Cena do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

O escritor inglês Anthony Burgess (1917-1993)

O escritor inglês Anthony Burgess (1917-1993)

Declínio e queda do esprit d’escalier

Vida Contemporânea

09.11.17

O fim do papo

Ao lon­go da História, o dire­ito de se expres­sar em públi­co sem­pre foi uma opor­tu­nidade para poucos. Primeira­mente, dev­i­do às restrições dos lugares de fala, o que já foi deter­mi­na­do por fatores como gênero, classe, posição, sobrenome, idade, cor, geografia. Algu­mas dessas restrições ain­da exis­tem, mas foram bas­tante aten­u­adas com a inter­net, e essas opor­tu­nidades, ape­sar de con­tin­uarem lim­i­tadas, estão mais aber­tas. Porém até um falante em posição bas­tante favoráv­el – como hoje seria, dig­amos, o Papa Fran­cis­co ou, num exem­p­lo sec­u­lar, George Stein­er –, pre­cisa­va respeitar cer­ta ordem social. Em suma, ninguém nun­ca pode­ria diz­er tudo o que quisesse des­bra­gada­mente – mes­mo numa mesa de bar a con­ver­sa seguia cer­ta hier­ar­quia infor­mal, ain­da que soasse caóti­ca.

Em segun­do lugar, dev­i­do às restrições iner­entes ao próprio pen­sa­men­to. Os fatores men­ciona­dos aci­ma só cri­am a opor­tu­nidade de fala em con­junção com a capaci­dade de artic­u­lação ver­bal, o domínio da con­strução dis­cur­si­va, e até do desprendi­men­to e da com­preen­são de idiomas (tudo isso resumív­el numa sub­je­ti­va “respeitabil­i­dade” ou, mais ain­da, em cada sotaque especí­fi­co). Sem­pre foi bem nor­mal que, mes­mo pos­suin­do a opor­tu­nidade, alguém não encon­trasse as palavras no momen­to de rebater o comen­tário áci­do.

O abade André Morel­let afir­ma serem as metas da con­ver­sação diver­tir e mel­ho­rar o próx­i­mo, mas quem alcança noto­riedade são aque­les con­ver­sadores geni­ais, implacáveis, que você jamais enfrentaria num debate: Sócrates, Cícero, Voltaire, Samuel John­son, Oscar Wilde, Dorothy Park­er, Oswald de Andrade, Gore Vidal, Fran Lebowitz. Numa ane­do­ta atribuí­da a De Quincey, Borges con­ta que um homem numa dis­cussão, após rece­ber uma taça de vin­ho na cara, repli­cou: “Isto, sen­hor, é uma digressão. Espero seu argu­men­to”. Como respon­der à altura?

Aos con­ver­sadores comuns sobravam a rai­va ou a ver­gonha. Às vezes, a respos­ta per­fei­ta lhes chega­va como que por inspi­ração – quan­do o inter­locu­tor não esta­va mais pre­sente. Diziam os france­ses que ela viria sem­pre após as des­pe­di­das, no meio da esca­da, quan­do não pode­ria ser dita, e daí surgiu a expressão esprit d’escalier, o espíri­to da esca­da, uma enti­dade que nos asso­pra tarde demais a répli­ca irreparáv­el.

 

Fugit irrev­o­ca­bile scrip­tum

No Zeit­geist de uma era mar­ca­da por ele­vadores e conexão ilim­i­ta­da não existe espaço para o esprit d’escalier. Assim como nos é pos­sív­el enviar a respos­ta a qual­quer hora do dia, podemos adiá-la con­forme nos­sa con­veniên­cia. E ten­do sido buri­la­da com tan­to esmero, ninguém guar­da para si a sen­tença feri­na. Isso gera, quan­do tan­to, uma inver­são do esprit d’escalier: o arrependi­men­to pelo golpe efe­ti­va­do, pelo comen­tário que agravou a pele­ja – a ide­al­iza­ção tar­dia de uma lin­ha tem­po­ral em que a peque­na cru­el­dade não ten­ha sido envi­a­da.

