Cruz e delícia para o coração

Música

02.04.12

Sábado, 24 de mar­ço, ter­cei­ra réci­ta da ópe­ra La Traviata, de Verdi, no Teatro Municipal de São Paulo. Tendo lido pou­co a res­pei­to da mon­ta­gem, ape­nas saben­do que refor­mu­la­va o tem­po e o espa­ço da his­tó­ria, fui à apre­sen­ta­ção con­ser­va­do­ra­men­te des­con­fi­a­do: eu temia aque­las moder­ni­ces que metem os pés pelas mãos. Para sor­te de todos nós que lota­mos o Municipal, a ence­na­ção fun­ci­o­nou nes­se dia de modo arre­ba­ta­dor. E trou­xe à ordem do dia o nome de uma sopra­no cuja téc­ni­ca ten­de somen­te a apri­mo­rar-se a cada tem­po­ra­da pelas casas do mun­do afo­ra.

Ato pri­mei­ro: o pal­co míni­mo

Com libre­to escri­to por Francesco Maria Piave e músi­ca com­pos­ta por Giuseppe Verdi, a ópe­ra — de 1853 — ins­pi­ra-se no roman­ce A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. A his­tó­ria de suplí­cio e reden­ção da pros­ti­tu­ta Marguerite Gauthier, aqui com o nome de Violetta Valéry, ganha com a músi­ca de Verdi con­tor­nos pre­ci­sos para ser expres­sa como uma jor­na­da de puri­fi­ca­ção e alcan­ce de sen­ti­men­tos ele­va­dos. Consciente de que mor­re­rá viti­ma­da pela tuber­cu­lo­se, a per­so­na­gem rejei­ta os pra­ze­res para tor­nar-se már­tir e hon­rar o seu amor ver­da­dei­ro pelo jovem Alfredo Germont.

São esses sen­ti­men­tos e tran­si­ções que pare­cem inte­res­sar ao dire­tor cêni­co Daniele Abbado, ao cenó­gra­fo Angelo Linzalata e à figu­ri­nis­ta Colomba Leddi. O trio de ita­li­a­nos lim­pa a cena e os intér­pre­tes do peso que móveis e rou­pas do sécu­lo 19 tra­ri­am. O pal­co, pro­vi­do do míni­mo de obje­tos, encon­tra-se incli­na­do, um decli­ve em dire­ção à pla­teia. Em dire­ção ao fun­do, tería­mos ascen­são; rumo ao fos­so da orques­tra, dá-se a que­da.

Impressiona a liber­da­de de movi­men­to que os per­so­na­gens podem explo­rar. O espa­ço amplo que os envol­ve per­mi­te que nos con­cen­tre­mos nos can­to­res e na músi­ca, sem nos dis­trair­mos com ade­re­ços e ele­men­tos supér­flu­os. Não é a pri­mei­ra vez, é cla­ro, que La Traviata se des­pe — com o per­dão do tro­ca­di­lho — da mar­ca­ção de épo­ca. Apenas como refe­rên­cia e sem inten­ção de fazer com­pa­ra­ções, abai­xo segue a aber­tu­ra da ópe­ra em mon­ta­gem apre­sen­ta­da no Festival de Salzburgo de 2005, com dire­ção cêni­ca de Willy Decker e cená­rio e figu­ri­nos de Wolfgang Gussmann:

http://www.youtube.com/watch?v=YlYZZRMUsCg

Ato segun­do: uma diva, Irina Dubrovskaya

Nas réci­tas dos dias 22 e 24 de mar­ço, o Teatro Municipal de São Paulo conhe­ceu segu­ra­men­te um nome que dese­ja­rá ver mais vezes: Irina Dubrovskaya. Nascida em 1981, a jovem sopra­no rus­sa foi diver­sas vezes aplau­di­da em cena, obri­gan­do o maes­tro Abel Rocha a retar­dar a reto­ma­da de algu­mas sequên­ci­as. E não era para menos. Sua pró­pria expe­ri­ên­cia no papel de Violetta Valéry e a ence­na­ção inte­li­gen­te cri­a­ram as con­di­ções ide­ais para que sua voz e pre­sen­ça cêni­ca se impu­ses­sem. Não foi ape­nas de bele­za físi­ca que se compôs sua per­so­na­gem: a cada ária (“Ah, fors è lui”/“Sempre libe­ra”) ou due­to (com o tenor Roberto de Biasio), fica­va cada vez mais cla­ro que a noi­te era sua. O seu sim­ples ves­ti­do bran­co, do come­ço ao fim da ópe­ra, dava-lhe leve­za; e à per­so­na­gem, a sim­bo­lo­gia da puri­fi­ca­ção.

Sem dúvi­da, Irina vem cole­ci­o­nan­do suces­sos. No vídeo abai­xo, vemos a can­to­ra — mes­mo sem uma boa dire­ção e com figu­ri­no de gos­to duvi­do­so — exi­bir a sua voz para ser ova­ci­o­na­da em outra mon­ta­gem de La Traviata, apre­sen­ta­da em Savona, Itália, em 2010:

http://www.youtube.com/watch?v=w-9gxLQ5G4E

Ato ter­cei­ro: outras vozes

Nos pró­xi­mos dias, duas outras sopra­nos pros­se­guem a repre­sen­ta­ção de Violetta Valéry: Adriane Queiroz (fazen­do par com Marcello Vannucci) e Rosana Lamosa (esta com Fernando Portari). São qua­tro nomes da pri­mei­ra linha dos can­to­res líri­cos bra­si­lei­ros, que pode­rão ser vis­tos nas réci­tas dos dias 31/3, 1, 3, 5 e 7/4 (cli­que aqui para saber mais sobre horá­ri­os e ingres­sos).

Benditos os que sabem reno­var as lin­gua­gens cêni­cas e nos fazem res­pi­rar oxi­gê­nio novo. Quando, can­sa­dos ou atro­fi­a­dos pela sen­sa­ção de um mais do mes­mo, nos depa­ra­mos com um espe­tá­cu­lo ines­pe­ra­do, pode­mos vol­tar para casa mais leves, repen­san­do a vida e o amor e can­ta­lo­ran­do a for­ça da músi­ca de Verdi. Como a melo­dia do due­to “Un di, feli­ce” — em que se fala sobre “cro­ce e deli­zia al cor” (“cruz e delí­cia para o cora­ção”) -, abai­xo inter­pre­ta­do por Luciano Pavarotti e Joan Sutherland. A gra­va­ção é de 1979:

http://www.youtube.com/watch?v=Saoc0RMAKuk

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: foto de Sylvia Masini da ópe­ra La Traviata.

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