Madalena Schwartz/Acervo IMS

Detalhe/Acervo IMS

Todo mês a seção Pri­mei­ra vis­ta traz tex­tos de fic­ção iné­di­tos, escri­tos a par­tir de foto­gra­fi­as sele­ci­o­na­das no acer­vo do Ins­ti­tu­to Morei­ra Sal­les. O autor escre­ve sem ter infor­ma­ção nenhu­ma sobre a ima­gem, con­tan­do ape­nas com o estí­mu­lo visu­al. Nes­te mês de janei­ro, Lucre­cia Zap­pi foi con­vi­da­da a escre­ver sobre uma foto de Mada­le­na Schwartz, da série Trans­for­mis­tas (cir­ca 1975).

 

Madalena Schwartz. Série "Transformistas". São Paulo, circa 1975. Acervo IMSMada­le­na Schwartz/Acervo IMS

Série “Trans­for­mis­tas”. São Pau­lo, cir­ca 1975

 

As folhas enve­lhe­ci­das esta­vam vira­das na mes­ma dire­ção, decer­to por­que quem dei­xou o livro no ban­co do vagão can­sou de guar­dá-lo no bol­so. Ou sei lá. Só peguei por­que não tinha nin­guém por per­to, e um dos títu­los me cha­mou a aten­ção. O caça­dor. Não lem­bro bem o nome do cara que escre­veu por­que não sou de ler, mas o con­to era cur­to. Nem vi che­gar a esta­ção onde des­ço todos os dias. Mais tar­de, vol­tan­do, pen­sa­va no livro, no caça­dor que se dizia o melhor do mun­do, o Egor Vlas­sit­ch.

Egor encon­tra uma mulher na flo­res­ta, a Pela­gueia, e eles têm essa con­ver­sa estra­nha, e eu tive que ler duas vezes para enten­der que ela não era exa­ta­men­te uma doi­da mal­tra­pi­lha per­di­da no mato. O jei­to des­pre­zí­vel como ele a tra­ta e ela ain­da con­ti­nua feliz por cau­sa do encon­tro, escon­den­do o sor­ri­so nas mãos como a minha vizi­nha, a Dia­na. Pen­sei se esta­ria cozi­nhan­do algo bom, o mari­do ain­da no tra­ba­lho, e se não seria uma boa ideia bater na sua por­ta para dizer oi.

 


 

Não temos nada, nun­ca tive­mos. Somos só vizi­nhos e estu­da­mos jun­tos na mes­ma clas­se. Ela nun­ca me cha­mou mui­to a aten­ção, nem na sua par­ti­cu­la­ri­da­de de andar no meio do mato, às vezes, nua.

Não é por aca­so que me cha­mo Dia­na, decla­rou cer­ta vez, rin­do. Não é à toa. Daí con­tou uma his­tó­ria, a de um gran­de caça­dor gre­go cha­ma­do Acteão que sur­pre­en­deu a deu­sa toman­do banho no rio, e por isso ela o trans­for­mou num vea­do, só por­que ele a viu nua.

Rimos jun­tos por um bom tem­po daque­la idi­o­ti­ce, um mito, ela expli­cou, e eu per­gun­tei se ela me acha­va mui­to bur­ro, e quan­do as risa­das foram secan­do ela seguiu com aque­la mor­di­da no olhar, me enca­ran­do meio des­con­fi­a­da, meio bicho do mato mes­mo. Ela era um pou­co bicho. Des­de ado­les­cen­te tinha mania de andar pela­da na flo­res­ta. Nun­ca fala­mos sobre isso. Ela sabia que eu sabia, e não sei se seu mari­do tam­bém, mas eu vi, e não foi uma vez só, por­que era fácil avis­tá-la da minha jane­la, que dava para a entra­da da mata.

 


 

A lâm­pa­da esta­va ace­sa na casa da Dia­na. Era quar­ta-fei­ra. O frio, os galhos secos, a penum­bra, tudo ante­ci­pa­va os pas­sos de um cer­vo. Foi me dan­do von­ta­de de pegar o rifle, de entrar no mato, ape­sar do anoi­te­cer.

Esta­va intri­ga­do com a his­tó­ria que tinha lido e ain­da pen­san­do na minha vizi­nha, se real­men­te não hou­ve­ra nada entre nós. Como se eu não tives­se per­ce­bi­do que ela fazia isso para me pro­vo­car. Seu mari­do saía para o tra­ba­lho e ela ali, cui­dan­do das tra­lhas da casa. Eu via seu cabe­lo pre­to e sol­to, balan­çan­do a cada movi­men­to. Vol­tei a com­pa­rá-la à mulher do livro, ali entre as árvo­res, mal­tra­pi­lha e meio aban­do­na­da. Pen­sei nos vea­dos, em como ficam me enca­ran­do até eu man­dar uma bala pre­ci­sa, exa­ta, sem errar.

 


 

Con­tar a his­tó­ria para a Dia­na seria uma boa des­cul­pa para bater à sua por­ta.

