Bom mesmo é vadiar

Literatura

03.01.13

Conheci Rubem Braga a vida intei­ra.
Li Rubem Braga a vida intei­ra.
Foi, sem dúvi­da, o ser huma­no que mais admi­rei a vida intei­ra.”

 

Millôr Fernandes

 

Otto Lara Resende e Rubem Braga (dezembro de 1976)

Por pou­co Rubem Braga não sub­ver­teu a pro­fe­cia e trans­for­mou em cin­co o gru­po que Otto Lara Resende bati­zou de os “qua­tro cava­lei­ros de um ínti­mo apo­ca­lip­se”.

Nascido em 12 de janei­ro de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim, o “velho Braga”, como ele mes­mo se auto­no­me­ou tão logo se viu bacha­rel em Direito, adi­an­tou-se nove anos aos ami­gos Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, nas­ci­dos em 1922, Fernando Sabino, de 1923, e Hélio Pellegrino, o mais novo do quar­te­to, que veio ao mun­do em 1924.

A liga­ção de Rubem com esse gru­po minei­ro, que Mário de Andrade cha­mou “os vin­ta­nis­tas”, come­çou, ain­da que de for­ma indi­re­ta, em 1931, quan­do o então rapa­zi­nho capi­xa­ba de 18 anos che­gou a Belo Horizonte. Naquela épo­ca, os “vin­ta­nis­tas” eram meni­nos, nem sonha­vam com jor­nal, mas na déca­da de 1940 fre­quen­ta­ri­am as mes­mas reda­ções em que Rubem bri­lhou, entre as quais a do Diário da Tarde. Nesse jor­nal da capi­tal minei­ra o estre­an­te saiu-se, para espan­to dos reda­to­res, mag­ni­fi­ca­men­te bem no tema pou­co sedu­tor que lhe foi dado: a pri­mei­ra expo­si­ção de cães da cida­de. O reco­nhe­ci­men­to por par­te dos edi­to­res foi ime­di­a­to, e em pou­co tem­po ele seria con­vi­da­do para cola­bo­rar no pres­ti­gi­o­so Estado de Minas. Mais pare­cen­do vete­ra­no, ali o foca pavi­men­tou o cami­nho de um jor­na­lis­mo que con­ju­ga­va rigor de dados com esti­lo leve, desem­po­la­do, dife­ren­te do que se fazia na épo­ca, em Minas Gerais, e, sem saber, pre­pa­rou o ter­re­no onde depois pisa­ria o quar­te­to minei­ro.

No ano seguin­te à sua che­ga­da a Belo Horizonte, Rubem Braga ini­ci­a­va sua atu­a­ção de repór­ter de guer­ra: pode-se ima­gi­nar o que deve ter repre­sen­ta­do para um jovem de 19 anos ser envi­a­do à cida­de minei­ra de Passa Quatro a fim de cobrir a Revolução Constitucionalista, que estou­ra­va em São Paulo e se espa­lha­va na fron­tei­ra com Minas, em 1932. Foi isso o que fez o Estado de Minas, for­jan­do, em um con­fli­to limi­ta­do, o futu­ro cor­res­pon­den­te bra­si­lei­ro na Itália, na Segunda Guerra Mundial.

Viajando, como era de seu gos­to, e per­ma­ne­cen­do meses em algu­mas reda­ções pelo país, Rubem Braga foi exer­cen­do o seu ban­do­lei­ris­mo do bem: cons­truin­do ami­za­des e pra­ti­can­do um jor­na­lis­mo espe­ci­a­lís­si­mo. Tornou-se conhe­ci­do no Rio des­de 1936, quan­do, pela pres­ti­gi­o­sa José Olympio, lan­çou seu pri­mei­ro livro de crô­ni­cas, O con­de e o pas­sa­ri­nho. Não demo­rou a ser sagra­do sabiá, o Sabiá da Crônica, ape­li­do que lhe caiu como uma luva, dado por Sérgio Porto, o humo­ris­ta Stanislaw Ponte Preta.