Os anti­gos, quan­do a intri­ga pre­cisa­va ser pro­duzi­da dire­ta­mente no ouvi­do, refle­ti­ram bas­tante sobre a força da palavra. O poeta lati­no Horá­cio vati­ci­nou que “a voz expres­sa não pode voltar” [Nesc­it vox mis­sa rever­ti]. O inglês Edmund Spenser o parafraseou e disse que a fala, após pro­nun­ci­a­da, era irrevogáv­el [Fugit irrev­o­ca­bile ver­bum]. De acor­do com eles, é impos­sív­el engolir de vol­ta as palavras asso­pradas no ar. Já num céle­bre dita­do romano, lê-se que “as palavras fal­adas voam, as escritas per­manecem” [Ver­ba volant scrip­ta manent]. Ain­da que irrevogáveis, as palavras só eram pro­nun­ci­adas uma vez, antes de se dis­solverem como fumaça. Mas ago­ra, assim como a fala pode ser com­par­til­ha­da [ver­ba manent], não podemos escon­der entre os dedos o que digi­ta­mos na rede. A palavra escri­ta é irrevogáv­el.

Pior ain­da: em nos­so mun­do silen­cioso, das intri­gas feitas à dis­tân­cia, quan­to mais se luta para que uma infor­mação desa­pareça, mais ela se propa­ga. Ape­sar de ilus­trar bem a Tese da Per­ver­si­dade de Albert O. Hirschman, essa parece ser uma condição incon­tornáv­el de nos­sos tem­pos. Há uma força iner­ente que nos impul­siona a abrir o tex­to proibido, o assun­to alheio, e uma atração miméti­ca nos impele a com­par­til­há-lo. O ofen­di­do não se esque­cerá. O comen­tário desagradáv­el de seu desafe­to está, lit­eral­mente, na mão de todos. Ten­tar bar­rá-lo é for­t­alecê-lo.

 

Esqueçam o que escrevi”

Se o clique pro­duz mon­stros, mes­mo quan­do imprim­ir suas fras­es era um proces­so lon­go e difí­cil, opor­tu­nidade para pouquís­si­mos, os escritores já rene­gavam suas palavras. O roteirista de quadrin­hos Alan Moore pediu que seu nome fos­se removi­do de todos os seus pro­je­tos com a DC Comics, que teria agi­do de “má fé” para com ele. O romancista Mar­tin Amis não lista em sua obra o livro Inva­sion of the Space Invaders, sobre videogames, por achá-lo embaraçoso; tam­pouco Don DeLil­lo assume a pater­nidade de Ama­zons, romance sobre uma jogado­ra de hóquei pub­li­ca­do sob o pseudôn­i­mo Cleo Bird­well. Jonathan Lit­tell, após rece­ber o prêmio Goncourt por As benev­o­lentes em 2006, ressaltou a ruin­dade de seu úni­co romance ante­ri­or, um cyber­punk escrito na juven­tude chama­do Bad Volt­age.

A lit­er­atu­ra cri­a­da por ado­les­centes rara­mente resiste. Com exceção da França, claro, a nação da resistên­cia. Não é de se estran­har o uso de uma expressão france­sa, enfant ter­ri­ble, para des­ig­nar autores jovens e ousa­dos como Rim­baud, Radiguet e Françoise Sagan. Mas o nor­mal é que depois de um tem­po os tex­tos pre­co­ces sejam rene­ga­dos.

Por con­terem elo­gios a quem se mostrou traidor, por defend­erem hipóte­ses que se provaram errôneas, por causa de um cacófa­to hor­rív­el, situ­ação do ser­i­al killer da crôni­ca “Sebo”, de Luis Fer­nan­do Veris­si­mo, que assas­si­na os 17 leitores de seu romance mal revisa­do.

