Os índios na fotografia brasileira

Por dentro do acervo

26.11.13
Henri Ballot (c. 1953). "Xingu" (Parque Indígena do Xingu, MT). Acervo IMS.

Henri Ballot: Xingu (c.1953). Parque Indígena do Xingu, MT (Acervo IMS)

 

Leonardo Wen, 32, foi fotó­gra­fo da Folha de S. Paulo entre 2006 e 2010, e tra­ba­lhou para outras publi­ca­ções e agên­ci­as. Lançou dois livros sobre sua cida­de natal: MetaBrasília (2008) e Apto — A mora­dia moder­na de Brasília (2011). Agora, está lan­çan­do um site: povosindigenas.com.

 

A pági­na é resul­ta­do de uma pes­qui­sa con­tem­pla­da com o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte: “Iconografia foto­grá­fi­ca dos povos indí­ge­nas do Brasil”. O que já está no ar é uma par­te do que Wen levan­tou, com ima­gens des­de a pri­mei­ra meta­de do sécu­lo XIX. Há outros con­jun­tos que esta­rão em bre­ve no ar, e ele pro­me­te con­ti­nu­ar o mape­a­men­to.

 

Um dos acer­vos em que se debru­çou foi o do Instituto Moreira Salles, como mos­tram três das fotos pre­sen­tes nes­ta pági­na, fei­tas por José Medeiros, Henri Ballot e Maureen Bisilliat. Outras estão no site, inclu­si­ve de Marc Ferrez.

 

Wen expli­ca nes­ta entre­vis­ta sua pes­qui­sa, con­ta quais são os obje­ti­vos dela e cita as des­co­ber­tas que con­si­de­ra mais pre­ci­o­sas no tra­ba­lho.

 

 

 

 

Walter Garbe: Índios botocudos (13/7/1909). Cachoeiro de Sta. Leopoldina, ES (Acervo BN)

Walter Garbe: Índios Botocudos (13/7/1909). Cachoeiro de Sta. Leopoldina, ES (Acervo BN)

 

 

Por que o inte­res­se pelo tema e há quan­to tem­po você vem pes­qui­san­do?

Quando eu ain­da mora­va em Brasília, minha cida­de natal, eu che­guei a cur­sar meta­de do cur­so de gra­du­a­ção de ciên­ci­as soci­ais, como foco em antro­po­lo­gia, na Universidade de Brasília. Entretanto, depois de dois anos deci­di me mudar para São Paulo, para estu­dar foto­gra­fia em tem­po inte­gral. Ainda assim con­ti­nu­ei liga­do à antro­po­lo­gia: fiz algu­mas dis­ci­pli­nas como alu­no ouvin­te na USP, esta­gi­ei no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da mes­ma uni­ver­si­da­de, e obti­ve uma bol­sa de estu­dos do Senac para pes­qui­sar sobre a obra de Pierre Verger.

 

Ainda que eu nun­ca tives­se me apro­fun­da­do na ques­tão indí­ge­na, sem­pre tive uma gran­de curi­o­si­da­de pelo assun­to, ain­da mais no que se rela­ci­o­na à sua repre­sen­ta­ção visu­al. Por isso deci­di apre­sen­tar esse pro­je­to de pes­qui­sa para o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte, para desen­vol­ver esse estu­do, que final­men­te come­çou a ser rea­li­za­do em janei­ro des­te ano.

Quais foram as mai­o­res difi­cul­da­des para se fazer o mape­a­men­to?

Certamente, a mai­or difi­cul­da­de foi con­se­guir lidar com a buro­cra­cia de algu­mas ins­ti­tui­ções arqui­vís­ti­cas para a dis­po­ni­bi­li­za­ção das ima­gens. Alguns acer­vos públi­cos, que guar­dam foto­gra­fi­as do sécu­lo XIX, demo­ra­ram até seis meses para auto­ri­zar a libe­ra­ção, o que é total­men­te injus­ti­fi­ca­do em se tra­tan­do de ima­gens que já esta­vam digi­ta­li­za­das e que, além dis­so, estão em domí­nio públi­co. Em outros casos, o alto valor cobra­do pela ces­são, mes­mo sen­do para um pro­je­to de pes­qui­sa como esse, que não pos­sui fins comer­ci­ais, invi­a­bi­li­zou a inclu­são de algu­mas ima­gens na for­ma em que eu gos­ta­ria. No outro extre­mo, o Instituto Moreira Salles foi um exem­plo de efi­ci­ên­cia. Sua equi­pe logo se pron­ti­fi­cou a aju­dar na pes­qui­sa e a libe­ra­ção das ima­gens foi qua­se ime­di­a­ta.

