A pioneira Carmen Santos (1904-1952)

A pioneira Carmen Santos (1904-1952)

A pioneira Carmen Santos (1904-1952)

Mulheres do cinema, cinema das mulheres

No cinema

19.01.18

Pou­cos even­tos pode­ri­am ser tão opor­tu­nos como a mos­tra Mulhe­res, câme­ras e telas, da Cine­ma­te­ca Bra­si­lei­ra. Até o dia 2 de feve­rei­ro, na sede da enti­da­de em São Pau­lo, serão exi­bi­dos qua­ren­ta fil­mes rea­li­za­dos por dire­to­ras, qua­se todas bra­si­lei­ras. A pro­gra­ma­ção inclui tam­bém deba­tes, pales­tras e cur­sos.

Num cine­ma de his­tó­ria inter­mi­ten­te e espas­mó­di­ca como o nos­so, pon­tu­a­do por sur­tos, inter­rup­ções e fra­cas­sos, e ain­da por cima mar­ca­da­men­te mas­cu­li­no, vári­as gera­ções de mulhe­res podem ser vis­tas como pio­nei­ras e des­bra­va­do­ras. Sal­vo enga­no, a chan­cha­da não con­tou com nenhu­ma dire­to­ra. A Vera Cruz tam­pou­co. Mes­mo movi­men­tos pro­gres­sis­tas e supos­ta­men­te liber­tá­ri­os, como o cine­ma novo e o cha­ma­do “cine­ma mar­gi­nal”, tive­ram “musas”, mas não rea­li­za­do­ras.

Tal­vez não seja casu­al que duas impor­tan­tes cine­as­tas da atu­a­li­da­de – Hele­na Ignez e Pau­la Gai­tán (ambas com fil­mes na mos­tra) – só tenham pas­sa­do à dire­ção na matu­ri­da­de, depois da mor­te de seus res­pec­ti­vos mari­dos, Rogé­rio Sgan­zer­la e Glau­ber Rocha.

A mos­tra da Cine­ma­te­ca inclui des­de a pio­nei­rís­si­ma atriz, pro­du­to­ra e dire­to­ra Car­men San­tos (num docu­men­tá­rio sobre sua vida e obra diri­gi­do em 1969 por Jurandyr Noro­nha) até jovens rea­li­za­do­ras de hoje, como Julia Murat (Pen­du­lar) e Juli­a­na Rojas (Sin­fo­nia da necró­po­le).

 

Des­bra­va­do­ras soli­tá­ri­as

Entre aque­la e estas, apa­re­cem des­bra­va­do­ras mais ou menos soli­tá­ri­as de vári­as épo­cas, como Gil­da de Abreu (O ébrio), Maria do Rosa­rio (Mar­ca­dos para viver), Tere­za Traut­man (Os homens que eu tive), Ana Caro­li­na (Amé­lia), Ade­lia Sam­paio (Amor mal­di­to), Raquel Ger­ber (Ôrí) e Suza­na Ama­ral (A hora da estre­la).

Foi só nos anos 1990, com a cha­ma­da “reto­ma­da do cine­ma bra­si­lei­ro”, que as mulhe­res pas­sa­ram a ter uma pre­sen­ça quan­ti­ta­ti­va­men­te sig­ni­fi­ca­ti­va na pro­du­ção naci­o­nal, com o sur­gi­men­to de dire­to­ras como Tata Ama­ral, Eli­a­ne Caf­fé, Laís Bodanzky, Anna Muy­la­ert e Lina Cha­mie – todas com fil­mes na mos­tra.

As exce­ções estran­gei­ras que com­ple­tam a pro­gra­ma­ção foram esco­lhi­das a dedo: Roman­ce (1999), da fran­ce­sa Cathe­ri­ne Breil­lat, A meni­na san­ta (2004), da argen­ti­na Lucre­cia Mar­tel; O estra­nho que nós ama­mos (2017), da nor­te-ame­ri­ca­na Sofia Cop­po­la. Extre­ma­men­te dife­ren­tes entre si, os três fil­mes lidam com o inson­dá­vel – e even­tu­al­men­te explo­si­vo – dese­jo femi­ni­no. A meni­na san­ta, em par­ti­cu­lar, é de uma atu­a­li­da­de pun­gen­te ao colo­car na tela, com todas as som­bras e ambi­gui­da­des carac­te­rís­ti­cas de sua dire­to­ra, o tema do assé­dio sexu­al.

Em suma, uma mos­tra impres­cin­dí­vel, que bem pode­ria se des­do­brar no futu­ro em uma con­ti­nu­a­ção dedi­ca­da ao tra­ba­lho igual­men­te notá­vel de nos­sas pro­du­to­ras, da cita­da Car­men San­tos a Vania Cata­ni, pas­san­do por Mari­za Leão, Lucy Bar­re­to, Assun­ção Her­nan­des, Sara Sil­vei­ra, Cle­lia Bes­sa, Debo­ra Iva­nov, Luci­a­na Toma­si, Nora Gou­lart e inú­me­ras outras. Sem essas mulhe­res, o cine­ma bra­si­lei­ro não exis­ti­ria.

