O destino de Brasília

Arquitetura

07.12.12

Palácio do Congresso, 1960 (Marcel Gautherot/IMS)

O tex­to a seguir foi reti­ra­do do livro Brasília, de Marcel Gautherot.

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O des­ti­no de Brasília

Constrangia-nos ape­nas veri­fi­car que para os ope­rá­ri­os seria impra­ti­cá­vel man­ter as con­di­ções de vida que o Plano Piloto fixa­ra, situ­an­do-os, como seria jus­to, den­tro das áre­as de habi­ta­ção cole­ti­va, e per­mi­tin­do que ali seus filhos cres­ces­sem fra­ter­nal­men­te com as demais cri­an­ças de Brasília, sem com­ple­xos, aptos às rei­vin­di­ca­ções que o tem­po lhes irá pro­por­ci­o­nar.
Víamos, com pesar, que as con­di­ções soci­ais vigen­tes coli­di­am nes­se pon­to com o espí­ri­to do Plano Piloto, cri­an­do pro­ble­mas impos­sí­veis de resol­ver na pran­che­ta, mes­mo ape­lan­do ? como alguns mais ingê­nu­os suge­rem ? para uma arqui­te­tu­ra soci­al que a nada con­duz sem uma base soci­a­lis­ta. E com­pre­en­día­mos que a úni­ca solu­ção que nos res­ta­va era con­ti­nu­ar apoi­an­do os movi­men­tos pro­gres­sis­tas que visam um mun­do melhor e mais feliz.

Oscar Niemeyer, Módulo, n. 18, 1960

Alvorada

Brasília foi inau­gu­ra­da em um momen­to par­ti­cu­lar­men­te sus­ce­tí­vel no pro­ces­so de moder­ni­za­ção polí­ti­ca e cul­tu­ral do Brasil, em uma déca­da na qual foram apro­va­das leis no intui­to de faci­li­tar a desa­pro­pri­a­ção de ter­ras como um ins­tru­men­to de pla­ne­ja­men­to para fazer fren­te à migra­ção em lar­ga esca­la do cam­po para as cida­des.

À épo­ca, desen­vol­vi­men­tos sig­ni­fi­ca­ti­vos ocor­ri­am na arqui­te­tu­ra e nas artes; o mais impor­tan­te den­tre eles, sem dúvi­da, a emer­gên­cia de uma lin­gua­gem espe­ci-fica­men­te bra­si­lei­ra nes­sas áre­as, com ori­gens em fins da déca­da de 1930, na obra pio­nei­ra de figu­ras como Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Candido Portinari e Roberto Burle Marx. Tomando a obra des­ses artis­tas como seu pon­to de par­ti­da, nos pri­mei­ros anos da déca­da de 1950, Vilanova Artigas dava iní­cio à assim cha­ma­da esco­la pau­lis­ta de arqui­te­tu­ra, envol­ven­do pro­fis­si­o­nais como Paulo Mendes da Rocha, Rino Levi e Lina Bo Bardi. Pela mes­ma épo­ca, o poe­ta Ferreira Gullar publi­ca­va o seu Manifesto neo­con­cre­to (1959), no qual pro­cu­ra­va apro­fun­dar um já fér­til inter­câm­bio entre artis­tas con­cre­tis­tas euro­peus e lati­no-ame­ri­ca­nos. Movimento este que já havia leva­do ao sur­gi­men­to de pro­e­mi­nen­tes artis­tas como Mary Vieira, Lygia Clark e o oni­pre­sen­te Athos Bulcão. Tudo isso coin­ci­dia com um movi­men­to cru­ci­al­men­te pro­gres­sis­ta em uma esca­la glo­bal, quan­do a estra­té­gia neo­co­lo­ni­al da Pax Americana se tor­na­va mais mode­ra­da e quan­do os con­fron­tos da Guerra Fria se pres­ta­vam ? não impor­ta quão inad­ver­ti­da­men­te ? a man­ter um equi­lí­brio entre o Estado do bem-estar soci­al neo­ca­pi­ta­lis­ta do pós-guer­ra e o assim deno­mi­na­do blo­co comu­nis­ta; um momen­to, con­tu­do, em que ajus­tes de mai­or enver­ga­du­ra ain­da esta­vam por se ini­ci­ar, em que as flo­res­tas tro­pi­cais ain­da esta­vam rela­ti­va­men­te intac­tas e a trans­for­ma­ção do cli­ma ain­da não havia alcan­ça­do o seu pon­to crí­ti­co. Que Brasília tenha sido rea­li­za­da na cris­ta de uma onda his­tó­ri­ca tão pro­mis­so­ra é como­ven­te­men­te evo­ca­do pelas foto­gra­fi­as ele­gía­cas do fran­cês Marcel Gautherot, tira­das entre 1956 e 1960, quan­do o núcleo ini­ci­al da nova capi­tal esta­va em cons­tru­ção.

