A cientista política Flávia Biroli

A cientista política Flávia Biroli

A responsabilidade das mulheres

Política

12.04.18

Gênero e desigual­dades – lim­ites da democ­ra­cia no Brasil (Boitem­po Edi­to­r­i­al), recém-pub­li­ca­do pela cien­tista políti­ca Flávia Biroli (UnB), cumpre um papel históri­co de reg­istro do que diver­sos movi­men­tos de mul­heres está fazen­do no Brasil con­tem­porâ­neo, com maior ou menor suces­so, com mais ou menos risco de vida. Seguin­do a proposição do filó­so­fo Peter Slo­ter­dijk, que cos­tu­ma me ani­mar na leitu­ra: livros são como car­tas endereçadas aos ami­gos e ami­gas com quem com­par­til­hamos ideias, pro­postas, e esta­b­ele­ce­mos diál­o­gos que vão nos con­sti­tuin­do. O livro de Biroli é des­ti­na­do a ami­gas, ter­mo aqui enten­di­do como uma ampla rede de mul­heres que está con­stru­in­do os flux­os e reflux­os da políti­ca no país nos últi­mos quarenta anos. Depois do assas­si­na­to da vereado­ra Marielle Fran­co – que com­ple­ta um mês no próx­i­mo dia 14 – Gênero e desigual­dades pre­cisa ser lido como um tra­bal­ho atrav­es­sa­do pelo embate entre os movi­men­tos de mul­heres negras e a pau­ta de reivin­di­cações das fem­i­nistas bran­cas.

Os cin­co capí­tu­los estão divi­di­dos em temas con­cer­nentes às lutas recentes das mul­heres: Divisão sex­u­al do tra­bal­ho; cuida­do e respon­s­abil­i­dades; família e mater­nidade; abor­to, sex­u­al­i­dade e autono­mia; fem­i­nis­mos e ação políti­ca. São temas dis­cu­ti­dos pelo menos des­de o final dos anos 1960, e não por aca­so a auto­ra remon­ta ao históri­co tra­bal­ho da sociólo­ga marx­ista Helei­eth Saf­fi­oti (A mul­her na sociedade de class­es, primeira edição em 1969 da tese defen­di­da na USP). Podemos localizar aí o iní­cio da inter­sec­cional­i­dade no fem­i­nis­mo no Brasil, ain­da que pen­sa­da, nesse primeiro momen­to, ape­nas entre gênero e classe. A entra­da em cena políti­ca do mar­cador de raça se dá prin­ci­pal­mente a par­tir de pesquisas de out­ra marx­ista, a sociólo­ga Lélia Gon­za­lez, cuja obra tor­na imperti­vo pen­sar a sub­al­ternidade das mul­heres negras em relação às bran­cas e as estru­turas de dom­i­nação inter­nas ao cam­po fem­i­nista.

Aqui, o livro de Biroli atu­al­iza o debate quan­do diz que, emb­o­ra todas as estatís­ti­cas indiquem que na divisão sex­u­al do tra­bal­ho se definem difi­cul­dades num ambi­ente em que se pro­duzem van­ta­gens e desvan­ta­gens para home­ns e mul­heres, não é pos­sív­el “pres­su­por que os priv­ilé­gios estão sem­pre entre os home­ns, e as desvan­ta­gens e as for­mas mais acen­tu­adas de explo­ração, entre as mul­heres”. O tra­bal­ho pre­cariza­do encon­tra seu maior per­centu­al entre as mul­heres negras (39%) e depois nos home­ns negros (31,6%), para só então alcançar as mul­heres bran­cas (27%) e por fim os home­ns bran­cos (20%). Os números reforçam a pau­ta históri­ca do movi­men­to de mul­heres negras e rea­t­u­al­iza­da com o assas­si­na­to de Marielle Fran­co, cuja morte reivin­di­ca uma toma­da de posição políti­ca de todas as mul­heres, mas sobre­tu­do exige um gesto políti­co das mul­heres bran­cas em relação às negras. Em espe­cial em relação às jovens negras, muitas das quais são a primeira ger­ação da família a não con­fir­mar o per­cur­so do serviço domés­ti­co sub­al­ter­no como úni­ca for­ma de ingres­so no mer­ca­do de tra­bal­ho, e por isso mes­mo apre­sen­tam uma deman­da de igual­dade a ser recon­heci­da ple­na­mente, sem ressal­vas ou recu­os. O gesto de cada uma de nós, fem­i­nistas bran­cas, é necessário a par­tir de uma toma­da de posição indi­vid­ual.

