Andante con amore: 90 anos de Lygia Fagundes Telles

Por dentro do acervo

16.04.13

Lygia Fagundes Telles e Erico Verissimo
Lygia Fagundes Telles e Erico Verissimo | (Acervo do Instituto Moreira Salles)

Não é comum que uma moci­nha de 15 anos seja tão deter­mi­na­da como Lygia Fagundes Telles nes­sa ida­de. Desde 1938, quan­do publi­cou a cole­tâ­nea de con­tos Porão e sobra­do, seu pri­mei­ro livro, ela já defi­ni­ra o des­ti­no: seria escri­to­ra.

Foi essa con­vic­ção que a fez, dois anos depois, man­dar o livri­nho a nin­guém menos que Erico Verissimo, na épo­ca o já conhe­ci­do roman­cis­ta de Olhai os líri­os do cam­po.

“Erico Verissimo, bons dias!”, escre­via ela, ceri­mo­ni­o­sa, em setem­bro de 1941. Era a res­pos­ta-agra­de­ci­men­to pela lei­tu­ra ani­ma­do­ra que o roman­cis­ta gaú­cho tinha fei­to do seu Porão. A par­tir daí, os dois não dei­xa­ram de se cor­res­pon­der, e as car­tas, ao lon­go do tem­po, foram per­den­do a for­ma­li­da­de, subs­ti­tuí­da por um tom extre­ma­men­te amo­ro­so.

Fossem em Porto Alegre, onde Erico e a mulher, Mafalda, rece­bi­am com a len­dá­ria hos­pi­ta­li­da­de, ou em outra cida­de do Brasil, os encon­tros jamais frus­tra­ram as expec­ta­ti­vas gera­das nas car­tas. Ao con­trá­rio, a cada vez, con­sa­gra­vam uma ami­za­de que come­ça­ra tími­da, mas fir­me.

Nas oca­siões em que esti­ve­ram jun­tos, pre­do­mi­na­vam as con­ver­sas diver­ti­das, ani­ma­das com bons vinhos e fan­ta­si­as em voz alta, livres. Ao final de alguns anos, os ami­gos se per­mi­ti­am brin­ca­dei­ras e decla­ra­ções de amor. Amor fra­ter­no, que incluía Mafalda, gran­de lei­to­ra, além de com­pa­nhei­ra míti­ca. Amizade que se fun­da­va, pri­mei­ra­men­te, na ava­li­a­ção inequí­vo­ca de Erico, que logo vis­lum­brou na jovem con­tis­ta de Porão e sobra­do a futu­ra roman­cis­ta de As meni­nas. Depois, na sua gene­ro­si­da­de “de deus per­fei­to e lin­do”, como diria Lygia no futu­ro ao ami­go.

Desde o iní­cio, ela não dei­xa­va pas­sar qual­quer opor­tu­ni­da­de de levar adi­an­te seu pro­je­to de ser escri­to­ra. Em 1941, alu­na da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e ao ser repro­va­da em Direito Romano, fez do novo ami­go seu con­fi­den­te: por cau­sa da repro­va­ção, não podia conhe­cer o Norte do Brasil, como o pai lhe pro­me­te­ra caso pas­sas­se nos exa­mes.

Se até aque­le setem­bro de 1941 Erico não tinha vis­to foto de sua inter­lo­cu­to­ra epis­to­lar, come­çou a des­con­fi­ar do quan­to ela era boni­ta por cau­sa de outra con­fi­dên­cia que a moça lhe fez: ao ten­tar publi­car seu segun­do livro, Praia viva, que sai­ria em 1944 com 10 con­tos ao invés dos 14 anun­ci­a­dos em car­ta ao ami­go, o edi­tor não que­ria abrir mão de uma foto da auto­ra na capa. Lygia recu­sa­va, mas ele insis­tia: “E tem, não tem, apa­re­ce, não apa­re­ce… con­clu­são: suge­ri que botas­se o retra­to da avó dele” — con­ta ela a Erico Verissimo na car­ta repro­du­zi­da ao final des­te tex­to.

