Encontros com Avellar

Cinema

04.04.16

Quem, como eu, acom­pa­nha o cine­ma bra­si­lei­ro des­de os anos ses­sen­ta, ulti­ma­men­te tem sido gol­pe­a­do com mais frequên­cia do que seria razoá­vel pela notí­cia da par­ti­da de com­pa­nhei­ros des­ta jor­na­da.

José Carlos Avellar e Lauro Escorel

Foi com imen­sa tris­te­za que na manhã de 18 de mar­ço últi­mo rece­bi a notí­cia de que José Carlos Avellar havia nos dei­xa­do depois de lon­ga bata­lha con­tra a doen­ça que o afli­gia. O tele­fo­ne soou no momen­to em que eu dava por encer­ra­da a edi­ção do docu­men­tá­rio Improvável encon­tro e pen­sa­va que logo o pode­ria apre­sen­tar pron­to ao Avellar. O pro­je­to nas­ceu de uma con­ver­sa com ele e seu apoio foi essen­ci­al para que eu pudes­se levar a ideia adi­an­te. A con­ver­sa, man­ti­da nos cor­re­do­res do IMS, come­çou assim:

 

Eu (son­dan­do o ter­re­no): Zé, estou com uma ideia meio malu­ca para um docu­men­tá­rio.

Avellar: As idei­as malu­cas são as melho­res…

 

Animado pela aco­lhi­da, expus meu pro­je­to. Ele me ouviu, e per­ce­ben­do que a dimen­são do que eu pre­ten­dia esta­va além das suas pos­si­bi­li­da­des me suge­riu com sua deli­ca­de­za e gene­ro­si­da­de habi­tu­ais: “Porque não fazes um ensaio, um peque­no fil­me onde você pos­sa tes­tar a ideia? Isso eu con­si­go aju­dar a via­bi­li­zar.” Seguimos con­ver­san­do ali mes­mo, sen­ta­dos no ban­co do cor­re­dor, pers­cru­tan­do cami­nhos e pos­si­bi­li­da­des. A cer­ta altu­ra, des­pre­ten­si­o­sa­men­te, ele men­ci­o­nou o nome do fotó­gra­fo José Medeiros, apon­tan­do alguns aspec­tos da sua tra­je­tó­ria que vinham de encon­tro ao que eu bus­ca­va, e naque­le momen­to o fil­me come­çou a se con­cre­ti­zar.

Depois des­se dia segui­ram-se outros encon­tros e novas con­ver­sas. Eu pro­cu­ra­va man­tê-lo infor­ma­do do anda­men­to e das mudan­ças que o pro­je­to ia pas­san­do à medi­da que o tra­ba­lho avan­ça­va. Tomando café com lei­te, no meio da tar­de, con­ver­sa­mos sobre cine­ma docu­men­tá­rio, sobre cine­ma lati­no-ame­ri­ca­no. Ele me con­ta­va o que vira e suge­ria o que eu deve­ria ver. Me fala­va de cine­ma com entu­si­as­mo, des­fi­an­do sem­pre seu pen­sa­men­to cheio de ima­gi­na­ção. Quando lhe con­tei, pre­o­cu­pa­do com pra­zos esti­pu­la­dos entre nós, que a edi­ção do docu­men­tá­rio leva­ria mais tem­po do que o pre­vis­to, ele, tran­qui­lo, me dis­se: “Cada fil­me tem o seu tem­po. Faça no seu tem­po”.

Improvável encon­tro foi total­men­te rea­li­za­do sobre foto­gra­fi­as de José Medeiros e Thomaz Farkas. Narra o encon­tro, a ami­za­de e as influên­ci­as recí­pro­cas que con­tri­buí­ram para a con­so­li­da­ção da moder­na foto­gra­fia bra­si­lei­ra, inau­gu­ra­da nas déca­das de 1940/50. Durante a edi­ção do docu­men­tá­rio, segui­mos – eu e o Zé – nos comu­ni­can­do atra­vés de e-mails e tele­fo­ne­mas. No final do ano pas­sa­do, rece­bi a noti­cia de que seu esta­do de saú­de se agra­va­ra e que ele esta­va obri­ga­do a ficar em casa para se tra­tar. Liguei e con­ver­sa­mos um pou­co pelo tele­fo­ne. Com tran­qui­li­da­de me expli­cou o que esta­va acon­te­cen­do, des­cre­veu o tra­ta­men­to que tinha pela fren­te e agra­de­ceu pelas notí­ci­as do pro­je­to.