Era natu­ral que, no Rio, se jun­tas­se àque­les rapa­zes, os vin­ta­nis­tas de Belo Horizonte, que desem­bar­ca­ram na capi­tal do Brasil ao lon­go da déca­da de 1940, com exce­ção de Hélio, o mais novo, que che­ga­ria por últi­mo. O encon­tro com a tur­ma dos minei­ros se deu gra­da­ti­va­men­te: pri­mei­ro nas famo­sas reu­niões da casa de Aníbal Machado, onde, aos domin­gos, se jun­ta­vam pes­so­as do mun­do das letras e das artes, entre as quais Tonia Carrero, que, com sua bele­za eston­te­an­te, tira­va todo o mun­do do sério. Entre esse todo o mun­do, Rubem Braga, como se verá adi­an­te.

Alguns des­se gru­po assu­mi­ram a tare­fa de recep­ci­o­nar Pablo Neruda em sua visi­ta ao Rio, em agos­to de 1945. A eles se jun­tou Braga, que não dei­xa­ria de dedi­car um exem­plar de seu recém-publi­ca­do Morro do iso­la­men­to ao visi­tan­te. O livro, que nun­ca deve ter che­ga­do às mãos do poe­ta, hoje está na bibli­o­te­ca de Otto Lara Resende. Não se pode pen­sar que Neruda tenha recu­sa­do a lem­bran­ça. O mais pro­vá­vel é que, nas roda­das de uís­que na casa de Vinicius de Moraes, ou nos bares da cida­de onde o gru­po fes­te­ja­va o poe­ta chi­le­no, o Morro cor­reu de mão em mão, e Otto, que não só era gran­de con­ver­sa­dor como bom guar­da­dor, o con­ser­va­ria.

Dando um sal­to adi­an­te no tem­po para 1982, quan­do saiu a ree­di­ção que reú­ne os dois livros, O con­de e o pas­sa­ri­nho e Morro do iso­la­men­to, ori­gi­nal­men­te publi­ca­da em 1961, o autor cra­vou, na dedi­ca­tó­ria, brin­can­do com a gra­fia e usan­do da inti­mi­da­de que a essa altu­ra era gran­de: “Otto — Oh, juven­tu­de — estúr­dia, tão levi­a­na e feroz, quem môla dera revi­ver! Aí vão os gri­tos e sus­sur­ros d’antanho — com um abra­ço já meio bro­xa do Rubem. Rio, out. [1]982”.

Rubem Braga ligou-se a cada um dos minei­ros de for­ma dife­ren­te: em Paulo Mendes Campos, que ele cha­ma­va de Pablito Menendez, encon­trou um par­cei­ro que o aju­da­ria na orga­ni­za­ção de suas futu­ras cole­tâ­ne­as de crô­ni­cas. Com Fernando Sabino ele cri­ou, em 1960, a Editora do Autor, de exce­len­te catá­lo­go, e, com Otto, ele aper­tou os laços de afe­to. A esse ami­go, que decla­ra­va sofrer de “cocaí­na pos­tal”, Rubem se ligou de tal modo que, quan­do um dos dois saía do Rio, as car­tas ou car­tões se impu­nham; devi­am subs­ti­tuir con­ver­sas ou obser­va­ções ligei­ras. Fosse por um assun­to gra­ve ou por uma sim­ples brin­ca­dei­ra, a comu­ni­ca­ção era indis­pen­sá­vel.

De Paris, onde este­ve em 1950 como cor­res­pon­den­te do Correio da Manhã, Rubem escre­veu ao ami­go impres­si­o­na­do com uma frei­ri­nha tão nova, gen­til e ale­gre, a quem ele com­pra­ra uma lito­gra­fia de Matisse. Não podia dei­xar de con­tar a Otto que a reli­gi­o­sa o fize­ra se lem­brar dos ver­sos do sone­to “Cristianismo”, de Raul de Leoni, trans­cri­tos de cor, na car­ta, e cujos dois ter­ce­tos expres­sam o dese­jo do poe­ta de

Um cris­ti­a­nis­mo sem renún­cia e sem mar­tí­ri­os,
Sem a pure­za melan­có­li­ca dos líri­os,
Temperado na gra­ça natu­ral…

Cristianismo de bom humor, que não exis­te,
Onde a Tristeza fos­se um peca­do veni­al,
Onde a Virtude não pre­ci­sas­se ser tris­te…

Um cris­ti­a­nis­mo bem… Rubem Braga, afi­nal: “Tenho boa memó­ria para ver­sos e ami­za­des — o res­to, com a gra­ça de Deus, pro­cu­ro esque­cer — e que o Diabo o car­re­gue, a esse res­to”, fina­li­za ele essa car­ta.