 

Os ini­ci­a­dos

A sim­ples pre­sen­ça de um títu­lo sul-afri­ca­no no cir­cui­to exi­bi­dor bra­si­lei­ro, por ser tão rara, já mere­ce­ria aten­ção. Mas Os ini­ci­a­dos, lon­ga-metra­gem de estreia de John Tren­go­ve em car­taz no IMS Pau­lis­ta e no IMS Rio, vai mui­to além do exo­tis­mo ou da curi­o­si­da­de etno­grá­fi­ca. É uma obser­va­ção madu­ra e sen­sí­vel das ten­sões eró­ti­cas e rela­ções pes­so­ais de domi­na­ção num ambi­en­te cul­tu­ral com­ple­xo e em rápi­da trans­for­ma­ção.

 

 

Na Áfri­ca do Sul atu­al, pós-apartheid, rapa­zes ado­les­cen­tes são leva­dos a um acam­pa­men­to nas mon­ta­nhas para sub­me­ter-se ao tra­di­ci­o­nal ritu­al Xho­sa de ini­ci­a­ção à mas­cu­li­ni­da­de adul­ta, que inclui uma cir­cun­ci­são fei­ta ali mes­mo, sem anes­te­sia e apa­ren­te­men­te sem o devi­do acom­pa­nha­men­to médi­co. Duran­te os dias que ante­ce­dem e suce­dem a cirur­gia, esses garo­tos são acom­pa­nha­dos por “cui­da­do­res”, homens adul­tos encar­re­ga­dos da sua recu­pe­ra­ção físi­ca e da sua edu­ca­ção para a viri­li­da­de. (O pró­prio Nel­son Man­de­la foi sub­me­ti­do a esse ritu­al aos 15 anos.)

O pro­ta­go­nis­ta, Xola­ni (Nakha­ne Tou­ré), é um des­ses cui­da­do­res. Tra­ba­lha­dor de uma fábri­ca na cida­de, ele todo ano se des­lo­ca à mon­ta­nha para ser­vir no ritu­al. Des­ta vez ele cui­da de um rapaz de Joha­nes­bur­go, Kwan­da (Niza Jay), estig­ma­ti­za­do pelos outros como filhi­nho de papai rico. Ao mes­mo tem­po, Xola­ni reen­con­tra um velho ami­go, Vija (Bon­gi­le Mant­sai), tam­bém cui­da­dor, com quem man­tém uma secre­ta e ator­men­ta­da rela­ção homo­e­ró­ti­ca. Vija, para com­pli­car, leva uma vida dupla: é casa­do e tem filhos.

Para além do apa­ren­te para­do­xo – um casal gay ser­vin­do a um meca­nis­mo de repro­du­ção de uma cul­tu­ra machis­ta –, o fil­me tra­ba­lha com desen­vol­tu­ra, mas ao mes­mo tem­po com deli­ca­de­za, os inú­me­ros atri­tos e fric­ções sus­ci­ta­dos pela situ­a­ção. Nas bor­das do qua­dro, por assim dizer, entre­cho­cam-se tra­di­ção mile­nar e capi­ta­lis­mo glo­ba­li­za­do, cam­po e cida­de, tri­bo e clas­se soci­al; no foco dra­má­ti­co, a ten­são é entre o dese­jo ínti­mo e as más­ca­ras soci­ais. Em meio a um con­tex­to his­tó­ri­co-soci­al deter­mi­na­do pul­sa uma ques­tão huma­na uni­ver­sal.

 

Sau­da­de Pela jane­la

Pelo menos duas outras estrei­as mere­cem aten­ção. Uma delas é o docu­men­tá­rio Sau­da­de, copro­du­ção Bra­sil-Por­tu­gal diri­gi­da por Pau­lo Cal­das. Mon­ta­do em tor­no de can­ções, luga­res e sobre­tu­do depoi­men­tos de escri­to­res, his­to­ri­a­do­res e artis­tas de vári­as áre­as, o fil­me bus­ca tra­çar o per­cur­so e os inú­me­ros sig­ni­fi­ca­dos da pala­vra “sau­da­de” para bra­si­lei­ros, por­tu­gue­ses e afri­ca­nos lusó­fo­nos. Não se tra­ta de uma inves­ti­ga­ção eti­mo­ló­gi­ca com rigor aca­dê­mi­co, mas de um ensaio pes­so­al sobre as rever­be­ra­ções poé­ti­cas de um vocá­bu­lo pode­ro­so. Um delei­te do come­ço ao fim.

 

 

Pela jane­la, lon­ga de estreia de Caro­li­ne Leo­ne tam­bém em car­taz no IMS Pau­lis­ta e no IMS Rio, acom­pa­nha a via­gem – geo­grá­fi­ca e exis­ten­ci­al – de uma mulher de meia-ida­de, Rosá­lia (Maga­li Biff). Ela aca­ba de ser demi­ti­da de seu empre­go de déca­das como ope­rá­ria e acei­ta a con­tra­gos­to ir à Argen­ti­na com o irmão, José (Cacá Ama­ral), encar­re­ga­do de levar até lá um auto­mó­vel. Com suti­le­za, a câme­ra pare­ce pas­sar de um regis­tro qua­se docu­men­tal, obje­ti­vo, para uma obser­va­ção cada vez mais sen­sí­vel do renas­ci­men­to da per­so­na­gem, de sua aber­tu­ra para o mun­do e os seres que a cer­cam.

 

 

Nes­sa jor­na­da, a água, em todas as suas for­mas (chu­va, poça, cacho­ei­ra, banho, rio) e em todos os seus sig­ni­fi­ca­dos (lim­pe­za, renas­ci­men­to, batis­mo, mer­gu­lho no abso­lu­to), cum­pre um papel cen­tral. A pro­e­za é aju­da­da enor­me­men­te pela bri­lhan­te atu­a­ção de Maga­li Biff.

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