Nascido em 1910, de ori­gem ope­rá­ria, Gautherot estu­dou arqui­te­tu­ra e design de inte­ri­o­res na École des Arts Décoratifs, Paris, antes de se sen­tir incen­ti­va­do em 1936, com a cri­a­ção do Museu do Homem, a docu­men­tar a vida diá­ria daque­las pes-soas comuns que, por todo o mun­do, ain­da esta­vam inte­gra­das a uma eco­no­mia cul­tu­ral­men­te enrai­za­da na era pré-indus­tri­al.

Foi esse impul­so etno­grá­fi­co que pri­mei­ro o trou­xe ao Brasil, em 1939, para docu­men­tar a cul­tu­ra popu­lar do del­ta amazô­ni­co. Seria mui­to no mes­mo espí­ri­to que, duas déca­das mais tar­de, Gautherot abor­da­ria a sua docu­men­ta­ção da Brasília en chan­ti­er. As suas ima­gens da capi­tal em cons­tru­ção no hin­ter­land, em meio a um pla­nal­to par­ca­men­te povo­a­do, res­sur­gem hoje como os stills esque­ci­dos de um fil­me do rea­lis­mo soci­a­lis­ta, com a estru­tu­ra de aço e os 28 anda­res da tor­re dupla do Congresso ele­van­do-se como uma mira­gem por entre os rede­moi­nhos de poei­ra do cer­ra­do aplai­na­do.

Como soci­a­lis­ta con­vic­to que havia ama­du­re­ci­do à épo­ca da Frente Popular fran­ce­sa, pou­co antes do trá­gi­co des­fe­cho da Guerra Civil espa­nho­la, Gautherot pare­ce ter enca­ra­do a rea­li­za­ção de Brasília como uma opor­tu­ni­da­de semi­nal na his­tó­ria do que era, então, o pri­mei­ro Estado mul­tir­ra­ci­al moder­no. Próximo do espí­ri­to de fotó­gra­fos soci­al­men­te enga­ja­dos, como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e Tina Modotti, ele pare­ce ter vis­to aque­le ense­jo como um pon­to de con­ver­gên­cia entre as visões escla­re­ci­das de uma eli­te bra­si­lei­ra e a ener­gia heroi­ca de tra­ba­lha­do­res nôma­des das clas­ses mais des­ti­tuí­das, os deno­mi­na­dos can­dan­gos, que vie­ram para Brasília aos milha­res para eri­gir, em meros três anos, o com­ple­xo gover­na­men­tal e a espla-nada minis­te­ri­al, tra­ba­lhan­do 24 horas inin­ter­rup­tas, dia sim, dia não. Apesar das fati­gan­tes, para não dizer peri­go­sas, con­di­ções de tra­ba­lho, esses “con­de­na­dos da ter­ra” ? para nos valer­mos do títu­lo do conhe­ci­do livro de Frantz Fanon ? pare­cem ter uma noção de que esta­vam par­ti­ci­pan­do de um even­to his­tó­ri­co de trans­for­ma­ção de impor­tân­cia mun­di­al. Tem-se a sen­sa­ção de que, ape­sar das suas vidas árdu­as, eles teri­am endos­sa­do os ver­sos evo­ca­ti­vos do poe­ta Vinicius de Moraes em sua “Sinfonia da alvo­ra­da”, escri­ta em par­ce­ria com o músi­co Tom Jobim para a inau­gu­ra­ção da capi­tal em 1960: “Sim, ele [Niemeyer] plantaria?no deser­to uma cida­de mui­to bran­ca e mui­to pura […] uma cida­de de homens feli­zes”. Ao mes­mo tem­po, é inqui­e­tan­te o fato de que as ima­gens de Gautherot da vida difí­cil des­ses tra­ba­lha-dores, acan­toa-dos em seus alo­ja­men­tos e impro­vi­sa­dos abri­gos tem­po­rá­ri­os, fei­tos de res­tos de cons­tru­ção, não tenham sido publi­ca­das duran­te a pri­mei­ra fase da rea­li­za­ção de Brasília, ao con­trá­rio do regis­tro supos­ta­men­te mais obje­ti­vo fei­to pelo fotó­gra­fo ofi­ci­al Mário Fontenelle.