Viajante por natu­re­za, em 4 de junho de 1955 esta­va ele em Santiago, Chile.  Tinha sido nome­a­do em maio daque­le ano pelo pre­si­den­te Café Filho para o car­go de che­fe do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial na embai­xa­da do Brasil na capi­tal chi­le­na. Bem ao con­trá­rio do ide­al de ser vaga­bun­do que ele gos­ta­va de apre­go­ar, vivia mes­mo era “guer­re­an­do e pele­jan­do”, como decla­ra­va nes­sa car­ta a “Otto, meu lin­do!”, evo­can­do Camões, sem per­der a chan­ce de bar­ga­nhar:

Ah, se você me escre­ves­se uma car­ta gran­de, sucu­len­ta, con­tan­do coi­sas de polí­ti­ca e prin­ci­pal­men­te coi­sas pes­so­ais, as últi­mas do Bloch, fatos refe­ren­tes a mulhe­res, boa­tos idem — tudo o que Ibrahim não publi­ca e Castello não sabe! Faça isto, lhe man­da­rei vinhos.

Não foi no Chile sua úni­ca expe­ri­ên­cia no Itamaraty. Nomeado embai­xa­dor no Marrocos em 1961, ele seguiu para Rabat, a impe­ri­al capi­tal do país. E o que é curi­o­so: mes­mo ocu­pan­do fun­ções diplo­má­ti­cas, Braga man­te­ve-se fiel à sua fama de “urso” e con­se­guiu a pro­e­za de jamais ter fei­to um dis­cur­so duran­te suas mis­sões — gaba­va-se ele em car­ta a Otto.

O bom mes­mo era ser repór­ter, e foi como repór­ter que, em 1956, ele via­jou para Washington, envi­a­do da Manchete e do Diário de Notícias, a fim de cobrir a elei­ção pre­si­den­ci­al em que se ele­geu Eisenhower. Do Gorham Hotel, em Nova York, ele escre­veu a Otto, encan­ta­do com a cida­de:

Só mes­mo estan­do aqui a gen­te pode sen­tir até que pon­to isto é a capi­tal do mun­do e o res­to todo é subúr­bio e pro­vín­cia. Ficarei aqui todo o tem­po que puder, pois só ago­ra estou desas­nan­do meu inglês; tive uma sor­te fan­tás­ti­ca em arran­jar uma lin­da ame­ri­ca­na, jovem, bela, altís­si­ma, com quem estou estrei­tan­do os tra­di­ci­o­nais laços de ami­za­de entre Cachoeiro, Espírito Santo e Orlando, Califórnia.

Entre 1957 e 1959 foi Otto quem saiu do Brasil: mudou-se com a famí­lia para Bruxelas, a Bruxa, como ele dizia. Era adi­do cul­tu­ral na embai­xa­da do Brasil, na capi­tal bel­ga. De lá, rece­bia as car­tas de Rubem Braga, car­tas afe­tu­o­sas, engra­ça­das, que podi­am come­çar assim: “Otto, filhi­nho, que o bom Deus o pro­te­ja”. Reencontraram-se depois, não só nas visi­tas pes­so­ais, fra­ter­nas, como na Manchete, onde tra­ba­lha­ram jun­tos. Quando, exa­ta­men­te dez anos depois, Otto assu­miu outro pos­to de adi­do cul­tu­ral, des­sa vez em Lisboa, onde ficou de 1967 a 1969, Rubem Braga, do Rio, escre­via a “Otto, ché­ri”, dizen­do da fal­ta que o ami­go lhe fazia e, com o bom humor cos­tu­mei­ro, dava notí­ci­as de Hélio Pellegrino:

Quem mais bri­lha é Hélio Pellegrino, ide­al das mulhe­res cari­o­cas, belo herói de rua enfei­ti­çan­do jovens cora­ções e fazen­do bater os mais doces pei­tos. De você pou­co se fala: mor­reu, fodeu-se, como dizia Freud, e a ausên­cia tam­bém é uma mor­te pro­vi­só­ria. Outro dia eu comen­ta­va isso com Fernando — que, para gran­de espan­to meu, des­co­bri que é pos­sí­vel sobre­vi­ver sem Otto e as mil coi­sas para as quais o Otto era impres­cin­dí­vel já estão sen­do alcan­ça­das sem Otto, coi­sas que só se obti­nham via Otto são obti­das por outras vias ou então não, e afi­nal não fazem fal­ta. Em suma, o Brasil fun­ci­o­na sem Otto! Aunque mal, como dizia Sarmiento.

