Carla Rodrigues

Trabalho de luto

Carla Rodrigues

31.10.18

Quando, em "Luto e melancolia", Freud deixa em aberto a medida do tempo necessário para superar o luto, esse talvez seja o melhor antídoto contra um dos maiores clichês: “a vida continua”, como se uma grande perda devesse e pudesse ser encarada com grande naturalidade.

Compra-se um novo passado

Carla Rodrigues

28.09.18

É justamente por não ser apenas uma edificação histórica que a perda do Museu Nacional é uma tragédia. Ali estava em jogo nosso passado anterior à colonização e uma chance ínfima de construção de outro futuro, não assegurado ainda a quem não tem passado.

Corpos em resistência e aliança

Carla Rodrigues

28.08.18

Em seu novo livro, Judith Butler marca a importância da materialidade do corpo na discriminação entre corpos que importam e corpos que pesam. É uma forma de apontar como as demandas básicas do corpo estão no centro das mobilizações políticas.

Era Hilda Hilst feminista?

Carla Rodrigues

16.07.18

A homenageada da Flip 2018 talvez tenha sido feminista antes de o feminismo se estabelecer como militância política, antes mesmo de o termo vir a designar essa ampla gama de reivindicações de direitos das mulheres sobre seus corpos, seus sexos, suas vidas.

O meio ainda é a mensagem

Carla Rodrigues

18.06.18

As conversas instantâneas pelo Whatsapp estão inscritas na ilusão de que a toda demanda corresponde uma possibilidade de resposta, o que é evidentemente impossível. Responder, monitorar, gerenciar e demandar são os verbos do tempo em que, como tudo é urgente, perdemos todos a noção do que é de fato uma emergência.

2018 e suas memórias

Carla Rodrigues

16.05.18

Recebi um convite para uma reunião da turma da escola, 40 anos de conclusão do segundo grau. Penso nesses 40 anos quando vejo em torno de mim todas as homenagens aos 50 anos de Maio de 1968, seu espírito revolucionário, suas promessas de futuro que ainda estão aí, ora nos assombrando como fantasmas, ora nos animando a ir às ruas de novo e mais uma vez. Há debates, livros, seminários, e há sobretudo o fato de que, se na França ou na Alemanha 1968 é um marco em direção a um novo futuro, no Brasil é o ano do assassinato, pela polícia, do estudante Edson Luís, da Passeata dos Cem Mil e da decretação do AI-5.

A responsabilidade das mulheres

Carla Rodrigues

12.04.18

Gênero e desigualdades – limites da democracia no Brasil, de Flávia Biroli, cumpre um papel histórico de registro do que diversos movimentos de mulheres está fazendo no Brasil contemporâneo, com maior ou menor sucesso, com mais ou menos risco de vida. Precisa ser lido como um trabalho atravessado pelo embate entre os movimentos de mulheres negras e a pauta de reivindicações das feministas brancas.

A guerra no Rio que tem rosto de mulher

Carla Rodrigues

07.03.18

Contrariando o que escreveu a russa Svetlana Aleksiévitch, autora de A guerra não tem rosto de mulher, há no Rio de Janeiro uma guerra muito específica que tem o rosto das mulheres que recorreram ao serviço de saúde em situação de abortamento e acabaram presas. Se por um lado tivemos um governador capaz de afirmar que as mulheres pobres eram “fábrica de marginais”, por outro temos essas mesmas mulheres pobres, já constrangidas pela situação precária em que vivem, sendo denunciadas e presas quando recorrem, em situação de extrema vulnerabilidade física e emocional, à rede pública de saúde.

O estatuto dos favelados cariocas

Carla Rodrigues

19.02.18

O Rio de Janeiro é o cenário perfeito para a construção de um discurso de ordem, aqui entendido como apelo de intervenção e proteção por um Estado forte exatamente onde hoje o governo é mais fraco, para a configuração de um estado de exceção que ganha apoio nas camadas médias como forma de proteção “contra tudo isso que está aí”.

Viva o feminismo agonístico

Carla Rodrigues

16.01.18

É uma imensa alegria ver feministas debatendo violência contra as mulheres, assédio sexual em ambientes profissionais e submissão de mulheres aos privilégios dos homens, como aconteceu na semana passada. Gostaria de ir além e abordar uma questão de método, argumentando que hoje os feminismos carregam, na política, uma dupla potência.