Adaptando a confusão

Cinema

31.03.15

É um con­sen­so entre os crí­ti­cos que Vício ine­ren­te, de 2009, não é o melhor livro de Thomas Pynchon – pou­co ambi­ci­o­so, pou­co expe­ri­men­tal, sem momen­tos de gran­de bele­za. A obra do autor nor­te-ame­ri­ca­no sem­pre se divi­diu entre roman­ces mega­lo­ma­nía­cos, de qua­se ou mais de mil pági­nas, que exi­gem um lei­tor obses­si­vo e inte­res­sa­do em his­tó­ria e ciên­ci­as exa­tas, e outros livros mais aces­sí­veis, como O lei­lão do lote 49, Vineland e o recen­te Bleeding Edge. Vício ine­ren­te se enqua­dra na segun­da cate­go­ria, e tem for­te paren­tes­co com Vineland e sua obses­são por hip­pi­es.

Benicio del Toro no papel de um advogado especializado em direito marítimo e Joaquin Phoenix como “Doc” Sportello, um detetive que vive chapado

De cer­to modo, é o mais pas­sí­vel de adap­ta­ção ao cine­ma. A tra­ma é cen­tra­da em um só pro­ta­go­nis­ta, e o nar­ra­dor está sem­pre cola­do a ele. Trata-se, além dis­so, de um sujei­to caris­má­ti­co e cômi­co, que dia­lo­ga com a difun­di­da tra­di­ção do poli­ci­al hard-boi­led, o dete­ti­ve “Doc” Sportello. Há um obje­ti­vo cla­ro no enre­do, um motor nar­ra­ti­vo – des­co­brir o que acon­te­ceu com um figu­rão do meio imo­bi­liá­rio que desa­pa­re­ceu. É um livro line­ar. Enfim, tudo o que tor­na o livro de Pynchon qua­dra­do e com­por­ta­do para os padrões do autor faci­li­ta uma adap­ta­ção hollywo­o­di­a­na. O cine­as­ta Paul Thomas Anderson con­ta em entre­vis­tas que há tem­pos está ten­tan­do levar Pynchon para as telas, mas só com o sur­gi­men­to de Vício ine­ren­te encon­trou algo fac­tí­vel. E os acer­tos e erros do fil­me, que che­gou quin­ta-fei­ra pas­sa­da aos cine­mas bra­si­lei­ros, devem mui­to à fide­li­da­de da adap­ta­ção.

O cine­as­ta fil­ma com pro­fun­do res­pei­to ao mate­ri­al base. Diálogos são pra­ti­ca­men­te trans­cri­tos, a recons­ti­tui­ção de cená­ri­os é pri­mo­ro­sa. Mais do que isso: o espí­ri­to pyn­cho­ni­a­no segue fir­me e for­te, e Anderson é capaz de man­ter a con­fu­são expe­ri­men­ta­da na lei­tu­ra. Pynchon é conhe­ci­do por lotar suas his­tó­ri­as de deze­nas de per­so­na­gens, mui­tos que apa­re­cem e desa­pa­re­cem sem dei­xar ras­tros, e às vezes sem avan­çar a his­tó­ria. Embora Anderson tenha cor­ta­do alguns, man­te­ve um núme­ro con­si­de­rá­vel, de modo a dei­xar esse caos de nomes com­pli­ca­dos e rela­ções incom­pre­en­sí­veis fun­ci­o­nan­do cine­ma­to­gra­fi­ca­men­te.

Vício ine­ren­te é um livro/filme sobre um dete­ti­ve que não sabe ao cer­to o que está inves­ti­gan­do, que esque­ce o que pre­ci­sa bus­car. Pistas fun­da­men­tais são dadas a ele, porém só retor­nam uma hora depois, quan­do o pro­ta­go­nis­ta se lem­bra, cavou­can­do em sua memó­ria cheia de furos de um maco­nhei­ro com­pul­si­vo, de que tinha que inves­ti­gar aque­le local. No livro, tal esque­ma tal­vez fun­ci­o­ne melhor, pois difi­cil­men­te um lei­tor enca­ra as 400 pági­nas em uma sen­ta­da; no fil­me, esse enca­de­a­men­to frou­xo (pro­po­si­tal­men­te), esse rit­mo rela­xa­do, mos­tra-se can­sa­ti­vo nas duas horas e meia. É, em par­te, um pro­ble­ma do cine­as­ta que quer ser fiel demais ao livro – o mes­mo ocor­re em O homem duplo, de Richard Linklater, úni­ca adap­ta­ção real­men­te pró­xi­ma à maté­ria-pri­ma que o escri­tor Philip K. Dick rece­beu. A estru­tu­ra do roman­ce é dife­ren­te da estru­tu­ra de um lon­ga-metra­gem, inclu­si­ve (e não somen­te) por­que pres­su­põe um inves­ti­men­to (em tem­po, em con­cen­tra­ção) dis­tin­to do leitor/espectador.