Seja como for, é tocan­te des­co­brir que a pri­mei­ra resi­dên­cia pre­si­den­ci­al, eri­gi­da em meio a um mata­gal, era tão rudi­men­tar quan­to os bar­ra­cões pro­vi­dos pela Novacap para a aco­mo­da­ção da mão de obra ope­rá­ria. Estou me refe­rin­do ao “palá­cio” Catetinho, com seus dois anda­res e cober­tu­ra de uma água, cons­truí­do intei­ra­men­te de madei­ra em menos de dez dias em 1956, segun­do ris­co de Oscar Niemeyer. Como um equi­va­len­te neces­sa­ri­a­men­te pro­vi­só­rio da tra­di­ci­o­nal resi­dên­cia pre­si­den­ci­al no Rio de Janeiro, esse dimi­nu­to palá­cio dá tes­te­mu­nho, tan­to quan­to qual­quer outra rea­li­za­ção con­jun­ta, da dura­dou­ra e estrei­ta ami­za­de entre Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek. É difí­cil ima­gi­nar algo mais ínti­mo do que aque­la suí­te pre­si­den­ci­al com seus seis dor­mi­tó­ri­os, aos quais se tem aces­so dire­ta­men­te por uma varan­da aber­ta para a mata. A pre­sen­ça de um bar­zi­nho des­pre­ten­si­o­so nes­se bel­ve­de­re nos leva a ima­gi­nar a entou­ra­ge pre­si­den­ci­al che­gan­do num Dakota, ao cair da noi­te, ao cam­po de pou­so pró­xi­mo.

Nenhuma das cida­des-capi­tal con­tem-porâ­ne­as fun­da­das após a Segunda Guerra Mundial pode se igua­lar a Brasília, seja pelo cará­ter monu­men­tal, geo­mân­ti­co, da sua con­cep­ção, quan­to à sub­se­quen­te rapi­dez da sua rea­li­za­ção sis­te-máti­ca. Patentemente influ­en­ci­a­do por Le Corbusier, mas trans­cen­den­do a sua visão da cida­de radi­o­sa, o Plano Piloto de Lucio Costa tomou a remo­ta heran­ça cul­tu­ral do mun­do anti­go como pon­to de par­ti­da ? da gran­di­o­si­da­de axi­al do Egito aos para­dig­mas cos­mogô­ni­cos fun­da­do-res do Império Romano. Daí o car­do e o decu­ma­nus que infor­ma­ram o pri­mei­ro cro­qui de Costa, a tão conhe­ci­da cruz que cons­ti­tui­ria o esque­le­to do seu pla­no, assu­min­do a silhu­e­ta de um gigan­tes­co pás­sa­ro pri­me­vo pou­san­do no local como o sig­no de um des­ti­no cós­mi­co. Enquanto a fron­te tri­an­gu­lar des­se pás­sa­ro míti­co ? o nexo sim­bó­li­co da pra­ça dos Três Poderes ? nun­ca foi rea­li­za­da na sua for­ma tri­an­gu­lar ori­gi­nal, as asas resi­den­ci­ais Norte e Sul des­sa estru­tu­ra foram ple­na­men­te desen­vol­vi­das, em um pri­mei­ro momen­to pelos pré­di­os de apar­ta­men­tos das super­qua­dras ocu­pan­do a asa Sul e, na sequên­cia, por aque­les mais den­sos e vari­a­dos que vie­ram a pre­en­cher a asa Norte.

