Carla Rodrigues

Feminismo radical, justiças históricas e injustiças particulares

Carla Rodrigues

21.11.17

Não me parece coincidência que a corrente das feministas radicais esteja fazendo tanto barulho no Brasil desde 2013, principalmente nas redes sociais. Até então, tínhamos uma tradição de associar movimentos feministas com lutas progressistas por justiça social, em que pese as valiosas críticas do predomínio do feminismo liberal branco entre nós. Hoje enfrentamos uma onda neoconservadora contra a liberdade, fundamentada na articulação entre leis e mercado, num estado securitário e autoritário e no pânico moral muitas vezes mobilizado pelas radfems.

Judith Butler na imagem Judith Butler na imagem

Duas vezes Judith Butler no Brasil

Carla Rodrigues

30.10.17

A segunda vinda de Judith Butler ao Brasil provoca reação de grupos radicais de direita, que insistem em encontrar na filósofa americana aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social. O que está em pauta são os fins da democracia.

Nós, pessoas em silêncio

Carla Rodrigues

17.10.17

Há uma geração inteira de jovens que prefere o envio de áudios sucessivos às longas conversas telefônicas que marcaram minha adolescência, incluindo o estranho debate sobre quem desligaria o telefone primeiro. Há uma geração inteira de jovens cuja troca de textos diários pode significar relações silenciosas, pautadas mais por emojis do que por palavras.

A Rocinha nunca foi só a Rocinha

Carla Rodrigues

26.09.17

Nas muitas camadas que formam a Rocinha, uma chama a atenção: a centralidade atribuída, seja pelos governos, seja pela imprensa, a tudo de bom ou ruim que ali acontece. Do jeep tour que faz da favela um espaço exótico à grande concentração de recursos de ONGs, nada na Rocinha passa desapercebido.

O golpe dos sonhos

Carla Rodrigues

15.08.17

Todos os dias, alguém que tem os recursos necessários – não me refiro apenas a dinheiro, mas também escolaridade, passaporte, cidadania europeia etc – declara que vai embora do país. Pelo menos desde a década de 1980, esses surtos de migração pautam a classe alta desiludida. O afeto que marca a vida cotidiana brasileira – e de forma mais aguda, a fluminense – é a tristeza, o desânimo e, por que não dizer, o desamparo da falta de perspectivas, desejos e sonhos.

Ainda está pouco

Carla Rodrigues

24.07.17

A escritora Conceição Evaristo estará diante de imensos dilemas em Paraty. A autora de Becos da memória encara o impasse enfrentado pelas lutas identitárias: ser reconhecida como uma grande escritora negra, e com isso ficar confinada à marcação de negritude, ou ser recebida como uma grande escritora, e com isso enfraquecer sua posição de mulher negra.

Saturação nossa de cada dia

Carla Rodrigues

19.06.17

É como uma cor muito saturada e, por isso, quase ofuscante, que tenho passado os dias, as semanas e talvez os meses, cansada e repleta de estímulos que, por excessivos, já não me dizem mais nada.

Quando as palavras mudam

Carla Rodrigues

08.05.17

Se era verdade que a escolha de cada significante dizia alguma coisa a meu respeito, hoje praticamente posso escrever mensagens de texto inteiras em que a escolha das palavras se dá pelos algoritmos que ensinaram o sistema a repetir o meu repertório. O ato falho vai sendo, assim, substituído pelo erro do “autocompletar”. Se com Freud havíamos aprendido a “repetir, elaborar, recordar”, um século depois talvez a tríade esteja sendo superada por novas formas de submissão aos algoritmos.

Um estado que já nasceu doente

Carla Rodrigues

19.04.17

riado em 1975 a partir da fusão entre o estado da Guanabara e o antigo estado do Rio de Janeiro – marcado por uma oligarquia rural então decadente –, o estado do Rio de Janeiro tal qual o conhecemos hoje é herdeiro direto da corte imperial, de seus descalabros e excessos, que assolam os cofres públicos até hoje. Próteses são definidas como dispositivos implantados no corpo para restaurar uma função comprometida. Na triste história da derrocada do estado do Rio de Janeiro, parece que as próteses usadas até aqui foram de todo inúteis.

Parem, simplesmente parem

Carla Rodrigues

07.03.17

No momento imediatamente anterior à chamada quarta onda, os movimentos feministas ocidentais estavam capturados pela institucionalização ou, dito de uma forma pior, pela adesão aos governos. O retorno às ruas é não apenas a volta à oposição, mas principalmente a retomada da irreverência e do deboche como potente arma política. Com sua plasticidade e irreverência, resgata essa crítica ao capitalismo e às injustiças de gênero nele contidas e acentuadas por um recrudescimento das políticas neoliberais de corte de direitos.