 

 

Claudia Andujar: Yanomami (c.1971-1977). Amazonas (Acervo do autor)

Claudia Andujar: Yanomami (c.1971–1977). Amazonas (Acervo do autor)

Quais as des­co­ber­tas mais pre­ci­o­sas?

Antes de come­çar essa pes­qui­sa, eu mes­mo não conhe­cia a fun­do a ico­no­gra­fia dos povos indí­ge­nas. É um recor­te temá­ti­co na his­tó­ria da foto­gra­fia bra­si­lei­ra mui­to pou­co estu­da­do, com pouquís­si­mas refe­rên­ci­as bibli­o­grá­fi­cas dis­po­ní­veis. Eu tinha cer­ta fami­li­a­ri­da­de com a obra dos fotó­gra­fos mais con­tem­po­râ­ne­os, mas não conhe­cia os auto­res do sécu­lo XIX e do come­ço do XX.

 

Em rela­ção aos auto­res menos conhe­ci­dos, vale a pena des­ta­car as obras de Mario Baldi e Jesco von Puttkamer, que pos­su­em um acer­vo imen­so que care­ce de pes­qui­sa e divul­ga­ção. Podemos tam­bém des­ta­car Vherá Poty, que, jun­ta­men­te com Danilo Christidis, rea­li­zou um dos pou­cos tra­ba­lhos foto­grá­fi­cos fei­tos por um indí­ge­na de que se tem notí­cia.

E. Thiesson: Botocudo (1844). Daguerreótipo (Acervo Musée du Quai Branly)

E. Thiesson: Botocudo (1844). Daguerreótipo (Acervo Musée du Quai Branly)

Que fotó­gra­fos você des­ta­ca mais nes­se mape­a­men­to?

As pri­mei­ras ima­gens de índi­os bra­si­lei­ros de que se tem notí­cia foram fei­tas pelo fran­cês E.Thiesson, em 1844, pou­cos anos após Louis Daguerre con­se­guir a paten­te pela “des­co­ber­ta” da foto­gra­fia. São cin­co ima­gens que valem pelo ine­di­tis­mo. Ao lon­go do sécu­lo XIX, as foto­gra­fi­as se repe­tem em ter­mos de lin­gua­gem, já que estão atre­la­das à men­ta­li­da­de posi­ti­vis­ta e euro­cên­tri­ca da épo­ca. São, em geral, ima­gens que exal­tam a ima­gem de um índio ora român­ti­co e dócil, ora sel­va­gem e exó­ti­co, mui­tas delas rea­li­za­das em estú­di­os foto­grá­fi­cos. As ima­gens de Walter Garbe fogem um pou­co des­se per­fil, ao mos­trar índi­os em seu habi­tat natu­ral rea­li­zan­do ati­vi­da­des do coti­di­a­no, mas em poses cla­ra­men­te ence­na­das.

 

Na pri­mei­ra meta­de do sécu­lo XX, temos a Comissão Rondon e os fotó­gra­fos da revis­ta O Cruzeiro, como Jean Manzon, José Medeiros e Henri Ballot, que difun­di­am a ima­gem de um índio natu­ral­men­te sel­va­gem, mas pas­sí­vel de ser civi­li­za­do e inte­gra­do à soci­e­da­de bra­si­lei­ra.

