Daniel Mordzinski e a pose do escritor

Literatura

20.03.13

Conheci o fotó­gra­fo argen­ti­no Daniel Mordzinski em 2007. Nesse ano, ele me foto­gra­fou des­cal­ço e len­do uma revis­ta de mulher pela­da num cor­re­dor de uma livra­ria de Bogotá. No ano seguin­te, Daniel me foto­gra­fou em Cartagena das Índias com um papa­gaio no ombro. E tam­bém den­tro de um armá­rio num quar­to de hotel. Alguns meses depois, em Portugal, me foto­gra­fou num por­to ves­tin­do um capa­ce­te de moto­ci­clis­ta. Não sei se em 2009 ou 2008, na cida­de de Matosinhos, ele fez uma foto minha com dois escri­to­res espa­nhóis: Enrique Vila-Matas e José Manuel Fajardo. Nós três está­va­mos de ócu­los escu­ros e sobre­tu­do, como três dete­ti­ves de fil­me B. Depois: em Paris, uma foto numa esca­da fazen­do cara de exis­ten­ci­a­lis­ta. Em Madri, pulan­do num salão dou­ra­do da Casa America. Em Veracruz, velan­do com outros cole­gas o escri­tor mexi­ca­no Fabrizio Mejía Madrid — que esta­va vivo, cla­ro, ou a foto não faria sen­ti­do algum.

Mordzinski cha­ma essas fotos absur­das, de ins­pi­ra­ção sur­re­a­lis­ta, de “fotins­kis” — e não as tira somen­te com escri­to­res obs­cu­ros e des­pro­vi­dos de supe­re­go como eu. Ele fez Vargas Llosa escre­ver embai­xo de um len­çol, Eric Hobsbawn auto­gra­far um livro para um poo­dle, Luis Sepúlveda ves­tir luvas de boxe, Salman Rushdie apon­tar um cacho de uvas para a boca aber­ta den­tro de uma banhei­ra. Para ele, “a úni­ca manei­ra de tirar a pose de escri­tor de um escri­tor é colo­cá-lo em outra pose”.

Vejo suas fotins­kis como um comen­tá­rio irô­ni­co e bem-humo­ra­do sobre o que se trans­for­mou a vida do escri­tor: uma per­for­man­ce ambu­lan­te em pal­cos ilu­mi­na­dos — em que lei­to­res são mui­tas vezes tro­ca­dos por espec­ta­do­res que con­so­mem o dis­cur­so sobre a obra, mais que a obra em si. Não há fotó­gra­fo de escri­to­res que tenha cap­ta­do melhor o des­con­for­to e a con­tra­di­ção des­se pro­ces­so atra­vés da sua gra­má­ti­ca foto­grá­fi­ca. O escri­tor do sécu­lo XX virou um ani­mal em exi­bi­ção cujo cati­vei­ro são hotéis de luxo pelo mun­do — o retra­to dis­so está na obra de Mordzinski.

Através de suas fotisn­kis ou num for­ma­to con­ven­ci­o­nal, Daniel Mordzinski retra­ta escri­to­res há 35 anos. Esbarrar com ele num des­ses fes­ti­vais pelo mun­do não é ape­nas reen­con­trar um ami­go, mas um gran­de lei­tor e uma refe­rên­cia da lite­ra­tu­ra his­pa­no-ame­ri­ca­na. O seu pres­tí­gio pla­ne­tá­rio, que lhe garan­te expo­si­ções por toda par­te, a pon­to de che­gar a ter três simul­tâ­ne­as na Feira de Frankfurt, pare­ce ain­da não ter che­ga­do ao jor­na­lão fran­cês Le Monde. A notí­cia que che­ga é que, num caso trá­gi­co de des­ca­so, bur­ri­ce e incom­pe­tên­cia, o jor­nal des­truiu o arqui­vo do fotó­gra­fo.

Esperamos que, como num des­ses jogos de ilu­são pre­sen­tes numa fotins­ki, o arqui­vo rea­pa­re­ça por mági­ca. Esperamos tam­bém pelos pró­xi­mos 35 anos de fotos do Daniel. Não há dúvi­da que o futu­ro da lite­ra­tu­ra pas­sa­rá pela sua len­te.

J. P. Cuenca é escri­tor

A car­ta de Daniel Mordzinski no site do fotó­gra­fo

Una peti­ción a todas mis ami­gas y todos mis ami­gos, por Luis Sepúlveda

Le Monde pede des­cul­pa ao fotó­gra­fo Daniel Mordzinski pela des­trui­ção do seu arqui­vo

?Le Monde’ lamen­ta la des­truc­ción de foto­gra­fías de Daniel Mordzinski

Elogio a Daniel Mordzinski

Le Monde” et “El Pais” répon­dent à Daniel Mordzinski

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