Superquadra

O con­cei­to de uni­da­de de vizi­nhan­ça, con­for­me encon­tra­mos deli­ne­a­do no estu­do defi­ni­ti­vo de Clarence Perry, The Neighborhood Unit, de 1929, pro­va­vel­men­te nun­ca foi mais habil­men­te arti­cu­la­do e judi­ci­o­sa­men­te apli­ca­do do que nas super­qua­dras de Brasília, con­ce­bi­das por Costa como um exem­plo de assen­ta­men­to habi­ta­ci­o­nal e auto­mo­ti­vo essen­ci­al para o seu pla­no de 1957. Pode-se enten­der o seu padrão de uni­da­de de vizi­nhan­ça ? com­pos­to pelo agru­pa­men­to de qua­tro super­qua­dras, cada uma medin­do 300x300 metros, e cons­ti­tuí­da por pré­di­os habi­ta­ci­o­nais com tér­reo e, em geral, seis anda­res de altu­ra ? como uma vari­a­ção fun­da­men­tal, não somen­te da visão urba­na mais abran­gen­te de Le Corbusier de 1934, como tam­bém da sepa­ra­ção em peque­na esca­la das cir­cu­la­ções de pedes­tres e de veí­cu­los que carac­te­ri­za o empi­ris­mo de Radburn, Nova Jersey, o mode­lo canô­ni­co de uni­da­de de vizi­nhan­ça pra­ti­ca­men­te da mes­ma data. A geni­a­li­da­de des­sa sín­te­se tipo­ló­gi­ca deri­va, com cer­te­za, tan­to da sua den­si­da­de rela­ti­va­men­te bai­xa como da mis­tu­ra de car­ros e pedes­tres entran­do e sain­do livre­men­te dos limi­tes de cada super­qua­dra. Inspirado pelo slo­gan futu­rís­ti­co de Le Corbusier, para quem “uma cida­de fei­ta para a velo­ci­da­de é uma cida­de fei­ta para o suces­so”, Costa con­ce­beu essas super­qua­dras como encla­ves ver­des ali­men­ta­dos pelo movi­men­to con­tro­la­do de auto­mó­veis, cir­cu­lan­do qua­se sem­pre em decli­ve.  O perí­me­tro nor­ma­ti­vo de cada super­qua­dra é defi­ni­do não por edi­fí­ci­os, mas por um cin­tu­rão de árvo­res. As qua­dras são alo­ca­das em pares, por assim dizer, e flan­que­a­das por fai­xas alter­na­das de comér­cio e de ser­vi­ços comu­ni­tá­ri­os; essas fai­xas são igual­men­te aces­sí­veis a pé das qua­dras adja­cen­tes. Uma esco­la pri­má­ria foi pre­vis­ta para cada con­jun­to de qua­tro super­qua­dras, enquan­to cada uma delas deve­ria rece­ber um jar­dim de infân­cia. Costa man­te­ve-se aber­to para vari­a­ções des­se padrão de vizi­nhan­ça em qua­tro qua­dras quan­to ao uso dado às fai­xas de ser­vi­ços comu­ni­tá­ri­os. Típico dis­so é o amplo inters­tí­cio entre as super­qua­dras Sul 106 e 107, aco­mo­dan­do cam­pos de espor­te e um cine­ma de dimen­sões res­pei­tá­veis, enquan­to em outros encon­tra­mos esco­las pri­má­ri­as, igre­jas, clu­bes e peque­nos con­jun­tos comer­ci­ais.

De igual impor­tân­cia em ter­mos de vari­a­ção de uma super­qua­dra para outra é a dis­po­si­ção dife­ren­te das suas lâmi­nas resi­den­ci­ais, asso­ci­a­da a mais per­mu­ta­ções em ter­mos de arqui­te­tu­ra, tipos de apar­ta­men­tos e modos de aces­so a cada pré­dio. Assim, enquan­to a super­qua­dra Sul 308 ? local­men­te conhe­ci­da por SQS 308 ? con­ta com nove pré­di­os dis­pos­tos orto­go­nal­men­te entre si em uma for­ma­ção vaga­men­te em espi­ral, em meio ao pai­sa­gis­mo de Roberto Burle Marx, a super­qua­dra adja­cen­te, a SQS 108, com­pre­en­de 11 pré­di­os, seis deles implan­ta­dos aos pares, nos con­fins do cin­tu­rão ver­de que deli­mi­ta a qua­dra. As SQS 107 e 108, ambas pro­je­ta­das por Niemeyer, empre­gam um tipo simi­lar de lâmi­na, cujo aces­so ver­ti­cal é fei­to por uma tor­re des­ta­ca­da de esca­das e ele­va­do­res, ser­vin­do estrei­tos cor­re­do­res exter­nos, os quais são pro­te­gi­dos da expo­si­ção ao sol por del­ga­dos para­men­tos fei­tos de ele­men­tos vaza­dos de con­cre­to pré-fabri­ca­dos. Tal recur­so pare­ce ter sido toma­do de emprés­ti­mo dire­ta­men­te dos pré­di­os de apar­ta­men­tos do magis­tral par­que Guinle (1948), de Lucio Costa, no Rio de Janeiro, ain­da que o cará­ter intrín­se­co difi­cil­men­te tenha alcan­ça­do o mes­mo nível de reso­lu­ção.

