A diretora Daniela Thomas

Richard Schroeder

A diretora Daniela Thomas

O inferno é aqui

No cinema

10.11.17

O Bra­sil é infer­no dos negros, pur­ga­tó­rio dos bran­cos e paraí­so dos mula­tos”, escre­veu o padre jesuí­ta ita­li­a­no Anto­nio José Anto­nil, que viveu por aqui no final do sécu­lo XVII e iní­cio do XVIII. Vazan­te, de Dani­e­la Tho­mas, pare­ce empe­nha­do em mos­trar que se tra­ta­va de um infer­no para todos. Um infer­no com gra­da­ções nas penas, por cer­to, como os cír­cu­los des­cri­tos por Dan­te. Tal­vez não seja casu­al, aliás, que dois dos per­so­na­gens cen­trais se cha­mem Bea­triz e Vir­gí­lio.

Pas­se­mos ao lar­go do fogo cer­ra­do a que o fil­me foi sub­me­ti­do no deba­te pós-exi­bi­ção no últi­mo Fes­ti­val de Bra­sí­lia. Algu­mas acu­sa­ções lan­ça­das ali são tão des­ca­bi­das que não mere­ce­ri­am comen­tá­rio. O pro­ble­ma é que as cha­gas da nos­sa for­ma­ção como país são tão pro­fun­das que qual­quer fil­me será insu­fi­ci­en­te para apla­car as dores acu­mu­la­das ao lon­go dos sécu­los. Tal­vez algu­mas cobran­ças, por mais legí­ti­mas que sejam, só pudes­sem ser satis­fei­tas por uma obra pro­gra­má­ti­ca, que mos­tras­se negros heroi­cos e vir­tu­o­sos baten­do-se con­tra o dra­gão da mal­da­de do poder bran­co. Mas uma tal obra teria escas­sa efi­cá­cia polí­ti­ca, esgo­tan­do-se na catar­se, e valor esté­ti­co nulo.

Fora do lugar

Dani­e­la Tho­mas optou por outro cami­nho. Orga­ni­zou sua nar­ra­ti­va em tor­no do moti­vo do des­lo­ca­men­to, da ina­de­qua­ção, do des­com­pas­so: por­tu­gue­ses, bran­cos nas­ci­dos na colô­nia, negros de diver­sas ori­gens e cul­tu­ras (e de vari­a­dos graus na esca­la entre o cati­vei­ro e a liber­da­de), homens, mulhe­res, velhos, cri­an­ças, todos estão fora do lugar, numa ter­ra estra­nha e hos­til, con­quan­to bela. O equi­lí­brio pre­cá­rio des­se com­ple­xo de rela­ções se dá medi­an­te a vio­lên­cia, sur­da ou explí­ci­ta, moral ou físi­ca – fre­quen­te­men­te moral físi­ca. O lugar é a Ser­ra Dia­man­ti­na, em Minas, e o ano é 1821.

No cen­tro do dra­ma há uma meni­na bran­ca de 12 ou 13 anos, Bea­triz (Lua­na Nas­tas), que antes mes­mo de mens­tru­ar é entre­gue como espo­sa ao tro­pei­ro por­tu­guês Anto­nio (Adri­a­no Car­va­lho), que per­deu a pri­mei­ra mulher (tia de Bea­triz) no par­to com o filho nati­mor­to.

Cri­ti­cou-se, entre outras coi­sas, a fal­ta de pro­ta­go­nis­tas negros, ou de per­so­na­gens negros com iden­ti­da­de, psi­co­lo­gia, vida inte­ri­or. Iná­cio Arau­jo, na Folha de S. Pau­lo, che­gou a dizer que não há per­so­na­gem algum, bran­co ou negro.

Não vejo bem assim. Os per­so­na­gens pou­co se expres­sam ou se expan­dem, o fil­me não ten­ta coop­tar nos­sa empa­tia ou nos­sa aver­são por eles, mas eles estão lá, reve­lan­do-se em falas lacô­ni­cas, em olha­res silen­ci­o­sos e em deta­lhes de com­por­ta­men­to: os sapa­tos rejei­ta­dos pelos pés do bru­to Anto­nio, o encan­ta­men­to infan­til de Bea­triz dian­te do fogo na mata ou do batu­que dos escra­vos, a frus­tra­ção de sua irmã mais velha pre­te­ri­da pelo pre­ten­den­te, o orgu­lho e alti­vez do negro for­ro Jere­mi­as (Fabrí­cio Boli­vei­ra) ao impor seus sabe­res agrí­co­las ao patrão, a revol­ta indo­má­vel dos cati­vos recém-che­ga­dos da Áfri­ca, a sub­mis­são dolo­ri­da da escra­va Feli­ci­a­na (Jai Batis­ta) aos abu­sos do senhor, o ran­cor da mãe de Bea­triz (San­dra Cor­ve­lo­ni) dian­te do mari­do frou­xo e do tro­pei­ro que arre­ba­tou os bens da sua famí­lia outro­ra pode­ro­sa.

Há toda uma rede de res­sen­ti­men­tos, opres­sões, atri­tos sub­ter­râ­ne­os que con­fi­gu­ram uma for­ma­ção soci­al tor­ta, fra­tu­ra­da, embru­te­ci­da. Os per­so­na­gens estão na tela, e são mais que meros arqué­ti­pos. Tal­vez o que tenha fal­ta­do – deli­be­ra­da­men­te – sejam as mule­tas de uma dra­ma­tur­gia con­ven­ci­o­nal, engen­dra­do­ras do meca­nis­mo de projeção/identificação for­ja­do por déca­das de cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no e tele­no­ve­las bra­si­lei­ras. O olhar da dire­to­ra é pre­do­mi­nan­te­men­te con­tem­pla­ti­vo, “neu­tro”, man­ten­do cer­ta dis­tân­cia obje­ti­va daqui­lo que retra­ta.