“Bom mes­mo é vadi­ar”, gos­ta­va de dizer Rubem Braga — é Otto quem con­ta no autor­re­tra­to “Quem é Otto Lara Resende?”, incluí­do na cole­tâ­nea de per­fis que escre­veu e que Ana Miranda orga­ni­za­ria sob o títu­lo O prín­ci­pe e o sabiá, em 1994. No entan­to, todo o dese­jo de vadi­ar de Braga ficou nos ver­sos de “Adeus”, que Manuel Bandeira incluiu na sua Antologia de poe­tas bra­si­lei­ros bis­sex­tos con­tem­po­râ­ne­os, de 1946:

Já não que­ro mais cida­de
Onde tem mui­ta pri­são
E nenhu­ma liber­da­de.
Nem que­ro ser lavra­dor.
Eu que­ro ser vaga­bun­do,
Mas de espin­gar­da na mão.
Se pre­ci­sar tra­ba­lhar
Mudo sem­pre de patrão.

Além de “Adeus”, Bandeira incluiu tam­bém, nes­sa edi­ção, mais duas com­po­si­ções de Braga: “Senhor, senhor!” e o sone­to “Tarde”, este com uma his­tó­ria um tan­to mis­te­ri­o­sa.

A ori­gem do sone­to está par­ci­al­men­te con­ta­da na bio­gra­fia Rubem Braga: um ciga­no fazen­dei­ro do ar, de Marco Antonio de Carvalho. Segundo o bió­gra­fo, foi em Paris, para onde Rubem fora envi­a­do em 1947 como cor­res­pon­den­te de O Globo, que ele encon­trou Tonia Carrero, em visi­ta à capi­tal fran­ce­sa com o mari­do, Carlos Thiré. No cená­rio pari­si­en­se, cor­res­pon­den­te e atriz se apai­xo­na­ram e deram iní­cio ao roman­ce. De vol­ta ao Rio, ape­sar da resis­tên­cia dela, que já não que­ria mais viver aque­la situ­a­ção clan­des­ti­na, con­ti­nu­a­ram a viver a pai­xão: o dese­jo era inten­so, as cigar­ras can­ta­vam exas­pe­ra­das, como tra­du­zem os ver­sos de “Tarde”. O sone­to teria sido com­pos­to depois de um dos encon­tros dos aman­tes, que, ain­da segun­do o bió­gra­fo, acon­te­ci­am em um apar­ta­men­to do Leblon.

E quan­do nós saí­mos era a Lua,
Era o ven­to caí­do, o mar sere­no
Azul e cin­za azul anoi­te­cen­do
A tar­de tris­te das amen­do­ei­ras.

E res­pi­ra­mos livres das ardên­ci­as
Do sol que nos leva­ra à som­bra cau­ta,
Tangidos pelo can­to das cigar­ras
Dentro e fora de nós exas­pe­ra­das.

Andamos em silên­cio pela praia.
Nos cor­pos leves e lava­dos ia
O sen­ti­men­to do pra­zer cum­pri­do.

— Se mágoa me ficou, na des­pe­di­da,
Não fez mal que ficas­se, nem does­se;
Era bem doce, per­to das anti­gas.

