A seção Primeira Vista pub­li­ca men­salmente tex­tos inédi­tos de ficção, escritos a par­tir de fotografias sele­cionadas no acer­vo do Insti­tu­to Mor­eira Salles. O autor escreve sem ter infor­mação nen­hu­ma sobre a imagem, con­tan­do ape­nas com o estí­mu­lo visu­al. Neste mês de setem­bro, Samir Macha­do de Macha­do foi con­vi­da­do a escr­ev­er sobre uma foto de Alice Brill.

 

Alice Brill/Acervo IMS

Meni­no cego lendo em braile. Bib­liote­ca Infan­til Mon­teiro Loba­to, São Paulo, déca­da de 1950

 

Meu tio Jorge cer­ta vez me con­tou essa história de sua infân­cia. Ele era fil­ho úni­co — digo que era meu tio por ser casa­do com min­ha tia, não éramos par­entes de sangue — e ten­do per­di­do a mãe muito cedo, aos onze anos, vivi­am só ele e o pai. Este, por sua vez, tra­bal­ha­va num escritório do cen­tro, per­to da Rua da Pra­ia, e não tin­ha com quem deixá-lo à tarde.

Seu pai saía todo dia na hora do almoço para buscá-lo na esco­la. Os dois almoçavam jun­tos e, ao voltar para o tra­bal­ho, o pai o larga­va na frente da Bib­liote­ca Públi­ca do Esta­do, ali na rua Riachue­lo. Tio Jorge em pouco tem­po apren­deu o cam­in­ho: subia o degrau da entra­da e sen­tia o ros­to fem­i­ni­no de madeira esculpi­do na por­ta sem­pre aber­ta, subindo sem­pre pelo lado esquer­do; eram então oito pas­sos à frente (mas com o tem­po e sua altura, a quan­ti­dade de pas­sos diminuiu), pas­san­do pelo bal­cão da recepção; vira­va então à esquer­da, mais oito pas­sos, e vira­va à dire­i­ta, onde a recep­cionista do setor de livros espe­cial já o con­hecia pelo nome, e per­gun­ta­va o que seria para hoje. Ah, sim, claro, esque­ci de diz­er: tio Jorge era cego.

A sen­hor­in­ha aju­da­va meu tio a chegar até as mesas e o deix­a­va com um livro em mãos. E quan­do me con­ta­va isso, tio Jorge sem­pre pedia à esposa que bus­casse na prateleira da sala um dos que tin­ha em casa; grandes livros que ao se abrirem mostravam pági­nas e mais pági­nas em bran­co — na primeira vez pen­sei que fos­se uma pia­da, mas logo notei as sequên­cias de fur­in­hos em difer­entes padrões, cor­ren­do ao lon­go da pági­na. Era incrív­el imag­i­nar que ali havia algo escrito, uma lin­guagem total­mente descon­heci­da por mim. Ao cor­rer os dedos pelos padrões, tive lam­pe­jos de quan­do fui alfa­bet­i­za­do, da min­ha sur­pre­sa ao con­statar que todos aque­les desen­hos eram letras e que, uma vez que apren­dia seu sig­nifi­ca­do, não me era mais pos­sív­el olhar sem ler auto­mati­ca­mente. Con­fes­so que ten­tei apren­der o braile, mas nun­ca tive o empen­ho para isso.

Era assim que tio Jorge pas­sa­va aque­la época de sua vida, e sem­pre ao final da tarde seu pai vin­ha buscá-lo na hora mar­ca­da, que a bib­liotecária aju­da­va a con­tro­lar. E então o pai, que pas­sa­va as tardes detrás de uma mesa, ao lado de uma janela que dava somente para a parede inter­na do pré­dio viz­in­ho — parede cinzen­ta com out­ras janelas, pre­so numa roti­na com tão pou­cas vari­ações que a que­bra de um equipa­men­to se tor­na­va um even­to — vira­va-se para o fil­ho e pedia que con­tasse de tudo o que havia lido naque­la tarde, toda a história, em cada detal­he: dos assas­si­natos mis­te­riosos, dos dragões que cus­pi­am fogo, dos heróis a cav­a­lo.

— Me con­ta tudo o que você viu hoje.

Meu mari­do, que é tradu­tor, con­ta que apren­deu a con­tar as sílabas poéti­cas com um vio­leiro anal­fa­beto, que o fazia somente pelo rit­mo das bati­das dos dedos no vio­lão. Eu, que de tio Jorge gan­ha­va sem­pre um livro de pre­sente nos aniver­sários e nos Natais, apren­di a ler com um cego. São coisas da vida.

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