A atriz francesa Catherine Deneuve

A atriz francesa Catherine Deneuve

Viva o feminismo agonístico

Política

16.01.18

Gas­tei mui­to tem­po, nos idos do iní­cio do sécu­lo XXI, ten­tan­do con­ven­cer homens – e tam­bém algu­mas mulhe­res – que não, o femi­nis­mo não tinha aca­ba­do, como que­ri­am os arau­tos do retro­ces­so, e nem fazia sen­ti­do decre­tar o fim dos movi­men­tos femi­nis­tas, pois ain­da fal­ta­va mui­to para que as rela­ções de tra­ba­lho, soci­ais e fami­li­a­res fos­sem pau­ta­das pela igual­da­de de direi­tos entre homens e mulhe­res. É, por­tan­to, uma imen­sa ale­gria ver femi­nis­tas – nor­te-ame­ri­ca­nas, fran­ce­sas, bra­si­lei­ras, mas não ape­nas – deba­ten­do vio­lên­cia con­tra as mulhe­res, assé­dio sexu­al em ambi­en­tes pro­fis­si­o­nais e sub­mis­são de mulhe­res aos pri­vi­lé­gi­os dos homens, como acon­te­ceu na sema­na pas­sa­da (aqui, uma exce­len­te com­pi­la­ção dos prin­ci­pais tex­tos publi­ca­dos).

Dis­cu­tir assé­dio, abu­so e vio­lên­cia é fun­da­men­tal, cla­ro, e mais ain­da dis­cu­tir as for­mas de mudar essas prá­ti­cas, o que não neces­sa­ri­a­men­te pas­sa ape­nas pelo recur­so à lei cri­mi­nal ou, menos ain­da, pela con­de­na­ção de acu­sa­dos. Por isso eu gos­ta­ria de ir além e abor­dar uma ques­tão de méto­do. Para os pou­co afei­tos à polí­ti­ca femi­nis­ta, os inú­me­ros mani­fes­tos, car­tas e arti­gos podem pare­cer ape­nas uma imen­sa con­fu­são de vozes dis­so­nan­tes que não che­gam a lugar nenhum. É exa­ta­men­te nes­sa espé­cie de tor­re de Babel de dis­cur­sos – de apa­rên­cia con­tra­di­tó­ria ou con­fli­tu­o­sa entre si – que está o meu inte­res­se em argu­men­tar que hoje os femi­nis­mos car­re­gam, na polí­ti­ca, uma dupla potên­cia.

A pri­mei­ra potên­cia, por óbvia, não pre­ci­sa­ria ser repe­ti­da, mas vamos lá: nada jus­ti­fi­ca nem as dife­ren­ças ain­da exis­ten­tes entre homens e mulhe­res nas soci­e­da­des con­tem­po­râ­ne­as, nem o racis­mo, a vio­lên­cia, a dis­cri­mi­na­ção e a per­ma­nen­te supo­si­ção de subal­ter­ni­da­de, pre­sen­te dos meno­res aos mai­o­res ges­tos. Os movi­men­tos femi­nis­tas são a prin­ci­pal insur­gên­cia con­tra esse esta­do de coi­sas, o que faz das mulhe­res o motor das trans­for­ma­ções nas rela­ções econô­mi­cas e soci­ais. Pode­ria se argu­men­tar que a segun­da onda femi­nis­ta tal­vez tenha nos dei­xa­do um lega­do “mera­men­te cul­tu­ral”, seguin­do os ter­mos do deba­te esta­be­le­ci­do entre Judith Butler e Nancy Fra­ser na New Left Revi­ew, cuja tra­du­ção no Bra­sil é per­ti­nen­te para as ques­tões atu­ais, mas esta seria outra con­ver­sa.