Parece que pas­sou des­per­ce­bi­do até hoje o fato de que,

na pri­mei­ra edi­ção da Antologia, de 1946, abai­xo do títu­lo des­se sone­to, vê-se a infor­ma­ção, à direi­ta: (de Nuñez Aguirre). Conclui-se, então, que se tra­ta­va de uma tra­du­ção fei­ta por Rubem Braga. Mas quem seria Nuñez Aguirre, sobre­no­me tão comum na América Latina, equi­va­len­te a um Sousa Silva no Brasil? Era sim­ples­men­te um pseudô­ni­mo de Rubem Braga que, naque­le ano, ain­da casa­do com Zora Seljan, não pode­ria assi­nar o sone­to sob ris­co de denun­ci­ar a trai­ção com Tonia Carrero. Por suges­tão do poe­ta pana­me­nho Homero Icaza Sánchez, que­ri­do ami­go de Manuel Bandeira e futu­ro homem da pes­qui­sa de opi­nião públi­ca que, por seus acer­tos espan­to­sos, fica­ria conhe­ci­do com El Brujo, com­bi­nou-se, em meio a mui­tos risos, que recor­re­ri­am ao arti­fí­cio de dar ao sone­to a auto­ria de um nome espa­nhol, do qual Braga, supos­ta­men­te, seria o tra­du­tor. O pla­no foi exe­cu­ta­do e o livro publi­ca­do. A segun­da edi­ção da Antologia sai­ria 18 anos depois, em 1964, quan­do Rubem e Zora já esta­vam sepa­ra­dos. Dessa for­ma, o nome de Nuñez Aguirre já não apa­re­ce nes­sa edi­ção nem nas seguin­tes, assim como não cons­ta do livro de Rubem Braga, Versos, de 1980, em que a com­po­si­ção, atri­buí­da a seu legí­ti­mo autor e data­da de 1947, sai com o títu­lo sim­ples de “Soneto”.

Fora da poe­sia, Manuel Bandeira fica­va pre­o­cu­pa­do quan­do encon­tra­va ape­nas “três dedos de pro­sa” de Rubem Braga na segun­da pági­na do pri­mei­ro cader­no do Diário de Notícias, onde o Sabiá da Crônica escre­via em 1958: “O velho Braga anda pre­gui­ço­so”, temia Bandeira. Mas a pre­o­cu­pa­ção dura­va pou­co. No tex­to cur­to, o poe­ta de Pasárgada logo reco­nhe­cia mais uma peque­na obra-pri­ma, como acon­te­ceu na expe­ri­ên­cia que rela­ta em “O pavão de Braga”, de Andorinha, ando­ri­nha. Nessa crô­ni­ca — Bandeira tam­bém foi mes­tre no gêne­ro -, ele afir­ma que a supe­ri­o­ri­da­de de Braga sobre outros cro­nis­tas está em “pôr sem­pre no que escre­ve o melhor de cer­ta sua ine­fá­vel poe­sia”. Os outros cro­nis­tas — con­ti­nua Bandeira -

põem tam­bém poe­sia nas suas crô­ni­cas, mas é o refu­go, poe­sia bara­ta, vul­gar­men­te sen­ti­men­tal… A boa, eles guar­dam para os seus poe­mas. Braga, poe­ta sem ofi­ci­na mon­ta­da e que faz poe­mas uma vez na vida e outra na mor­te, des­car­re­ga os seus bál­sa­mos e os seus vene­nos na crô­ni­ca diá­ria.

Um des­ses bál­sa­mos se encon­tra em “Homem no mar”, por meio da soli­da­ri­e­da­de anô­ni­ma do autor/narrador que, da sua famo­sís­si­ma cober­tu­ra de Ipanema, acom­pa­nha, com um mis­to de ago­nia e admi­ra­ção, um homem que nada­va no mar. O tex­to como­ve pela soli­da­ri­e­da­de a um só tem­po vibran­te e anô­ni­ma do espec­ta­dor dian­te daque­le des­co­nhe­ci­do que nada. O cro­nis­ta pren­de a res­pi­ra­ção nos momen­tos em que o nada­dor desa­pa­re­ce, enco­ber­to pelo telha­do de um pré­dio vizi­nho, e exul­ta ao vê-lo res­sur­gir adi­an­te, con­ti­nu­an­do seu cami­nho, vito­ri­o­so. Compartilha daque­la aven­tu­ra pro­fun­da e humil­de­men­te, em silên­cio, e ter­mi­na assim:

Agora não sou mais res­pon­sá­vel por ele; cum­pri o meu dever, e ele cum­priu o seu. Admiro-o. Não con­si­go saber em que resi­de, para mim, a gran­de­za de sua tare­fa; ele não esta­va fazen­do nenhum ges­to a favor de alguém, nem cons­truin­do algo de útil; mas cer­ta­men­te fazia uma coi­sa bela, e a fazia de modo puro e viril.

