1932: Uma página de diário

Literatura

26.06.12

Não terá sido ape­nas pela reco­nhe­ci­da devo­ção a Os ser­tões que o jor­na­lis­ta Olimpio de Souza Andrade se ocu­pou da trans­cri­ção inte­gral, ano­ta­da, da cader­ne­ta em que Euclides da Cunha regis­trou o coti­di­a­no dos 18 dias em que este­ve à fren­te da bata­lha de Canudos.

Sob o títu­lo Caderneta de cam­po, o livro, con­si­de­ra­do a gêne­se de Os ser­tões, mere­ceu copi­o­sas notas de Souza Andrade, o orga­ni­za­dor. Ao publi­cá-lo, em 1975, ele envi­ou um exem­plar a Carlos Drummond de Andrade, que, em car­ta de agra­de­ci­men­to, não pou­pou elo­gi­os: “Essa Caderneta, então, põe a gen­te emo­ci­o­na­da, e a emo­ção é dupla: revi­ve-se o dia a dia do escritor/repórter e sen­te-se a amo­ro­sa vigí­lia do seu devo­to estu­di­o­so a deci­frar no micro­fil­me, sem pres­sa e sem pau­sa, a miú­da cali­gra­fia dos apon­ta­men­tos ori­gi­nais”.

Muitos anos antes de se dedi­car aos estu­dos eucli­di­a­nos, Olimpio de Souza Andrade, nas­ci­do na fazen­da Fartura, em São José do Rio Pardo (SP), no ano de 1914, já demons­tra­ra inte­res­se por diá­rio. Ele mes­mo escre­ve­ra o seu,  feliz­men­te em letra não tão miú­da quan­to a de Euclides, em sete cader­nos esco­la­res, sob o títu­lo “Uma pra­ça de guer­ra”.

A capa do cader­no.

Esse mate­ri­al, soma­do à abun­dan­te docu­men­ta­ção rela­ti­va à obra eucli­di­a­na e a outros itens, como as car­tas de Drummond, inte­gra o acer­vo de Olimpio, sob a guar­da do Instituto Moreira Salles des­de 2007.

Curiosamente, como se lê no títu­lo, o diá­rio do estu­dan­te repor­ta­va-se tam­bém a uma revo­lu­ção. Aos 18 anos de ida­de, mora­dor da cida­de­zi­nha pau­lis­ta de Casa Branca, Olimpio ano­tou o que viven­ci­ou duran­te o con­fli­to que entra­ria para a his­tó­ria como a Guerra Paulista ou Revolução Constitucionalista de 1932.

No perío­do de 9 de julho a 4 de outu­bro daque­le ano, perío­do de dura­ção da guer­ra, Souza Andrade regis­trou a movi­men­ta­ção no povo­a­do que  seu bisavô, o coro­nel Antonio Marçal Nogueira de Barros, reu­ni­ra a outros,  vizi­nhos, para em 1870 fun­dar a cida­de de São José do Rio Pardo, onde, como já se dis­se, nas­ce­ria o neto.

Como não podia dei­xar de ser, o diá­rio reve­la o entu­si­as­mo com que o jovem vivia aque­le momen­to em que São Paulo repu­di­a­va a con­ti­nui­da­de da dita­du­ra Vargas e exi­gia uma cons­ti­tuin­te com base nos prin­cí­pi­os da demo­cra­cia libe­ral. De nada adi­an­tou a nome­a­ção do inter­ven­tor civil e pau­lis­ta Pedro de Toledo para o Estado: sem pers­pec­ti­vas de elei­ções e sem o apoio do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, a que se liga­ra, São Paulo, iso­la­do, con­tou ape­nas com a sua pró­pria milí­cia esta­du­al e com inten­sa mobi­li­za­ção popu­lar para enfren­tar as for­ças fede­rais na revo­lu­ção que ter­mi­nou com a ren­di­ção dos revol­to­sos e que no pró­xi­mo 9 de julho  com­ple­ta 80 anos.

A pági­na do cader­no de Olimpio que se repro­duz aqui tra­duz  um fla­gran­te na esta­ção de trem de Casa Branca, onde cada jovem dava sua cota de heroís­mo ao embar­car com des­ti­no à luta.

Esta é a trans­cri­ção da pági­na:

Era meio-dia! Grande mas­sa já se esta­ci­o­na­va defron­te à Casa Renascença, era dali que sai­ri­am os valen­tes moços casa-bran­quen­ses em bus­ca de um fuzil para velar do peda­ço de ter­ra pau­lis­ta que lhe fos­se con­fi­a­do? A ban­da de músi­ca tam­bém lá esta­va.

Romperam a mar­cha? e subi­ram per­to de qua­ren­ta moços, sob o coman­do de Yolando Basilone, depois tenen­te que mui­to fez pela cau­sa no setor sul.

Na esta­ção a azá­fa­ma era enor­me! Quem che­gas­se pou­co depois do povo que acom­pa­nha­va os volun­tá­ri­os não mais con­se­gui­ria pene­trar na gare da Mogiana. Todos fala­vam, todos exal­ta­vam os méri­tos daque­les bra­vos rapa­zes, mas? nem todos pode­ri­am seguir, embo­ra o dese­jo e a obri­ga­ção os impe­lis­sem!

Chegara o trem de Ribeirão Preto que seguia para Campinas! Este trem é que leva­ria os volun­tá­ri­os; aí então deu-se lugar às des­pe­di­das? Na hora que abra­cei o Luiz ele me dis­se: “Olímpio, até por lá se for neces­sá­rio!” — “Sim, até por lá” — res­pon­di-lhe! O trem api­tou, suas rodas ran­ge­ram, come­ça­ram rodar, pegou mais velo­ci­da­de e sumiu-se na cur­va!? Todos com ar meio tris­te, meio ale­gre; des­ce­ram ven­do como quem quer ver mas não vê as mãos aba­nan­do e ros­tos riso­nhos dos rapa­zes que se foram? 

Na mes­ma São José do Rio Pardo onde nas­ceu Olimpio de Souza Andrade che­ga­ria, em 1896, o enge­nhei­ro mili­tar Euclides da Cunha, com a mis­são de fis­ca­li­zar a pon­te metá­li­ca sobre o rio que a bati­za. Desviado pelo O Estado de S. Paulo, em 1897, para fazer a cober­tu­ra da guer­ra em que o Exército bra­si­lei­ro resol­veu avan­çar con­tra aque­le “imen­so lar sem teto”, como cha­ma­ria Euclides ao povo­a­do bai­a­no de Canudos,  ele vol­ta­ria a São José no ano seguin­te para reto­mar a fis­ca­li­za­ção da pon­te metá­li­ca, que desa­ba­ra.

Mas a guer­ra muda­ra a sua vida e se con­ver­tia em tema para engran­de­cer a lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra: na caba­na às mar­gens do Rio Pardo ou à noi­te, em casa, ele escre­veu Os ser­tões, lan­ça­do em 1902. Deixou plan­ta­da na cida­de uma tra­di­ção que seria reto­ma­da por Olimpio de Souza Andrade, cujo inte­let­to damo­re, como cha­mou Drummond à sua inte­li­gên­cia amo­ro­sa­men­te apli­ca­da aos estu­dos eucli­di­a­nos, mui­to con­tri­bui­ria para enri­que­cer a lei­tu­ra do  clás­si­co de Euclides da Cunha.

* Elvia Bezerra é coor­de­na­do­ra de lite­ra­tu­ra do Instituto Moreira Salles

,