Havia ape­nas um ano que os dois tinham come­ça­do a se car­te­ar, mas o tem­po não con­tou para Lygia, que, do alto de seus 18 anos, e de igual pra igual, escre­veu assim a Erico, na épo­ca um homem com exa­ta­men­te o dobro da ida­de dela: “Achei Saga um pou­co pos­ti­ço. O senhor já este­ve no front”? Cética, refe­ria-se ao roman­ce de 1940, que fecha o ciclo urba­no da obra do autor gaú­cho.

A intre­pi­dez da moça tinha uma jus­ti­fi­ca­ti­va: ela cer­ta­men­te acha­va que a per­so­na­gem des­se roman­ce, Vasco Bruno, que dei­xa Porto Alegre como volun­tá­rio da Brigada Internacional para lutar na guer­ra civil espa­nho­la, não pare­cia natu­ral no cam­po de bata­lha.

Nem de lon­ge ela pen­sou que pudes­se, com a crí­ti­ca, ofen­der o ami­go. Afinal, com um livro publi­ca­do e mais um punha­do de con­tos enfei­xa­dos à espe­ra de um edi­tor, já se reco­nhe­cia, ela mes­ma, escri­to­ra. Dirigia-se, por­tan­to, a um cole­ga.

Além da crí­ti­ca, ela recor­re a uma astú­cia tão sim­pá­ti­ca que — ima­gi­no — Erico Verissimo não terá dei­xa­do de sor­rir. Tudo em nome da lite­ra­tu­ra, para ela uma for­ma de amor. Como qui­ses­se publi­car seus novos con­tos, e saben­do que nenhum edi­tor se inte­res­sa­ria por uma des­co­nhe­ci­da, ela pro­põe ao ami­go que os apre­sen­te a uma casa edi­to­ri­al dizen­do que os tex­tos eram de auto­ria dele. Depois de lidos e — sonha­va ela — acei­tos, ele então diria que “esta­va brin­can­do”, reve­la­va a iden­ti­da­de da auto­ra e des­sa for­ma ganha­ria ela um edi­tor. Quem sabe daria cer­to.

A cor­res­pon­dên­cia não indi­ca até onde terá ido o pla­no de Lygia, mas Praia viva sai­ria três anos depois, em 1944, pela Martins, de São Paulo.

A bus­ca de um edi­tor não a fazia parar. Assim, em 1943, quan­do fazia o cur­so de Direito, Lygia tra­ba­lhou como assis­ten­te no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo. Mas pou­co se sen­tia no setor. Não resis­tia à ten­ta­ção de escre­ver suas his­tó­ri­as nas folhas de papel bran­co e de boa qua­li­da­de a que tinha aces­so. O tim­bre ofi­ci­al da Secretaria de Agricultura ser­via mais à cri­a­ção da fun­ci­o­ná­ria do que ao ofí­cio de assis­ten­te. Entre uma car­ta pro­to­co­lar e outra, entra­va numa per­so­na­gem e se trans­por­ta­va para uma con­fei­ta­ria, como se lê numa das car­tas que escre­ve a Erico. Pura fic­ção com o selo do Departamento Agrícola.

É sabi­do que Lygia pre­fe­re datar o iní­cio de sua obra a par­tir de Ciranda de pedra, roman­ce de 1954, com o qual atin­giu a matu­ri­da­de lite­rá­ria — afir­mou Antonio Candido. Por ela, dei­xa­ria de fora Praia viva (1944) e O cac­to ver­me­lho (1949), livros que Erico Verissimo leu com inte­res­se, assim como leria os seguin­tes.