Bele­za e dor

E aqui entra­mos em outra ques­tão con­tro­ver­sa, as crí­ti­cas que o fil­me rece­beu por seu supos­to este­ti­cis­mo, que amor­te­ce­ria a vio­lên­cia da domi­na­ção patri­ar­cal expos­ta. De fato, roda­do na região minei­ra do Ser­ro, num pre­to e bran­co extre­ma­men­te mati­za­do (a foto­gra­fia é do peru­a­no Inti Bri­o­nes), com pla­nos aber­tos que explo­ram a exu­be­rân­cia hete­ro­gê­nea da região e uma ilu­mi­na­ção vir­tu­o­sís­ti­ca nos pla­nos inter­nos, sobre­tu­do os notur­nos, Vazan­te é de uma bele­za evi­den­te, inequí­vo­ca. Suas refe­rên­ci­as ico­no­grá­fi­cas mais óbvi­as são as gra­vu­ras de Debret e Rugen­das.

Tal­vez, no balan­ço entre a com­po­si­ção plás­ti­ca e o dra­ma huma­no, a dire­to­ra tenha pen­di­do para o pri­mei­ro ter­mo. Tenho dúvi­das quan­to a isso. O crí­ti­co por­tu­guês Jor­ge Mou­ri­nha, que defi­niu o fil­me como “tra­gé­dia em câme­ra len­ta”, falou sobre uma “sen­sa­ção de hip­no­se” pro­du­zi­da pelas ima­gens e res­sal­tou a pre­sen­ça cons­tan­te dos ele­men­tos da natu­re­za (os ani­mais, as árvo­res, a chu­va, o ven­to, as pedras, os cór­re­gos, o fogo) a emol­du­rar e – acres­cen­to eu – modu­lar ou refra­tar as des­ven­tu­ras dos homens. O que é defei­to para uns pode ser vis­to como vir­tu­de por outros.

Ade­mais, o apu­ro plás­ti­co não é neces­sa­ri­a­men­te incom­pa­tí­vel com a expres­são da vio­lên­cia e da dor. Bas­ta pen­sar, por exem­plo, num fil­me como Bar­ry Lyn­don, de Kubrick, ou O ino­cen­te, de Vis­con­ti. Sem falar no Dreyer de Dias de ira, no Berg­man de A fon­te da don­ze­la ou na fil­mo­gra­fia toda de Mizo­gu­chi. Não estou dizen­do que Dani­e­la Tho­mas tenha atin­gi­do com seu fil­me o equi­lí­brio admi­rá­vel des­sas obras-pri­mas, mas ape­nas que a bele­za não é for­ço­sa­men­te uma dis­tra­ção ou uma edul­co­ra­ção do que há de mais ter­rí­vel no real.

O que a dire­to­ra não pode dizer é que pre­ten­deu ape­nas nar­rar um dra­ma par­ti­cu­lar, sem pre­ten­são de fazer um pai­nel da nos­sa for­ma­ção soci­al patri­ar­cal. Alguns indí­ci­os apon­tam, ao con­trá­rio, para um dese­jo uni­ver­sa­li­zan­te, de rela­to de fun­da­ção: a mera vari­e­da­de de fatos e situ­a­ções (comér­cio de escra­vos, negros for­ros, casa­men­to, dote, heran­ça, pas­sa­gem da mine­ra­ção para a agri­cul­tu­ra, filhos bas­tar­dos entre senhor e escra­va etc.), a data­ção da nar­ra­ti­va no ano ante­ri­or à inde­pen­dên­cia e, por últi­mo mas não menos impor­tan­te, o fato de come­çar e ter­mi­nar o fil­me com par­tos – o que de algu­ma manei­ra reme­te a outras obras com pre­ten­sões de lei­tu­ra das nos­sas ori­gens, como Ira­ce­ma, de José de Alen­car.

Se essa lei­tu­ra da his­tó­ria é, como todas, con­tin­gen­te, pro­vi­só­ria e insu­fi­ci­en­te, que venham outras. Mate­ri­al não fal­ta. Como escre­veu Tho­mas Mann na aber­tu­ra de seu José e seus irmãos, é mui­to fun­do o poço do pas­sa­do.

No inten­so ago­ra

Outra estreia impor­tan­te da sema­na, em car­taz no IMS Pau­lis­ta e no IMS Rio, é o docu­men­tá­rio No inten­so ago­ra, de João Morei­ra Sal­les, que abor­da momen­tos de espe­ci­al ace­le­ra­ção do tem­po his­tó­ri­co e avi­va­men­to das emo­ções na rela­ção entre o indi­ví­duo e a soci­e­da­de que o cer­ca: a Revo­lu­ção Cul­tu­ral na Chi­na, maio de 1968 na Fran­ça, a Pri­ma­ve­ra de Pra­ga, a luta con­tra a dita­du­ra no Bra­sil. O fil­me, sobre o qual escre­vi no Blog, é todo rea­li­za­do a par­tir de mate­ri­ais de arqui­vo, reor­ga­ni­za­dos e comen­ta­dos pelo dire­tor. Uma obra sin­gu­lar, extre­ma­men­te pes­so­al, de uma rique­za ines­go­tá­vel para quem quer pen­sar o cará­ter a um tem­po obje­ti­vo e sub­je­ti­vo das ima­gens docu­men­tais.

, , , , , , , , , , , , ,