 

A par­tir dos anos 1970, temos um gran­de núme­ro de auto­res que se fir­ma­ram no cená­rio foto­grá­fi­co naci­o­nal como foto­jor­na­lis­tas, e que logo come­ça­ram a desen­vol­ver pro­je­tos de docu­men­ta­ção mais ela­bo­ra­dos, como, por exem­plo, Maureen Bisilliat, Marcos Santilli, Nair Benedicto, Rosa Gauditano e Rogério Assis. O caso mais emble­má­ti­co de todos é o da Claudia Andujar, que, além de revo­lu­ci­o­nar essa ico­no­gra­fia em ter­mos visu­ais, envol­veu-se pes­so­al­men­te com a cau­sa indí­ge­na, espe­ci­al­men­te no que se refe­re à luta pelas ter­ras e pelos direi­tos dos Yanomami.

 

 

José Medeiros: Índios Calapalo (1949). Mato Grosso (Acervo IMS)

José Medeiros: Índios Calapalo (1949). Mato Grosso (Acervo IMS)

O que você encon­trou no acer­vo do IMS?

O IMS pos­sui em seu acer­vo mui­tas ima­gens de índi­os do sécu­lo XIX, pro­du­zi­das por auto­res como Albert Frisch, Marc Ferrez, Felipe Augusto Fidanza e Hermann Meyer. O mais impor­tan­te, entre­tan­to, são as obras de José Medeiros e Henri Ballot, que tra­ba­lha­ram jun­tos na revis­ta O Cruzeiro, e as foto­gra­fi­as pro­du­zi­das por Maureen Bisilliat sobre o Parque Indígena do Xingu.

 

 

Mario Baldi: Índio Karajá (1938). (Acervo Weltmuseum Wien)

Mario Baldi: Índio Karajá (1938). (Acervo Weltmuseum Wien)

Quais são os pró­xi­mos pas­sos quan­to à atu­a­li­za­ção do site e a outras idei­as liga­das ao pro­je­to?

Em fun­ção do cur­to perío­do de tem­po para a exe­cu­ção des­se pro­je­to e da gran­de quan­ti­da­de de fotó­gra­fos que já tra­ba­lha­ram com a ques­tão indí­ge­na, alguns auto­res fica­ram de fora no pri­mei­ro momen­to. Alguns nomes serão incor­po­ra­dos nas pró­xi­mas sema­nas, como Luiz de Castro Faria e Sylvia Caiuby Novaes (antro­pó­lo­gos); Harald Schulz e Heinz Förthmann (fotó­gra­fos que tra­ba­lha­ram no Serviço de Proteção aos Índios), e Vherá Poty e Danilo Christidis (uma dupla for­ma­da por um gaú­cho e um índio gua­ra­ni que estão pro­du­zin­do um livro sobre os Guarani Mbyá).

 

Mas deve-se fri­sar que a inten­ção do estu­do não é incluir rigo­ro­sa­men­te todos os auto­res que já tra­ba­lha­ram com a ques­tão indí­ge­na. Tampouco se tra­ta de um estu­do ana­lí­ti­co exaus­ti­vo. O obje­ti­vo é apre­sen­tar para o públi­co em geral um pano­ra­ma sobre a repre­sen­ta­ção do índio na foto­gra­fia bra­si­lei­ra. Por outro lado, espe­ra-se que o con­teú­do dis­po­ni­bi­li­za­do tam­bém sir­va como fon­te de infor­ma­ção para o públi­co mais espe­ci­a­li­za­do — fotó­gra­fos, pes­qui­sa­do­res, his­to­ri­a­do­res, antro­pó­lo­gos e às pró­pri­as comu­ni­da­des indí­ge­nas. Em suma, todos aque­les que dese­jem tomar esse estu­do como um pon­to de par­ti­da para pes­qui­sas mais apro­fun­da­das.

Além de fazer o mape­a­men­to, você tam­bém foto­gra­fou para o pro­je­to?

Não. Esse pro­je­to ganhou o XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia na cate­go­ria de pro­du­ção crí­ti­ca, e não envol­via uma pro­du­ção foto­grá­fi­ca iné­di­ta.

 

 

Maureen Bisilliat: Cenas do dia-a-dia (c.1975). Parque Indígena do Xingu, MT (Acervo IMS)

Maureen Bisilliat: Cenas do dia-a-dia (c.1975). Parque Indígena do Xingu, MT (Acervo IMS)

* Luiz Fernando Vianna é coor­de­na­dor de inter­net do IMS.

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