Foi o que ele fez em Alexandria, no esta­do ame­ri­ca­no da Virginia, de onde escre­veu à ami­ga em 1966, logo depois de ler O jar­dim sel­va­gem, lan­ça­do no ano ante­ri­or:

Quem conhe­ce a Lygia de per­to, isto é, quem con­vi­ve com ela, não ima­gi­na que esse mons­tri­nho escre­va essas coi­sas… góti­cas — como se diz por aqui. Porque você é dos melho­res papos que conhe­ço, das pre­sen­ças mais agra­dá­veis e fáceis. Estar com você é mui­to bom e a gen­te não se sen­te com neces­si­da­de de usar nenhu­ma más­ca­ra, de esco­lher pala­vras ou ficar na defen­si­va. E como é que uma meni­na espor­ti­va, extro­ver­ti­da, pro­duz esse tipo de lite­ra­tu­ra dra­má­ti­ca e den­sa? Não a estou cen­su­ran­do, ao con­trá­rio, estou me admi­ran­do. Há con­tos seus que ficam per­se­guin­do a gen­te por mui­to tem­po […]

Não foi só ele que se sen­tiu per­se­gui­do pelos con­tos de Lygia. Carlos Drummond de Andrade expres­sou a mes­ma rea­ção com outras pala­vras. Atribuiu a ela a pro­e­za de cap­tar “a ver­da­de sub­ter­râ­nea das cri­a­tu­ras”, e o resul­ta­do dis­so é a cri­a­ção de per­so­na­gens que pas­sam a inte­grar o mun­do do lei­tor. Por fim, escre­via ele à ami­ga em car­ta de janei­ro de 1966: “Conto de você fica res­so­an­do na memó­ria, impe­ra­ti­vo”.

São des­se cali­bre os con­tos de Antes do bai­le ver­de, de 1970, em que reu­niu vin­te tex­tos escri­tos ao lon­go de vin­te anos. Desse livro faz par­te o mis­te­ri­o­so “Natal na Barca”, publi­ca­do pela pri­mei­ra vez em Histórias do desen­con­tro, em 1958. A cole­tâ­nea inclui per­so­na­gens como a obce­ca­da Tatisa, do con­to que dá títu­lo ao livro. Traduzido para o fran­cês, ganhou o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, o que levou Lygia a escre­ver a Erico Verissimo: “A gen­te fica por demais for­mi­dá­vel em outra lín­gua”.

Ao se tor­nar cin­quen­te­ná­ria, em 1973, Lygia vivia um momen­to espe­ci­al da vida: naque­le ano, arre­ba­tou, com o roman­ce As meni­nas, todos os prê­mi­os lite­rá­ri­os de pres­tí­gio no país. Antes, já ganha­ra o cora­ção de Paulo Emílio Salles Gomes, o segun­do mari­do, com quem pôde com­par­ti­lhar o suces­so daque­le ano glo­ri­o­so. Continuava lin­da. Ao rece­ber o prê­mio da Associação Paulista de Críticos de Artes, tam­bém em 1973, vol­ta­va a infor­mar a Erico:

[…] digo sem­pre que que­ro ficar uma velha apa­zi­gua­da, sere­na, toda vol­ta­da para Deus e para as ale­gri­as além do arco-íris e con­ti­nuo afli­ta, agi­ta­da, toman­do por­res de tra­ba­lho. De ambi­ção. Acho que vai cus­tar um pou­co para eu enve­lhe­cer, ain­da me afo­bo com os piru­li­tos e faço char­me e faço aque­las caras das artis­tas dos anos 40 e depois mor­ro de ver­go­nha das caras que fiz.

Não podi­am fal­tar, no arqui­vo de Lygia, sob a guar­da do Instituto Moreira Salles des­de 2004, as fotos, fotos de uma mulher a quem o des­ti­no favo­re­ceu com talen­to e bele­za. Neste seu ani­ver­sá­rio, o Instituto Moreira Salles pede empres­ta­das as pala­vras de Erico Verissimo que, cer­ta vez, fes­te­jan­do a ami­ga, ter­mi­nou uma car­ta assim: “Bandas de músi­ca, dis­cur­sos, cor­tes de fitas inau­gu­rais. E eu toca­rei para você uma peci­nha de cla­ri­ne­ta, con amo­re. Isso! Andante con amo­re.”

***

Abaixo, trans­cri­ção da pri­mei­ra car­ta de Lygia Fagundes Telles a Erico Verissimo -

Carta de Lygia Fagundes Telles a Erico Verissimo (1941)

 

São Paulo, 9 de setem­bro de 1941

Erico Verissimo, bons dias!

