Imagens eternizadas

Fotografia

27.12.12

A con­vi­te do Blog do IMS, Bruno Magalhães comen­ta a sua foto­gra­fia favo­ri­ta do livro Magnum — Contatos.

Poder nave­gar pelas folhas de con­ta­tos da Agência Magnum é real­men­te uma expe­ri­ên­cia úni­ca. Desvendar um ambi­en­te ínti­mo dos fotó­gra­fos e ima­gi­nar, o que real­men­te viram, como pen­sa­vam e como agi­ram os ver­da­dei­ros mes­tres da foto­gra­fia, de fato nos leva para outros tem­pos.

Esta imer­são me reve­lou o quão incrí­veis edi­to­res são os fotó­gra­fos da agên­cia. Entendi melhor a posi­ção de Leonard Freed ao afir­mar que “por mais difí­cil que fos­se esco­lher uma cha­pa, e que cada foto­gra­fia tem sua for­ça par­ti­cu­lar, só se pode sele­ci­o­nar uma foto. A que melhor repre­sen­ta o con­jun­to”.

Optei por um tra­ba­lho mar­can­te de um fotó­gra­fo con­tem­po­râ­neo que admi­ro: o taiwa­nês Chien-Chi Chang e seu emble­má­ti­co “The Chain” [A Corrente].

Num tem­plo budis­ta no sul de Taiwan, meio san­tuá­rio, meio manicô­mio, meio pri­são, Chang pro­du­ziu uma incrí­vel série de retra­tos. O tem­plo era con­si­de­ra­do um últi­mo recur­so para as famí­li­as dos doen­tes men­tais. Sem apli­ca­ção de medi­ca­men­tos, usa­va um tra­ta­men­to dife­ren­ci­a­do onde paci­en­tes menos lúci­dos eram acor­ren­ta­dos a outros mais lúci­dos.

O tra­ba­lho é uma série de retra­tos des­tes paci­en­tes, acor­ren­ta­dos. Apesar de ser um tra­ba­lho com carac­te­rís­ti­cas mui­to pró­pri­as, qua­se um inven­tá­rio daque­las duplas, nos sal­ta do con­ta­to uma ima­gem onde um paci­en­te aju­da outro a se posi­ci­o­nar para a foto. De repen­te, me vem à cabe­ça que aque­le méto­do, com­ple­ta­men­te absur­do den­tro na nos­sa rea­li­da­de e cul­tu­ra, pode ter algum fun­da­men­to. Será? Não acre­di­to, mas a ima­gem de apoio e inti­mi­da­de entre os paci­en­tes nos reve­la toda a com­ple­xi­da­de des­sas rela­ções.

Mais ins­ti­gan­te ain­da, quan­do nos depa­ra­mos com o depoi­men­to de Chang: “ape­sar de a inte­ra­ção ter sido peque­na com os paci­en­tes, pois os foto­gra­fei em ape­nas pou­cos segun­dos, a inte­ra­ção com as ima­gens con­ge­la­das dura mui­to, e con­ti­nua cres­cen­do.”

Este tra­ba­lho ilus­tra mui­to um dos meus pen­sa­men­tos sobre a foto­gra­fia: uma fer­ra­men­ta de bus­ca e enten­di­men­to da essên­cia do ser huma­no, nas suas mais diver­sas face­tas.

Chang é um fotó­gra­fo que desen­vol­ve pro­je­tos de lon­ga dura­ção, com a mis­são de docu­men­tar um perío­do com esme­ro, den­tro da essên­cia da Magnum, de pro­du­zir ima­gens e his­tó­ri­as fas­ci­nan­tes que dura­rão para sem­pre. E poder eter­ni­zar e com­par­ti­lhar este pro­ces­so cri­a­ti­vo ínti­mo dos fotó­gra­fos, nos dan­do aces­so a estas folhas de con­ta­tos, segu­ra­men­te nos trans­for­ma­rá para sem­pre.

* Bruno Magalhães é fotó­gra­fo da NITRO Imagens

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