Jabuticabas (ou joias?) de Haruo Ohara

Fotografia

25.07.13
Maria, filha de Haruo (Chácara Arara, Londrina - PR: 1949)

Maria, filha de Haruo, chácara Arara, Londrina, PR, 1949

A arte tem dis­so: des­pre­za a igno­rân­cia e atin­ge pro­fun­da­men­te os que sim­ples­men­te se dis­põem a ver ou sen­tir. Tenho uma ami­ga que, sem qual­quer conhe­ci­men­to de his­tó­ria da arte, visi­tan­do o museu do Louvre ficou para­li­sa­da dian­te da escul­tu­ra da Vitória de Samotrácia. Levou um sus­to, diria ela, com a intre­pi­dez e a sobe­ra­nia da figu­ra femi­ni­na, ala­da, no topo de uma esca­da­ria do museu pari­si­en­se. Na minha fase de pai­xão por Alberta Hunter, tive uma empre­ga­da, anal­fa­be­ta, que inter­rom­pia a lim­pe­za da sala para ouvir, emo­ci­o­na­dís­si­ma, a intér­pre­te ame­ri­ca­na can­tan­do The glory of love. Não sabia uma pala­vra de inglês. 

O rosá­rio de expe­ri­ên­ci­as cor­re o ris­co de ser lon­go, mas devo con­tar que cer­ta vez, tam­bém no Louvre, enquan­to eu me pos­ta­va con­cen­tra­da dian­te da Mona Lisa, uma meni­na de seus dez para doze anos, olhan­do para mim, intri­ga­da, devol­via o olhar para o qua­dro, son­da­va o gru­po de um modo geral, até que, viran­do-se para o pai, em bus­ca de moti­vo para tama­nha con­ten­ção, pro­fa­nou o silên­cio dos que se espre­mi­am em fren­te à obra famo­sa dizen­do em voz bem alta: papá, que tie­ne de espe­ci­al?

Mas vale o des­con­to: a meni­ni­nha ain­da nem saí­ra da infân­cia, enquan­to eu me pro­pus aqui a con­fes­sar que des­co­nhe­cia mui­tos dos nomes mais impor­tan­tes da foto­gra­fia quan­do vim tra­ba­lhar no IMS em final de 2009. Ao lon­go des­ses qua­tro anos tenho me encan­ta­do com as mulhe­res caran­gue­jei­ras de Maureen Bisilliat, as máqui­nas de Flieg e as soli­dões de Copacabana retra­ta­das por José Medeiros, den­tre outros fotó­gra­fos.

Nenhum deles me arre­ba­tou tan­to quan­to Haruo Ohara. A pri­mei­ra vez que ouvi falar do fotó­gra­fo japo­nês foi quan­do Rachel Rezende, da coor­de­na­do­ria de foto­gra­fia do IMS, pro­nun­ci­ou seu nome refe­rin­do-se ao docu­men­tá­rio que Rodrigo Grota fize­ra sobre ele. Rachel fala­va do artis­ta com uma natu­ra­li­da­de humi­lhan­te, e eu, sem ter ideia des­se homem que che­ga­ra a São Paulo em 1927, bei­ran­do os 18 anos de ida­de, com os pais, e seis anos depois se fixa­va em Londrina, no Paraná, não pude espe­rar para per­gun­tar quem era “o” Haruo a quem ela tra­ta­va com tan­ta inti­mi­da­de. Pouco depois vi o catá­lo­go de 2008, ano em que os 18 mil nega­ti­vos que cons­ti­tu­em sua extra­or­di­ná­ria obra che­ga­ram ao IMS. Na loji­nha da Casa, eu o indi­quei como pre­sen­te de ami­go ocul­to de 2011. Indiquei para mim mes­ma, que­ro dizer, que é como cos­tu­ma­mos fazer aqui, para faci­li­tar o ami­go que pre­sen­te­a­rá. Foi assim que o meu que­ri­do João Gabriel me garan­tiu o pra­zer de ter na minha casa, sen­ta­da no meu sofá, sem­pre que eu qui­ser, as trans­lú­ci­das jabu­ti­ca­bas que Haruo Ohara foto­gra­fou na sua casa da rua São Jerônimo.

Eu tinha caí­do de amo­res pelos fru­tos des­de que os vi pre­sos ao tron­co da jabu­ti­ca­bei­ra, não em abun­dân­cia como as laran­jas ou os caquis que “o” Haruo foto­gra­fou — ago­ra já me atre­vo a escre­ver assim. As laran­jas foram regis­tra­das no chão, às cen­te­nas, enquan­to os caquis, igual­men­te far­tos, pen­dem das mãos de três dos nove filhos de Haruo, em pen­cas. Ao lado, Kô Sanada, a mãe, cúm­pli­ce do tra­ba­lho do mari­do na lavou­ra da Chácara Arara e na vida.