Recebi o seu bilhe­te anun­ci­an­do-me a via­gem. E então, diver­tiu-se mui­to? Que homem feliz! Juro que che­go a inve­já-lo até!

As minhas via­gens — coi­ta­di­nhas! — são todas fei­tas por aqui mes­mo, em redor do Estado de São Paulo. Meu pai tinha me pro­me­ti­do uma via­gem para o Norte, caso eu fos­se apro­va­da em Direito Romano; mas Direito Romano me repro­vou… Vê? Tudo cons­pi­ra con­tra. É melhor não pen­sar mais em mudar de ambi­en­tes, de cos­tu­mes…

Um dia a gen­te mor­re, vai pro céu; e Deus dá então pra gen­te um par de asas pra conhe­cer o mun­do intei­ro! Por enquan­to, exis­te para mim o Estado de São Paulo.

Sei que exis­te tam­bém Porto Alegre, por­que o escri­tor Erico Verissimo faz livros aí. E boni­tos livros. Li Saga e con­ti­nuo gos­tan­do mais do dis­tan­te Música ao lon­ge. Achei Saga um pou­co pos­ti­ço. O senhor já este­ve no front?

— Erico Verissimo, vou lhe con­tar um segre­do. Promete não divul­gar? Então, ouça: tenho um livro pron­to! Sim senhor! Um livro com 14 con­tos! Dei-o a um edi­tor mas o dia­bo do homem, antes de ler os ori­gi­nais, cis­mou que a minha cara devia ser mui­to mais inte­res­san­te do que os con­tos todos e por isso, deci­diu botar o meu retra­to no livro. Com bons modos, dis­se-lhe que acha­va isso mui­to ridí­cu­lo. Insistiu. Fiquei zan­ga­da; minha cara nada tem a ver com a obra. E tem, não tem, apa­re­ce, não apa­re­ce… Conclusão: suge­ri que botas­se o retra­to da avó dele. Nesse pon­to, resol­veu não falar mais nis­so. Mas aí eu já esta­va de mau gênio e exi­gi a pape­la­da de vol­ta. Agora estou com tudo aqui na gave­ta.

— Descansa, Erico Verissimo, não lhe fala­rei na Editora Globo por­que já estou cien­te de que ela não edi­ta con­tos. Caso con­trá­rio, há mui­to já teria man­da­do, por avião, minhas 120 pági­nas. Mas o senhor deve conhe­cer edi­to­res, não conhe­ce?

Seria mui­to tra­ba­lho per­gun­tar a esses se não pen­sa­ram nun­ca em publi­car livro de gen­te des­co­nhe­ci­da? Se não pen­sa­rem, de jei­to algum, nes­se hor­ror, então o senhor diz que são con­tos seus, só pra eles se inte­res­sa­rem e pedi­rem pra ler o ori­gi­nal. Depois que tive­rem lido, daí o senhor diz que esta­va brin­can­do, que o ori­gi­nal é de uma ami­ga prin­ci­pi­an­te.

E como pode suce­der o fato de devol­ve­rem tudo no mes­mo ins­tan­te, pode tam­bém suce­der o con­trá­rio…

— A não ser den­tro da Globo, conhe­ce algum edi­tor? Se não conhe­cer nenhum, não faz mal, a gen­te arran­ja por aqui mes­mo. Se não arran­jar nem por aqui mes­mo, tam­bém não faz mal… Um dia, a gen­te mor­re e Deus, que é mui­to com­pre­en­si­vo, dá além das asas, uma tipo­gra­fia. — Quero que o senhor leia esse meu con­to que faz par­te do livro. É um dos 14… E ago­ra me des­pe­ço.

Estou mui­to con­ten­te por ter con­ver­sa­do con­si­go; é ver­da­de que falei o tem­po todo, mas as minhas con­ver­sas são cômo­das por­que não me zan­go, mes­mo quan­do não há res­pos­ta… Muito cor­di­al­men­te, Lygia Fagundes.