Faltou sal a O sal da terra

No cinema

27.03.15

Um gran­de fotó­gra­fo, fil­ma­do por um gran­de cine­as­ta. Disso só pode­ria resul­tar um gran­de fil­me, cer­to? Errado. O docu­men­tá­rio sobre Sebastião Salgado assi­na­do por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (filho do fotó­gra­fo) é, no míni­mo, frus­tran­te. Faltou sal a O sal da ter­ra. Vou ten­tar expli­car por quê.

Todo docu­men­tá­rio cen­tra­do num per­so­na­gem (vivo ou mor­to), se não qui­ser ser um mero regis­tro cha­pa-bran­ca ou uma hagi­o­gra­fia, deve bus­car, a meu ver, con­tra­di­ções, ten­sões, pon­tos de atri­to nas rela­ções des­se per­so­na­gem com o mun­do que o cer­ca e, tal­vez, con­si­go mes­mo. Se o bio­gra­fa­do for autor de uma obra impor­tan­te, será inte­res­san­te dis­cu­tir essa obra em algu­ma medi­da: sua ambi­ção, sua lin­gua­gem, sua recep­ção, sua dimen­são éti­ca.

Imagem de O sal da terra

Quando se fala seri­a­men­te sobre Sebastião Salgado, dois pon­tos de con­tro­vér­sia sobres­sa­em de modo agu­do: sua apu­ra­da téc­ni­ca no uso do pre­to e bran­co, que leva a uma acen­tu­a­da este­ti­za­ção da ima­gem; e a absor­ção per­ver­sa des­ses regis­tros da des­gra­ça huma­na (fome, doen­ça, exí­lio, desas­tres natu­rais) pelo mer­ca­do de bens sofis­ti­ca­dos – a misé­ria do mun­do trans­for­ma­da em luxu­o­sos livros de arte, em cof­fee table books para ador­nar mesas e estan­tes dos abas­ta­dos.

Ética e esté­ti­ca

São ques­tões inter­li­ga­das, cla­ro, e ambas situ­a­das na con­fluên­cia entre a éti­ca e a esté­ti­ca. Não se tra­ta aqui de “ata­car” ou “cul­par” Sebastião Salgado, mas ape­nas de lamen­tar a abso­lu­ta ausên­cia des­sas pre­o­cu­pa­ções no docu­men­tá­rio de Wenders e Ribeiro Salgado. Contagiado pelo tom um tan­to new age de seu epí­lo­go – a lou­va­bi­lís­si­ma ini­ci­a­ti­va do fotó­gra­fo de reflo­res­tar e trans­for­mar em par­que públi­co as ter­ras de sua famí­lia, em Minas –, o fil­me pare­ce sur­far des­pre­o­cu­pa­da­men­te sobre os trau­mas morais, polí­ti­cos e pro­fis­si­o­nais que cer­ta­men­te com­põem a tra­je­tó­ria de um artis­ta como o bio­gra­fa­do.

Apenas a títu­lo de con­tras­te incô­mo­do (o sal que fal­ta a O sal da ter­ra), cabe lem­brar, por exem­plo, o des­ti­no do fotó­gra­fo sul-afri­ca­no Kevin Carter (1960–94), que ganhou o prê­mio Pulitzer por uma ima­gem que cor­reu o mun­do: um abu­tre ron­dan­do uma cri­an­ça famé­li­ca no Sudão. Semanas depois de con­quis­tar repen­ti­na fama e for­tu­na, Carter sucum­biu a seus fan­tas­mas e se sui­ci­dou aos 34 anos.

A famosa fotografia do abutre rondando uma criança, de Kevin Carter

Quanto às téc­ni­cas de Sebastião Salgado, até mes­mo um docu­men­tá­rio mais modes­to, como Revelando Sebastião Salgado (2012), de Betse de Paula, traz mais infor­ma­ções. (Ele diz, entre outras coi­sas, que seu pen­dor pela con­tra­luz veio prin­ci­pal­men­te de sua neces­si­da­de de pro­te­ger do sol a pele mui­to bran­ca.)

O sal da ter­ra, a rigor, pode­ria ser assi­na­do pelo pró­prio Sebastião Salgado. Pois não se vê nele nenhu­ma mar­ca auto­ral de Wim Wenders, e menos ain­da de Juliano Ribeiro Salgado. Os dire­to­res ape­nas segu­ram a câme­ra para o fotó­gra­fo cons­truir dian­te dela sua autoi­ma­gem edi­fi­can­te. Repito: não se tra­ta de que­rer ata­car essa ima­gem, mas de pro­ble­ma­ti­zá-la, apro­fun­dá-la, enri­que­cê-la.

Homens e ursos

O crí­ti­co Carlos Alberto Mattos comen­tou acer­ta­da­men­te que o tema de O sal da ter­ra con­vi­ria mais a Werner Herzog do que a seu cole­ga Wim Wenders – e essa ideia vem à men­te na pas­sa­gem em que Salgado e seu filho veem-se às vol­tas com um urso, que reme­te ine­vi­ta­vel­men­te ao Homem-urso (2005) de Herzog.

Lembrei mais ain­da de Herzog no momen­to em que Salgado exi­be e comen­ta as fotos que fez de um gori­la supos­ta­men­te encan­ta­do e envai­de­ci­do ao ver-se refle­ti­do na len­te da câme­ra. Há ali uma atri­bui­ção de carac­te­rís­ti­cas huma­nas ao ani­mal, uma pro­je­ção antro­po­mór­fi­ca que seria no míni­mo pos­ta sob des­con­fi­an­ça por Herzog. Para este, à dife­ren­ça de Wenders, a natu­re­za não é mãe, é madras­ta, e o ani­mal sel­va­gem não vê o homem como “ami­go”, mas como um estra­nho estor­vo – e pos­sí­vel ame­a­ça.

Wenders, aqui, empres­ta pou­co mais que sua voz (em uma par­te da locu­ção) e sua gri­fe a essa auto­cons­tru­ção de Salgado como um artis­ta-eco­lo­gis­ta ilu­mi­na­do e em har­mo­nia com o mun­do. Para quem não exi­ge mui­to, é o que bas­ta: um docu­men­tá­rio agra­dá­vel de ver, que não cau­sa dema­si­a­da inqui­e­ta­ção e que ter­mi­na com uma nota oti­mis­ta – sem falar, cla­ro, das ima­gens impres­si­o­nan­tes, aca­cha­pan­tes, extra­or­di­ná­ri­as, pro­du­zi­das pelo fotó­gra­fo ao redor do pla­ne­ta. O fil­me ganhou prê­mi­os, foi indi­ca­do ao Oscar, tudo meio por inér­cia: afi­nal, o binô­mio Salgado + Wenders é meio cami­nho anda­do. Faltou a outra meta­de.

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