O diretor Kiyoshi Kuro­sawa

O diretor Kiyoshi Kuro­sawa

Pesadelos contemporâneos

No cinema

13.04.18

Não é toda sem­ana que entram em car­taz novos filmes de três grandes autores em ple­na for­ma, como está acon­te­cen­do bem ago­ra, com Roman Polan­s­ki (Basea­do em fatos reais), Hong Sang-soo (O dia depois) e Kiyoshi Kuro­sawa (Antes que tudo desa­pareça). Cada um com sua poéti­ca pes­soal e intrans­fer­ív­el, eles aju­dam a ilu­mi­nar o descon­cer­to do indi­ví­duo den­tro de um mun­do enlouque­ci­do e esface­la­do.

Come­ce­mos por Polan­s­ki. Del­phine Dayrieux (Emmanuelle Seign­er), romancista de suces­so, aca­ba de lançar seu novo livro e entra na fase de inse­gu­rança e crise de cria­tivi­dade que cos­tu­ma ocor­rer nes­sas ocasiões. Na própria tarde de autó­grafos, con­hece Elle (Eva Green), uma jovem ghost writer de biografias de per­son­al­i­dades (apre­sen­ta­do­ras de TV, políti­cos, esportis­tas). Em pouco tem­po, as duas se tor­nam ínti­mas e Elle pas­sa a ser uma espé­cie de secretária e con­sel­heira de Del­phine.

Quan­do Elle vai morar no aparta­men­to de Del­phine, é Polan­s­ki que se insta­la em seu ele­men­to: as relações de dom­i­nação em que se mesclam sedução, inse­gu­rança, von­tade de poder. Um mun­do em que per­ver­são e per­ver­si­dade são quase sinôn­i­mos.

No jogo que se esta­b­elece entre as duas mul­heres, uma acred­i­ta estar se servin­do da out­ra como ali­men­to para o seu tra­bal­ho. Logo o jogo se dese­qui­li­bra em favor da mais jovem, sobre­tu­do quan­do um aci­dente tor­na lim­i­ta­dos os movi­men­tos de Del­phine, repro­duzin­do uma situ­ação análo­ga à do clás­si­co O que terá acon­te­ci­do a Baby Jane?, de Robert Aldrich, con­forme notaram vários críti­cos. Mas poderíamos nos lem­brar tam­bém de Lua de fel, do próprio Polan­s­ki, estre­la­do aliás pela mes­ma Emmanuelle Seign­er, só que em papel inver­tido: lá ela era a manip­u­lado­ra, aqui a manip­u­la­da.

Neste filme basea­do em livro homôn­i­mo de Del­phine de Vigan e rote­i­riza­do por Olivi­er Assayas em con­jun­to com o próprio Polan­s­ki, há ecos de out­ras obras do dire­tor fran­co-polonês: a dis­solução da iden­ti­dade de O inquili­no, as inver­sões de papéis de A pele de Vênus e Lua de fel, a para­noia claus­trofóbi­ca de Repul­sa ao sexo, O bebê de Rose­mary e O inquili­no. A con­fusão entre o que se vê e o que se imag­i­na, a coabitação no indi­ví­duo de sen­ti­men­tos con­tra­ditórios, a prox­im­i­dade entre Eros e Tânatos, entre o afe­to e a cru­el­dade, eis um mar em que Polan­s­ki nada de braça­da. Podemos imag­i­nar o que seria uma ver­são sua do con­to A causa sec­re­ta, de Macha­do de Assis.

De que­bra, há a descon­strução irôni­ca dessa ideia estúp­i­da de que uma obra “basea­da em fatos reais” tem mais val­or do que a pura ficção. De cer­to modo, tudo é real, bem como tudo é ficção. Na frase da cri­ança que diz “Mãe, o Luiz­in­ho me bateu” já há um recorte, um enfoque, uma leitu­ra. Os “fatos reais”, inapreen­síveis, ficaram no pas­sa­do. A men­ti­ra dos filmes “basea­d­os em fatos reais” é quer­er nos con­vencer da veraci­dade da sua ficção, da neu­tral­i­dade do seu recorte e do seu enfoque.

O dia depois

O sul-core­ano Hong Sang-soo é um fenô­meno. No espaço de um ano (2017) real­i­zou três lon­gas-metra­gens: o esplên­di­do Na pra­ia à noite soz­in­ha, o inédi­to A câmera de Claire e este O dia depois. Aqui, num pre­to e bran­co translú­ci­do e pleno de matizes, ele expõe o dra­ma cômi­co de um homem de meia-idade, Bong­wan Kim (Kwon Hae-hyo), às voltas com três mul­heres: sua esposa, sua amante e sua nova secretária, que a esposa enci­u­ma­da jul­ga ser sua amante.

