A Casa do IMS na Flip 2014

IMS na FLIP

04.08.14

Algumas boas cen­te­nas de pes­so­as visi­ta­ram a Casa do IMS, em Paraty, nes­ta 12ª edi­ção da Flip, que ter­mi­nou ontem. Fotografaram – e como foto­gra­fa­ram! – a vibran­te sele­ção da obra de Millôr, o home­na­ge­a­do da fes­ta, exi­bi­da na mos­tra “Millôr 100+100 – dese­nhos e fra­ses”. O cura­dor, Paulo Roberto Pires, par­tiu do livro de mes­mo nome, cole­tâ­nea de cem fra­ses sele­ci­o­na­das por Sérgio Augusto e cem dese­nhos esco­lhi­dos por Cássio Loredano, publi­ca­do pelo IMS.

Não se leem impu­ne­men­te as fra­ses de Millôr Fernandes. Muitos se sen­ta­vam nos ban­cos e pufes dis­pos­tos na sala para pen­sar melhor no que viam escri­to à sua fren­te: “Desconfio de todo ide­a­lis­ta que lucra com seu ide­al”. Pela expres­são, qua­se se podia ouvir de alguns: “Eu tam­bém”. Outros se mos­tra­vam refle­xi­vos ao ler que “a alma enru­ga antes da pele”. E como!

Ali mes­mo, sen­ta­dos, espe­ra­vam a hora de escu­tar con­vi­da­dos para a série de pro­gra­mas da Rádio Batuta, que cons­ta de depoi­men­to de pou­co mais de meia hora em que cada autor, em horá­ri­os diver­sos, fala, sem­pre com pai­xão, sobre seu livro pre­fe­ri­do. Surpresa: o por­tu­guês Almeida Faria esco­lheu Grande ser­tão: vere­das, para ele épi­co do mes­mo qui­la­te de Os lusía­das e a Odisseia. Demolidor, o arqui­te­to Paulo Mendes da Rocha mos­trou, com indig­na­ção, a ausên­cia do sis­te­ma de nave­ga­ção flu­vi­al no Brasil e a insen­sa­tez em que isso con­sis­te. Antonio Prata foi mais diver­ti­do e não menos apai­xo­na­do ao con­tar seu pri­mei­ro encon­tro com Campos de Carvalho. Ao todo, dez par­ti­ci­pan­tes. Antônio Xerxenesky, o Xerxe, cui­dou da gra­va­ção para a Batuta. Ainda bem que tinha ao lado dele, em car­ne e osso, uma bone­ca de olhos imen­sos, redon­dos e ver­des, vigi­lan­tes, res­pon­sá­veis, sabe-se lá até onde, pelo suces­so da trans­mis­são. Assim como nada esca­pou à câme­ra de Laura Liuzzi – espe­rem só pra ver no site do IMS.

Almeida Faria conversa com Samuel Titan Jr. na Casa do IMS

Na Tenda dos Autores, a pro­gra­ma­ção se esten­deu até altas horas. Quando Silviano Santiago parou de falar de seu Mil rosas rou­ba­das, ao lado do fran­cês Mathieu Lindon, com medi­a­ção de Paulo Roberto Pires, já se apro­xi­ma­va da meia-noi­te, e as ruas per­ma­ne­ci­am chei­as de gen­te vidra­da nos telões espa­lha­dos nas pro­xi­mi­da­des da Tenda. Inclusive eu, que, naque­la noi­te, em vão ten­tei jan­tar. Todos os res­tau­ran­tes cheiís­si­mos, filas homé­ri­cas. Meus cole­gas insis­ti­ram no Thai Brasil e lá foram ser­vi­dos duas horas depois. Não aguen­tei espe­rar, e aca­bei me con­ten­tan­do, não, não me con­ten­tei, com uma sopa rala de gali­nha e um sor­ve­te. Foi o que con­se­gui.