Por ver­gonha, por seus autores mudarem rad­i­cal­mente de opinião, por apu­rarem seu jul­ga­men­to estéti­co. Borges proibiu a repub­li­cação de seus primeiros livros de poe­mas, e Eduar­do Galeano afir­mou que não leria nova­mente seu livro mais famoso, As veias aber­tas da Améri­ca Lati­na. Virgílio e Franz Kaf­ka não con­seguiram con­vencer seus execu­tores a destruírem suas obras. Já o rus­so Niko­lai Gógol é que foi con­ven­ci­do a tocar fogo no segun­do vol­ume de Almas mor­tas. O poeta Ger­ar­do de Mel­lo Mourão se jun­tou com ami­gos e fiz­er­am uma pira com seus poe­mas da juven­tude: “Ou Dante ou nada”, expli­cou.

Por motivos éti­cos, pois suas obras acabaram se rev­e­lando perigosas, e talvez ten­ham influ­en­ci­a­do atos de vio­lên­cia. O norte-amer­i­cano William Pow­ell jamais con­seguiu impedir a cir­cu­lação do infame The Anar­chist Cook­book, um vir­u­len­to man­u­al de des­obe­diên­cia civ­il que teria aux­il­i­a­do diver­sos ter­ror­is­tas e assas­si­nos. Des­ti­no difer­ente teve Rage, romance obscuro sobre mas­sacre em esco­las, cujo autor, Stephen King, retirou de catál­o­go após ele ter sido encon­tra­do no armário de jovens que mataram seus cole­gas. Já Antho­ny Burgess nada con­seguiu faz­er con­tra a pop­u­lar­i­dade de Laran­ja mecâni­ca que, pro­tag­on­i­za­da por um sociopa­ta, se tornou uma das obras mais icôni­cas e influ­entes do sécu­lo XX.

 

Cena do filme de Stanley Kubrick baseado no romance Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Cena do filme de Stan­ley Kubrick basea­do no romance Laran­ja Mecâni­ca, de Antho­ny Burgess

 

A her­menêu­ti­ca dos assas­si­nos

É con­heci­da a história do retiro de Burgess (1917–1993). Diag­nos­ti­ca­do com um tumor cere­bral em 1959, ele pas­sou a escr­ev­er fre­neti­ca­mente para garan­tir a segu­rança finan­ceira de sua esposa Lynne. Entre estes escritos esta­va a famosa distopia Laran­ja mecâni­ca (1962), a história de uma gangue nar­ra­da por seu líder Alex DeLarge. O diag­nós­ti­co do tumor esta­va erra­do, e Burgess ain­da vive­ria mais de trin­ta anos, o bas­tante para ver sua obra adap­ta­da para o cin­e­ma por Stan­ley Kubrick, em 1971. O filme pop­u­lar­i­zou o romance de modo a ter ofus­ca­do tudo o mais que Burgess pro­duz­iu durante sua pro­lí­fi­ca car­reira. Autor ambi­cioso, ape­sar de ter feito biografias, sin­fo­nias, roteiros, e trin­ta e dois romances, muitos deles con­sid­er­a­dos mel­hores pelos críti­cos e por ele próprio, até hoje a fama do inglês se deve a Laran­ja mecâni­ca.

O livro pelo qual sou mais con­heci­do, ou o úni­co pelo qual sou con­heci­do, é um romance que estou prepara­do para repu­di­ar”, escreveu Burgess em 1985. “Ele ficou con­heci­do como matéria-pri­ma para um filme que pare­cia glo­ri­ficar o sexo e a vio­lên­cia.” Após o lança­men­to do filme, vários crimes foram lig­a­dos a ele.  Assim, em 1974, Kubrick proibiu que fos­se exibido na Inglater­ra até sua morte, que acon­te­ceria em 1999. “O filme facil­i­tou que os leitores enten­dessem mal o assun­to do livro, um mal-enten­di­do que me perseguirá até a morte”.