Bálsamos à par­te, e são inú­me­ros na sua obra, o cro­nis­ta teria uma jus­ti­fi­ca­ti­va para a opi­nião de Manuel Bandeira, segun­do o qual ele, Braga, é “sem­pre bom e, quan­do não tem assun­to, então é óti­mo”. Na crô­ni­ca “Faço ques­tão do cór­re­go”, de As boas coi­sas da vida, expli­ca bem o Velho Braga: “Às vezes a gen­te pare­ce que fin­ge que tra­ba­lha; o lei­tor lê a crô­ni­ca e no fim che­ga à con­clu­são de que não temos assun­to. Erro dele. Quando não tenho nenhum fre­te a fazer, sem­pre car­re­go algu­ma coi­sa, que é o peso de minha alma; e olhem que não é pou­co”.

Desse modo, con­ti­nu­ou ele não só a publi­car suas crô­ni­cas como a ree­di­tar seus livros. É o que mos­tra a sex­ta edi­ção de Ai de ti Copacabana, de 1981, cujo exem­plar na bibli­o­te­ca do ami­go tem a seguin­te dedi­ca­tó­ria: “Para o Otto, a bun­da da mulher da capa e um abra­ço do Rubem. Rio, mar­ço, 1981” .

Se Otto não teve, como sonhou, o dom de dese­nhar, “de fazer algu­ma coi­sa com as mãos”, tra­çou, usan­do as teclas de sua máqui­na de escre­ver, vivos per­fis de ami­gos e não ami­gos, em O prín­ci­pe e o sabiá, títu­lo da crô­ni­ca que escre­veu por oca­sião dos 70 anos de Rubem Braga, em 1983, e que dá títu­lo ao livro. Inicia assim: “Há meio sécu­lo, em 1932, Rubem Braga, na flor dos vin­te e um anos, mal che­ga­do à mai­o­ri­da­de, colou grau na Escola de Direito de Belo Horizonte”.

Rubem fez uma lei­tu­ra rigo­ro­sís­si­ma do tex­to e, ao final, não pou­pou o ami­go. Escreveu-lhe fazen­do os repa­ros que jul­gou per­ti­nen­tes, a come­çar por sua ida­de, que  Otto teria con­fun­di­do: “Você mes­mo infor­ma que eu nas­ci em 1913, o que me dá, em 1932, não mais de 19 anos”, escre­ve, con­tes­tan­do os dados do per­fil. E segue com outras obser­va­ções, dis­po­ní­veis a todo pes­qui­sa­dor inte­res­sa­do no arqui­vo de Otto, sob a guar­da do Instituto Moreira Salles des­de 1994.

Mas os dados bio­grá­fi­cos eram o de menos. O melhor é a fina aná­li­se que o autor do per­fil desen­vol­ve:

Porque sem­pre escre­veu na impren­sa, de Rubem Braga se diz que é um cro­nis­ta — o prín­ci­pe da crô­ni­ca. Mas que é a crô­ni­ca? Aqui a por­ca tor­ce o rabo em dis­cus­sões bizan­ti­nas. […] Mas vá ler Rubem Braga e veja quan­tos livros ele escre­veu com esse ar son­ga­mon­ga de quem está se lixan­do para as galas aca­dê­mi­cas. Exemplares, den­sos, com­ple­tos. Livros que falam de ale­gri­as e tris­te­zas. […] Caráter viril, o seu tan­to urso, ami­go da soli­dão e do con­ví­vio, com um tem­pe­ra­men­to que traz escon­di­do um supe­tão meio brus­co, Rubem Braga escre­ve de mão­zi­nha leve e alma de moça.&³1;

Otto não exa­ge­rou, assim como não supe­res­ti­mou o talen­to do ami­go quan­do, na ore­lha que escre­veu para As boas coi­sas da vida, de 1988, afir­mou que Rubem Braga, “opos­to de tudo que fos­se afe­ta­ção ou arti­fi­ci­a­lis­mo, […] alcan­çou a uni­ver­sa­li­da­de que só os gran­des alcan­çam”. Na segun­da edi­ção, de 1989, o mes­mo tex­to da ore­lha pas­sa a ser uma espé­cie de apre­sen­ta­ção (pas­sa de ore­lha a pei­to­ral, como se lê na dedi­ca­tó­ria), antes do belo pre­fá­cio, que é de Paulo Mendes Campos, inti­tu­la­do “Assim can­ta o sabiá”.