Tenho um ami­go que se sen­tou à mesa de um bom res­tau­ran­te da cida­de e depois de 50 minu­tos viu che­gar dian­te dele a gar­ço­ne­te, que per­gun­tou a esmo: “Quem pediu lula?”. Quase se levan­tan­do da cadei­ra, impul­si­o­na­do pela fome e a essa altu­ra já sali­van­do sem parar, ele mais que depres­sa levan­tou a mão, mas a moça se apres­sou: “Acabou”. Disse com difi­cul­da­de, mas dis­se. Teve mais for­ça que sua cole­ga, que, na mesa ao lado, depois de ter obri­ga­do o fre­guês a espe­rar mais de uma hora, pos­tou-se dian­te dele e, olhan­do-o fun­do nos olhos, desa­bou no cho­ro. Foi a sua for­ma de dizer “aca­bou”. Não pre­ci­sa­va ser dra­má­ti­ca, pobre gar­ço­ne­te, afi­nal não diz Millôr que “entre o riso e a lágri­ma qua­se sem­pre há ape­nas o nariz”?

Mas nada der­ru­ba a voca­ção de Paraty para esse even­to, que nas­ceu para dar cer­to. Nada tol­da o bri­lho da fes­ta, colo­ri­do pelo bom tem­po que garan­te São Pedro, aplau­di­do na Tenda por sua cum­pli­ci­da­de com a lite­ra­tu­ra e as artes. E se um dia a gen­te pas­sa fome na Flip, com­pen­sa no outro, como acon­te­ceu comi­go, que sex­ta-fei­ra almo­cei no Thai Paraty, per­to da pou­sa­da onde nos hos­pe­da­mos. Lá pede-se – e se rece­be – água sem gás e sem pimen­ta. E há silên­cio. E há sol coa­do entre a folha­gem da varan­da, e há um deli­ci­o­so arroz fri­to com legu­mes e las­cas de filé, quen­ti­nho, man­jar dos man­ja­res depois de um dia de bar­ri­ga qua­se vazia.

Depois do almo­ço régio, uma cami­nha­da pela cida­de reve­la que não se deve acre­di­tar tão exclu­si­va­men­te no espí­ri­to lite­rá­rio da Flip. Há quem bus­que sim­ples­men­te um café de gra­ça, como o que o IMS ofe­re­ce, e inclui aque­les que podem mui­to bem pagar, mas pre­fe­rem não abrir a car­tei­ra para beber o ouro ver­de. São bem-vin­dos da mes­ma manei­ra, embo­ra a gene­ro­si­da­de cafei­na­da pos­sa gerar cer­ta con­fu­são: hou­ve quem atri­buís­se ao psi­ca­na­lis­ta Contardo Calligaris, pales­tran­te daque­la tar­de na casa da Folha de São Paulo, a fila reni­ten­te na por­ta. Pois des­co­briu-se facil­men­te que um rapaz pro­cu­ra­va não o Calligaris, mas o Cappuccino, tam­bém ofe­re­ci­do pela Folha. Errando de por­ta, ele che­gou à Casa do IMS, per­gun­tan­do, na lata: “É aqui que tem cap­puc­ci­no de gra­ça?”.

Paulo Mendes da Rocha conversa com Flávio Pinheiro na Casa do IMS

Mais filo­só­fi­ca foi a moça de gene­ro­so colar de semen­tes ver­me­lhas, que, depois de ouvir a fala de Paulo Mendes da Rocha, recos­tou-se, deso­la­da, na por­ta do banhei­ro enquan­to desa­ba­fa­va, pra lá de socrá­ti­ca: “Só sei que nada sei”. Tinha na mão o “Millôr 100+100”, cujos 200 e tan­tos exem­pla­res leva­dos se esgo­ta­ram logo no segun­do dia. Mas alguém viu a Marília Scalzo sair do seu quar­to às três horas da manhã de sába­do para rece­ber cai­xas com outras cen­te­nas de livros, vin­das de São Paulo. E como nada nes­se mun­do aba­la sua cal­ma e seu bom humor, às dez da glo­ri­o­sa manhã de sol do mes­mo dia ela segu­ra­va fir­me e sua­ve, como de cos­tu­me, a coor­de­na­ção da Casa. Pôde con­tar, este ano, com Camila Goulart e Barbara Giacometti, fiéis e dinâ­mi­cas até o fim. Tudo per­fei­to, que Marília não é de dei­xar nada por menos.

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