Em dezem­bro pas­sa­do, com a mon­ta­gem do pro­je­to a meio cami­nho, liguei para saber como ele esta­va e se eu pode­ria visi­tá-lo. Queria levar a pri­mei­ra mon­ta­gem do fil­me para ele ver. Ele esta­va bem dis­pos­to e me dis­se “Claro, venha!” E assim lá fui eu para meu encon­tro com o Zé.

Recebeu-me com a sim­pa­tia de sem­pre, fra­gi­li­za­do pelo tra­ta­men­to a que vinha sen­do sub­me­ti­do, mas ani­ma­do. Falou-me do que tinha pela fren­te, e dos pla­nos de vol­tar ao Instituto em feve­rei­ro. Assistiu ao pri­mei­ro cor­te do docu­men­tá­rio, fez seus comen­tá­ri­os e tive a opor­tu­ni­da­de de men­ci­o­nar as mudan­ças que ain­da pre­ten­dia rea­li­zar. Depois a con­ver­sa seguiu em tor­no da foto­gra­fia e de alguns fotó­gra­fos.

Sem que eu me des­se con­ta, a tar­de foi avan­çan­do, e seu pon­to alto foi quan­do abor­da­mos nos­sa admi­ra­ção comum pelas câme­ras Leica. Fui  então pre­mi­a­do com um “tour” pela sua cole­ção de Leicas. Avellar, com entu­si­as­mo juve­nil, dis­cor­reu sobre os dife­ren­tes mode­los da sua cole­ção, me apre­sen­tou a vári­as câme­ras que eu des­co­nhe­cia, fala­mos de cor­pos e len­tes.

Contou-me em que cir­cuns­tân­ci­as havia adqui­ri­do algu­mas daque­las pre­ci­o­si­da­des. Das câme­ras pas­sa­mos a publi­ca­ções sobre a Leica, adqui­ri­das ao lon­go dos anos em diver­sas via­gens, apro­vei­tan­do inter­va­los nos inú­me­ros encon­tros e fes­ti­vais de cine­ma de que par­ti­ci­pou. Sendo pos­sui­dor de ape­nas uma Leica, aqui­lo foi uma fes­ta para os olhos. Acabei per­den­do a noção do tem­po e a visi­ta se esten­deu por mais tem­po do que seria reco­men­dá­vel naque­las cir­cuns­tân­ci­as. Mas foi um fim de tar­de daque­les para se lem­brar. Lembrança que se jun­ta a mui­tos outros momen­tos em que esti­ve­mos jun­tos atra­vés dos anos.

Nossos pri­mei­ros encon­tros se deram em mea­dos dos anos ses­sen­ta, no bal­cão do labo­ra­tó­rio 16mm que exis­tia na Rua Alice, em Laranjeiras. Fazíamos, então, nos­sos pri­mei­ros fil­mes para o fes­ti­val de cine­ma ama­dor pro­mo­vi­do pelo Jornal do Brasil. Nossa ami­za­de come­çou ali, no inte­res­se comum pela foto­gra­fia, e pros­se­guiu no Jornal do Brasil, onde ele já tra­ba­lha­va como dia­gra­ma­dor e onde me con­se­guiu um está­gio no depar­ta­men­to de foto­gra­fia.

Daí em dian­te o cine­ma nos man­te­ve liga­dos. Mais de uma vez foto­gra­fei fil­mes com sua câme­ra empres­ta­da. Li suas cri­ti­cas no JB e fre­quen­tei pro­je­ções e deba­tes pro­mo­vi­dos por ele e Cosme Alves Neto na cine­ma­te­ca do MAM. Nestes qua­se 50 anos, esti­ve­mos pró­xi­mos em dife­ren­tes pro­je­tos, e mais recen­te­men­te no IMS.

Queria mui­to que o fil­me que estou con­cluin­do tives­se sido vis­to, e comen­ta­do, pelo Avellar. Infelizmente não ficou pron­to a tem­po, mas Improvável encon­tro é a ele dedi­ca­do.

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