No mes­mo ano do lan­ça­men­to de As boas coi­sas, viria um reco­nhe­ci­men­to de onde o autor tal­vez não espe­ras­se: Rachel de Queiroz lhe con­tou que, com entu­si­as­ma­do apoio de Barbosa Lima Sobrinho, cogi­ta­va-se o nome de Rubem Braga para o prê­mio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo con­jun­to da obra. Não se sabe por que, a ideia não foi adi­an­te: o ganha­dor do prê­mio em 1988 foi o poe­ta Dante Milano e, em 1989, Gilberto Mendonça Telles. De qual­quer modo, não será intei­ra­men­te absur­do pen­sar que ele se livrou de uma afli­ção. Se, por um lado, a ideia do prê­mio o des­va­ne­ceu, não dei­xou de apa­vo­rá-lo, como se lê na car­ta que ele escre­veu ao ami­go:

Mas, Otto, a sim­ples ideia de ir à Academia rece­ber o prê­mio me dei­xou inso­ne e infe­liz. O gran­de argu­men­to a favor seria a boa reper­cus­são que isso teria em Cachoeiro de Itapemirim. […] Consegui ser adi­do comer­ci­al no Chile e, depois, embai­xa­dor no Marrocos sem pro­nun­ci­ar um só dis­cur­so. Sei que é um defei­to gra­ve, que um ana­lis­ta como o nos­so Pellegrino tal­vez pudes­se cor­ri­gir. Mas ago­ra é tar­de — um pou­co tar­de para tudo.

A mor­te, que ame­a­çou Rubem Braga em 1969, quan­do lhe apa­re­ceu um nódu­lo no pul­mão direi­to, só che­ga­ria em 19 de dezem­bro de 1990. No entan­to, des­de o pri­mei­ro sinal, ele já se mos­tra­ra sere­no em rela­ção à che­ga­da da “Indesejada das gen­tes”, para usar a expres­são ban­dei­ri­a­na. Estava pre­pa­ra­do e escre­via a Otto em julho daque­le 1969, 21 anos antes de mor­rer:

No meu caso basi­ca­men­te a ideia da mor­te é um con­so­lo, fim de todo dese­jo, cha­te­a­ção, con­tra­ri­e­da­de, prin­ci­pal­men­te todo pro­ble­ma e de toda dor. A gen­te sen­te uma supe­ri­o­ri­da­de tão mis­tu­ra­da de infe­ri­o­ri­da­de que é engra­ça­do: as coi­sas dei­xam de impor­tar à gen­te, em com­pen­sa­ção a gen­te sen­te que elas estão pou­co ligan­do para a gen­te. […] As anti­gas ama­das pro­ce­de­ram bem. Quem paga­rá enter­ro e as flo­res? Destas, sur­pre­en­den­te­men­te rece­bi: pal­mas ama­re­las da Nelita, rosas ama­re­las do José Olympio, rosas ver­me­lhas da Ilka Soares — duas damas com as quais jamais tive rela­ções de amor, mas que usam essa for­ma de gen­ti­le­za que aliás é feliz por­que subs­ti­tui a visi­ta físi­ca.

Conta Helena Lara Resende, viú­va de Otto, que, estra­nha­men­te, depois da mor­te de Rubem Braga, um pas­sa­ri­nho bica­va, com regu­la­ri­da­de e duran­te mui­to tem­po, a jane­la de vidro da casa onde o casal mora­va, na Gávea. E que Otto dizia, meio diver­ti­do, meio sério: “Isso é o Rubem que vem me bus­car”. Imagina-se com que gra­vi­da­de fala­va, logo ele, que mais de uma vez afir­ma­va, em entre­vis­ta: “Mas no fun­do o úni­co assun­to é mes­mo a mor­te. O res­to é pai­sa­gem”. Otto mor­reu em 28 de dezem­bro de 1992, dois anos depois do ami­go.

Rubem Braga, que ima­gi­nou virar nome de “uma rua qual­quer de subúr­bio, meio cal­ça­da, meio des­cal­ça, que come­ça num bote­quim e aca­ba num capin­zal, e tem um cór­re­go do lado”, hoje dá nome a ruas de nor­te a sul do país e a mui­tas esco­las. Sem con­tar que, na sua Cachoeiro de Itapemirim, exis­te a Casa dos Braga e o Teatro Municipal Rubem Braga.

Veja cari­ca­tu­ras de Otto Lara Resende fei­tas por Rubem Braga:

NOTAS:

&³1; “O prín­ci­pe e o sabiá”, in: O prín­ci­pe e o sabiá, p. 215.