Venha, Paulo, largue o emprego, mate a mulher”

Por dentro do acervo

09.10.13
Carta de Fernando Sabino a Paulo Mendes Campos, 15 de julho de 1945. (Acervo Paulo Mendes Campos / Instituto Moreira Salles)
Carta de Fernando Sabino a Paulo Mendes Campos, 15/7/1945 (Acervo Paulo Mendes Campos / Instituto Moreira Salles)

Em jul­ho de 1945 o jor­nal­ista e escritor Fer­nan­do Sabi­no esta­va com 22 anos de idade, já era casa­do com Hele­na e tin­ha se muda­do para o Rio de Janeiro, onde tra­bal­ha­va para alguns per­iódi­cos, entre os quais O Jor­nal e o Diário Car­i­o­ca. Foi o primeiro dos qua­tro mineiros a tro­car Belo Hor­i­zonte pela então cap­i­tal do país, mas pre­cisa­va traz­er para per­to de si os out­ros ‘cav­aleiros de um ínti­mo apoc­alipse’: Paulo Mendes Cam­pos, Otto Lara Resende, autor da expressão, e Hélio Pel­le­gri­no. Em épocas difer­entes, eles se rein­te­grari­am ao quar­te­to orig­i­nal­mente for­ma­do na cap­i­tal mineira e trans­plan­ta­do para o Rio de Janeiro.

A cam­pan­ha de Sabi­no pela vin­da de Paulo se inten­si­fi­cou em mea­d­os de 1945 por meio de ape­los tão desafi­adores envi­a­dos em car­tas tão lon­gas — quinze pági­nas, como a que se mostra aqui — que o ami­go  não resis­tiu: no finalz­in­ho de jul­ho desem­bar­cou no edifí­cio Eliz­a­beth, na aveni­da Nos­sa Sen­ho­ra de Copaca­bana 769/601, onde moravam Fer­nan­do Sabi­no e Hele­na. A chega­da de Paulo for­t­ale­ceu a cam­pan­ha do romancista de O encon­tro mar­ca­do: os dois jun­taram esforços a fim de traz­er para o Rio a out­ra dupla de inte­grantes do quar­te­to que tin­ha fica­do em Belo Hor­i­zonte, o que de fato acon­te­ceria em pouco tem­po. Guardadas as difer­enças de esti­lo e des­ti­no — Hélio se destacaria como psi­canal­ista -, todos fiz­er­am história na impren­sa car­i­o­ca a par­tir da segun­da metade da déca­da de 1940.

A cor­re­spondên­cia de Fer­nan­do Sabi­no com Otto Lara Resende foi pub­li­ca­da em 2012 com o títu­lo O Rio é tão longe. Parte das car­tas com Paulo Mendes Cam­pos per­manece inédi­ta. Na data de aniver­sário de Sabi­no, que, se vivo fos­se, faria 90 anos neste 12 de out­ubro, o Insti­tu­to Mor­eira Salles, guardião do arqui­vo Paulo Mendes Cam­pos, pub­li­ca duas pági­nas de uma das 39 car­tas que o autor de O homem nu escreveu ao ami­go (clique para ampli­ar).

Carta de Fernando Sabino a Paulo Mendes Campos, 15 de julho de 1945. (Acervo Paulo Mendes Campos / Instituto Moreira Salles)

[…] Mas que coisa. Mas que coooisa, meu Deus. Que coisa, hein Paulo? Belo Hor­i­zonte, hein? Pam­pul­ha, hein? Ora, eis senão quan­do o sen­hor me faz uma mol­e­cagem; emprego arran­ja­do aqui, e você não aparece. Afi­nal sou um homem de respeito! Sou mais vel­ho do que você! Pode ser inteligente, mas não é pre­ciso me sair com essas mol­e­ca­gens! Eu e min­ha sen­ho­ra esperan­do aqui o tem­po todo, e o sen­hor não me aparece. […]

Carta de Fernando Sabino a Paulo Mendes Campos, 15 de julho de 1945. (Acervo Paulo Mendes Campos / Instituto Moreira Salles)

Ven­ha, Paulo, largue o emprego, recebe din­heiro, mate a sua mul­her, com­pre uma mala nova, atoche-a de orig­i­nais e ven­ha. Ven­ha que o rece­ber­e­mos com os braços aber­tos de Spencer Tra­cy. Você me faz mais fal­ta do que a chave de meu aparta­men­to. Você é uma quimera, um son­ho, uma ilusão. Uma esper­ança para meu pobre coração. Tan­to hei chora­do aqui, chora­do em vão! Quan­do você vier, te darei um pescoção.

, ,