Nesse pon­to, o livro de Biroli fornece um argu­men­to fun­da­men­tal para pen­sar out­ro embate com o qual nos deparamos na políti­ca hoje. Seu tra­bal­ho mostra o prob­le­ma da dis­tribuição da respon­s­abil­i­dade estatal, cole­ti­va, das famílias e a respon­s­abil­i­dade pri­va­da e indi­vid­ual. A auto­ra chama a atenção para o fato de que respon­s­abi­liza­ção indi­vid­ual é uma lóg­i­ca da políti­ca neolib­er­al lig­a­da à pre­cariza­ção da vida, ao desmonte de estru­turas de apoio cole­ti­vo, à alo­cação cres­cente de respon­s­abil­i­dades indi­vid­u­ais ali onde antes havia suporte públi­co no seu sen­ti­do mais amp­lo (estatal, comu­nitário etc).

Min­ha prox­im­i­dade com este prob­le­ma abor­da­do por ela vem do fato de que ten­ho ten­ta­do tomar a políti­ca fem­i­nista não ape­nas pelos seus con­teú­dos – mais dire­itos, mais justiça, menos desigual­dade, hier­ar­quia – mas tam­bém como par­a­dig­ma de modo de faz­er políti­ca, o que sig­nifi­ca lutar pelos proces­sos, não ape­nas pelos resul­ta­dos. É essa dupla tare­fa que, me parece, car­ac­ter­i­za as posições no amp­lo espec­tro pro­gres­sista que, por como­di­dade ou fal­ta de palavra mel­hor, nos acos­tu­mamos a chamar de esquer­da, emb­o­ra o ter­mo não esta­bi­lize nem con­fi­ra homo­genei­dade a nen­hu­ma cat­e­go­ria muito bem defini­da.

Se é ver­dade que a for­ma de faz­er as coisas tam­bém é em si políti­ca, então pode ser fun­da­men­tal inter­rog­ar dis­cur­sos de acusação indi­vid­u­ais que acabam por sub­sti­tuir anális­es de con­tex­tos históri­cos e dos mecan­is­mos soci­ais e econômi­cos de pro­dução de desigual­dade. Se quer­e­mos, como argu­men­ta Nan­cy Fras­er, que os fem­i­nis­mos sejam mais do que uma mudança cul­tur­al, então talvez seja necessário refi­nar nos­sas escol­has tan­to dos adver­sários quan­to dos ali­a­dos, assim como nos­sos méto­dos. Como pen­sar respon­s­abil­i­dade sem cair na lóg­i­ca da respon­s­abi­liza­ção indi­vid­ual apre­goa­da pelos sis­temas de dis­crim­i­nação que esta­mos ten­tan­do enfrentar? Per­gun­ta retóri­ca, sem intenção de respos­ta, ecoan­do em mim des­de que Flávia Biroli lançou o livro no Rio de Janeiro.

Quan­do Flávia começou a orga­ni­zar o lança­men­to car­i­o­ca, a vereado­ra Marielle Fran­co esta­va viva e par­tic­i­paria, com ela e comi­go, de uma mesa redon­da em torno das questões pro­postas no livro. Daríamos con­tinuidade a uma con­ver­sa que havia começa­do na edição de janeiro do jor­nal Le Monde Diplo­ma­tique, no qual nós três assi­namos arti­gos sobre a potên­cia dos movi­men­tos fem­i­nistas con­tem­porâ­neos, com ênfase na força rev­olu­cionária das mul­heres e na difi­cul­dade de recon­hec­i­men­to que os fem­i­nis­mos são con­sti­tu­tivos da políti­ca, não uma parte especí­fi­ca, region­al ou menor. A exe­cução de Marielle con­fir­ma a hipótese de for­ma trág­i­ca,  con­ferindo val­or de ver­dade ao sub­tí­tu­lo do livro de Biroli –  lim­ites da democ­ra­cia no Brasil – e ao mes­mo tem­po nos abrindo uma chance inédi­ta de refaz­er alianças estratég­i­cas tão necessárias.

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