O suces­so da super­qua­dra cer­ta­men­te deri­va, em par­te, do fato de que todos os blo­cos resi­den­ci­ais são ele­va­dos sobre pilo­tis, o que ao mes­mo tem­po arti­cu­la rit­mi­ca­men­te o espa­ço e per­mi­te uma per­mea-bili­da­de físi­ca e visu­al sob os pré­di­os por toda a exten­são dos 300 metros qua­dra­dos. Essa é uma carac­te­rís­ti­ca des­sa for­ma-tipo na qual ? como no Pavilhão Suíço de Le Corbusier, de 1932 ? todas as lâmi­nas são cons­truí­das em pla­ta­for­mas sobre as quais os pilo­tis res­pon­dem pela sua sus­ten­ta­ção. Alguns des­ses pódi­os ser­vem, simul­ta­ne­a­men­te, de laje de cober­tu­ra para gara­gens em sub­so­lo; mais ain­da, eles inva­ri­a­vel­men­te ser­vem como gene­ro­sos por­tais de aces­so ao pré­dio. Hoje, em alguns exem­plos, tais pla­ta­for­mas foram reves­ti­das em gra­ni­to poli­do, dan­do uma aura ao con­jun­to que é ines­ca­pa­vel­men­te bur­gue­sa. Contudo, em últi­ma aná­li­se, a tran­qui­li­da­de e a iden­ti­da­de do mode­lo ema­na exten­si­va­men­te da limi­ta­ção de altu­ras, que se esten­dem aci­ma do pilo­ti por não mais do que seis anda­res. Difícil não espe­cu­lar sobre como Costa che­gou a esse cri­té­rio. Será tão somen­te coin­ci­dên­cia que os arqui­te­tos bri­tâ­ni­cos Alison e Peter Smithson tenham che­ga­do a uma con­clu­são seme­lhan­te ao pro­je­tar seu con­jun­to resi­den­ci­al Golden Lane em 1952, qual seja, que “aci­ma do sex­to andar per­de-se o con­ta­to com o chão”? Uma das nuan­ces mais dig­nas de nota no padrão ado­ta­do
em Brasília é a redu­ção da altu­ra das edi­fi­ca­ções na sequên­cia de super­qua­dras loca­li­za­da na extre­mi­da­de les­te das asas, onde os blo­cos habi­ta­ci­o­nais têm inva­ri­a­vel­men­te dois ou três anda­res de altu­ra, em vez de seis, e os encla­ves ver­des têm plan­ta retan­gu­lar, em vez de qua­dra­da. Tal sequên-cia não esta­va pre­vis­ta no pla­no ori­gi­nal e foi acres­cen­ta­da, com outra sequên­cia de casas econô­mi­cas na extre­mi­da­de oes­te das asas, de modo a con­tem­plar os níveis de ren­da dos ope­rá­ri­os que cons­truí­ram a cida­de. Uma outra modi­fi­ca­ção foi um aumen­to no núme­ro de anda­res, de um para três, nos edi­fí­ci­os das fai­xas comer­ci­ais da asa Norte, de modo a pro­ver, além das con­ve­ni­ên­ci­as coti­di­a­nas, uni­da­des resi­den­ci­ais mais bara­tas.