O romance, inspi­ra­do num even­to real em que a esposa do autor foi espan­ca­da e estupra­da por sol­da­dos amer­i­canos, tem como um dos pilares, de acor­do com o escritor Irvine Welsh,  “um sen­so pro­fun­do de peca­do” her­da­do da cri­ação católi­ca de Burgess. Porém a edição amer­i­cana, na qual o filme foi basea­do, foi lança­da sem o capí­tu­lo final, em que Alex se arrepende. E, no final das con­tas, um livro que é exata­mente sobre escol­her não faz­er o mal, como uma opção moral, não uma induzi­da por ele­men­tos exter­nos, muitas vezes é lido como um man­i­festo à vio­lên­cia gra­tui­ta.

Não foi a primeira vez. A vio­lên­cia sem­pre foi jus­ti­fi­ca­da com argu­men­tos os mais espal­hafatosos, e os livros, da BíbliaO apan­hador no cam­po de cen­teio, muitas vezes são usa­dos como val­i­dação para ideias ter­ríveis. Esta her­menêu­ti­ca par­tic­u­lar serve a assas­si­nos, ter­ror­is­tas, líderes políti­cos e fanáti­cos reli­giosos, gente inca­paz de com­preen­der o que não aten­da a seus propósi­tos. Quais­quer dados ou ideias que não lhes forem con­ve­nientes serão sim­ples­mente igno­ra­dos, como se uma mural­ha os guardasse con­tra qual­quer foco rebelde de sen­satez. E por mais que não cometa­mos crimes, a vida na inter­net nos mostrou que nos­so com­por­ta­men­to é muito pare­ci­do. Nos­sas per­son­al­i­dades vir­tu­ais são regi­das pela mes­ma lóg­i­ca.

 

#nao­vaiter­cul­pa

No primeiro pará­grafo afirmei que antes, mes­mo numa posição favoráv­el, ninguém nun­ca pode­ria diz­er des­bra­gada­mente o que quisesse. Na inter­net, pode, porque seus comen­tários serão con­duzi­dos para quem o apre­cie. Quan­do alguém percebe que disse uma besteira, sua reação seria se enver­gonhar, cer­to? Não quan­do encon­tra quem a endosse. E ape­sar de os donos das redes soci­ais propa­garem que conec­tam as pes­soas e mon­tam comu­nidades, na ver­dade eles cri­am bol­has; seus algo­rit­mos unem quem pen­sa de modo semel­hante, a pes­soa fala para seus pares. Aque­la opor­tu­nidade de se expres­sar em públi­co na ver­dade é uma ilusão, pois não há opiniões con­trastantes. O con­traste, no mun­do vir­tu­al, se resume a uma batal­ha de gri­tos.

Em meio a todos os absur­dos pro­feri­dos pelos neon­azis­tas de Charleston, um deles, ain­da que invol­un­tari­a­mente, afir­ma algo rev­e­lador. “Esta­mos sain­do da inter­net de modo grandioso”, con­ta para a repórter. “As pes­soas perce­ber­am que não são indi­ví­du­os iso­la­dos, são parte de um todo maior, porque estive­mos espal­han­do nos­sos memes, nos orga­ni­zan­do na inter­net, e ago­ra elas estão sain­do para as ruas.” Como disse Umber­to Eco, a estu­pid­ez se orga­ni­zou. O vídeo assus­ta porque de modo ger­al aque­les home­ns não falam com cin­is­mo. Estão con­vic­tos de serem eles os injustiça­dos, e pior, acred­i­tam agir cor­re­ta­mente. Mes­mo que algum deles por­ven­tu­ra abra os olhos, não há mais como reti­rar o que disse. Os prints foram salvos: suas palavras são irrevogáveis. Uma legião bra­da o seu dis­cur­so, out­ra o ata­ca. Será impos­sív­el esque­cer. A inter­net pôs fim à dúvi­da e ao arrependi­men­to. Esta batal­ha acabou. Os pedi­dos de des­cul­pas tombaram ao lado do esprit d’escalier.

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