Cena do documentário Human Flow, de Ai Weiwei

Cena do documentário Human Flow, de Ai Weiwei

Se oriente, rapaz

No cinema

20.10.17

Vem da Ásia uma das ondas mais for­tes e inte­res­san­tes do oce­a­no de fil­mes que com­põem a 41ª Mos­tra Inter­na­ci­o­nal de Cine­ma de São Pau­lo, ini­ci­a­da dia 19. A come­çar pelo fil­me exi­bi­do na aber­tu­ra do even­to, o docu­men­tá­rio Human flow, do  artis­ta mul­ti­mí­dia chi­nês Ai Weiwei, que aliás está em São Pau­lo como con­vi­da­do espe­ci­al da mos­tra, da qual cri­ou o car­taz.

Para per­ma­ne­cer na metá­fo­ra marí­ti­ma, a ambi­ção tota­li­zan­te do fil­me de Weiwei aca­ba por afo­gá-lo, ou qua­se. Em pou­co mais de duas horas, Human flow ten­ta abar­car o dra­ma dos refu­gi­a­dos nos qua­tro can­tos do glo­bo. Sen­do assim, cai na ten­ta­ção de mis­tu­rar no mes­mo saco situ­a­ções mui­to diver­sas.

O que há em comum entre a mino­ria muçul­ma­na que foge de uma per­se­gui­ção feroz em Mian­mar para o mise­rá­vel Ban­gla­desh e os mexi­ca­nos que bus­cam melho­rar de vida cru­zan­do ile­gal­men­te a fron­tei­ra com os Esta­dos Uni­dos? Ou entre os pales­ti­nos que vivem há déca­das espre­mi­dos na fai­xa de Gaza e os síri­os que, fugin­do da guer­ra em seu país, atra­ves­sam vári­as fron­tei­ras com o intui­to de che­gar à par­te rica da Euro­pa? O que une todas essas situ­a­ções é a ideia abs­tra­ta de migra­ção, de des­lo­ca­men­to, de des­ter­ri­to­ri­a­li­za­ção. Mas são fenô­me­nos com­ple­ta­men­te dis­tin­tos, expe­ri­ên­ci­as huma­nas úni­cas, intrans­fe­rí­veis.

Quan­do apro­xi­ma sua câme­ra e seu afe­to de algu­ma des­sas expe­ri­ên­ci­as, tro­can­do a visão pano­râ­mi­ca pela imer­são, Weiwei faz seu fil­me cres­cer, ganhar subs­tân­cia e con­tun­dên­cia. Ao mos­trar como, nas situ­a­ções mais cruéis, as pes­so­as lavam suas rou­pas, cozi­nham seus ali­men­tos e man­têm seus ritu­ais reli­gi­o­sos, ou como as cri­an­ças não ces­sam de inven­tar suas brin­ca­dei­ras mes­mo entre escom­bros e lixo, Human flow nos apro­xi­ma des­ses seres, agu­ça nos­sa sen­si­bi­li­da­de para a vida que eles levam. Cada uma das situ­a­ções abor­da­das daria um fil­me.

Sobre esse núcleo con­cre­to, porém, o docu­men­tá­rio sobre­põe uma capa de infor­ma­ções, uma ava­lan­che de núme­ros, além de entre­vis­tas com agen­tes huma­ni­tá­ri­os e estu­di­o­sos que aca­bam por ator­do­ar e tal­vez até por anes­te­si­ar o espec­ta­dor. Essa car­ga infor­ma­ti­va fica­ria melhor, por exem­plo, numa série docu­men­tal de TV. No cine­ma, o dra­ma de uma úni­ca pes­soa diz mais do que a infor­ma­ção abs­tra­ta da mor­te de milha­res.

For­mi­guei­ros huma­nos

Mas há ima­gens de fato impres­si­o­nan­tes, como as toma­das aére­as da agi­ta­ção huma­na em cer­tos acam­pa­men­tos, seme­lhan­tes em tudo a for­mi­guei­ros. Ou as cenas de refu­gi­a­dos envol­vi­dos em papel alu­mí­nio dou­ra­do ful­gu­ran­do estra­nha­men­te na noi­te ao se des­lo­car por uma zona de con­fli­to. São tocan­tes tam­bém, e even­tu­al­men­te diver­ti­das, as pas­sa­gens em que o pró­prio Weiwei inte­ra­ge com refu­gi­a­dos. Numa delas, por exem­plo, ele tem seu cabe­lo cor­ta­do por alguém numa cadei­ra de bar­bei­ro ao ar livre, num acam­pa­men­to; em outra, é ele que cor­ta o cabe­lo de alguém.

Para quem qui­ser conhe­cer melhor a tra­je­tó­ria artís­ti­ca e prin­ci­pal­men­te polí­ti­ca de Ai Weiwei, a 41ª Mos­tra pro­gra­mou o docu­men­tá­rio Ai Weiwei: Sem per­dão (2012), de Ali­son Klay­man. É bem con­ven­ci­o­nal, mas bas­tan­te infor­ma­ti­vo, tra­zen­do regis­tros mui­to vívi­dos da cri­a­ção esté­ti­ca e da mili­tân­cia polí­ti­ca des­se artis­ta cons­ci­en­te como pou­cos da for­ça da inter­net e da comu­ni­ca­ção ins­tan­tâ­nea na vida con­tem­po­râ­nea.

Rela­ções des­com­pas­sa­das

Mas a “inva­são asiá­ti­ca” vem tam­bém da Coreia, de Taiwan, do Japão… O core­a­no Hong San-soo, de quem ain­da está em car­taz nos cine­mas o belo Na praia à noi­te sozi­nha, com­pa­re­ce com o ain­da mais belo O dia depois, que mos­tra, num lím­pi­do pre­to e bran­co, as rela­ções des­com­pas­sa­das entre um homem e três mulhe­res: a espo­sa, a aman­te e a recém-con­tra­ta­da fun­ci­o­ná­ria de sua edi­to­ra.