Essa últi­ma pro­vi­são mos­trou-se algo ina­de­qua­da, como é suge­ri­do pelo desen­vol­vi­men­to assi­mé­tri­co de Brasília ao lon­go de meio sécu­lo, levan­do a um padrão dis­tor­ci­do de ocu­pa­ção do solo em rela­ção à sime­tria do pla­no ori­gi­nal. Parte des­se cres­ci­men­to urba­no des­lo­ca­do se deve ao fato de que a asa Sul foi desen­vol­vi­da de um modo mais con­sis­ten­te do que aque­le apli­ca­do na ocu­pa­ção da asa Norte. Esse viés em dire­ção ao sul, seguin­do o ímpe­to da rodo­via ligan­do Brasília e o Rio de Janeiro, efe­ti­va­men­te levou ao sur­gi­men­to de cida­des-saté­li­tes, que hoje, com efei­to, aco­mo­dam a mai­or par­te da popu­la­ção, abri­gan­do cer­ca de 90% do total de qua­se 3 milhões de pes­so­as moran­do e tra­ba­lhan­do na região. A esse res­pei­to, é sig­ni­fi­ca­ti­vo que o úni­co sis­te­ma de trans­por­te públi­co sobre tri­lhos ope­ran­do até hoje em Brasília seja a linha de metrô ligan­do a esta­ção rodo­viá­ria, no cen­tro do Eixo Monumental, à cadeia de cida­des-saté­li­tes que vão em dire­ção ao sul: Guará, Águas Claras, Taguatinga, Ceilândia e Samambaia.  A pre­sen­ça des­sa liga­ção por metrô ten­de a enfa­ti­zar a rela­ti­va escas­sez de trans­por­te públi­co na cida­de como um todo, ape­sar da pro­li­fe­ra­ção de linhas de ôni­bus intraur­ba­nas. Dado o cate­gó­ri­co raci­o­na­lis­mo do eixo rodo­viá­rio, é de se per­gun­tar por que não há fai­xas exclu­si­vas para ôni­bus, como aque­las encon­tra­das em Curitiba. Nota-se tam­bém que, até o momen­to, pare­ce não haver pla­nos para a cons­tru­ção de cone­xões por trens de alta velo­ci­da­de entre Brasília e algu­mas das capi­tais esta­du­ais mais pró­xi­mas, como Goiânia e Belo Horizonte.

Axis mun­di

É evi­den­te que sem os inci­si­vos eixos do Plano Piloto de Costa, Brasília sim­ples­men­te não exis­ti­ria como capi­tal moder­na. Seria ape­nas mais uma mega­ló­po­le motou­tó­pi­ca do moder­nis­mo tar­dio, expan­din­do-se con­ti­nu­a­men­te em meio ao nada. Entre outras coi­sas, Lucio Costa foi pres­ci­en­te o bas­tan­te para con­ce­ber a sua infra­es­tru­tu­ra viá­ria como um sis­te­ma de estra­das-par­que em dife­ren­tes níveis, seguin­do o exem­plo ? porém total­men­te o trans­cen­den­do ? dos famo­sos parkways cons­truí­dos por Robert Moses no entor­no de Nova York, duran­te a déca­da de 1930. Independentemente de qual se con­si­de­re ? o eixo nor­te-sul de super­qua­dras ou a colu­na dor­sal monu­men­tal les­te-oes­te, que tem foco no Congresso e na Esplanada dos Ministérios ?, não res­tam dúvi­das de que Brasília per­ma­ne­ce, até hoje, uma das cida­des mais efi­ci­en­tes den­tre aque­las pen­sa­das como gre­enways auto­mo­ti­vos cons­truí­das por toda par­te no mun­do. Essa ampla capa­ci­da­de par­ci­al­men­te expli­ca o cará­ter estra­nha­men­te vazio des­sa estra­da-par­que monu­men­tal de qua­se um quilô­me­tro de lar­gu­ra, que se enten­de por mais de 12 quilô­me­tros de com­pri­men­to e se espraia para além de seu per­cur­so por suces­si­vos estra­tos de pré­di­os de escri­tó­ri­os de altu­ra medi­a­na, conec­ta­dos aos pré­di­os minis­te­ri­ais por túneis e pas­sa­re­las de ambos os lados da espla­na­da.

