A máquina do mundo” se entreabriu no jornal

Literatura

30.10.12

Quem com­prou o Correio da Manhã no dia 2 de outu­bro de 1949, um domin­go, pagou cin­quen­ta cen­ta­vos. De cru­zei­ro. Para outro mun­do, outra moe­da.

A pri­mei­ra pági­na tra­ta­va só de notí­ci­as inter­na­ci­o­nais. Séria cri­se entre a Iugoslávia (lem­bram?) e a União Soviética (lem­bram?) pre­o­cu­pa­va os lei­to­res cari­o­cas. Além da gre­ve na indús­tria do aço — ame­ri­ca­na. E do pro­ble­ma das colô­ni­as ita­li­a­nas na África.

Nesse dia o lei­tor que folhe­as­se vaga­men­te as pági­nas do jor­nal encon­tra­ria nada mais, nada menos que “A máqui­na do mun­do”. Com as pupi­las gas­tas e os dedos sujos de tin­ta, tal­vez ele tenha lido então o poe­ma que tem­pos depois seria apon­ta­do por mui­ta gen­te como o mais impor­tan­te de toda a obra de Carlos Drummond de Andrade.

Um arre­pio dan­tes­co terá per­cor­ri­do a espi­nha do casu­al lei­tor, aco­mo­da­do na sua pol­tro­na, em casa, ou saco­le­jan­do no ban­co de um bon­de, em trân­si­to, ou pal­mi­lhan­do o cal­ça­dão da praia de Copacabana. Os ter­ce­tos se suce­di­am, espa­ça­dos e ele­gan­tes, com o anda­men­to clás­si­co de uma já esque­ci­da Greta Garbo.

Decassílabos vinham inter­rom­per a pro­sa de um domin­go como outro qual­quer. E as colu­nas espre­mi­das do jor­nal de repen­te pas­sa­ram a evo­car o mun­do sole­ne das colu­nas de már­mo­re.

Depois de ler sobre os engar­ra­fa­men­tos do Méier e con­si­de­rar as difi­cul­da­des de Vasco e Fluminense naque­la roda­da, o lei­tor era ago­ra con­vi­da­do pelo poe­ta a lan­çar os olhos “no ros­to do mis­té­rio, nos abis­mos”. Aceitará o con­vi­te?

Como pode uma folha diá­ria abri­gar tama­nho por­ten­to? Poucas sema­nas depois, o mes­mo autor, nas mes­mas pági­nas, lem­bra­ria com indis­far­çá­vel iro­nia — numa crô­ni­ca, não em poe­sia — que os jor­nais devem ser tole­ra­dos por­que “ser­vem para embru­lho”. Será este, então, o des­ti­no moder­no da velha “máqui­na do mun­do” que tan­to des­lum­brou o herói Vasco da Gama, no final dos Lusíadas, de Camões? No dia seguin­te, o orá­cu­lo da vés­pe­ra embru­lha o pei­xe…

O poe­ma ocu­pa­va uma fai­xa ver­ti­cal atra­ves­san­do de cima a bai­xo a pri­mei­ra pági­na da “3ª Seção”. Era a pági­na domi­ni­cal de lite­ra­tu­ra. Lúcia Miguel Pereira com­pa­re­cia com um arti­go feri­no sobre a “Campanha de anal­fa­be­ti­za­ção”. Eugênio Gomes comen­ta­va a publi­ca­ção do livro Aparência do Rio de Janeiro, de Gastão Cruls. Os demais tex­tos fala­vam de Robespierre, Romain Rolland e outros nomes. Que nomes? Todos estes, cita­dos até ago­ra, eram em 1949 tão reais quan­to a Iugoslávia, a União Soviética e o cru­zei­ro.

Num can­to infe­ri­or da pági­na, foi impos­sí­vel espi­char a colu­na que tra­ta­va da “arte da enca­der­na­ção”. O espa­ço aca­bou pre­en­chi­do por um anún­cio peque­no de Fox, “o melhor cal­ça­do do mun­do”. Se o poe­ta esti­ves­se bem cal­ça­do, não sofre­ria tan­to com a “estra­da de Minas, pedre­go­sa”.

Anúncios não fal­ta­vam naque­la edi­ção do Correio da Manhã. Surgiam no meio das pági­nas com a sole­ni­da­de de uma “máqui­na do mun­do” mer­can­ti­li­za­da, pro­me­ten­do de tudo e mais um pou­co. Quem sofrer de nos­tal­gia crô­ni­ca verá hoje mais poe­sia neles do que no poe­ma de Drummond, com cer­te­za.

Afinal, bem naque­la sema­na a Singer ini­ci­a­va a “Semana da Costura”, e as lojas Sears come­mo­ra­vam a “Festa da Primavera”. Além dis­so, se acon­te­ces­se “algu­ma pecú­nia” ao lei­tor, tal­vez ele se dei­xas­se ten­tar pelo ide­al de uma “Nova Copacabana”, vis­lum­bra­do na pági­na de imó­veis: “Construa seu lar no Saco de São Francisco”.