Em pou­cas e enxu­tas cenas (de diá­lo­gos, em sua mai­o­ria), com movi­men­tos sutis de câme­ra, recu­sa do campo/contracampo, uso pre­ci­so do zoom e deli­ca­da dire­ção de ato­res, Sang-soo pega seu pro­ta­go­nis­ta no con­tra­pé, acu­mu­la mal-enten­di­dos, des­ve­la cama­das insus­pei­tas de sen­ti­men­tos, com­põe enfim todo um ensaio audi­o­vi­su­al dra­má­ti­co (e diver­ti­do) sobre o tea­tro de más­ca­ras das rela­ções afe­ti­vas numa gran­de metró­po­le con­tem­po­râ­nea (Seul, no caso). No cine­ma paci­en­te e argu­to do dire­tor core­a­no há mui­to de Ozu, como já foi dito, mas tam­bém, nes­te fil­me espe­cí­fi­co, um tan­to do Eric Roh­mer dos “con­tos morais” e das “comé­di­as e pro­vér­bi­os”.

Rela­ções huma­nas desen­con­tra­das estão tam­bém no cer­ne de Mis­sing Johnny, lon­ga-metra­gem de estreia do taiwa­nês Huang Xi. A metró­po­le, nes­te caso, é Tai­pei, onde se tan­gen­ci­am e aca­bam por se entre­la­çar as tra­je­tó­ri­as de uns pou­cos per­so­na­gens: um faz-tudo desa­jei­ta­do, um ado­les­cen­te com algu­ma for­ma de autis­mo, uma moça que cria pás­sa­ros exó­ti­cos em seu apar­ta­men­to e é sus­ten­ta­da a con­tra­gos­to pelo namo­ra­do. O modo como o fil­me equi­li­bra os capri­chos do aca­so e os dese­jos des­ses per­so­na­gens é mui­to hábil, bem como a reve­la­ção pau­la­ti­na da his­tó­ria pre­gres­sa de cada um.

As pri­mei­ras ima­gens (que eco­a­rão no final) são de uma situ­a­ção afli­ti­va: um car­ro engui­ça no meio de uma ave­ni­da de gran­de trá­fe­go e seu moto­ris­ta, que não con­se­gue fazê-lo pegar de novo, sen­te a pres­são cres­cen­te da cida­de às suas cos­tas, que­ren­do avan­çar. A dia­lé­ti­ca entre movi­men­to e para­li­sia, inclu­si­ve no pla­no pes­so­al, gui­a­rá todo o desen­vol­vi­men­to da nar­ra­ti­va. A ima­gem recor­ren­te de via­du­tos, ele­va­dos e túneis que se entre­cru­zam será tam­bém a tra­du­ção visu­al do per­cur­so dra­má­ti­co dos per­so­na­gens. Não deve ser por aca­so que o estre­an­te Huang Xi é apa­dri­nha­do por Hou Hsi­ao-Hsi­en. O gran­de dire­tor de A assas­si­na O mes­tre das mari­o­ne­tes é pro­du­tor exe­cu­ti­vo de Mis­sing Johnny.

Outro cine­as­ta chi­nês de pri­mei­rís­si­mo time, Jia Zhang­ke, está pre­sen­te na 41ª Mos­tra num seg­men­to do lon­ga cole­ti­vo Em que tem­po vive­mos?, do qual par­ti­ci­pa tam­bém o bra­si­lei­ro Wal­ter Sal­les, cujo epi­só­dio fala do desas­tre eco­ló­gi­co de Mari­a­na.

Há ain­da o cine­ma japo­nês, que vai da doçu­ra de Nao­mi Kawa­se, com Esplen­dor, à vio­lên­cia de Takeshi Kita­no, comOutra­ge Coda. Mas des­tes fala­re­mos nos pró­xi­mos dias.

Dicas e apos­tas

Para quem está em bus­ca de dicas, por enquan­to o que é pos­sí­vel reco­men­dar, além das retros­pec­ti­vas dedi­ca­das a Agnès Var­da, Paul Vec­chi­a­li e Pau­lo José, são alguns bra­si­lei­ros mais ou menos obri­ga­tó­ri­os: A garo­ta do calen­dá­rio, de Hele­na Ignez, obra de um vigor liber­tá­rio inve­já­vel; Gabri­el e a mon­ta­nha, de Fel­li­pe Bar­bo­sa, que ven­ceu o Fes­ti­val do Rio e que já comen­tei aquiArá­bia, de João Dumans e Affon­so Uchoa, ganha­dor do Fes­ti­val de Bra­sí­liaAntes do fim, de Cris­ti­a­no Bur­lan, lin­do fil­me de amor e mor­te; Café com cane­la, de Ary Rosa e Glen­da Nicá­cio; Não devo­re meu cora­ção, de Feli­pe Bra­gan­ça; Vazan­te, de Dani­e­la Tho­mas, que tem gera­do tan­ta con­tro­vér­sia e que cada um deve ver com os pró­pri­os olhos.

Na cate­go­ria “ain­da não vi, mas boto fé”, algu­mas apos­tas a con­fe­rir são: As boas manei­ras, de Mar­co Dutra e Juli­a­na Rojas, Zama, de Lucre­cia Mar­tel; Abai­xo a gra­vi­da­de, de Edgar Navar­ro, e Sau­da­de, de Pau­lo Cal­das.

Mui­ta coi­sa esca­pou e esca­pa­rá, como a água do mar por entre os dedos de quem ten­tar segu­rá-la.

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