Tais ane­xos buro­crá­ti­cos exem­pli­fi­cam aque­la nême­sis do urba­nis­mo moder­no, qual seja, que “o espa­ço de mani­fes­ta­ção públi­ca”, no sen­ti­do tra­di­ci­o­nal da expres­são, ten­de hoje a ocor­rer prin­ci­pal­men­te no inte­ri­or da for­ma cons­truí­da e não no espa­ço públi­co osten­si­vo da pró­pria cida­de. Mais ain­da, hoje, dada a nos­sa cres­cen­te ânsia para­noi­ca por segu­ran­ça, isso lamen­ta­vel­men­te é o caso até da pla­ta­for­ma ele­va­da que sus­ten­ta a cuia da Câmara dos Deputados e o domo do Senado. Assim, ape­sar de seu osten­si­vo cará­ter públi­co, essa ágo­ra mini­ma­lis­ta e meta­fí­si­ca em ple­no cora­ção da cida­de não está mais aces­sí­vel ao públi­co. Talvez em nenhum lugar a aura des­sa res publi­ca, tão evo­ca­do­ra de De Chirico, tenha sido mais bem repre­sen­ta­da que nas foto­gra­fi­as de Gautherot, tira­das por vol­ta de 1960, nas quais uma vari­e­da­de de pes­so­as é retra­ta­da como per­so­na­gens está­ti­cas de um fil­me de Antonioni.

Dificilmente pode­ria haver mai­or con­tras­te entre o pré­dio do Congresso e o do Ministério das Relações Exteriores, o cha­ma­do palá­cio do Itamaraty, loca­li­za­do em um dos lados do eixo prin­ci­pal. Ele é, de fato, o espa­ço públi­co mais repre­sen­ta­ti­vo no todo do com­ple­xo cívi­co, em mui­to supe­ran­do ? em ter­mos de sim­bo­li­zar o pres­tí­gio da nação ? a pro­me­na­de archi­tec­tu­ra­le tor­tu­o­sa e des­cui­da­da­men­te equi­pa­da que pres­sa­gia as duas câma­ras do par­la­men­to. No Itamaraty, tudo deri­va da sin­ta­xe mini­ma­lis­ta da ima­gi­na­ção tea­tral de Niemeyer. De ime­di­a­to, o andar tér­reo já se afir­ma como uma obra de arte total, uma vez que o seu vão livre de 30 metros entre uma pare­de e outra tem por foco três obras de arte fei­tas sob medi­da ? a escul­tu­ra em alu­mí­nio de Mary Vieira,
o jar­dim de Burle Marx, a tre­li­ça de Athos Bulcão ?, para não men­ci­o­nar a esca­da em espi­ral de Niemeyer, com seus degraus de con­cre­to em balan­ço, a qual sal­ta como uma for­ma livre para o meza­ni­no aci­ma. Este outro andar é real­ça­do por mais uma esca­da, igual­men­te tea­tral, pela qual se tem aces­so a uma das mais espe­ta­cu­la­res vis­tas do eixo cen­tral. Nele, como na mai­o­ria das melho­res cri­a­ções de Niemeyer, o tema é enfren­ta­do valen­do-se de obras de arte monu­men­tais da mais alta qua­li­da­de, como os dois avan­ta­ja­dos qua­dros de Portinari ou a imen­sa tape­ça­ria de Roberto Burle Marx, que cobre toda uma pare­de. Aqui, um jar­dim tro­pi­cal, o mobi­liá­rio anti­go e uma série de vinhe­tas his­tó­ri­cas con­fron­tam o visi­tan­te com os tra­ços da tra­je­tó­ria his­tó­ri­ca do Brasil.

A exau­ri­da manei­ra cari­o­ca atu­al de Niemeyer ? ou seja, a sua ver­são da Nova Monumentalidade (ver “Nine Points on Monumentality”, de Sigfried Giedion, 1943) ? ori­gi­na-se na sua pre­o­cu­pa­ção com a ima­gem de um palaz­zo não tectô­ni­co levi­tan­do aci­ma do solo. Encontramos tal ima­gem rei­te­ra­da­men­te do palá­cio da Alvorada em dian­te, ape­sar da for­ma mais subs­tan­ci­al em arca­das do palá­cio Itamaraty, mas cuja base tam­bém pode ser vis­ta como igual­men­te não tectô­ni­ca, já que suas fun­da­ções estão imer­sas em um espe­lho d’água. Talvez haja uma cor­res­pon­dên­cia aqui, não impor­ta quão incons­ci­en­te ela pos­sa ser, entre o apa­ren­te vazio des­ses ges­tos for­mais e o cará­ter rela­ti­va­men­te pou­co desen­vol­vi­do das ins­ti­tui­ções que eles repre­sen­tam.

