Vida estrangeira

Correspondência

26.01.12

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Pô, JP.

Assim você me que­bra as per­nas. Macau? Um mês e meio? Não vai ter epís­to­la chi­ca­go­a­na que se equi­pa­re à mag­ni­fi­cên­cia do seu tour asiá­ti­co. Sensacional, meu. Aguardo ansi­o­so as notí­ci­as do lado de lá.

Concordo com isso que você falou sobre morar fora. Tenho cer­tas dúvi­das se ao final vou con­se­guir me enten­der melhor, mas é fato que as coi­sas ganham outro tama­nho e impor­tân­cia. Sobre o lan­ce da comu­ni­ca­ção, acho que o pro­ble­ma é que a gen­te nun­ca é a mes­ma pes­soa falan­do em lín­gua estran­gei­ra, e de repen­te você se vê flu­tu­an­do entre duas ver­sões de si, uma delas gague­jan­te e meio infan­ti­li­za­da, a outra razo­a­vel­men­te madu­ra, arti­cu­la­da e cheia de coi­sas supos­ta­men­te inte­res­san­tes pra com­par­ti­lhar com a huma­ni­da­de. Eu fico ten­tan­do jun­tar as duas pon­tas, mas cadê que eu con­si­go?

Tô gos­tan­do do cur­so. É peque­no, con­cen­tra­do, mul­ti­dis­ci­pli­nar, bem como eu que­ria. A car­ga de tra­ba­lho é pesa­da, e tem dias que pas­so mais horas den­tro da bibli­o­te­ca do que em casa. O lado ruim é que tenho lido menos fic­ção do que eu gos­ta­ria. Minha sede de nar­ra­ti­va tem sido par­ci­al­men­te saci­a­da pelas pré­vi­as repu­bli­ca­nas — uma mis­tu­ra de Ionesco com pro­gra­ma do Alborghetti — e pela ten­ta­ti­va de cobrir algu­mas das minhas lacu­nas dra­ma­túr­gi­cas. Ando obce­ca­di­nho pelo Harold Pinter, um des­ses caras que abrem umas por­tas novas den­tro da sua cabe­ça, e tenho dado uma olha­da nuns dra­ma­tur­gos con­tem­po­râ­ne­os. Esses dias li uma peça boa, Mr. Marmalade, sobre uma meni­na de 4 anos cujo ami­go ima­gi­ná­rio é um exe­cu­ti­vo que bebe, chei­ra e gos­ta de espan­car o assis­ten­te.

Que bom que o Old Navy ain­da tá lá. Dormirei tran­qui­lo por cau­sa dis­so. Você falou sobre o seu pri­mei­ro dia em Paris, e isso me fez pen­sar num negó­cio. Tenho pés­si­ma memó­ria pra algu­mas coi­sas, mas por algum moti­vo con­si­go lem­brar com per­fei­ção da pri­mei­ra vez que pisei em cer­tos luga­res. São lem­bran­ças intrin­ca­das, que inclu­em esta­dos de espí­ri­to e impres­sões sub­je­ti­vas. Morei em Paris em 1997 e apa­guei qua­se tudo o que acon­te­ceu comi­go por lá — mas lem­bro de cada deta­lhe do dia que che­guei. O mes­mo acon­te­ceu quan­do mudei de apar­ta­men­to em São Paulo, ou quan­do ater­ris­sei em Chicago. Já faz qua­se 6 meses, mas ain­da lem­bro do chei­ro do aero­por­to, das jane­las engor­du­ra­das do táxi, da mis­tu­ra de exci­ta­ção e melan­co­lia quan­do o car­ro aban­do­nou a via expres­sa e a gen­te come­çou a ver o pri­mei­ro amon­to­a­do de pre­di­nhos gemi­na­dos, um depois do outro, entre­me­a­dos por pra­ças ver­de­jan­tes e Walgreens oca­si­o­nais. Então isso é Chicago, eu me dizia, sem ter a menor ideia do que “isso” era, olhan­do pra fora fei­to um zum­bi ou uma cri­an­ça, ten­tan­do enten­der se os gru­nhi­dos do taxis­ta eram uma for­ma de diá­lo­go ou mani­fes­ta­ções espon­tâ­ne­as de uma men­te per­tur­ba­da. Lembro de um ciclis­ta de ver­me­lho. De segu­rar na mão da Belle. De um hos­pi­tal infan­til. E de uma von­ta­de­zi­nha dis­cre­ta de cair no cho­ro.

No mais é o inver­no, ou o que quer que seja a máqui­na de sub­trair ore­lhas que é a vida lá fora. Semana pas­sa­da a sen­sa­ção tér­mi­ca bateu em 22 nega­ti­vos. Não é frio, cara, é outra coi­sa. Chega um pon­to em que o efei­to que a tem­pe­ra­tu­ra tem sobre você alcan­ça uma dimen­são qua­se moral. Às vezes pare­ce melho­rar, e você con­se­gue atra­ves­sar um quar­tei­rão intei­ro se sen­tin­do um esqui­mó gra­du­a­do, mas então che­ga a pró­xi­ma esqui­na e um sopro nas­ci­do em algum gro­tão árti­co acer­ta a tua cara e te devol­ve à rea­li­da­de. É humi­lhan­te. Por sor­te exis­te o álco­ol — e um dia pre­ci­so te escre­ver com cal­ma sobre a coi­sa pro­di­gi­o­sa que é o mer­ca­do de cer­ve­jas locais por aqui.

O teu argu­men­to: man­da aí. Vou ter o mai­or pra­zer em ler.

Grande abra­ço,

Chico

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