose de distopia no mundo real observando um estranho ordenar à minha mulher que cobrisse a cabeça. Não era uma autoridade ou um policial, o que já seria absurdo, mas um homem comum. Diante desses exemplos, livro e série parecem estranhamente familiares.

Rótulo de produto de limpeza que foi uma das inspirações para o livro

Margaret Atwood desvenda outras influências no romance: Contos da Cantuária, de Chaucer, as táticas de lavagem cerebral do Exército Vermelho soviético, a iconografia religiosa cristã, até o rótulo de um produto removedor de manchas. Talvez The Handmaid’s Tale não atraísse tanta atenção se Hillary Clinton tivesse vencido a eleição presidencial ano passado, mas ganhou uma relevância súbita e incômoda com o governo Trump.

Se 1984, o clássico de George Orwell, explica melhor a chegada do presidente americano ao poder manipulando a verdade e criando “fatos alternativos”, a série do Hulu capta o espírito do tempo: o ressurgimento do fascismo, o Brexit, o retorno do tribalismo, os ataques aos direitos das minorias, os linchamentos morais, a censura da exposição Queermuseum em Porto Alegre após agressões do MBL e os ataques do mesmo grupo ao MAM, a tentativa de proibir a peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu e, finalmente, a propaganda da direita alemã.

Em todos, a impressão de que a democracia liberal não funciona mais para alguns, e que por isso as liberdades estão sob ameaça. Distopias não são profecias, são obras ficcionais como qualquer outra. Resta torcer para O Conto da aia e The Handmaid’s Tale não quebrarem essa regra.

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