O nome dela é Pela­gueia, eu diria, pron­to para gar­ga­lhar com ela, mas sen­ti um pudor des­co­nhe­ci­do. Ela ria pon­do as mãos na fren­te do ros­to, como a cam­po­ne­sa do livro, e essa ima­gem foi afun­dan­do na minha cabe­ça. Nem o segre­do aber­to de que ela anda­va às vezes daque­le jei­to na flo­res­ta não me cons­tran­gia. Era uma deu­sa, como ela mes­ma tinha dito. E as deu­sas são exi­bi­ci­o­nis­tas, espe­ci­al­men­te em Chau­tau­qua, per­to do lago onde mora­mos, onde não elas têm ocu­pa­ção. Engra­ça­do é o sig­ni­fi­ca­do de Chau­tau­qua na lín­gua dos iro­que­ses, lugar nebu­lo­so. Outros dizem que a pala­vra quer dizer lugar dos per­di­dos, ou até lugar da mor­te fácil.

 


 

Des­de cri­an­ça tinha o cos­tu­me de ir com meu pai e meu avô. É proi­bi­do caçar depois do anoi­te­cer, mas a gen­te ia mes­mo assim. Vea­do, pato ou puto, como dizia meu pai. O fato é que eu gos­to mui­to de ati­rar. Isso deve ser da natu­re­za huma­na. Por­que eu gos­to mes­mo de ati­rar.

Peguei o rifle. Os vea­dos na flo­res­ta iam pas­san­do como bor­rões. Não dava para ver direi­to, tinha mui­ta nebli­na no entar­de­cer azu­la­do.

 


 

Achei que fos­se um ani­mal e ati­rei. A bala entrou tími­da no qua­dril, ela nem gri­tou. Quer dizer. Gri­tou bai­xi­nho e eu cor­ri e lhe per­gun­tei por que esta­va lá. Foi sem que­rer, ela res­pon­deu. Foi tudo o que ela dis­se, e eu fiquei pen­san­do se fal­tou fôle­go para uma inter­ro­ga­ção, se ela me fazia uma per­gun­ta.

Segu­rei a sua mão enquan­to diri­gia para o hos­pi­tal no meu jipe, aque­le que fica esta­ci­o­na­do na esta­ção de trem duran­te o dia, por­que tenho outro que vive na gara­gem. Pen­sei na nos­sa ado­les­cên­cia e no casa­men­to dela, quan­do a fes­ta aca­bou em bri­ga por cau­sa dos pri­mos bêba­dos do noi­vo que mora­vam do outro lado do rio, per­to da reser­va indí­ge­na. Nun­ca tive von­ta­de de ficar com a Dia­na, mas eu gos­ta­va dela sim, mais do que sua pri­ma que eu namo­rei. Ela fechou os olhos e espe­rou che­gar no pron­to-socor­ro.

No hos­pi­tal repe­ti não sei quan­tas vezes que ati­rei sem que­rer. Eles me expli­ca­ram que ela san­grou demais, como se eu não sou­bes­se dis­so. Daí vie­ram as auto­ri­da­des. Dis­se­ram que eu pega­ria uma pena pesa­da e dias depois a vizi­nhan­ça fez um abai­xo assi­na­do a meu favor. Até o mari­do e os pri­mos doi­dos assi­na­ram, dizen­do que nun­ca tive inten­ção de ati­rar nela e que me conhe­ci­am bem. Conhe­ci­am nada.

Vol­tei a pen­sar no con­to do trem e nas brin­ca­dei­ras de Dia­na. Lem­brei que ela tinha uma cole­ção de bone­cas rus­sas que com­pra­ra em uma fei­ri­nha da cida­de.

Um suve­nir, ela falou.

Sen­ti reve­rên­cia na sua voz. Foi por isso que eu não fui pegan­do logo no brin­que­do, dei­xei que ela me mos­tras­se como uma cabia den­tro da outra. Esqui­si­ta a ideia de uma caber den­tro da outra, elas abrem e abrem, tor­nan­do-se inal­can­çá­veis, infi­ni­tas e minús­cu­las. E não se pare­cem às bone­cas nor­mais. Sei lá. Não têm cabe­lo, nem per­nas que dobram, só uma for­ma de bola, mais aque­la pin­tu­ra exa­ge­ra­da e o ver­niz em cima da madei­ra. Mas tra­zem memó­ri­as. Por exem­plo, aca­bo de pen­sar nelas. E o que me veio à cabe­ça foi um can­to de casa da Dia­na, algum lugar sem impor­tân­cia entre a sala e a cozi­nha, algum calor, lati­do.

 


 

Hoje faz um ano que Dia­na mor­reu. Ama­nhã é Dia de Ação de Gra­ças e a vida segue estra­nha­men­te igual. Depois de vol­tar do tra­ba­lho, saí para caçar, mais para fazer algu­ma coi­sa do que real­men­te pre­ci­sar da car­ne. Fiz o mes­mo per­cur­so no trem, as árvo­res se afas­tan­do de mim, depois o jipe até em casa. Seguia pen­san­do em Dia­na, lem­bran­do daque­la his­tó­ria que li. Dei uma vol­ta pelo bos­que com o rifle, mas vol­tei sem caça. Colo­quei lenha no fogo, esquen­tei a comi­da e ador­me­ci no sofá com a tele­vi­são liga­da.

Às vezes sonho com ela, que esta­mos andan­do jun­tos, no mato. Ela ves­ti­da de deu­sa, do jei­to dela. Duran­te o dia ten­to jun­tar os peda­ços de sonho na ten­ta­ti­va de que as coi­sas ganhem sen­ti­do, mas vai expli­car o quê. Tal­vez fos­se o dia dela.

, , , , , , ,