Jaboticabas, casa da rua São Jerônimo (1965) | Kô e os filhos desfrutando uma farta safra de caquis (final da década de 1940)

Jabuticabas, casa da rua São Jerônimo, 1965, Londrina, PR| Kô e os filhos desfrutando uma farta safra de caquis, final da década de 1940

As duas fotos são qua­se rui­do­sas, como se se pudes­se pres­sen­tir o baru­lho cau­sa­do pelas laran­jas des­pe­ja­das no chão. Como se, para mos­trar os caquis, as cri­an­ças tives­sem por um momen­to para­do de cor­rer, de gri­tar, a fim de exi­bir os fru­tos ver­me­lhos que pesa­vam em seus bra­ços infan­tis.

Na foto das jabu­ti­ca­bas, não é a far­tu­ra que sobres­sai. Tampouco ela suge­re, como acon­te­ce nas das laran­jas e dos caquis, um ruí­do ante­ri­or ao cli­que da Rolleiflex que Haruo usa­va nas suas fotos de ama­dor que se con­ver­te­ria num dos mai­o­res nomes da foto­gra­fia bra­si­lei­ra do sécu­lo XX. Dessa vez, o silên­cio pre­pa­ra a deli­ca­de­za do tron­co bor­da­do de fru­tos. Haruo não esco­lheu a par­te do tron­co mais cheia, e sim um peda­ço ape­nas sal­pi­ca­do das esfe­ras pre­tas e relu­zen­tes. Sobressaem raras, como pares de brin­cos. Parecem mais joi­as que fru­tos. À exce­ção de uma trin­ca que se pro­je­ta na fren­te, as outras bro­tam em duplas, péro­las negras pron­tas para serem pen­du­ra­das na ore­lha de uma deu­sa afri­ca­na ou de uma tsa­ri­na japo­ne­sa.

Quando vi essa foto estam­pa­da no ban­ner de divul­ga­ção da expo­si­ção, che­guei a pen­sar que o Sergio Burgi, coor­de­na­dor de foto­gra­fia do IMS, tinha adi­vi­nha­do meus pen­sa­men­tos. Mas não, a arte tem dis­so: se é valo­ri­za­da pelos que sabem jul­gar, pelos que conhe­cem a téc­ni­ca, não espe­ra conhe­ci­men­to para tocar os que olham de cora­ção e olhos bem aber­tos. Assim, toda noi­te, quan­do saio, vejo as jabu­ti­ca­bas se ofe­re­cen­do sob a luz, joi­as para noi­te de gala.

Kô, mulher de Haruo, fotografada em seus últimos momentos de vida (c. 1973)

Kô, mulher de Haruo, fotografada em seus últimos anos de vida, 1971, Londrina, PR

“Só pode­mos foto­gra­far o que já exis­te em nós”, escre­via Paulo Mendes Campos em um de seus cader­nos de notas. Com a auto­ri­da­de de quem nada sabe, vejo mui­to de gra­ti­dão amo­ro­sa na foto que Haruo fez da mulher, Kô Sanada, nos seus últi­mos dias de vida. Doente, mas sem per­da de dig­ni­da­de, Kô se aban­do­na na pol­tro­na. Não segu­ra o leque aber­to, colo­ca­do em suas mãos. Faltam-lhe for­ças. Ele está no seu colo para subs­ti­tuir-lhe as mãos, em pací­fi­co e silen­ci­o­so adeus. Há uma invi­o­lá­vel ter­nu­ra no olhar de Kô, res­so­nân­cia do que vem do fotó­gra­fo, assim como que­ria Paulo Mendes Campos, que, citan­do Valéry, afir­ma­va que a ter­nu­ra é a “ten­dên­cia de se entre­gar em fran­que­za à doçu­ra de ser fra­co”. E Paulo rela­ci­o­na assim o con­vi­te à ter­nu­ra:

Ternura por um por­tal de outro sécu­lo; por um pátio de clau­su­ra azul; por uma ladei­ra dese­nha­da de retas que pare­cem tor­tas; pela inte­gri­da­de metá­li­ca de um sino; por uma pre­ti­nha, qua­se des­pi­da, de ver­me­lho; por um ren­que de co­queiros abrin­do con­tra o ven­to parên­te­ses que não se fecham; por um aro­ma de ma­resia.

Mais Haruo Ohara

Haruo Ohara — vídeo inte­gral do deba­te sobre o fotó­gra­fo rea­li­za­do no IMS-RJ, com medi­a­ção de Sergio Burgi e pre­sen­ça de Bruno Gehring e Saulo Ohara.

A fra­ção de segun­do e a his­tó­ria — por Marcos Sá Corrêa - um pai­nel sobre o fotó­gra­fo japo­nês que imi­grou para o Brasil em 1927 e pro­du­ziu uma obra moder­na, sen­sí­vel e huma­nis­ta.

Haruo Ohara e as lavou­ras do Paraná — ima­gens do tra­ba­lho na lavou­ra de café e da cons­tru­ção e desen­vol­vi­men­to da cida­de de Londrina, fil­ma­das por Hikoma Udihara.

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