Em pou­cas sequên­cias, mar­cadas por lon­gos diál­o­gos e por um olhar quase con­tem­pla­ti­vo às reações dos per­son­agens, Sang-soo trafe­ga entre o humor e a melan­co­l­ia com uma desen­voltura que se dis­farça de espon­tanei­dade e impro­vi­so. Con­s­ta que ele fornece aos atores ape­nas umas lin­has bási­cas e depois fil­ma pacien­te­mente o modo como eles desen­volvem as situ­ações, com a certeza de que algum tipo de ver­dade bro­ta dessas cir­cun­stân­cias. A câmera parece, ela própria, ao mes­mo tem­po curiosa e paciente em sua obser­vação dos fenô­menos.

Como escrevi aqui quan­do o filme foi exibido na Mostra Inter­na­cional de São Paulo do ano pas­sa­do, em O dia depois o cineas­ta parece aprox­i­mar sua con­tem­plação do cotid­i­ano à maneira de Ozu da graça anedóti­ca dos “con­tos morais” de Eric Rohmer. O resul­ta­do é uma exper­iên­cia encan­ta­do­ra e úni­ca.

Antes que tudo desa­pareça

Na vari­a­da e robus­ta fil­mo­grafia do japonês Kiyoshi Kuro­sawa, há um moti­vo que de quan­do em quan­do se repete: a ideia de uma força ocul­ta que se apos­sa dos indi­ví­du­os e os trans­for­ma naqui­lo que não são, fazen­do-os come­ter atro­ci­dades.

Em filmes como A cura e Creepy, crim­i­nosos se apos­sam, por meio de algum tipo de hip­nose ou dro­gas, da mente de pes­soas pacatas. Em Kairo e neste Antes que tudo desa­pareça essa pos­sessão cole­ti­va assume dimen­sões apoc­alíp­ti­cas. Em Kairo (tam­bém chama­do de Pulse), são os espíri­tos dos mor­tos que, através da inter­net (está­va­mos em 2001), pas­sam a dom­i­nar os vivos e induzi-los ao suicí­dio. No novo filme, são extrater­restres que vêm à Ter­ra e tomam a for­ma de cidadãos comuns para preparar a invasão do plan­e­ta e a destru­ição da humanidade.

A sem-cer­imô­nia com que os três inva­sores assumem o cor­po e a iden­ti­dade de uma garo­ta (Atsuko Mae­da), um rapaz (Shin­no­suke Mit­sushi­ma) e um homem casa­do (Ryuhei Mat­su­da) é a mes­ma com que Kuro­sawa tran­si­ta entre vários reg­istros, des­do­bran­do sua nar­ra­ti­va de modo sem­pre ines­per­a­do e sur­preen­dente.

Começan­do, como de hábito, por vários focos nar­ra­tivos simultâ­neos que acabarão por se cruzar, o cineas­ta con­figu­ra um mun­do de ameaças latentes, mas sem car­regar na ênfase e menos ain­da na expli­cação, de tal modo que boa parte do medo provém jus­ta­mente de não enten­der­mos ple­na­mente a situ­ação. Tudo pode acon­te­cer – e real­mente acon­tece.

Uma das ideias mais fecun­das do roteiro é a de que os aliení­ge­nas, mes­mo depois de se apos­sar de cor­pos humanos, ain­da estão em for­mação, pre­cisan­do adquirir “con­ceitos”: família, tra­bal­ho, trans­porte, amor. Ess­es con­ceitos são rou­ba­dos de diver­sas pes­soas, esvazian­do-as deles. Uma cena extra­ordinária, por exem­p­lo, é aque­la em que o homem casa­do vai à fir­ma onde a mul­her tra­bal­ha como desen­hista e “suga” do rígi­do patrão a própria ideia de “tra­bal­ho”. Lib­er­to da con­sciên­cia profis­sion­al, o patrão ime­di­ata­mente se con­verte num fol­gazão que sai pela empre­sa dançan­do e imi­tan­do um aviãoz­in­ho.

Mul­ti­pli­ca­do, o roubo de con­ceitos pro­duz como que uma epi­demia de loucos das mais vari­adas espé­cies. E aqui Kuro­sawa mostra toda a sua maes­tria no manu­seio de refer­ên­cias dís­pares. Um assas­si­na­to bár­baro, logo no iní­cio, lem­bra a este­ti­za­ção do sangue, bril­hante e vis­coso, do gênero ital­iano do gial­lo. O caos num hos­pi­tal que recebe pes­soas enlouque­ci­das e catatôni­cas traz à mente o apoc­alipse zumbi dos filmes de George Romero. O amoral­is­mo despre­ocu­pa­do dos ado­les­centes “ali­eniza­dos” remete à cru­el­dade sor­ri­dente e apa­vo­rante de Audição, de Takashi Miike.

O mais espan­toso de tudo é saber que foi a par­tir de uma peça de teatro (de Tomo­hi­ro Maekawa) que Kiyoshi Kuro­sawa pro­duz­iu essa obra tão mar­cada­mente cin­e­matográ­fi­ca, que com­bi­na o sus­pense, a ficção cien­tí­fi­ca, o hor­ror, a comé­dia e, por últi­mo mas não menos impor­tante, o romance. Pois o con­ceito que a tudo descon­cer­ta e tem um papel deci­si­vo no final é, quem con­taria?, o do amor.

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