Detalhe de obra do artista Antoni Tàpies

Detalhe de obra do artista Antoni Tàpies

Nós, pessoas em silêncio

Filosofia

17.10.17

Havia um tem­po em que os críti­cos da invasão dos tele­fones celu­lares nas nos­sas vidas recla­mavam, muito jus­ta­mente, do ruí­do exager­a­do das con­ver­sas na mesa ao lado, da invasão de pri­vaci­dade ao con­trário, quan­do erá­mos obri­ga­dos a ouvir con­fis­sões ínti­mas alheias, ou mes­mo da fal­ta de edu­cação de inter­locu­tores que tro­cavam sem a menor cer­imô­nia a con­ver­sa pes­soal por quem esta­va chaman­do no celu­lar (hoje, esse priv­ilé­gio de quem liga já é um sim­u­lacro em aplica­tivos capazes de fal­si­ficar uma chama­da tele­fôni­ca, dan­do ao dono do apar­el­ho um pre­tex­to para se livrar do cha­to à sua frente).

Mas aí vier­am as men­sagens de tex­to, o pri­ma­do do what­sapp sobre o tele­fone e o e-mail , e o falatório exces­si­vo pro­duzi­do pela primeira ger­ação de apar­el­hos celu­lares foi sendo sub­sti­tuí­do por cenas robóti­cas de pes­soas fix­adas nas telas dos seus smart­phones, andan­do como zumbis pelas ruas enquan­to digi­tam, gravam ou ouvem áudios, envi­am ou reen­vi­am arquiv­os, fotos, con­tatos. Escreve-se para não chegar à intim­i­dade da voz, que supõe um tipo de tro­ca mar­ca­da por seus lap­sos, equívo­cos, ruí­dos e inter­rupções. Nada é mais sujeito a desen­tendi­men­tos do que a tro­ca de men­sagens cur­tas por escrito. Fal­ta artic­u­lação tex­tu­al a quem escreve e fal­tam ele­men­tos de inter­pre­tação de tex­to a quem lê. Omitem-se pon­tu­ações, em muitos casos não há fras­es com­ple­tas, só palavras desar­tic­u­ladas, lim­ite final para mui­ta con­fusão.

Há uma ger­ação inteira de jovens que pref­ere o envio de áudios suces­sivos às lon­gas con­ver­sas tele­fôni­cas que mar­caram min­ha ado­lescên­cia, incluin­do o estran­ho debate sobre quem desli­garia o tele­fone primeiro. Há uma ger­ação inteira de jovens cuja tro­ca de tex­tos diários pode sig­nificar relações silen­ciosas, pau­tadas mais por emo­jis do que por palavras, com suas sub­je­tivi­dades agru­padas em hash­tags cuja função é a redução do sujeito a sua expressão mín­i­ma.

O modo de comu­ni­cação das men­sagens cur­tas de tex­to, se não chega a definir quem somos, na práti­ca tem mod­i­fi­ca­do a for­ma de nos rela­cion­ar­mos na vida social, famil­iar, afe­ti­va e profis­sion­al. Gru­pos de tra­bal­ho ou de família em what­sapp podem ser fontes de estresse ou de ale­grias inédi­tas. E não adi­anta, como diz o filó­so­fo Gior­gio Agam­ben em “O que é o dis­pos­i­ti­vo”, acred­i­tar na ideia sim­plista de que bas­ta nos pro­te­germos no uso das fer­ra­men­tas. Hoje, um mil­hão de pes­soas tro­cam por dia 55 bil­hões de men­sagens por what­sappindí­cio de uma dom­inân­cia da fer­ra­men­ta de difí­cil super­ação ape­nas no modo de uso.

É ver­dade que todas essas obser­vações de tom nos­tál­gi­co já foram feitas em relação a out­ros mecan­is­mos que, aos poucos, se tornaram obso­le­tos, o que me leva a pen­sar que a mar­ca do nos­so tem­po con­tem­porâ­neo não é tan­to o envio frenéti­co de men­sagens de tex­to, mas a obso­lescên­cia pre­visív­el dos mecan­is­mos de relações de tro­ca entre as pes­soas. Pos­so encon­trar por aí um cam­in­ho para pen­sar a con­stân­cia dos dis­cur­sos de “fim do mun­do” com o meu sen­ti­men­to de que o mun­do aca­ba cada vez com mais fre­quên­cia. Para isso, pre­ciso tomar um con­ceito especí­fi­co de “mun­do” como um con­jun­to de for­mas de vida con­heci­das e, em algu­ma medi­da, pre­visíveis.

A cada vez que uma nova fron­teira se rompe, que um novo uso do what­sapp se atu­al­iza na vida cotid­i­ana, mais essa com­bi­nação entre nos­tal­gia e fim do mun­do me invade. A nat­u­ral­i­dade da sub­sti­tu­ição de (bons) e vel­hos hábitos causa per­plex­i­dade, mas não ape­nas. Provo­ca prin­ci­pal­mente esse sen­ti­men­to de que todas as bar­reiras con­heci­das são passíveis de ser trans­postas. Nes­sa min­ha sucessão de nos­tal­gias, lem­bro com saudade do tem­po em que o tom de voz da pes­soa ama­da trans­mi­tia algo antes mes­mo que hou­vesse lin­guagem, quan­do um sim­ples “alô” já me dizia quase tudo que era pos­sív­el saber sobre o seu esta­do de espíri­to.  Num livro sobre o tra­bal­ho de luto em relação à per­da de muitos de seus ami­gos, “Chaque fois la fin du monde”, o filó­so­fo Jacques Der­ri­da diz que a morte de cada um deles declar­a­va, a cada vez, o fim do mun­do em sua total­i­dade insub­sti­tuív­el e infini­ta. Per­das cotid­i­anas vão me lem­bran­do da per­da maior, do tem­po que pas­sa, do mun­do que aca­ba um pouco todo dia, da saudade que se trans­for­ma em nos­tal­gia, pro­moven­do em mim e no mun­do um silên­cio que ain­da pode nos matar.

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