Das prin­ci­pais diver­gên­ci­as entre livro e fil­me, a úni­ca que não con­se­gui com­pre­en­der foi por que a ARPANet foi omi­ti­da. Explico a quem não leu: mui­to se fala no livro sobre uma tec­no­lo­gia cri­a­da pelo depar­ta­men­to de defe­sa ame­ri­ca­no que seria a “mãe” da inter­net, algo que o lei­tor atu­al cap­ta logo de iní­cio. Trata-se o pri­mei­ro uso de com­pu­ta­do­res em redes e, no con­tex­to do livro, é logo com­pa­ra­do com dro­gas. Quando infor­mam a Doc Sportello que nes­sa rede você pode bus­car infor­ma­ções sobre qual­quer outra pes­soa, o dete­ti­ve comen­ta que então, como o áci­do lisér­gi­co, a ARPANet em bre­ve será proi­bi­da. Basta o gover­no notar que, como o LSD, a rede de com­pu­ta­do­res per­mi­te que você esta­be­le­ça uma cone­xão com canais que você não deve­ria ter aces­so…

A rela­ção entre avan­ços tec­no­ló­gi­cos e a his­tó­ria é tema fun­da­men­tal, tal­vez cen­tral, da obra de Pynchon, que qua­se só escre­ve roman­ces “his­tó­ri­cos” (aspas com­pli­ca­do­ras). O arco-íris da gra­vi­da­de fala de mís­seis V2 na Segunda Guerra; Contra o dia, da gran­de fei­ra tec­no­ló­gi­ca de Chicago e as des­co­ber­tas de Tesla na vira­da para o sécu­lo XX; Bleeding Edge, do sur­gi­men­to da deep web no iní­cio dos anos 2000. Até tra­tan­do do pas­sa­do recen­te Pynchon se com­por­ta como um his­to­ri­a­dor, ou ao menos como um his­to­ri­a­dor numa cer­ta defi­ni­ção de Hayden White, como aque­le que “esta­be­le­ce o valor do estu­do do pas­sa­do, não como um fim em si, mas como um meio de for­ne­cer pers­pec­ti­vas sobre o pre­sen­te”. Visto de lon­ge, a obra de Pynchon dese­nha um pano­ra­ma his­tó­ri­co mui­to pecu­li­ar e úni­co sobre for­ças de resis­tên­cia (o hip­pie que se recu­sa a mudar o esti­lo de vida, toman­do de exem­plo Vício ine­ren­te) e for­ças de opres­são (o mer­ca­do imo­bi­liá­rio, os poli­ci­ais, o núme­ro cada vez mai­or de hip­pi­es ser­vin­do de infor­man­tes).

A ARPANet tinha sua impor­tân­cia no livro no sen­ti­do de que posi­ci­o­na­va o roman­ce den­tro do gran­de uni­ver­so com­par­ti­lha­do de Pynchon e de que acres­cen­ta­va mais uma melan­co­lia ao “fim da épo­ca dou­ra­da” de dro­gas e liber­da­de. P.T. Anderson cer­ta­men­te tem seus moti­vos para tirá-la, mas não dei­xo de pen­sar que, com a remo­ção de cer­tos comen­tá­ri­os sobre a cul­tu­ra ame­ri­ca­na e a his­tó­ria, mui­tos espec­ta­do­res saí­ram do cine­ma pen­san­do que Vício ine­ren­te é diver­são doi­do­na e só. O cine­as­ta se recu­sou a dar mui­to mate­ri­al que pudes­se ser lido como “moral da his­tó­ria” – o que, por um lado, é uma ati­tu­de ele­gan­te.

Sinto que estou dan­do a impres­são de que detes­tei o fil­me. Muito pelo con­trá­rio: ado­rei-o. Ele cap­ta, afi­nal, o espí­ri­to de Pynchon: a con­fu­são, o humor absur­do, a para­noia. É diver­ti­dís­si­mo, de gar­ga­lhar alto no cine­ma, em par­te por­que é mui­to bem atu­a­do (vamos todos con­cor­dar: Joaquin Phoenix é o mai­or ator vivo de Hollywood). A tri­lha sono­ra de Jonny Greenwood está em toda a par­te e lem­bra a ama­lu­ca­da tri­lha que Jon Brion fez para outro fil­me do cine­as­ta, Embriagado de amor. A músi­ca con­duz o fil­me, dá rit­mo quan­do o enre­do pare­ce mais bam­bo e des­nor­te­a­do. P.T. Anderson é um dos nomes do cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no que ain­da faz sen­ti­do acom­pa­nhar de per­to: sua obra é mutá­vel, ten­do ido do alu­ci­nan­te Boogie Nights (qua­se uma home­na­gem a Scorsese, como bem decla­rou o pró­prio P.T. Anderson) a obras mais clás­si­cas, como o wel­le­si­a­no Sangue negro, pas­san­do por fler­tes com o fan­tás­ti­co e o sur­re­al em Magnólia e Embriagado de amor.

Na ver­da­de, con­si­de­ro P.T. Anderson um cine­as­ta tão vali­o­so que sin­to que Vício ine­ren­te só pode­ria melho­rar se o dire­tor fos­se um pou­co menos res­pei­to­so com o mate­ri­al em que se baseia. Por melhor que seja Pynchon, cine­ma é cine­ma e lite­ra­tu­ra é lite­ra­tu­ra. As regras são outras e todos sabem que não há nada mais tris­te do que a sen­sa­ção de livro fil­ma­do. Não é o caso de Vício ine­ren­te, mas na últi­ma meia hora do fil­me nota-se que o peso da estru­tu­ra roma­nes­ca está lá, sem­pre pre­sen­te.

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