A segun­da gran­de potên­cia dos movi­men­tos femi­nis­tas cos­tu­ma ser tra­ta­da como demé­ri­to, defei­to ou falha: há lugar para mui­tas vozes, elas são hete­ro­gê­ne­as, os acor­dos são par­ci­ais, as ali­an­ças são con­tin­gen­tes, as diver­gên­ci­as são valo­ri­za­das. Nes­te modo de fazer polí­ti­ca resi­de sua prin­ci­pal for­ça, embo­ra os ini­mi­gos pre­ten­dam apon­tar aí sua mai­or fra­que­za. Aqui vale a pena tra­zer à tona a car­ta da atriz fran­ce­sa Cathe­ri­ne Deneu­ve, publi­ca­da pelo Libé­ra­ti­on, na qual ela revi­si­ta mui­tos dos pon­tos do Mani­fes­to da sema­na pas­sa­da.

Dois aspec­tos do tex­to de Deneu­ve cha­mam minha aten­ção. Pri­mei­ro, ela faz ques­tão de rea­fir­mar sua posi­ção con­trá­ria a trans­for­mar denún­cia em vere­di­to, pro­ble­ma ampla­men­te deba­ti­do nos femi­nis­mos bra­si­lei­ros e tam­bém abor­da­do em exce­len­te arti­go da escri­to­ra cana­den­se Mar­ga­ret Atwo­od. O segun­do pon­to impor­tan­te é quan­do Deneu­ve diz: “Sou uma mulher livre e assim per­ma­ne­ce­rei”. Ora, por que pare­ce tão impor­tan­te repe­tir essa afir­ma­ção? No meu argu­men­to, para que pos­sa­mos afir­mar a potên­cia de um femi­nis­mo ago­nís­ti­co – ou de con­fli­tos – como exem­plo daqui­lo que a filó­so­fa Chan­tal Mouf­fe cha­mou de “demo­cra­cia ago­nís­ti­ca”, uma demo­cra­cia na qual os con­fli­tos não são supe­ra­dos em nome de uma “tole­rân­cia”, mas man­ti­dos em fun­ção do reco­nhe­ci­men­to de que a polí­ti­ca se faz na aber­tu­ra para a plu­ra­li­da­de e não no silên­cio for­ça­do dos con­sen­sos. Dis­cor­dar é man­ter as ques­tões polí­ti­cas em aber­to, sujei­tas a modi­fi­ca­ções, revi­sões, rein­ter­pre­ta­ções.

Entra aqui a chan­ce de ver na prá­ti­ca a crí­ti­ca da filó­so­fa Judith Butler a uma polí­ti­ca fecha­da às lutas iden­ti­tá­ri­as. Para ela, é um para­do­xo que pri­mei­ro seja pre­ci­so se esta­bi­li­zar numa iden­ti­da­de uni­fi­ca­da para, a par­tir des­sa iden­ti­da­de, rei­vin­di­car direi­tos e liber­da­de. Isso por­que a exi­gên­cia pré­via fecha as pos­si­bi­li­da­des ao invés de abri-las, levan­do a polí­ti­ca femi­nis­ta para o mes­mo modo de fun­ci­o­na­men­to da polí­ti­ca tra­di­ci­o­nal: nós con­tra eles; ami­go ver­sus ini­mi­go, legí­ti­mos con­tra ile­gí­ti­mos, estra­té­gi­as que bus­cam o apa­ga­men­to de con­fli­tos inter­nos em nome da toma­da do poder. Na polí­ti­ca ago­nís­ti­ca, Atwo­od não pre­ci­sa for­mu­lar a per­gun­ta que dá títu­lo ao seu arti­go – “Será que sou má femi­nis­ta?” –, por­que essa divi­são não se sus­ten­ta em for­mas de luta nas quais nos reco­nhe­ce­mos como pes­so­as livres para pen­sar, errar, acer­tar, agir e rea­gir, mas não para – usan­do aqui o ver­bo que se esta­be­le­ceu na tra­du­ção do mani­fes­to fran­cês – impor­tu­nar.

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