Para além da cabe­cei­ra do eixo monu­men­tal, o espí­ri­to do ser­tão vol­ta a se afir­mar na vas­ti­dão rela­ti­va­men­te difu­sa que se des­do­bra por todos os lados da pra­ça dos Três Poderes até o pano­râ­mi­co lago. Tem-se a impres­são de que, ape­sar de Costa ter aca­ta­do o con­se­lho de sir William Holford de tra­zer a proa do eixo para mais per­to do lago, nun­ca foi pos­sí­vel apro­xi­má-la o sufi­ci­en­te. A con­sequên­cia topo­grá­fi­ca é tal que se tem a sen­sa­ção de que não have­ria nada para além do eixo não fos­se pelo palá­cio da Alvorada ? o qual, por sua vez, rela­cio-na-se de modo um tan­to hesi­tan­te com o lago ?, com a pro­li­fe­ra­ção algo ale­a­tó­ria das embai­xa-das e o mal-defi­ni­do pla­no do cam­pus da Universidade de Brasília, que pare­ce ter sido inad­ver­ti­da­men­te blo­que­a­do pela bar­rei­ra efe­ti­va do lon­go e intros­pec­ti­vo edi­fí­cio-gale­ria de Niemeyer, com seus qua­se 800 metros de com­pri­men­to; um gol­pe bri­lhan­te e ante­ci­pa­tó­rio, que, entre­tan­to, impe­diu até ago­ra a cons­ti­tui­ção de um cam­pus mais inters­ti­ci­al e sem res­tri­ções. Por sua vez, as embai­xa­das, que, como era de se espe­rar, vari­am mui­tís­si­mo em ter­mos de sua pre­sen­ça repre­sen­ta­ti­va e qua­li­da­de arqui­tetô­ni­ca, são mal-rela­ci­o­na­das entre si e pare­ce haver pou­ca pos­si­bi­li­da­de de vir a sur­gir um bair­ro diplo­má­ti­co urba­no. O sem­pre flo­res­cen­te cer­ra­do está por toda par­te nes­sa penín­su­la e aqui, como em outros locais, Brasília se res­sen­te de um exces­so de espa­ço entre um edi­fí­cio e o pró­xi­mo, de tal modo que ? ape­sar da ima­gem monu­men­tal pro­mis­so­ra de uma nova civi­li­za­ção ?, até ago­ra, nela ain­da não se mate­ri­a­li­zou um espa­ço públi­co gené­ri­co, carac­te­ri­za­do por uma ver­da­dei­ra esca­la huma­na e um cen­tro ins­ti­tu­ci­o­nal cor­res­pon­den­te­men­te rico. Pode-se dizer que, não obs­tan­te todo o seu sta­tus heroi­co como uma capi­tal naci­o­nal, Brasília per­ma­ne­ce o pro­je­to moder­no ina­ca­ba­do par excel­len­ce, sus­pen­sa entre a apa­ren­te­men­te não pla­ne­ja­da, e pós-moder­na, eco­no­mia do lais­sez-fai­re de suas cida­des-saté­li­tes e a visão moder­nis­ta e pla­ne­ja­da, con­tu­do ain­da dis­tan­te de ter sido con­su­ma­da, de um modo de vida intei­ra­men­te novo.

Tradução de Sylvia Ficher

Veja tam­bém:

Texto de Ana Luiza Nobre sobre a car­rei­ra do arqui­te­to

Debate sobre a obra de Oscar Niemeyer rea­li­za­do pelos crí­ti­cos Guilherme Wisnik e Pedro Fiori Arantes para a seção Desentendimento, da revis­ta ser­ro­te

Ensaio de Adrián Gorelik inti­tu­la­do “Sobre a impos­si­bi­li­da­de de (pen­sar) Brasília”

Fotos de Marcel Gautherot das obras de Niemeyer

Cidade-ban­dei­ra, tex­to de Heloisa Espada sobre as dife­ren­tes visões acer­ca de Brasília

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