Mas o lei­tor drum­mon­di­a­no de 1949 não sofre­ria nenhum espan­to ao se depa­rar com a “máqui­na do mun­do” pela pri­mei­ra vez, em ple­no Correio da Manhã. O poe­ta era colu­nis­ta fre­quen­te do jor­nal des­de o iní­cio da déca­da. E era comum que sua cola­bo­ra­ção em pro­sa se alter­nas­se com poe­mas pró­pri­os ou de auto­res estran­gei­ros, por ele tra­du­zi­dos.

Naquele domin­go, “A máqui­na do mun­do” tinha a sua pri­mei­ra vida, em papel-jor­nal. Assim como uma crô­ni­ca que depois tro­cas­se de mei­os, res­ga­ta­da pelo livro. Dali a dois anos, o poe­ma seria reim­pres­so em papel de qua­li­da­de bem melhor, como o penúl­ti­mo tex­to da série impres­si­o­nan­te reu­ni­da em Claro enig­ma. Era o livro lan­ça­do por Drummond em fins de 1951, com o selo da edi­to­ra José Olympio. Começaria então sua segun­da vida — que ain­da pro­me­te durar mui­tas tira­gens.

Fascinante, para o crí­ti­co atu­al, é notar que pra­ti­ca­men­te todos os poe­mas de Claro enig­ma foram publi­ca­dos pri­mei­ro na impren­sa coti­di­a­na. A mai­o­ria saiu no Correio da Manhã, como se pode veri­fi­car na pri­mo­ro­sa edi­ção crí­ti­ca da poe­sia de Drummond até 1962, pre­pa­ra­da por Júlio Castañon Guimarães e recém-publi­ca­da pela edi­to­ra Cosac Naify. Alguns saí­ram no Diário Carioca sob o pseudô­ni­mo de Leandro Sabóia — como o inu­si­ta­do “Rapto”, que, explo­ran­do o mito clás­si­co de Ganimedes, tema­ti­za o homo­e­ro­tis­mo.

Assim, o mes­mo lei­tor da pri­mei­ra ver­são de “A máqui­na do mun­do” acom­pa­nhou pas­so a pas­so, atra­vés do mes­mo jor­nal, o desen­ro­lar de dois livros fun­da­men­tais da obra do poe­ta. Desde 1948 em dian­te, os poe­mas de Claro enig­ma foram sen­do publi­ca­dos aos pou­cos, inter­ca­la­dos com tex­tos de uma refi­na­dís­si­ma pro­sa que, depois, seri­am reu­ni­dos em 1952 no livro Passeios na ilha. Era uma ver­são mais ensaís­ti­ca da crô­ni­ca drum­mon­di­a­na, tam­bém ree­di­ta­da recen­te­men­te pela Cosac Naify.

São dois livros con­tem­po­ra­nís­si­mos um do outro, Claro enig­ma e Passeios na ilha. Não por aca­so, a comu­ni­ca­ção sub­ter­râ­nea entre a poe­sia e a pro­sa de Drummond des­se perío­do é tão inten­sa.

O lugar des­sa inten­si­da­de, porém, não se con­fi­na­va às pra­te­lei­ras. Pelo con­trá­rio, tudo come­ça­va nas pági­nas do jor­nal, jun­to com o noti­ciá­rio coti­di­a­no da cida­de, do país, do mun­do. Não havia con­tra­di­ção entre lite­ra­tu­ra e jor­na­lis­mo.

Em “Divagação sobre as ilhas”, tex­to em pro­sa publi­ca­do no Correio da Manhã de 11 de dezem­bro de 1949, Drummond pro­pu­nha um novo ide­al de eva­são: reti­rar-se para uma ilha “não mui­to lon­ge do lito­ral, que o lito­ral faz fal­ta” — mas tam­bém não tão per­to do con­ti­nen­te a pon­to de se poder aspi­rar, de lá, “a fuma­ça e a gra­xa do por­to”.

Por déca­das a fio, des­de a de 1940, Drummond fez da sua cola­bo­ra­ção jor­na­lís­ti­ca a sua ilha lite­rá­ria, onde seria pos­sí­vel diva­gar sobre as con­di­ções da vida no con­ti­nen­te. Era uma ilha cer­ca­da de notí­ci­as, arti­gos e anún­ci­os por todos os lados. Nela cabi­am a pro­sa e a poe­sia, ao mes­mo tem­po.

O que é uma gran­de sur­pre­sa para os lei­to­res de poe­sia que hoje des­pre­zam o jor­na­lis­mo. Assim como para os jor­na­lis­tas que hoje bani­ram a lite­ra­tu­ra de seus jor­nais, a pre­tex­to de pro­te­ger seus lei­to­res con­tra con­vi­tes incon­ve­ni­en­tes como o de “A máqui­na do mun­do”.

* Sérgio Alcides é Professor da Faculdade de Letras da UFMG.

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